5 PRESENTATION OF RESEARCH FINDINGS
5.3 Language maintenance and shift
5.3.1 A) The home domain
Duas tendências se solidificam e marcam a produção literária a partir daquele momento e durante todo o século XX: o objetivismo e o subjetivismo, que serão estudados na
Estética8 de 1963. Ambas são dimensões teóricas aparentemente antitéticas. Para o
objetivismo, a realidade social se constitui de um conjunto de relações e forças que se impõe aos agentes ou sujeitos. Ele nega a importância da imaginação ou do subjetivismo. Os principais defensores desta tendência são os naturalistas da segunda metade do século XIX. Para eles o homem é produto do meio em que vive, estando sua trajetória sujeita a um determinismo que atinge também o trabalho do artista. Acabam aproximando o romancista do cientista. Zolá afirmava que para discorrer sobre um determinado assunto seria preciso analisá-lo reunindo documentos esquematizando-o em notas e relatórios. A tarefa do artista se resumia a transpor informações verificáveis para o papel da maneira mais clara e coerente possível.
Do outro lado, para o subjetivismo a realidade social é o agregado de inumeráveis atos de interpretação através dos quais as pessoas, em conjunto, constroem linhas
8ver especialmente o volume 2 em LUKÁCS, G. Estética: la peculiaridad de lo estético: cuestiones preliminares y de
significativas de ação. Esta tendência, que é forte já durante o romanticismo, privilegia o espaço da subjetividade. Para Shopenhauer por exemplo:
.... Um romance será tanto mais elevado e mais nobre quanto mais vida íntima e menos externa apresentar (...) sem dúvida, Tristan Shandy quase não tem ação, mas quão poucas ações tem a Nouvelle Heloise e Wilheim Meister!. Mesmo Dom Quixote tem relativamente pouca ação (...) Estes quatro romances são o cúmulo do gênero (... ) A arte consiste em salientar bem a vida interior usando o menos possível o exterior: pois o íntimo é realmente o objeto do nosso interesse... (SCHOPENHAUER, A. 2005, p. 51)
Outro pensador da tendência subjetivista foi Frederik Nietzsche. No seu livro O
nascimento da Tragédia (1992) critica as pretensões iluministas de criar um mundo harmonioso, ou em vias de harmonização tal como se apresenta no romance realista, pois afirma que vai contra a natureza humana, que é dual: ao mesmo tempo instintiva, cega, caótica, irracional de um lado e racional do outro, tanto dionisíaco quanto apolíneo (segundo a dialética nietzschiana). Para Nietzsche o modelo literário é a tragédia grega pois nela estes elementos antes citados se fazem presentes. As ideias de Nietzsche influenciaram, como sabemos, o panorama cultural europeu de final do séc. XIX e começos do XX, o surgimento das vanguardas e acompanharam o nascimento do fascismo.
Ambas as tendências antes citadas, isolam elementos do processo básico do mundo humano que é dialético: a relação sujeito - objeto9. Por isso o marxismo vai criticá-las. Tanto a Escola de Frankfurt, com sua defesa particular da dialética, quanto Lukács com sua visão ontológica da história.
Na crítica de Lukács ao naturalismo, mais uma vez o problema da ação ocupa um lugar central e define o sentido da dissolução da forma do romance que tal tendência inaugura. Assim, dessa crítica, podemos apreender aspectos da concepção de Lukács segundo a qual a ação constitui um elemento central e objetivamente determinado da forma do romance. O primeiro problema do naturalismo é, precisamente, que “a representação das ações humanas no romance é suplantada pela descrição das coisas e dos estados”, e é isso o que inaugura o processo de dissolução do romance realista.
9A relação sujeito-objeto é o problema central da filosofia ocidental desde a Renascença. Em Kant e Hegel foi uma questão
fundamental. A centralidade da figura do sujeito reúne Kant e Hegel no que diz respeito à determinação da realidade.O mérito kantiano, segundo Hegel, é o de estabelecer a centralidade do sujeito no processo de conhecimento e de tratamento do real. mas eles se separam na medida em que o sujeito kantiano reconhece o objeto e, diferentemente de Hegel, não se reconhece aí. Para Hegel sujeito e objeto são uma totalidade dialética que se interfere mutuamente e apesar de existirem por separado, nenhum existe sem o outro. Para este tema em Hegel ver o Prefácio a Princípios da filosofia do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Evidencia-se, aqui, que as posições estéticas tomadas pelo Lukács marxista dos anos 30, entre as quais a defesa da herança literária da burguesia revolucionária e a crítica aos “novos” formatos da dissolução do realismo, burgueses e soviéticos, fundam-se nas apreciações críticas de Marx, que acompanhou o surgimento da decadência ideológica e a combateu como força viva da reação, distinguindo-a radicalmente da produção teórica e artística da burguesia progressista. A decadência ideológica da burguesia culmina na barbárie fascista e no abafamento consciente de qualquer tentativa de representação verídica da realidade e nas tendências do romance de vanguarda no século XX. Para o Lukács dos anos trinta todas as tentativas sérias de se aproximar do realismo acabam malogradas se o escritor não rompe com a ideologia de decadência que está na base daquela oposição. O “novo realismo” é consequência do aprofundamento do prosaísmo da vida burguesa, mas também uma criação que, sendo refém do prosaísmo, em lugar de denunciá-lo, colabora para a sua consolidação: O nível poético da vida social decai, e a literatura sublinha e aumenta essa decadência.
Com respeito à outra tendência o psicologismo Lukács num ensaio dos anos trinta pretende mostrar que há razões de classe que determinam o limite formal da oposição dos adeptos do romance de reportagem naturalista, isto é, fundamentos na posição de classe de seus autores e defensores que restringem a sua oposição a uma simples renovação da forma. O psicologismo, como uma forma da tendência apologética, uma forma especial e “superior”, deve, portanto, ser compreendida em termos do ser social da classe burguesa, em termos da divisão capitalista do trabalho e do fetichismo da mercadoria que emerge sobre essa base, a “reificação” da consciência(LUKÁCS, G 2011. pp. 63-64).
Os escritores do psicologismo pertencem à burguesia, mas afastados da dinâmica concreta da produção material (e preservando a perspectiva da sua classe), esses escritores e intelectuais tendem a conceber a realidade existente como “mecânica”, “desprovida de alma” e dominada por leis “estranhas”. Essa concepção exibe as mais diversas variações, desde um sistema de leis “sem significado” até o caos, dependendo da fase do desenvolvimento da produção capitalista, que por si só se esquiva à compreensão. Ao entendimento da realidade objetiva como desprovida de significado corresponde à concepção de que apenas a interioridade, a “vida da alma” possui significado e conteúdo.
A partir dessa oposição rígida entre exterioridade e interioridade, emerge, na literatura, o psicologismo: A essa realidade “vazia” os escritores burgueses opõem “a vida da alma”, que
é a “única decisiva”. A vida da alma se torna o centro de gravidade e, às vezes, o único conteúdo de seu retrato. O método criativo que emerge dessa base é o psicologismo. Com efeito, Lukács prossegue para afirmar que os primeiros e mais importantes representantes dessa vertente literária e intelectual (Flaubert, Jacobsen) explicitam uma oposição romântica aos efeitos desumanizadores do capitalismo.
Embora fundada numa apreensão distorcida e muitas vezes mística das causas da desumanização, essa oposição mantém uma autenticidade como recusa dos efeitos nefastos da vida sob o capitalismo. Entretanto, com o seu desenvolvimento, esse anti capitalismo romântico perde sua posição de vanguarda e se torna puramente apologética. O sentido apologético do psicologismo se expressa em duas vertentes paralelas. Numa delas, propõe-se a capitulação a ideologias antigas, que são glorificadas em oposição ao presente capitalista. Dessa linha, ele cita como exemplos Dostoievski, Bourget e Huysmans. Na outra, retrata-se apenas a “vida interior”, proporcionando uma educação no sentido do indiferentismo político e social, ignorando e deixando de lado as lutas indispensáveis e externas do mundo em favor da vida da alma.