2 BACKGROUND INFORMATION AND HISTORICAL CONTEXT
2.5 Host society policy and attitudes to non-English immigrant languages
2.5.3 Americanisation and assimilation: Language policies
Com respeito à narrativa dos anos 70 a maioria dos críticos destaca a heterogeneidade da produção. Em “Política, ideología y figuración literaria”, Sarlo (2007, p 327)afirma que a representação e a figuração da história recente se caracterizam por um discurso literário formal e ideologicamente oposto aos discursos do autoritarismo. Esta característica fez com que a produção literária tivesse certo sucesso editorial em momentos políticos difíceis. O
período está caracterizado pelo medo e a ameaça e seus derivados, o silencio e o esquecimento.
O espaço de contestação é ocupado pelas organizações de Direitos Humanos e da arte. As primeiras por sua “defesa da memória”; a segunda por sua capacidade de driblar a censura mediante artifícios ficcionais. Em especial a literatura deste momento, se transforma em um instrumento de conhecimento e modelo de reflexão alternativa. Neste ponto Sarlo se distancia de Antonio Candido. Para ela a utilização das técnicas da vanguarda possibilitou a emergência de um dos únicos espaços de exercício da liberdade e de defesa da pluralidade que podem ser mencionados durante este período.
Uma literatura que Sarlo define como uma “crítica do presente” (mesmo se situando no passado) e como uma tentativa de decifrar o “enigma argentino” mediante recursos que, para narrar a realidade, devem operar um deslocamento (o uso da elipse, a alusão e a alegoria). Literatura que se institui, ao mesmo tempo, em “modelo de reflexão estética e ideológica” na medida em que o discurso literário, polivalente e coletivo, se opõe ao discurso autoritário, dogmático e representativo de um limitado setor social. Um “saber do texto” caracterizado pela crise da ordem da representação e na ordem do representado.
Para Sarlo a narrativa dos anos 70 está marcada pela crise da representação realista de um lado e pela hegemonia de tendências estéticas que trabalham (inclusive com obsessão) sobre problemas construtivos, de relação intertextual, de processamento de citações, de representação de discursos, de relação entre realidade / literatura ou da impossibilidade desta relação.
Os diferentes gêneros se utilizam misturados; predomina a intertextualidade e a abundância de citações; há um constante questionamento da escrita, do que foi escrito, de como foi escrito, negam-se os limites entre literatura culta e jornalismo e a linguagem da mídia. Isto produz inovações formais, todas elas presentes já na obra de Borges de quem são herdeiros. Aliás, esta herança é explicitamente referida por alguns dos principais escritores do período: Saer, Piglia, Puig, Jitrik, entre outros. Surge uma literatura de “versões” que mostra a impossibilidade de contar, a complexidade do contado, o risco de contar e o desejo de subverter o discurso único e maniqueísta do autoritarismo.
É uma “crítica do presente” baseada muitas vezes em uma volta a história passada (Respiración artificial, de Piglia; En esta dulce tierra e Nada que perder, Andrés Rivera;
Cuerpo a cuerpo de David Viñas; La novela de Perón de Tomás Eloy Martínez); outras em uma análise das mitologias coletivas: Puig; outras numa série de reflexões sobre o país desde o exílio (Moyano, Tizón, Rabanal, Juan Carlos Martini); e outras alias desde o estranhamento (Cohen, Dal Masetto). Ainda temos narrativas cifradas na violência imperante no país sob a ditadura (o próprio Saer, Osvaldo Soriano, Moyano, Carlos Dámaso Martínez). Como síntese do que vincula estes textos, escritos dentro e fora da Argentina, Sarlo vê “por um lado, um grau de resistência a pensar que a experiência do último período possa ser confiada à representação realista”, por outro, sua leitura e repercussão social “remete a operações complicadas de construção de sentidos, a uma resistência às oposições maniqueistas e a explicações simplificadas ou que ofereçam uma tranqüilizadora totalização”.
Na mesma linha o teórico peruano Antonio Cornejo Polar (Apud PALERMO, Z, 2002)considera que esta forma experimental, fragmentária e contraditória de ser do romance latino-americano dos anos 70 não deve ser confundido com um relativismo ou dialogismo ingênuo, variante latino-americana do pensamento pós-moderno. Para o teórico peruano a literatura de países periféricos tende para o plural porque a sociedade que a produz é complexa. Trata-se de um sujeito múltiplo, contraditório, migrante, do qual, logicamente, vai surgir uma pluralidade de textos e de representações simbólicas.
Estas representações não são um mero reflexo da estrutura social que os produz. O texto literário “entreama” literariamente os discursos da sociedade e da conta das diferenças e contradições, das tensões. O texto vira o espaço de reunião das contradições e, portanto, de uma totalidade, que no caso do romance de periferia, é uma totalidade que reúne a tensionalidade conflitante do real. Neste sentido Cornejo Polar está considerando esta literatura como realista. Um realismo de novo tipo que voltaremos a discutir no capítulo 2.
Esta força, que podemos chamar de centrípeta ou que procura reintegrar a ideia de totalidade e de conjunto dentro da fragmentação acompanha a visão também otimista que tem Beatriz Sarlo sobre a influência da vanguarda na produção ficcional desta época. Cornejo Polar nos incita a olhar o romance como um todo, em sua totalidade textual para ali encontrar de novo o conjunto.
Pensando também na possibilidade de a produção desta época ser considerada de realista, um ensaio de Maria Guadalupe Marando (2014. pp. 206-218), que comenta a crítica literária argentina atual que considera o realismo como uma constante na produção nacional, a
autora destaca que para falarmos em realismo na narrativa argentina das últimas décadas devemos ampliar o conceito e mudar a ênfase. Para ela neste fim de século a realidade se transformou em algo opaco, resistente ao artista, e, portanto, há uma dificuldade em traduzi-la literariamente.
Mas, segundo a autora, o crítico deve continuar confiando em que a pesar das resistências a linguagem ainda pode dizer a realidade, e, portanto, criar uma literatura realista. A discussão ficará para um tratamento mais amplo no capítulo 2. Se pensarmos as leituras atuais sobre aquele período na Argentina, apesar de que a reflexão sobre o que aconteceu nesta época define grande parte da produção do país até nossos dias, o legado do período é sombrio.
A própria Beatriz Sarlo passa desta visão de alguma forma otimista, que prefigurava a retomada da democracia na década de 80, a uma análise pessimista do que veio depois, que acabou sendo o verdadeiro legado das ditaduras. No começo do novo milênio um espírito de apocalipse, pessimismo e desilusão invade o setor intelectual da sociedade. Em geral há uma aceitação em âmbitos acadêmicos e intelectuais do pós-modernismo.
No seu livro Escenas de la vida posmoderna. Intelectuales, arte y videocultura en la
Argentina (SARLO, B. l994), a autora define à Argentina contemporânea como vivendo o clima da chamada pós-modernidade “una nación fracturada y empobrecida” com“una escuela desarmada sin prestigio simbólico ni recursos materiales”; o predomínio da televisão e das outras mídias; um consumismo desenfreado e a ausência de gosto na arte. O período da ditadura é visto como o momento em que foram instaladas no país as bases materiais de um capitalismo tardio, que agora desenvolve todas as suas características, inclusive após a euforia do período da retomada da democracia (década de 80).
CAPÍTULO 2
A LITERATURA DO CONTRA
O presente capítulo começa com uma breve, mas necessária reflexão, sobre alguns conceitos da crítica realista: a consideração da arte como trabalho livre, o realismo, e depois faz um pequeno percurso histórico que tenta acompanhar as variações da forma romance desde que ela se constitui em epopeia burguesa, na modernidade, passando pela época da decadência ideológica e as tendências subjetivistas e objetivistas que se firmam neste momento, até chegar à época do capitalismo tardio, a pós-modernidade e o romance de vanguarda. Este percurso nos ajudará a caracterizar melhor o conceito de literatura do contra, e a produção romanesca latino americana do final do século XX.
No final do capítulo são tecidos comentários de algumas questões de estética relevantes nas análises realizadas a saber: os conceitos de vivência trágica e de plenitude épica como formas de representar a relação sujeito/ objeto em literatura; o conceito de tipo, as formas de heroicidade na literatura realista e a figura de herói cínico; o subjetivismo, o objetivismo, o estranhamento e a coisificação; o romance policial e sua produtividade durante o capitalismo tardio; e finalmente as ideias de mundo caótico e da alteração da lógica narrativa, e seu impacto na apresentação do tempo e o espaço nos romances.