5. DISCUSSION
5.1 M ETHODICAL DISCUSSION
A culturalização das instituições, se assim for resolvido alcunhar o movimento identificado por Lash (1997a), é vista e interpretada por diversos autores de forma distinta. No que há maior convergência, entretanto, são que as mudanças não somente vêm acontecendo, como também é no indivíduo que suas conseqüências podem ser percebidas em primeiro lugar.
A esta época de mudanças, alguns autores rotulam como sendo o Pós- Modernismo (Hall, 2001; Motta, 1997; Castro; 2002). Podendo ainda receber o nome de Modernização Reflexiva (Beck, 1997a), Modernidade Reflexiva (Lash, 1997b), Terceira Onda (Srour, 1998) ou ainda Sociedade Pós-Tradicional (Giddens, 1997).
Obviamente que não somente os rótulos são vários. Como já foi dito, algumas características atribuidas aos fenômenos são vistas de forma distinta por cada autor. Todavia, antes de se apresentarem como abordagens antagônicas, as mesmas podem e devem ser vistas como complementares, pois fato é que, se for considerado como um fenômeno ainda em curso, não há como qualquer um delas isoladamente conseguir compreendê-lo por completo.
Partindo para análise da identidade, como ponto de percepção das conseqüências das mudanças para os indivíduos, Hall (2001) apresenta três concepções culturais. São elas: o sujeito do Iluminismo, o sujeito sociológico e o sujeito pós-moderno.
O sujeito do Iluminismo seria um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades da razão, de consciência e da ação. Em resumo, “o centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa” (ibidem, p. 11). Ou seja, uma concepção que se apresenta ao mesmo tempo individualista e valorizando a razão.
A complexidade do mundo moderno, surgida após a Revolução Industrial, gerou a noção do sujeito sociológico. Neste sujeito,
“a identidade é formada na ‘interação’ entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o ‘eu real’, mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais ‘exteriores’ e as identidades que esses mundos oferecem” (idem).
Por fim, o sujeito pós-moderno, caracteriza-se como não sendo possuidor de uma identidade fixa, esta
“torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (ibidem, p. 13).
Ou seja, o sujeito pós-moderno deixa de ser visto como alguém unificado, moldando-se aos sistemas culturais com os quais haja o sentimento de pertença por parte dele. Nas palavras de Beck (1997a, p. 19), “o eu [self] não é mais o eu inequívoco, mas se tornou fragmentado em discursos fragmentados do eu”.
Mas como as estruturas que cercam o cotidiano do indivíduo não se adaptam tão rapidamente à nova realidade quanto esta atua e modifica o indivíduo, os discursos das instituições, ainda evocando o sujeito unificado, podem acabar fazendo com que os indivíduos levem a fragmentação para o interior das organizações, desejando vivê-las lá, o que traz conseqüências para elas.
A compreensão das implicações para as organizações, porém, exige uma melhor compreensão de como as mudanças se processam, o que, obviamente, não é limitado à questão da identidade.
E isso não se limita à detecção da ocorrência delas, mas principalmente perceber que as mudanças ocorrem sobre um novo paradigma (Wood Jr, 2002), o
que significa também dizer que a própria mudança em si está mudando (Rothwell,1994).
A primeira recomendação que deve ser dada para qualquer um que busque compreender os fenômenos é a de olhá-los sob perspectivas diferentes daquelas utilizadas até então para a compreensão do ambiente e das suas implicações para as organizações.
A análise da abordagem de Motta (1997), por exemplo, pode transmitir a falsa idéia de que o fenômeno pós-moderno ocorre em todos as sociedades e, em conseqüência, em todas as organizações destas sociedades, delineando-nos um futuro que proporcionará um maior bem estar a toda a sociedade.
Beck (1997a, p. 25-26), ao falar de “individualização”, coloca que a fragmentação do eu depende da “desintegração das certezas da sociedade industrial”, bem como coloca que as novas certezas criadas apresentam-se globalmente interdependentes.
A Modernização Reflexiva, então, ao se processar nas diversas sociedades, seria fortemente determinada por questões de como se organiza e qual a dinâmica industrial e qual a influência do papel desempenhado pela globalização na vida de cada sociedade.
Se isso contraria a abordagem de Motta (1997) por um lado, esta determinante advinda da interação globalização e industrialização vai ao encontro da abordaqem de Srour (1998).
Motta (1997), ao apresentar os benefícios trazidos pela pós-modernidade para o trabalho e a sociedade, os apresenta como sendo um fenômeno generalizável, o que é contestado por Srour (1998). Motta (1997) havia colocado a modernidade como elemento de aumento das desigualdades mundiais. Apesar dele não colocar
de forma explícita, tem-se a nítida impressão de que sua conclusão é no sentido de que tais distorções seriam corrigidas pela pós-modernidade. Srour (1998), por outro lado, coloca de maneira bem clara que, ao contrário de corrigidas, as fortes assimetrias existentes serão mantidas pela globalização.
Enquanto nos países desenvolvidos poderão ser observados muitos dos fenômenos apresentados por Motta (1997), bem como outros apresentados por Srour (1998), os países do terceiro mundo continuarão a ser vítimas dos males da modernidade, bem como não serão contempladas com as bênçãos da pós- modernidade, como indústrias limpas e valorização do ser humano no trabalho. Tais fatos já podem ser verificados atualmente no mundo, já que as grandes marcas da indústria mundial possuem seus centros de pesquisa, design e gerencial em países do primeiro mundo, enquanto seus produtos são fabricados em países do terceiro, onde, na grande maioria das vezes, as condições de trabalho são bastante inferiores àquelas dos países de primeiro mundo, os salários pagos são consideravelmente menores e a legislação ambiental é normalmente muito menos rígida (e a sua aplicação também).
Neste sentido, as assimetrias podem ser vistas inclusive com relação à própria velocidade e profundidade com as quais as mudanças se processam em cada sociedade, formando um ciclo que se retroalimenta.
Este ciclo apresenta uma face relativa à dicotomia do sujeito pós-moderno em organizações modernas, na qual o sujeito precisa se libertar das estruturas sociais modernas para que plenamente seja tal sujeito (Lash, 1997b) e uma outra considerando “a capacidade de refletir sobre as condições sociais de sua existência e, assim, modificá-las” (Beck, 1997b, p. 207) como aquilo que permite ao sujeito a sua libertação.
Ou seja, a capacidade de reflexão é necessária à libertação do sujeito das amarras das organizações modernas. Por sua vez, enquanto o indivíduo estiver lá preso, sua capacidade de reflexão sobre as condições e de modificação delas não será plena. Isso, então, pode se apresentar como um ciclo virtuoso ou vicioso, dependendo do grau de interação da sociedade com o universo industrial e globalizado.
Só que isso não tem implicações somente para os indivíduos. Quando se opera em ambiente globalizado, no qual a sociedade como um todo é receptora dos movimentos de mudanças, o agora paradoxo de pessoas pós-modernas em organizações modernas pode ter como conseqüências o aumento da insastifação no trabalho e a queda da produtividade.
Isto posto, cabe às organizações buscarem conhecer as mudanças pelas quais as sociedades nas quais estão inseridas vêm passando e, principalmente, descortinarem as implicações que estas mudanças trazem para as suas gestões.