Nos três volumes de Antropologia da Vocação Cristã31, estão descritos os conceitos teóricos; no volume I, (AVC-1) os resultados das pesquisas; no volume II, (AVC-II) e no volume III (AVC-III) vários autores comentam aspectos da aplicação da teoria. Os conteúdos dos três volumes apóiam-se ou têm como pressuposto, a visão do ser humano conforme a concepção cristã. Alguns conceitos basilares desta concepção é que ela é vista como vocação, como diálogo com Deus em Cristo32. Este modo de compreender a vida e a vocação cristã está fundamentado na tradição cristã:
30 Ibid., p. 255.
31 AVC-I; RULLA, L.M; IMODA, F.; RIDICK JOYCE. Antropologia della Vocazione Cristiana, II
(AVC-II) Conferme esisteziali. Casale Monferato: PIEMME, 1986 (não há tradução em português); RULLA, L.M. (org.) Antropologia della Vocazione Cristiana, III Aspetti Interpesonali, (AVC-III) EDB, 1997.
No desígnio de Deus, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação. É dado a todos, em germe, desde o nascimento, um conjunto de aptidões e de qualidades para fazê-las render: desenvolvê-las será fruto da educação recebida do meio ambiente e do esforço pessoal, e permitirá a cada um orientar-se para o destino que lhe propõe o Criador. Dotado de inteligência e de liberdade, é cada um responsável tanto pelo seu crescimento como pela sua salvação33.
A vocação cristã entendida como diálogo com Deus aparece de forma explicita no decreto Conciliar Vaticano II – Gaudium et Spes. n. 19.
A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do homem para a comunhão com Deus. Já desde sua origem o homem é convidado para o diálogo com Deus. Pois o homem, se existe, é somente porque Deus o criou e isto por amor. Por amor é sempre conservado. E não vive plenamente segundo a verdade, a não ser que reconheça livremente aquele amor e se entregue ao seu Criador34.
O mesmo documento no número 22 fala que a vocação de cada homem foi transformada em Cristo:
Na realidade o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo Encarnado (...) Cristo, que é o novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação. Não é, portanto de se admirar que em Cristo estas verdades encontrem sua fonte e atinjam seu ápice. “Imagem de Deus invisível”(Col 1,15), ele é o homem perfeito que restituiu aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado.... Com efeito, por sua encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo homem. ... Padecendo por nós não só nos deu o exemplo para que sigamos os seus passos, mas ainda abriu novo caminho: se nós o seguirmos, a vida e a morte se santificam e adquirem nova significação. ... Isto vale não somente para os cristãos, mas também para todos os homens de boa vontade em cujos corações a graça opera de modo invisível. Com efeito, tendo Cristo morrido por todos e sendo uma só vocação última do homem, isto é, divina, devemos admitir que o Espírito Santo
33 PAPA PAULO VI. Carta Encíclica, Populorum Progressio. n. 15.
34 Gaudium et Spes n. 19. In Documentos do Vaticano II. Edição bilíngüe. Petrópolis: Editora Vozes,
oferece a todos a possibilidade de se associarem, de modo conhecido por Deus, a este mistério pascal35.
Para a Teoria da Autotranscendência na Consistência, os valores centrais da vocação cristã correspondem à estrutura desta vocação como diálogo com Deus em Cristo, que podem ser resumidos na busca da união com Deus e no seguimento de Cristo e em todos os valores revelados por Cristo na linha das Bem Aventuranças (Mt. 5, 1-12). A autotranscendência cristã envolve todos os valores religiosos e morais que fazem parte desta vocação36. A encíclica Veritatis Splendor37 confirma essa interpretação da vocação cristã38.
Na perspectiva da vocação cristã, o bem humano é visto como a união com Deus e o seguimento de Cristo com fins últimos da vida e sua realização plena acontece na medida que se faz “dom total de si”39. O bem humano visto aqui como bem integral da pessoa. Vários documentos do magistério da Igreja tratam desse tema40. Tem, portanto, importância central a finalidade a ser atingida pelo ser humano durante sua vida e que tipo de pessoa humana ela deve tornar-se para alcançar tal finalidade.
A pessoa madura41, segundo a teoria acima, está empenhada em seguir a vocação cristã e em viver os valores que correspondem a esta vocação. Sem um
35 Ibid., n. 22. 36 AVC-I, pp. 190-193.
37 PAPA JOÃO PAULO II. Encíclica Veritatis Splendor. 1993 (ns. 15, 17, 20, 21, 48, 85, 87, 89, 120). 38 KIELY, B. L’atto morale nell’Enciclica Veritatis Splendor. In Atti del Convegno dei Pontifici Atenei
Romani, 29-30 ottobre 1993. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 1994, pp. 108-118; 1995, pp. 722-725.
39 AVC-I, pp. 331-356.
40 Gaudium et Spes, 35, 61; Humanae Vitae, 7; Populorum Progressio, 13-21; Donum Vitae, Introdução
1,2,3; Familiaris Consortio 32; Sollicitudo rei socialis, 1,9,10,29-33,38; Veritatis Splendor n. 83.
41 Imoda assim define maturidade: “o ponto de chegada do desenvolvimento. É a capacidade de atuar as
potencialidades da pessoa. De um lado a maturidade “setorial” se refere à esfera da pessoa que é tomada em consideração (fisiológica, emotiva, cognitiva, interpessoal); do outro a maturidade “compreensiva”se refere ao todo da pessoa. Em ambos os casos, a maturidade denota a capacidade ou não de levar a termo as operações relativas ao fim proposto. A maturidade é impedida quando o indivíduo não dispõe da capacidade essencial ou efetiva de operar como ser espiritual, inteligente e livre para autotranscender-se no amor e em um amor antropocêntrico e teocêntrico. A maturidade depende, psicologicamente, do grau de harmonia interior e de capacidade de controlar o inevitável conflito inerente ao mistério da pessoa”. IMODA, op. cit., pp. 612-613.
empenho pessoal como resposta à vocação que vem de Deus, não existe vocação em sentido efetivo e existencial. Tais valores exprimem a autotranscendência teocêntrica, por meio da qual a pessoa faz sua auto doação a Deus, ao próximo, no seguimento de Cristo.
Estes valores são centrais na definição de um eu ideal, que difere do eu ideal da psicanálise42. Tais valores de autotranscendência teocêntrica são escolhidos como “importantes por si” em vez de “importantes para mim”43, e não em primeiro lugar para resolver conflitos com outras pessoas. Eles têm uma função teleológica da vida como vocação. Os valores transcendentes são valores religiosos e morais, distintos dos “valores naturais”44 da vida humana. O compromisso com estes valores autotranscendentes comporta uma tensão dialética, que na teoria é chamada de “dialética de base”45 entre o eu ideal e o eu atual ou seja o eu que se transcende e o eu enquanto transcendido. O eu ideal compreende os ideais que a pessoa escolhe por si mesma, isto é, aquilo que desejaria ser ou fazer; o eu atual corresponde à realidade da pessoa como é agora46. Mesmo quando o sujeito se empenha em viver tais valores cristãos, não significa necessariamente que eles são vividos em profundidade no sentido cristão. Pelo contrário, a gestão desta dialética de base comporta muitas dificuldades, porque há na pessoa humana resistências notáveis para a autotranscendência teocêntrica. As pesquisas realizadas por Rulla e sua equipe procuravam respostas para perguntas tais como: por que algumas pessoas crescem bem em sua vocação, enquanto outras encontram grandes dificuldades em seu crescimento vocacional? Por que algumas
42 AVC-I nota 32, p. 199; também nota 34, p. 204.
43 Ibid., p. 183. Cf. também ARNOLD, M. Emocion e personalidad. Buenos Aires: Ed. Losada S.A.,
1960, pp. 234-250, vol. I; cf. também CENCINI, A.; MANENTI, A. Psicologia e formação. São Paulo: Paulinas, 1988.
44 AVC-I, pp. 186-192. 45 Ibid., pp. 177-179. 46 Ibid., pp. 197-205.
pessoas perseveram em uma vocação particular (vida religiosa, sacerdócio) e outras abandonam a escolha feita?
Para entender a natureza de tais resistências para a autotranscendência, faz-se necessário distinguir alguns aspectos relacionados com a liberdade humana. Para essa distinção na teoria são consideradas três dimensões47 da dialética de base.