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Etikk og politikk i forskning, forvaltning og formidling

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O leitor atento terá notado a distinção entre as visões de mundo dos dois grandes povos arianos – indianos e gregos –, já o indício de uma distinção mais profunda, telúrica, ancestral: a distinção entre o Oriente e o Ocidente. Quando lançamos um olhar alongado ao passado histórico, quando olhamos não esta ou aquela cultura ou civilização, mas as massas milenares civilizacionais e culturais, que vemos? Não há dúvida de que a polarização Oriente-Ocidente exprime algo mais do que uma mera convenção nominal; sentimos que há alguma oposição primordial; que um e outro polo exprimem concepções distintas, por vezes radicalmente distintas ao ponto da oposição. Ainda que não sejam de modo algum nítidas, ainda que só as vejamos como duas massas imensas e indefinidas, ainda que a cautela ponha toda generalização sob caução, ainda assim sentimos inevitavelmente o peso colossal de um lado e de outro, sentimos a tensão imemorial entre uma e outra força. Que distingue pois o Oriente e o Ocidente?

Quando Soloviev, o russo Soloviev, ora comprimido entre estas duas forças, ora tracionado por elas, busca responder esta questão, procurando pelo que está na origem de uma e da outra, na natureza do Oriente e do Ocidente, dirá que o fundamento da cultura oriental é a submissão em todas as coisas a uma força sobre- humana, enquanto o fundamento da cultura ocidental é a iniciativa do homem, a expansão de sua atividade.73

De pronto, o dado histórico: as civilizações orientais se formaram sobre a base de organização da vida familiar, as civilizações ocidentais sobre a base da vida                                                                                                                

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Para o que se segue, conferir “O Oriente e o Ocidente no mundo antigo”, no segundo capítulo de A grande controvérsia (SOLOVIEV, V., 1953).

militar. No oriente, já notara Aristóteles, a nação é composta de membros governados, famílias inteiras sob uma única monarquia patriarcal; no Ocidente, a nação é composta de homens livres, e daí provém a república.

Não é difícil ver como no Oriente o desejo de submeter tudo a um princípio sobre-humano gera o seu revés, as suas sombras: o servilismo, a inércia, a apatia, o apego à tradição; o que se degenera em uma vida fechada e estagnada. No Oriente antigo todo saber estava fundado em alguma ideia teosófica; a atividade humana (as artes, a agricultura, a medicina) tinham um caráter de adoração divina e estavam igualmente submetidas à religião, aos ritos, cultos, sacerdotes, templos, sacrifícios e demais atividades que transformam a vida prática em teurgia. As forças humanas só tinham um significado enquanto subordinadas e passivas.

No Ocidente, ao contrário, vemos as cidades gregas sendo fundadas por milícias de imigrantes, e Roma por um bando de marginais e refugiados. Daí as virtudes do homem ocidental, a independência, a energia, o voluntarismo; mas daí também os seus vícios: orgulho pessoal, pendor individualista, tendência à discórdia. Em lugar da teosofia e da teurgia orientais, a Grécia nos deu uma filosofia e uma arte puras. Por toda parte encontramos a iniciativa do princípio humano.

Quais são as fases principais do desenvolvimento histórico de um lado e de outro?

O homem no Oriente crê de um modo geral numa força sobre-humana e se submete a ela. Mas qual é exatamente esta força? Isto era um mistério e um grande problema. Numa generalização algo artificial, mas não privada de substância, Soloviev verá nas religiões indianas, iranianas e egípcias três tipos de solução, respectivamente intelectual, moral e estética.

No início a força sobre-humana se revela ao homem nos fenômenos da natureza. Daí a variedade de religiões animistas e mitológicas. Oprimido por todas os lados por essa força esmagadora, cujo termo é a morte, o homem renuncia a adorá-la e a reconhece como um mal. Ao experimentar sua fraqueza física ele descobre sua força espiritual, renunciando aos temores e desejos que a natureza desperta. Trata-se como vimos do grande ato de liberação budista. O monge entra em si e renuncia a tudo, porque tudo é nada, tudo e ilusão. Ele mesmo, o seu ego, a sua consciência individual, é ilusão que também deve ser aniquilada para dar espaço àquilo que é superior, a realidade única e eterna.

A oposição entre realidade (sobrenatural) e ilusão (natural) indiana, oposição essencialmente metafísica, será vivida por outra grande cultura oriental, a Pérsia, como uma oposição moral entre o bem e o mal. Conforme o caráter prático deste povo, a oposição entre aquilo que deve ser e aquilo que não deve ser se revela como luta ativa. Tal concepção dualística está na base de toda a cultura espiritual do Irã. Em lugar de Brahma e de Maya, do Nirvana e do Sansara, surge a oposição entre um deus bom (Ormuzd) e um deus mau (Ariman). Tudo no mundo consiste na luta mortal entre os dois, e para o homem, em tomar parte de um ou outro lado, em triunfar sobre a força do mal que leva a ruina e a morte; e se este triunfo é completo, ele deve levar à vida eterna.

A ideia da vida eterna está na base da religião e da cultura do Egito. A divindade egípcia não é nem o pan-espírito Brahma, solitário e absorvido em si mesmo, nem o severo Ormuzd, que só vê ante si o seu adversário, com quem trava uma luta sem misericórdia. A divindade egípcia, por sua vez, comporta relações vivas com a realidade presente, e possui uma natureza eterna, espécie de eterno feminino. Assim, ela se revela a si mesma num nascimento eterno e se desenvolve em tríadas de divindades que se interpenetram em relações vivas entre si. A vida presente se mostra aos antigos egípcios como uma união da vida e da matéria, consistindo numa espiritualização da matéria. Cabe ao homem portanto dirigir sua atividade consciente e voluntária sobre a matéria exterior, dominá-la, encarnar nela uma forma eterna e ideal. “Se, em religião, o hindu foi contemplador, o homem do Irã, lutador e homem de ação, o egípcio foi sobretudo um artista”74. O fim último de sua arte é a vitória sobre a morte, a eternização da vida, a vivificação dos mortos. O egípcio é arquiteto, escultor, desenhador, porque quer revestir a matéria de formas eternas e ideais. Na agricultura, a terra morta se transforma pela ação do espírito vivo em um meio para a vida e serve de nutrimento aos seres vivos. “É nesta vivificação real de tudo aquilo que é morto, em uma reconstituição e uma espiritualização de toda a carne, que o egípcio via o fim supremo e final da existência. [...] Esta grande ideia religiosa de uma ressurreição geral ou de uma restauração de todas as coisas (apokatastasis ton

panton) é uma ideia egípcia por excelência”75.

Enquanto o homem religioso do Oriente, no Egito, deificava a ideia da vida, mas buscava em vão eternizá-la no domínio exterior, o homem do Ocidente                                                                                                                

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SOLOVIEV, V., 1953: 49.

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vivia e agia ele mesmo em um meio de liberdade. Como num espelho, Soloviev verá o homem ocidental buscando em si – na Grécia, em Roma e em Alexandria –, aquilo que o Oriente buscou em vão além de si.

A Grécia, pupila do Egito, não se contentou com a arte religiosa, mas criou uma arte humana livre. No Egito a arte estava a serviço dos deuses, na Grécia, estes deuses foram criados pelos poetas. O espírito humano se lança à exploração da realidade natural e sobrenatural através dos recursos de suas própria razão, e não acaso toda obra de Platão é formada por diálogos. E contudo, toda produção artística e intelectual da cultura clássica se revelou, como vimos, impotente para vencer o mal interior. A arte humana copiava a vida sem a transformar; a contemplação do céu Olímpico não apaziguava nem sublimava os instintos brutais, e o resultado foi uma série de guerras intestinas e insensatas que levariam à autodestruição da civilização grega e à sua submissão à Macedônia. A dialética, se bem que indicasse o caminho ideal das virtudes, não fornecia nenhuma força real capaz de corrigir a vida, e enquanto Platão elaborava utopias irrealizáveis, Aristóteles se resignava a constatar formas e sistemas sociais que legitimavam o mal maior de toda vida social: a escravidão. “A arte e a filosofia só distraiam o espírito por alguns momentos desta vida má, mas permaneciam sem ação sobre o fundamento desta vida, sobre a vontade humana. Era preciso que um homem de vontade firme e inteligência prática viesse em auxílio do homem-pensador”76.

A vontade humana como fonte do direito e da lei, eis a ideia que está no princípio da civilização romana. E de fato, em um certo momento, o seu potentado pareceu capaz de dar a paz ao mundo. Uma vontade forte é uma vontade unívoca, não dividida, e era natural que à medida que a força de Roma crescia, o poder fosse concentrado nas mãos de um único homem, uma única vontade de comando, ante a qual todos eram iguais. A vontade, não reconhecendo nada que lhe seja superior, é uma lei que se impõe a si mesma. Assim, a cultura clássica, fundada sobre o princípio humano, atinge sua realização completa na deificação do homem por si mesmo, na apoteose imperial. O Ocidente buscava o homem perfeito; a beleza da criatividade humana, a altura de seus pensamentos, não o podiam satisfazer, era preciso um domínio efetivo sobre esta realidade, uma verdadeira autonomia humana, sua liberdade absoluta. Mas tão logo esta liberdade foi atingida, ela se revelou como                                                                                                                

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insanidade e arbitrariedade nas mãos de um Tibério ou de um Nero. O mundo que deificara o homem, descobriu nele uma besta enfurecida. Tornou-se evidente que a perfeição do homem não residia nele mesmo.

A última etapa do desenvolvimento religioso do Ocidente antigo floresceria na mesma terra em que se deu a última fase do desenvolvimento religioso oriental, fechando-se assim o ciclo da construção histórica de Soloviev. Em Alexandria, sobre o solo do Egito fecundado pela cultura helênica, se elaboraria a ideia de uma mediação entre o homem e a divindade perfeita: a ideia de uma deificação (theosis) real do homem através da união com o divino. Se Deus é a verdade perfeita, ele não pode se limitar aos nosso limites naturais, é preciso que se manifeste plenamente na vida do homem e do mundo; se ele é o Bem perfeito, há de salvar o homem não só dos males físicos através de um combate com a natureza exterior, mas pela união íntima com a sua força moral interior.

Assim, Soloviev conclui que, por vias opostas, tanto o Oriente quanto o

Ocidente chegaram ao anseio de uma encarnação real da divindade no mundo. “O Ocidente sentia que o homem perfeito que ele buscava não pode sê-lo por si mesmo, mas somente em união íntima com a perfeição de Deus; o Oriente, por sua vez, sentia que o Deus perfeito só poderia manifestar sua perfeição em um homem perfeito. César, o pseudo homem-deus do Ocidente, de uma parte, e os deuses-homens do Oriente, de outra, clamavam igualmente pelo verdadeiro Deus-Homem”77.

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