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PART V ANALYSIS

6. Values, Identity and The Democratic Citizen in the renewed Core curriculum

6.2 Values in the Core curriculum

6.2.1 Ethics-as-morals

O nosso trabalho de investigação insere-se no âmbito das Ciências Sociais e Humanas, mais especificamente nas Ciências da Comunicação, por isso, a escolha da metodologia revela-se fundamental para o sucesso do mesmo. Por outro lado, sendo que estamos no âmbito dos estudos de género e das diferenças comunicativas torna-o ainda mais complexo. Tal como sublinharam Barrie Thorne e Nancy Henley, “[...] diverse disciplines, methods, and frameworks have been used for exploring the sexual differentiation of language” (Thorne e Henley 1975ª: 9). Efetivamente, as investigações levadas a cabo têm enveredado por uma plêiade de metodologias e áreas, desde estudos etnográficos e sociolinguísticos, passando por análise gramatical, análise do discurso, linguística antropológica, análise da conversação, psicologia discursiva, análise textual, pragmática, etc. Esta diversidade de áreas de estudo e de metodologias atesta a complexidade do tema e a interdisciplinaridade que este exige. Por isso, é importante traçar uma abordagem e uma metodologia para trabalhar o tema.

Jane Sunderland e Lia Litosseliti enumeram sete abordagens ou metodologias para conduzir a investigação na área das diferenças comunicativas de género: “(1) sociolinguistics and ethnography, (2) corpus linguistics, (3) conversation analysis (CA), (4) discursive psychology, (5) critical discourse analysis (CDA), (6) feminist poststructuralist discourse analysis (FPD) and (7) queer theory” (Sunderland e Litosseliti 2008: 5). As mesmas autoras sublinham que, atualmente, já se combinam abordagens e metodologias para enriquecer e tornar o trabalho de investigação mais produtivo.

Desta forma, o nosso trabalho de investigação vai ser guiado por uma abordagem de (2)

corpus linguistics. Este utilizará uma metodologia de análise mais quantitativa, mas também

qualitativa. Desta forma, o corpus linguístico trabalha-se com “[...] frequencies and probabilities in its analysis of corpora of up to several million words” (Sunderland e Litosseliti 2008: 6). Por isso, “[…] corpus linguistics is ideally placed to investigate whether a particular word or phrase is used more by men or women. It thus has the potential to make claims which other approaches cannot” (Sunderland e Litosseliti 2008: 6).

Seguindo esta abordagem, a nossa investigação obedece a três métodos de investigação científica: o método indutivo, o descritivo e o correlacional. O método indutivo “[...] defende que na investigação se deve começar por uma observação para que, no final de um processo,

se possa elaborar uma teoria” (Freixo 2009: 95). De acordo com este método, será então importante reunir o maior número possível de factos para observação e posterior análise.

O método descritivo, através do qual se procura identificar, observar e descrever os factos que suportam as hipóteses levantadas, “ [...] assenta em estratégias de pesquisa para observar e descrever comportamentos, incluindo a identificação de factores que possam estar relacionados com um fenómeno em particular” (Freixo 2009: 106). O objetivo principal do método descritivo é fornecer uma caraterização precisa das variáveis envolvidas num fenómeno.

Por último, usamos o método correlacional, através do qual estabelecemos interrelações entre duas variáveis, neste caso, o género e a comunicação. “Este método de investigação situa-se entre os métodos descritivos” (Freixo 2009: 115) e envolve três etapas:

- definição do problema, ou seja, as relações entre as variáveis que irão ser alvo de estudo deverão ser provenientes da teoria ou da experiência, supondo-se respetivamente dedutiva ou indutivamente que existe uma relação entre elas. Por isso, deve partir-se da formulação de uma ou mais hipóteses que estabeleçam a relação entre as variáveis, relação que irá ser verificada através do estudo;

- amostra e seleção do instrumento;

- recolha, análise e interpretação dos dados.

No atinente aos modos de recolha de dados utilizadas na investigação, socorremo-nos da análise documental, como sejam textos dos media impressos (artigos de opinião publicados em revistas e jornais nacionais) ou gravados (programas de rádio). A partir destes dados, proceder-se-á à análise de conteúdo qualitativa e quantitativa. Esta recolha e análise de dados será realizada com a ajuda de dois programas informáticos de análise estatística de dados - Tropes Semantic e Lexicon -, que estão longe de ser semelhantes ao programa desenvolvido por Moshe Koppel. Este matemático, especializado em Ciência da Computação a residir em Israel, desenvolveu um programa informático que permite descobrir se o autor de um texto é homem ou mulher (Finguerman 2004). O seu programa trabalha a categorização textual por forma a descobrir as combinações lexicais e sintáticas caraterísticas de cada género:

[…] it is shown that automate text categorization techniques can exploit combinations of simple lexical and syntactic features to infer the gender of the author of an unseen formal written document with approximately 80% accuracy (Koppel et al. 2003).

Não obstante, à semelhança do programa de Moshe Koppel, neste trabalho procuramos, através do Tropes Semantic e do Lexicon, sistematizar as principais diferenças discursivas entre homem e mulher. Por outro lado, à semelhança do referido investigador, também nos vamos centrar em produções discursivas realizadas em contextos mais formais, como são os textos de opinião publicados nos media e os programas de rádio. Segundo alguns investigadores (cf. Berryman-Fink e Wilcox 1983; Simkins-Bullock e Wildman 1991), as diferenças entre homens e mulheres são menores em contextos mais formais de comunicação. Contudo, acreditamos também encontrar diferenças de género nessas formas discursivas, já que também Moshe Koppel conseguiu diferenciar o género autoral de diferentes textos,

apresentando caraterísticas discursivas diferenciadoras dos géneros. Assim, este investigador conseguiu sistematizar que os homens usam mais especificadores do nome, como determinantes, numerais e modificadores; já as mulheres recorrem maioritariamente à negação, a pronomes e a certas preposições.

For example, the function words which consistently appear in the final iteration training on fiction are: male features – a, the, as; female features – she, for, with, not. When training on non-fiction we find: male features – that, one; female features – for, with, not, and, in. […] the picture that emerges is that the male indicators are largely noun specifiers (determiners, numbers, modifiers) while the female indicators are mostly negation, pronouns and certain prepositions (Koppel et al. 2003).

Desta forma, Koppel apresenta “[...] convincing evidence of a difference in male and female writing styles” (Koppel et al. 2003). Do mesmo modo, as suas investigações vão também ao encontro de estudos anteriores (Aries e Johnson 1983; Tannen 1990), que postulam que os homens falam mais de objetos e de algo concreto e as mulheres falam mais das relações afetivas (Argamon et al. 2003). Assim sendo, Argamon, Koppel, Fine e Shimoni postulam que a mulher tem como caraterística discursiva o recurso destacado a pronomes, bem como o seu envolvimento (“involvedness”) no discurso (Argamon et al. 2003). Por sua vez, segundo os mesmos autores, os homens têm como caraterística diferenciadora o uso de especificadores, como são os determinantes e nomes comuns (Argamon et al. 2003).

Por último, o contributo das feministas e do feminismo do século passado também foi fundamental para a procura e investigação dessas diferenças discursivas entre homens e mulheres. Segundo o ginocriticismo (“gynocriticism”), o estudo feminista das escrita das mulheres, “[…] all writing by women is marked by gender” (Showalter 1989: 4).

Deste modo, neste trabalho, também recorrendo a programas informáticos de levantamento estatístico de dados, procuramos diferenciar os discursos feminino e masculino. Assim, começamos pela aplicação do programa Tropes Semantic, através do qual fazemos um levantamento do estilo geral e da encenação presentes no texto. Quanto ao estilo geral, os textos podem pertencer a um de quatro estilos dominantes:

- estilo argumentativo, em que o sujeito se implica, argumenta, explica ou critica para tentar persuadir o seu interlocutor;

- estilo narrativo, em que o narrador expõe uma série de acontecimentos que sucedem num dado momento e num certo lugar;

- estilo enunciativo, em que o locutor e o interlocutor estabelecem uma relação de influência e revelam os seus pontos de vista;

- e estilo descritivo, onde o narrador descreve, identifica ou carateriza uma realidade ou uma pessoa.

As encenações verbais possíveis são:

- dinâmica e ativa, onde predominam verbos de ação;

- ancorada no real, onde dominam verbos de existência e de posse;

- narrador objetivo, em que os verbos permitem fazer uma declaração sobre um estado, uma ação, etc.;

Através do Tropes Semantic conseguimos também perceber, através dos universos de referência, quais são os temas e assuntos dominantes nos textos analisados. Por outro lado, obtemos ainda o número total de palavras e de frases presentes no texto, o que nos permite fazer uma média de palavras por frase, comparando a extensão destas nos textos femininos e masculinos. A par disto, o programa agrupa-nos as palavras em grandes categorias, como sejam: os verbos; os conectores; as modalizações (advérbios e locuções adverbiais); os adjetivos qualificativos e os numerais; os pronomes e os nomes. Dentro destes dados, temos ainda acesso à distribuição estatística das diferentes subclasses destas categorias.

A partir do momento em que chegamos às classes de palavras, recorremos também ao outro programa de análise estatística de dados – o Lexicon -, que nos permite analisar mais ao pormenor as diferentes classes de palavras, nomeadamente o seu número de ocorrência. Com este programa, pretendemos assim destacar as palavras mais usadas pelos dois géneros dentro das diferentes classes de palavras. Portanto, enquanto o Tropes nos fornece o número total de palavras dos textos e o número total de palavras nas suas diferentes categorias, o Lexicon apresenta-nos o número de ocorrências das diferentes palavras de cada classe e formas contraídas (como no caso das preposições contraídas com artigos e pronomes).