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Segundo Moscovici (2003), objetivar é dar forma a um conceito, a uma ideia.

“Objetivação une a idéia de uma familiaridade com a de realidade, torna-se a verdadeira essência da realidade”. “[...] a materialização de uma abstração é uma das características mais misteriosas do pensamento e da fala” (p. 71). Assim o processo de objetivação se

realiza quando conseguimos colocar em imagens noções que são abstratas.

Na objetivação, a intervenção social assume duas funções: a primeira de organizar o conhecimento e a segunda, de dar forma a esse conhecimento. Assim, a objetivação tem como característica a “concretização”, atribuindo formas claras, delimitadas, facilitadoras da materialização ou da visualização do novo conceito.(PLACCO, 2005, p. 299, grifos do autor).

O outro processo, denominado ancoragem, trata da inserção do novo objeto no acervo de conhecimentos já existentes. Diferentemente da objetivação, não se apresenta como a constituição formal de certo conhecimento, mas sim como integração cognitiva deste conhecimento ao sistema pré-existente (JODELET, 1998 apud NOVAES, 2006). Neste sentido “o novo, portanto, passa a fazer parte de uma matriz de identidade, ou seja, o

pensamento constituinte se apóia sobre o pensamento constituído e organiza a novidade nos quadros anteriores” (PLACCO, 2005, p. 300).

Neste processo, ocorrem dois fenômenos: a incorporação social da novidade, modificando as visões preexistentes, e a familiarização do estranho, classificando, explicando, e transformando o objeto novo em familiar. Esse processo tem uma lógica própria, em relação direta com o momento histórico e a formação ou conformação daquele grupo cultural.(ibid., p. 300).

Em síntese, Moscovici (2003) demonstra que a ancoragem e a objetivação são maneiras de lidar com a memória.

A ancoragem a mantém em movimento, sendo que ela é dirigida para dentro, ela está sempre colocando e tirando objetos, pessoas e acontecimentos, que ela classifica de acordo com um tipo e os rotula com um nome. A objetivação, sendo mais ou menos direcionada para fora (para outros), tira daí conceitos e imagens para juntá-los e reproduzi-los no mundo exterior, para fazer as coisas conhecidas a partir do que já é conhecido.(p.78).

Segundo Sá (1996), estes processos de ancoragem e objetivação focalizam a gênese das representações sociais e procuram dar conta da estruturação destas em seus componentes simbólicos e figurativos. Assim, é possível extrair explicação para a produzir efeitos funcionais de compreensão da realidade; de definição de identidade grupal; de orientação dos comportamentos, das práticas e de justificação das tomadas de posição. No caso da trajetória da enfermagem enquanto profissão que se constituía, cada novo fato histórico, seja ele social, econômico, cultural ou mesmo tecnológico, era compreendido pelos profissionais segundo um acervo de conhecimentos e práticas que eles já possuíam. Esses conhecimentos pré-existentes de certa forma selecionaram quais “novidades” poderiam ser incorporadas nas práticas das enfermeiras, e quais deveriam ser refutadas/eliminadas.

Portanto, ao entrevistar estudantes e professores enfermeiros de cursos superiores de enfermagem, podemos ter acesso às representações que eles trazem sobre o processo de trabalho do enfermeiro, e ao compará-los com os eventos históricos, perceber elementos constantes e novos. Já sabemos que a enfermagem passa por um momento de reestruturação e que existem ideias conflitantes em relação ao seu objeto de trabalho. Uma delas é a dificuldade em diferenciar o cuidado realizado pelos diversos profissionais da saúde, auxiliares e técnicos de enfermagem do cuidado específico do enfermeiro. Estes problemas têm provocado discussões que visam a modificar esta situação através da transformação do conhecimento estranho em conhecimento de fácil entendimento para os membros do grupo, gerando um certo grau de consenso, que se dá através da mediação e/ou negociação implícita no curso das conversações.

Deste modo, pode-se falar do processo de trabalho do enfermeiro como um objeto de representação social. Assim pode-se afirmar que a teoria das representações sociais poderá responder ou aproximar de possíveis respostas ao problema desta pesquisa, uma vez que ela fornece elementos para análise teórica e metodológica do objeto desta pesquisa, ou seja, o processo de trabalho do enfermeiro.

As representações sociais como podemos detectar, são maneiras de ver algo sob um determinado prisma. São maneiras de apresentar algo segundo ideias e valores comuns a um determinado grupo de pessoas. Estas não são estáticas e atemporais. Ou seja, elas são construídas nas interações humanas com o intuito prático de facilitar as mesmas, e conforme vão sendo integradas na vida das pessoas alguns de seus elementos podem ser transformados, ao passo que outros podem ser mantidos.

Neste sentido um levantamento histórico da trajetória da profissão possibilitará a compreensão, o desvelar de representações sociais de enfermeiros docentes e alunos em relação ao trabalho do enfermeiro, uma vez que são portadoras de valores e ideias, acumuladas ao longo de uma história.

2. TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA

PROFISSÃO DE ENFERMAGEM

“A

revolução se faz através do homem, mas o homem tem de forjar, dia a dia, o seu espírito revolucionário”.

Este capítulo tem por objetivo retomar alguns eventos marcantes da história da enfermagem que exerceram influência e ajudaram a formar o perfil do enfermeiro atual. Possibilitará também uma visão da trajetória e de como esta profissão foi se constituindo. Dessa forma é possível apreender as principais características da enfermagem situando-a em diferentes contextos social, econômico, cultural e político.

Esta narrativa histórica será subdividida em fases importantes: o período pré- profissional e o período profissional. Será dado também destaque a um momento histórico entre a segunda e a terceira década do século XX quando duas visões concorrentes de escola de enfermagem passaram a co-existir. Dois grupos com possíveis representações diferentes em relação à profissão de enfermeiro acabaram por orientar condutas e práticas diferentes.