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Den postmoderne bevaringsdoktrine og kulturminnevernets verdigrunnlag

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Assim como no Item 1 deste Capítulo 1 investigamos os princípios antropológicos na obra de Soloviev, convém estudarmos os seus princípios sociológicos, isto é: o que é uma sociedade humana?, como se organiza?, como se orienta? A partir daí, faremos uma descrição geral dos grandes fatores históricos humanos, tendo sempre como meta o problema principal da gênese e do desenvolvimento da civilização ocidental moderna.

2.1. Princípios empíricos e ontológicos da sociedade humana

De imediato surge o problema da relação entre o indivíduo humano e o resto da sociedade. O homem não é como um conjunto de células inconscientes que formam um órgão ou tecido; não é tampouco, como os animais, um indivíduo que vive exclusivamente em função do gênero, isto é, da perpetuação da espécie. Ele se reconhece como único ante o mundo, como um centro vivo de deliberação e reflexão, cujos atos podem transformar o mundo para melhor ou para pior, em outras palavras, o homem não é só um indivíduo (que tem consciência de seus estados interiores), mas uma pessoa (que tem autoconsciência de uma posição única e insubstituível no universo).

Ao que parece, portanto, há uma possível oposição entre a pessoa e a

sociedade. Pode-se mesmo colocar a questão, quem é meio para quem?: a sociedade é

só um meio de realização da pessoa, ou a pessoa é um meio de realização da sociedade? Qual dos dois é um fim, qual dos dois é um meio?

Tais questões, segundo Soloviev, derivam de uma ilusão. Elas supõem a existência de um indivíduo completamente autossuficiente e fechado em si mesmo. Em verdade, cada pessoa singular não é senão o ponto de encontro de uma multidão de relações com outras pessoas; separá-la abstratamente destas relações, significaria retirar da vida da pessoa precisamente todo o seu conteúdo real e transformar a personalidade num ente puramente abstrato e uma possibilidade vazia. Imaginar que o centro pessoal de nosso ser seja realmente separado (e não meramente distinto) do nosso meio natural e social, da vida em geral que nos une aos outros centros, é apenas uma ilusão malsã da nossa própria consciência. Ilusão que levada às últimas

consequências desencadeia um individualismo extremo, chegando mesmo a abolir inteiramente o domínio da vida moral e política. “Surge uma contradição insolúvel entre o indivíduo e a sociedade e uma ‘questão fatal’ se põe: qual destes dois princípios deve ser sacrificado ao outro? Aqueles que são hipnotizados pelo ponto de vista individualista afirmam a independência da personalidade distinta, à qual define ela mesma todas as suas relações, e vê os laços sociais e a ordem coletiva como um limite exterior e uma restrição arbitrária que devem a todo preço serem descartadas. Por outro lado, os pensadores que estão sob o feitiço coletivista não veem na vida da humanidade senão um jogo de massas humanas e tomam o indivíduo por um elemento ínfimo e transitório da sociedade, sem qualquer direito próprio e ao qual não se deve de modo algum ter em conta na busca de um assim chamado bem comum”57.

Ora, o estado social não é uma condição que se adiciona à vida pessoal, como se em algum momento existissem pessoas isoladas que depois se reunissem em um espécie de acordo mútuo mais ou menos justo e transitório. Eis a ilusão. A sociedade é, ao contrário, a própria condição de existência e desenvolvimento da pessoa, e isso pela própria definição de personalidade, ou seja, de uma consciência capaz de conhecer racionalmente (isto é, relacionar as partes ao todo universal) e de agir moralmente (segundo uma concepção de bem ou fim último). “Cada ser humano, enquanto personalidade, possui uma potencialidade de perfeição ou de infinito positivo, notadamente, por sua faculdade de compreender todas as coisas com a ajuda de sua razão ou de abraçar todas as coisas com seu coração e de entrar em uma comunhão viva com tudo. Este duplo infinito – o poder de conceber a ideia e aquele de querer e agir [...] – é um atributo imutável de cada pessoa: nisso consiste a significação absoluta, a dignidade e o valor da pessoa humana, assim como o fundamento de seus direitos alienáveis”58. Conhecimento racional e atividade moral, os elementos característicos da pessoa humana, só são possíveis na vida em comunidade.

O conhecimento racional é definido pelas noções gerais ou conceitos abstratos que exprimem uma unidade de significação em uma multiplicidade de fenômenos aparentemente distintos. Aquilo que interiormente é representado como conceito é exteriormente manifestado como palavra; as ideias racionais se exprimem na linguagem verbal. Mas a linguagem – esta “razão concreta”, segundo Soloviev –                                                                                                                

57

SOLOVIEV, V., 1939: 206.

58

não pode se desenvolver por obra de um indivíduo isolado, ela pressupõe como sua condição o diálogo entre dois ou mais indivíduos, que através dele chegam a noções comuns. A própria racionalidade, por sua vez, não é mais do que a organização dos dados da experiência segundo princípios absolutos (princípio da não contradição, por exemplo) que são afirmados mais ou menos conscientemente em todo e qualquer discurso verbal. Estes dados da experiência, por sua vez, jamais poderiam ser somente os dados que um indivíduo recolhe ao longo de sua curta existência, mas são reunidos e transmitidos pela experiência hereditária, por acúmulo e transmissão de uma geração à outra. A experiência de um indivíduo isolado seria de todo insuficiente para se formular qualquer verdade racional.

Quanto ao aspecto moral da personalidade, é evidente que o indivíduo só pode realizar concretamente a sua ideia de bem, seja lá qual for, no meio social e através de uma interação recíproca com ele. Neste sentido “a sociedade não é nada mais que a realização objetiva daquilo que é o conteúdo da personalidade” ou, posto de outra forma “a sociedade é a personalidade completa ou alargada, e a personalidade é a sociedade restrita ou concentrada”59.

Em outras palavras, as concepções subjetivas e interiores (ideais) de qualquer pessoa sobre o sentido da vida, por mais estreita que seja a sua concepção, se tornam objetivas e exteriores (isto é, reais) não apesar da sociedade, mas somente

através dela. A personalidade concebe e busca a sua perfeição e satisfação através da

sociedade e vice-versa. “A missão do mundo”, diz Soloviev, “não consiste em criar uma solidariedade entre cada um e todos, porque ela já existe na natureza das coisas, mas esta missão consiste em fazer de cada um e de todos plenamente conscientes desta solidariedade e, vivendo espiritualmente dela, transformar esta solidariedade de um estado metafísico e físico em um estado moral-metafísico e moral-físico. Já por si mesma a vida do homem, considerada em seus limites inferior e superior, é uma participação involuntária à existência progressiva da humanidade e do mundo inteiro; mas a dignidade desta vida e o sentido do universo em seu conjunto exigem que esta participação involuntária de cada um em todas as coisas torne-se voluntária e mais e mais consciente e livre, ou seja, realmente pessoal – que cada um compreenda sempre mais e realize a missão comum como se fosse a sua própria”60.

                                                                                                                59

SOLOVIEV, V., 1939: 207;209.

60

Pessoa e Sociedade, portanto, longe de serem dois princípios que se

excluem mutuamente, são dois termos complementares, de modo que a existência e o desenvolvimento de um supõe a existência e o desenvolvimento do outro, tanto logicamente quanto historicamente. “Por sua significação essencial, a sociedade não é um limite exterior da personalidade, mas sua realização íntima; ela não é uma soma aritmética, nem um agregado mecânico de indivíduos que a compõem, mas uma integralidade indivisível da vida geral, já parcialmente realizada no passado e conservada pela tradição social permanente, realizada parcialmente no presente através dos serviços sociais, e que antecipa sua realização perfeita no futuro sob a forma de um ideal social concebido por seus melhores espíritos”61.

Com base nestas três dimensões essenciais da vida social e pessoal, Soloviev verifica três etapas principais concretas da consciência humana e da organização social: (1) a etapa do clã, que pertence ao passado; (2) a etapa do Estado

Nacional que domina no presente; e (3) a comunhão universal ou mundial da vida

humana, ideal do futuro.

Estes três graus de desenvolvimento – patriarcal, nacional e universal – não se sucedem à exclusão uns dos outros. Pelo contrário, os graus mais elaborados pressupõem os originários e os completam. A parte superior não aniquila a inferior, mas a assume como parte ou órgão e a submete a um princípio de organização superior. Assim, quando o surge o Estado, por exemplo, o clã permanece, mas submetido à organização nacional na forma da família, na qual a relação de parentesco e sangue, que é a sua característica essencial, longe de ser abolida, é aprofundada.

É claro, contudo, que este alargamento da sociedade grau por grau rumo a uma sociedade universal, não se dá como um processo de desenvolvimento do tipo natural, mecânico ou involuntário, mas se inicia precisamente por uma pessoa ou conjunto de pessoas que concebem previamente uma realidade superior, antes de promoverem esforços para encarná-la na prática. Aqui, sim, dadas as situações concretas de tal ou qual sociedade, surgirá algum tipo de conflito entre uma pessoa ou grupo de pessoas e a sociedade como um todo. Mas não se trata de um conflito entre os elementos individuais e sociais enquanto tais, e sim de uma oposição contingente entre o antigo ideal (já estabelecido) e o novo (proposto) de desenvolvimento social.                                                                                                                

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Daí Soloviev distinguir (como Bergson viria a fazer ao seu modo em suas Duas fontes

da moral e da religião) dois princípios perenes no processo de desenvolvimento

social, ou melhor dizendo, no drama do desenvolvimento social, um dinâmico e um estático: o conservadorismo e o progressismo. “Ao passar das formas inferiores da vida coletiva às formas superiores, a personalidade, em virtude de seu poder infinito de compreensão e de aspiração ao melhor, aparece, em seus representantes de elite, como um princípio do progresso e de movimento (elemento dinâmico da história), ao passo que o meio social, realidade já conquistada, realização completa do conteúdo moral em uma certa esfera e em um certo grau, representa naturalmente o princípio estável e conservador (o elemento estático na história)”62.

Passemos agora a este mesmo drama, isto é, às formas sociais e suas rupturas rumo a formas mais amplas e completas ao longo do desenvolvimento histórico.

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