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Etiske hensyn og refleksjoner

In document Det senmoderne offeret (sider 35-38)

Gênero: Documentário / Ano: 2011 / Realização: Cláudio Paixão, Inaê Ribeiro / Produção: UFT / Roteiro: Cláudio Paixão, Inaê Ribeiro, Raphael Pontes / Fotografia: Inaê Ribeiro / Edição: Inaê Ribeiro / Som: não creditado / Música: Sem trilha original / Duração: 29’23” / Financiamento: Próprio / Repercussão: Prêmio de melhor curta-metragem na categoria Amazônia pelo júri popular do Festival Chico 2011.

Sinopse: A partir de um questionamento a respeito da identidade cultural de Palmas, uma série de artistas, comunicadores e pesquisadores discutem a história e a vida simbólica da capital tocantinense. No centro dos depoimentos estão a dúvida sobre o multiculturalismo local e a dificuldade de realizar arte no tipo urbano da cidade.

O documentário Dando Norte ilustra a contribuição dos cursos de Comunicação Social de Palmas como importantes propulsores da produção cinematográfica local. Ainda que a relevância do meio acadêmico tenha sido mais decisiva nos primeiros anos da década de 2000, as universidades ainda viabilizam o surgimento de obras de baixíssimo custo e estimuladas como exercício prático das discussões sobre o audiovisual ocorridas nas salas de aula. É exatamente este o contexto do surgimento do trabalho de Cláudio Paixão e Inaê Ribeiro, naturais dos estados do Maranhão e de Goiás, respectivamente, e, à época, estudantes do curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na UFT.

À medida em que começamos discutir o que fazer, percebemos que podíamos ir além da proposta da sala de aula, que podíamos fazer algo que pudesse extrapolar a disciplina e essa ideia de falar da identidade cultural palmense nos pareceu algo completamente novo e diferente. Pensamos nas possibilidades de exibição do material e começamos a definir a ideia central do que seria produzido. Daí partimos de um questionamento: qual a identidade cultural do palmense? (informação oral)42.

De toda forma, a experiência do cinema oportunizada pela academia, no caso do realizador Cláudio Paixão, não foi suficiente para a sua manutenção na área, que, afinal, é bastante secundária dentro do currículo dos cursos locais de Comunicação.

Parece clichê, mas fazer arte, fazer cinema na América Latina, no Brasil, é muito difícil. Para mim a experiência foi super válida. Já existiu ideias de trabalhar em novos projetos, mas que não seguiram por causa das limitações técnicas, dificuldades financeiras para se fazer algo bem feito. Não foi uma experiência perdida, embora eu tenha feito pouca coisa com relação ao cinema (informação oral)43.

42 Entrevista concedida por Paixão (2018). A entrevista integral encontra-se no Apêndice C desta tese.

Figura 23 - Ensaio sobre Dando Norte, com utilização de fotogramas do filme e fotografias do acervo

pessoal.

Além de trazer para a presente discussão uma realização fruto desta fonte alternativa tanto material como de ideias, a inclusão de Dando Norte neste corpus se justifica de forma direta pela abordagem da cidade que a obra desenvolve, ao olhar muito especificamente para as questões sobre a identidade cultural e para as implicações da condição de cidade nova na definição desta identidade. Assim sendo, reaviva, de forma audiovisual, muitos dos temas observados na seção 1.4 desta tese. Embora estas questões se deixem entrever em diversos momentos da cinematografia local, de forma ainda mais clara nos documentários, costumam ser um conteúdo subjecente a pautas mais amplas, como as análises da história da cidade, ou seja, a cultura comparece como uma questão transversal às demais. No trabalho de Cláudio Paixão e Inaê Ribeiro, ela assume o protagonismo e, como veremos, em um papel de divergência em relação aos sonhos da cidade harmonicamente multicultural.

A estrutura escolhida para o documentário é bastante conservadora e fundada quase inteiramente em depoimentos isolados e alternados de figuras ligadas diretamente ao setor da cultura, tanto agentes como estudiosos, sem interferência aparente dos entrevistadores. Estas falas são captadas em cenários que também remetem ao fazer cultural e artístico. São cinco as personagens: o fotógrafo e jornalista Thenes Pinto; o publicitário Marcelo Silva (um dos realizadores do longa-metragem Palmas Eu Gosto de Tu, a ser analisado mais adiante); a coreógrafa e ex-presidente da Fundação Cultural do Tocantins Meire Maria; a jornalista e pesquisadora Carol dos Anjos (presente nesta tese também como uma das referências bibliográficas); e o fundador do centro cultural Aldeia Taboka Grande e artista popular Wertemberg Nunes. Os cineastas manifestam sua voz apenas em um prólogo e em um epílogo, com textos (creditados como poemas) do produtor Raphael Pontes e do realizador Cláudio Paixão, interpretados por este último. Alguns interlúdios são composto com o efeito de tela tripartida a exibir imagens da cidade (em geral, travellings em fast foward a partir de um automóvel) e acompanhados de música regional. Um deles, mais específico, coloca lado a lado, na divisão da tela, fotos de espetáculo de balé e cenas da feira da 304 Sul (22’44”), prenunciando a variedade cultural discutida na obra. Não há trilhamusical original no filme. Na contramão da descrição mais geral do tema acima colocada, o prólogo insinua uma repetida reflexão audiovisual sobre a construção de Palmas. Ao espectador é oferecida uma colagem de vídeos institucionais do nascimento da capital (incluindo arquivos do cinegrafista Sidinei Madalena, mencionado em obras anteriores) e material fotográfico, inclusive do futuro depoente Thenes Pinto. Este apanhado abrange a construção de avenidas, de rotatórias, da Praça dos Girassóis e também do Palácio Araguaia. Página de jornal anuncia o nascimento do estado do Tocantins. Siqueira Campos aparece em mesa de reunião, cercado de vários políticos e, em seguida, participa de uma inauguração não definida. A câmera faz sobrevoo sobre uma cidade barrenta. Às cenas de obras, adiciona-se a construção do Espaço Cultural, primeiro território oficial da arte local, seguida de um curioso plano em que operários fazem em conjunto uma flexão para a câmera, como ao final de um espetáculo. A montagem é sustentada pela canção Forró na Poeira, do músico regional Dorivã. Em voice-over, o texto incorpora fortemente um ethos oficialista, perceptível desde as primeiras palavras: “Com a criação do estado do Tocantins, surgiu a necessidade de nomear uma nova capital [grifo nosso]” (00’10”). Para reforçar esse posicionamento, recorre-se ao imaginário da paisagem precária e desafiante, feita de vento, poeira e sol, cujas durezas são substituídas pela bem- vinda interferência de políticos e arquitetos: “Começou a aparecer a mais nova capital planejada do país [grifo nosso]”. A narrativa da construção destaca uma ordem de prioridades das edificações: primeiro a pedra fundamental, depois o palácio do governo, seguido do Espaço Cultural (o lugar da cultura), antes mesmo que se erguesse uma prefeitura. O texto ainda corrobora mais um discurso oficialista, o da gênese multicultural de Palmas, ao atribuir à onda migratória a formação de uma população em que “cada um contribuiu com sua música, com seu trabalho, com seu jeito de ser. Contribuíram com seus costumes, linguagens

e ocasionaram um choque de culturas”. Por fim, deixa entrever algum didatismo academicista ao propor um “problema de investigação”: “Mas de que forma tudo isso contribuiu para a formação da identidade sociocultural do palmense?”, o que abre possibilidades para a polifonia crítica que virá em seguida.

Uma primeira etapa de depoimentos privilegia a trajetória que trouxe cada personagem a Palmas, quase sempre um relato de aventuras. Marcelo Silva (em primeiro plano, tendo ao fundo um estúdio de gravação, ou seja, seu ambiente de trabalho) explica que, do interior do estado de São Paulo, ouviu falar sobre a cidade nova e se pôs a caminho de ônibus, tendo passado uma semana hospedado em Miracema, equivocadamente a achar que ali já era Palmas (01’40”). Meire Maria (em meio primeiro plano, sentada em uma sala, com um painel de fotos por trás e um piano ao lado), sempre muito teatral ou irônica, confessa ter ficado empolgada ao saber que iria para uma capital (02’17”). Na chegada, preparou-se “toda de tailleur, de coque, muito secretária executiva”, porém foi se decepcionando e se assustando ao ver o caminho rústico, cheio de pontes de madeira. No lugar de uma cidade, encontrou a recorrente paisagem de barro, poeira e máquinas, de forma que, para chegar ao seu futuro local de trabalho e se apresentar ao chefe, precisou atolar os pés na lama e teve a roupa rasgada. Thenes Pinto (em meio primeiro plano, em frente ao Espaço Cultural) lembra que chegou quando a cidade ainda era minúscula, com apenas cinco mil habitantes, um comércio insipiente e, portanto, inviável para se trabalhar em sua área pretendida: a publicidade (02’55”). Wertemberg Nunes (em primeiro plano na Praça dos Girassóis, tendo o palácio ao fundo) se posiciona como um migrante de outra ordem e expõe o paradoxo das identidades. Tocantinense da cidade de Gurupi, comenta sobre o fato de nascer e viver em um lugar que era Goiás e, repentinamente, tornou-se Tocantins (03’58”). Por isto, considera ser de um lugar que não existe mais (enquanto vinculado a uma identidade goiana, obviamente).

Um segundo bloco (não marcado) de subtemas investe no desenvolvimento profissional e, sobretudo, na criação de raízes de cada entrevistado. Assim, Thenes Pinto se refere ao Correio Tocantinense, antiga publicação impressa da década de 1990, e conta que foi sua inserção no veículo que abriu espaço para que pudesse fazer um vasto registro fotográfico dos primeiros anos da cidade (04’12”). Reafirmando sua criticidade, Meire Maria comenta as dificuldades da condição feminina nos tempos iniciais, quando, segundo ela, era necessário vestir roupas masculinizadas para poder trafegar mais sossegadamente no ambiente de trabalho (04’42”). Marcelo Silva, por sua vez, toma sua experiência para cogitar uma caracterização de Palmas como um lugar que “vai te engolindo, vai te envolvendo, (...) nem sabe como, a cidade levando” (05’04”). Este período de instabilidade se encerrou, segundo o publicitário, quando ele decidiu ser cidadão e, a partir daí, vivenciar e atuar na realidade da cidade de forma mais consciente. Aponta que uma maior aproximação com a história e a realidade da capital se deu através do audiovisual, com um trabalho institucional para o qual foi escalado em 1996.

A argumentação em torno da identidade cultural local (ou ausência desta) tem início em um relato de Meire Maria sobre um encontro casual com um violeiro, em meio às obras de construção da cidade (05’58”). Considerado pela depoente como o primeiro artista a pisar em Palmas, excetuando aqueles que participaram da festa de inauguração, é caracterizado como um andarilho hippie que revelou ter formação clássica. Meire narra, então, sua empolgação com a descoberta e a inciativa de contratar o passante para tocar particularmente para ela. As falas seguintes conduzem o documentário para um debate mais especulativo sobre o tema da identidade. Wertemberg defende uma diferença acentuada entre o Tocantins e Goiás, da mesma forma que vê Palmas dissociada do Tocantins: uma “ilha” (07’08”). Marcelo arrisca uma classificação de grupos culturais na capital, que se dividiria entre uma tendência nordestina e outra goiana/mineira, “salpicadas de sulistas”, de forma que não se poderia ainda definir qual é preponderante (07’24”). Em seguida, diante do impasse, sugere que a identidade buscada está não em um desses grupos, mas no choque entre eles (08’43”), e que esse choque, em lugar de provocar uma fusão, termina por levar a vida cultural para a guetificação (09’13”).

Por um lado, há no conjunto de depoimentos, personagens que corroboram a visão anterior, como é o caso de Wertemberg, para quem a tendência do migrante em manter seus hábitos originais faz com que haja em Palmas pouca coisa própria do lugar (09’53”). Por outro lado, Thenes retoma o discurso tradicional de uma sociedade composta pela diversidade de pessoas que vieram de vários estados e países (07’47”), considerando, porém, que as poucas décadas de história não foram suficientes para revelar o resultado desta mitura (10’04”). Meire acrescenta a percepção de que Palmas, em lugar de uma vida cultural por excelência, ainda conta apenas com eventos culturais (09’33”). A personagem Carol dos Anjos (em primeiro plano, sentada em frente ao lago do Parque Cesamar), claramente a voz acadêmica do documentário (e que respalda seu comentário em autores como Ricardo Ortiz), levanta a curiosidade acerca das pessoas que já nasceram e já se tornaram adultas em Palmas, ou seja, cidadãos que sempre viveram imersos nesta mistura, conflituosa ou não, capaz de ser sintetizada ou não, citada pelos demais depoentes (08’01”).

Repentinamente, a sucessão de falas, que estava a tecer um discurso analítico e crítico das territorialidades culturais, envereda pela atitude de enumerar elementos que comporiam uma coleção identitária local. Wertemberg advoga que só aos fenômenos da natureza se pode atribuir uma especificidade palmense e cita o pôr do sol (10’22”), o calor e a cidade imersa no ambiente silvestre, o que permite ainda a convivência com animais selvagens (11’12”). Esta referência, aliás, é ilustrada com um flagrante, no momento da entrevista, do passeio de uma raposa na Praça dos Girassóis. Thenes referenda o pôr do sol, mas arrisca outras opções mais ecléticas: os rios, o lago, a flor do pequi e ainda marcos urbanos, como o Espaço Cultural e a avenida Teotônio Segurado (10’47”). Marcelo se abstém de imagens mais líricas

ou edificantes e lembra do cotidiano comum: o hábito de comer espetinhos (muito comuns como refeição de rua na cidade) perto de postos de combustível, as múltiplas rotatórias e, em consequência delas, a ausência de esquinas (11’49”). Consuma-se, assim, através da escolha de falas e da edição, a estratégia de rememorar itens isolados, elevados à condição de signos do lugar e igualados em importância, sem que se questione suas interrelações ou sua efetiva participação nas territorialidades – uma estratégia que, como visto anteriormente, habita com constância a imprensa local.

A mesma fala de Marcelo Silva citada acima, no entanto, reintroduz o tom mais crítico ao documentário a partir do instante em que o depoente define Palmas, entre outras peculiaridades, como uma cidade sem centro movimentado e onde, por causa disto, torna-se difícil o encontrar-se de pessoas conhecidas por acaso. Inicia-se aqui um foco temático no questionamento do tratamento oferecido à cultura e aos seus equipamentos. Meire se ressente da falta de museus, do registro da história e da disposição de pagar pelos trabalhos dos artistas regionais (12’38”). A reclamação é repetida por Marcelo (13’24”), que reforça a falta de acesso às imagens do passado: “Quem são os antigos de Palmas? O poder público permitiu que isso se apagasse” (15’20”). Na costura argumentativa, Meire “retoma o turno” para citar artistas já mortos ou ainda vivos e questionar: “Quem substitui eles?” (15’50”). Desfere então o desalento com o que chama de “cultura de curtir balada” dos jovens, que, a seu ver, tenderá a mudar com o tempo, quando a atual geração notar que precisa de uma história do seu tempo e do seu lugar para contar aos descendentes (18’00”).

Carol dos Anjos também traça comentários sobre a posição da juventude frente ao cenário unanimemente criticado. Destaca a tradição dos migrantes de ir a Palmas para retirar o que a cidade tem a oferecer e depois partir e relaciona esse ato aos numerosos universitários que estudam nas instituições locais (19’47”). Por outro lado, demonstra esperança nesses mesmos jovens submetidos à enxurrada de manifestações do cotidianos, listadas na seleção particular da personagem e expostas com uma retórica declamatória: a flora (“a faveira de bolota toda linda, com sua cabeleira verde esvoaçante e seus brincos vermelhos dependurados”, em referência ao aspecto morfológico da árvore, muito comum na região), as chuvas sazonais, as frutas típicas, mas também o andar nos ônibus lotados, a cultura familiar dos filhos de funcionários públicos e o ir à praia para as festas com música eletrônica (menção acompanhada de uma expressão de desdém da entrevistada) (24’19”).

Um outro enfoque crítico sobre Palmas levantado nas entrevistas parte da comparação entre a capital e o interior do Tocantins, com uma uniforme valorização deste último. Marcelo afirma textualmente que o restante do estado é mais rico quando confrontado com a falta de aparelhos culturais na capital (13’49”). Meire usa o termo “resistente” para se referir ao esforço interiorano de manutenção dos seus costumes, ainda que faça uma ressalva: São poucos os lugares que apresentam essa resistência (22’11”). Já Wertemberg repete essa

noção, mas de forma indireta e mais drástica. Após resumir que a verdadeira identidade de Palmas é não ter identidade, percebe naquele migrante que vem do interior a perda da identidade que tinha anteriormente (21’43”). Contrapõe-se, assim, nessa fala à ideia de um multiculturalismo inclusivo, focando na desterritorialização e em uma reterritorilização vista como pouco positiva.

O tom negativo que predomina na leitura crítica promovida pelos depoentes ganha uma síntese e um agravamento na fala final, assumida por Meire Maria. Diante dos problemas devassados ao longo do seu pronunciamento, ela propõe a si própria uma questão: “Depois de 22 anos, eu me peguei perguntando: eu quero continuar em Palmas?” (25’51”). Em seguida, explica sua desesperança: “Porque Palmas perdeu a sua função, a sua inspiração, a sua necessidade”. Ao que poderia soar como uma opinião muito pessoal, fruto de uma vivência mal-sucedida, a entrevistada acrescenta alguns embasamentos. Cita antigos slogans que o poder público determinou para valorizar a imagem do lugar, tais como a ideia de Palmas ser uma capital ecológica ou “onde o sol nasce para todos” e sentencia: nenhum deles de fato se concretizou na realidade. Lembra ainda, em recuperação do projeto ideológico inicial da cidade, que a capital foi construída para resumir as riquezas de todas as regiões do Tocantins, a fim de se tornar um símbolo que veiculasse o estado para fora. Constata, porém, que esse plano também se perdeu com o tempo.

Em sequência, dá-se o texto de epílogo, que, assim como o prólogo, mostra-se descolado das visões críticas discorridas pelos entrevistados (27’36”). Afinal, após a dureza da última fala de Meire, a voz narrativa retoma o tom oficialista, a descrever os processos de separação entre o Tocantins e Goiás, a escolha de Miracema como capital provisória e a versão lírica e ufanista da ocupação da cidade nova: “Homens, mulheres, gente de longe veio tentar a sorte. Gente que, de uma nova história, queria fazer parte”. O texto se faz acompanhar desta vez não das imagens ancestrais arquivadas, mas de travellings, novamente realizados a partir de automóveis, de estradas, avenidas e também do lago, todas as paisagens permeadas pela luz do pôr do sol. Na trilha musical, ouve-se a introdução da canção Imperador Tocantins, de Dorivã, que acompanha os créditos finais. Sobre esses créditos (28’16”), cabe ainda apontar uma marca derradeira da presença do discurso da história oficial na realização do documentário, já que a lista dos entrevistados, no que pese todos eles terem chegado a Palmas logo nos primeiros anos, é intitulada “pioneiros” (com exceção de Carol, mais jovem e mais recente no lugar, colocada na categoria “estudante/pesquisadora”).

Dando Norte, portanto, através de uma cidade essencialmente verbalizada, exibe marcas decisivas da autoetnografia em diversos níveis. O primeiro deles, naturalmente, é a própria temática desenvolvida. Não apenas a cidade é o centro absoluto da discussão – ainda que com extensão de certos tópicos para todo o Tocantins -, como o ângulo observado, ou seja, a vida cultural do lugar, conduz a uma investigação, através do levantamento das possíveis

características definidoras da gente local e do seu patrimônio identitário. No mais, os realizadores, a todo tempo, incluem nas visualidades e nas sonoridades dessa discussão componentes que façam ligações bastante diretas com uma imagem preconcebida do lugar. Desta forma, diversas falas dos depoentes, mesmo aquelas que mais desconstroem ou problematizam a identidade local, vêm emolduradas por paisagens turísticas consagradas (o Espaço Cultural, o parque Cesamar, a praça dos Girassóis, etc.). Paralelamente, toda a trilha musical é entregue a artistas tocantinenses, como o já citado Dorivã e também uma composição da Aldeia Taboka Grande, inserida em um dos interlúdios (07’01”). Em resumo, há a preocupação em falar da cidade, tanto quanto ser uma obra cultural da cidade.

Diversos fatores colaboram para que o documentário tenda a respaldar a hipótese de que no cinema residiria a possibilidade de uma abordagem mais crítica da vida e da história de Palmas. De partida, há a origem universitária do filme, realizado sem qualquer compromisso

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