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Approaches toward democratic (citizenship) education

PART III PERSPECTIVES

4. Theoretical framework and perspectives

4.3 Approaches toward democratic (citizenship) education

Tendo presente a existência de sexismo na linguagem, as feministas, desde os anos de 1960, têm procurado lutar por uma linguagem mais inclusiva, como forma de alcançar uma representação mais equilibrada do homem e da mulher na sociedade (Pauwels 2003: 554). Este combate estendeu-se até aos nossos dias e deixou de estar restringido a uma luta feminista. Acreditar na conceção de que a linguagem reflete a sociedade é fácil, contudo, não é assim tão fácil verificar o contrário, ou seja, como a linguagem pode afetar a sociedade (Eakins e Eakins 1978: 21). A ideia de reforma da linguagem encontra-se bem escrutinada na obra de Deborah Cameron, Verbal Hygiene, publicada em 1995. “Verbal higiene” é um termo que engloba um conjunto de práticas metalinguísticas normativas que apareceram da convicção de que existem determinadas formas de usar a linguagem que, funcional, estética e moralmente, são as preferíveis (Cameron 1996: 36). No fundo, explora-se a questão do “politicamente correto”, abolindo práticas discriminatórias individuais e institucionais (Mills 2008: 6).

O “politicamente correto” carateriza-se como uma atenção excessiva de não ferir sensibilidades daqueles que são diferentes da norma (como mulheres, lésbicas, homossexuais, pessoas deficientes e pessoas negras)23. Tendo em conta esta noção de “politicamente

correto”, corrobora-se o estatuto inferior da mulher na sociedade. No entanto, Sara Mills (2008) alerta para os interesses políticos associados à questão do “politicamente correto” que, muitas vezes, mais do que pretender uma reforma da linguagem, procura ser um movimento político das minorias. Por outro lado, Deborah Cameron (1995) sublinha que este movimento tem como objetivo dar tratamento especial a certos grupos sociais (como às mulheres e grupos étnicos), construindo curricula educacionais diferentes dos habituais:

The movement’s specific objectives include giving preferential treatment to members of certain social groups (e.g. women, ethnic minorities) in schools and universities; constructing educational curricula in which the traditional ideas of cultural heritage and artistic excellence are replaced with an emphasis on non-western, non-white and female cultural contributions; and prescribing the kind of language that may or may not be used to talk about the differences between humans, especially gender and racial / ethnic differences (Cameron 1995ª: 124).

De certa forma, entra-se assim numa discriminação positiva, como lhe chama Calero Fernández (1999: 29).

Deborah Cameron (1995ª) chama ainda a atenção para o facto de não haver entendimento sobre o que realmente constitui o “politicamente correto”. Para as feministas, o “politicamente correto” é um termo abusivo e ridículo, um assunto ficcional inventado pelos media24; para muitos outros o “politicamente correto” refere-se a um conjunto real de

23 Cf. “To clarify, in its general usage, ‘political correcteness’ is characterised as an excessive

attention to the sensibilities of those who are seen as different from the norm (women, lesbians, gays, disabled people, black people)” (Mills 2008: 100).

24 Cf. “For many feminists, ‘PC’, as I mentioned above, is simply a media invention used to

termos e crenças. Paradoxalmente, este termo aparece associado às campanhas feministas, principalmente por aqueles que são seus opositores (Mills 2008: 116). Neste sentido, Sara Mills (2008) considera que sexismo, anti-sexismo e “politicamente correto” devem ser considerados três termos completamente distintos, embora operando uns com os outros:

Sexism, anti-sexism and ‘PC’ should be seen as functionally different, as – respectively – a set of discursive practices interpreted by some as discriminatory, a set of metadiscursive practices aimed at combating discrimination, and a negative characterisation of that position of critique. However, whilst functionally different, these discourses operate in relation to one another (Mills 2008: 119).

Sara Mills (2008), centrando-se no percurso histórico do sexismo, distingue, como já abordámos, entre sexismo direto e sexismo indireto. O sexismo direto é aquele sexismo facilmente identificável nas marcas linguísticas que deixa e está historicamente associado com a expressão de opiniões discriminatórias da mulher, revelando o seu estatuto inferior na sociedade. É este tipo de sexismo na linguagem que tem sido maioritariamente contestado pelas feministas e que se tem tornado estigmatizado pelos falantes.

Overt ou direct sexism is the type of usage which can be straightforwardly identified through the use of linguistic markers, or through the analysis of pressuposition, which has historically been associated with the expression of discriminatory opinions about women, which signals to hearers that women are seen as an inferior group in relation to males. This is the type of language usage which has been most contested by feminists and which has, as a result, become stigmatised by most language users (Mills 2008: 11).

Não obstante, este tipo de sexismo direto ou aberto ainda existe, mas é encarado anacronístico, revelando visões muito conservadoras da mulher, tendo-se tornado, por isso, condenado.

Os protestos feministas implicaram algumas mudanças no modo como as pessoas se sentiam ao expressar ideias ou preconceitos sexistas. Nesse seguimento, surgiu a ideia do “politicamente correto” e da linguagem inclusiva. Exemplos desta luta contra o sexismo são os livros de Margaret Doyle (1995), The A – Z of Non-Sexist Language, de Ruth King (1991),

Talking Gender: A Guide to Nonsexist Communication, e, mais centrado na escrita literária, o

de Casey Miller e Kate Swift (1989), The Handbook of Non-Sexist Writing. Margaret Doyle publica a obra The A – Z of Non-Sexist Language como estandarte de uma linguagem inclusiva, por oposição ao sexismo e à linguagem “exclusiva” dominante, que exclui e discrimina a mulher (Doyle 1995: 1). Para esta autora, a promoção e o uso de uma linguagem mais inclusiva, para além de evitar a dscriminação a mulher, eliminaria também os estereótipos que a linguagem sexista transporta consigo:

The reason for avoiding sexist language is that it can be used to discriminate against women not only by reinforcing harmful stereotypes but also by rendering women’s presence and achievements invisible (Doyle 1995: 2).

Efetivamente, segundo este ponto de vista, a língua influencia os nossos comportamentos e atitudes. E uma vez que os termos sexistas têm alternativa, sendo

great care. Feminists do not wish to have their political action denigrated by being associated with a set of practices which are characterised as ridiculous and the object of scorn, and with which they would not agree.” (Mills 2008: 118).

substituídos facilmente, “[...] the result will be clearer, more accurate, and more widely received language” (Doyle 1995: 2).

Na mesma linha de pensamento, esteve também Ruth King, que apela à reforma da linguagem, por forma a eliminar estereótipos e dar valor à experiência e papel da mulher na sociedade: “Language change involves both altering old usage to eliminate negative stereotyping of women and women’s roles and creating new words to describe women’s experiences” (King 1991: 1). Para esta autora, a língua reflete ainda a desigualdade de poder que o homem e a mulher têm na sociedade, em que o homem é ainda considerado a norma, arrastando a mulher para a invisibilidade (King 1991: 3).

No entanto, por oposição, a resposta à luta contra o sexismo foi o já referido sexismo indireto. Este é um tipo de sexismo que domina nos media, mas que é disfarçado através do humor ou da ironia:

[...] because overt sexism is more difficult to articulate these days, a more indirect or discourse level of sexism has developed which manages to express sexism whilst at the same time denying responsibility for it. For example, sexist terms are now often used in newspapers , and on certain radio and television programmes, whilst at the same time being undercut by humour or irony, signalled by, for example, exaggerated or marked intonation or stress (Mills 2008: 12).

Obviamente este sexismo indireto surge do facto de, cada vez mais, se denunciarem casos de sexismo e de visões esterotipadas, resultado de uma evolução das mentalidades, para a qual contribuiram as feministas e as mulheres em geral. As feministas destacam-se sobretudo pela sua análise crítica do discurso (“Critical discourse analysis - CDA”), cujo objetivo primeiro é contestar uma sociedade patriarcal, onde a mulher surge como um grupo social excluído:

As feminist critical discourse analysts, our central concern is with critiquing discourses which sustain a patriarchal social order: that is, relations of power that systematially privilege men as a social group and disadvantage, exclude and disempower women as a social group (Lazar 2005b: 5).

Não obstante, a ideologia de género e de relações de poder assimétricas continuam, mas de uma forma mais subtil (Mills 2008: 1). Por isso, o grande objetivo é a tranformação social. Efetivamente, a sociedade tem mudado grandemente no que diz respeito à mulher, devido maioritariamente ao crescente número de mulheres a trabalhar fora de casa a tempo inteiro. Claro que esta mudança acarreta mudanças na forma como a mulher é vista, mas também pode ser encarada como uma ameaça para aqueles homens que persistem em ter uma visão esterotipada da mulher e que continuam a contestar o acesso que, hoje em dia, as mulheres têm a carreiras profissionais e à respetiva ascensão ou promoção profissional. A mudança também tem impacto no modo como as mulheres se comportam e se veem a elas próprias. Por isso, devido à sua crescente independência financeira e estatuto no mercado de trabalho, que conduz a que “women are less likely to tolerate sexist comments and discrimination” (Mills 2008: 19). No entanto, isto não quer dizer que as mulheres sejam tratadas como iguais relativamente aos homens. Também não podemos esquecer que, muitas

vezes, são as próprias mulheres que adotam e têm posturas e comportamentos baseados em visões esterotipadas e sexistas.

De facto, a reforma da mentalidade sexista não passa somente por mudanças em palavras particulares (como no caso dos pronomes) ou expressões da língua. Uma verdadeira reforma implica que esta seja aceite e promovida por aqueles que detêm o poder (cf. “Reform can only be effective if it is accepted and promoted by those in positions of influence” (Mills 2008: 17)), pois as mudanças são sempre difíceis de aceitar e, neste caso em particular, também encontraram resistência por parte de muitos homens.

Nesse sentido, a integração da mulher na esfera pública não foi facilmente aceite, principalmente por parte do homem. Michelle Zimbalist Rosaldo (1974) considera fundamental a diferenciação entre esfera pública e esfera doméstica para compreender o estatuto da mulher na sociedade. Enquanto a mulher se cingir à esfera doméstica e privada terá sempre um estatuto mais baixo do que o homem. Por outro lado, também argumenta que quanto mais a sociedade diferenciar estas esferas de atividade, mais diferenciação existe entre o estatuto e valor das atividades masculinas e femininas. Por isso, também Rosaldo (1974) defende que a mulher conseguirá mais estatuto entrando na esfera pública, domínio ainda masculino. Desta forma, as sociedades tornar-se-iam mais igualitárias se não existisse uma diferenciação tão vincada entre esfera pública e esfera doméstica (Rosaldo 1974: 36).

Como entretanto a mulher tem vindo a entrar na esfera pública, é claro que a mulher também já não é tratada da mesma forma, teve de haver uma mudança na linguagem a usar. Por exemplo, hoje é impensável começar uma reunião de departamento por “Meus senhores, vamos começar!?” Houve, de facto, uma série de mudanças institucionais e legais para eliminar muitas expressões sexistas, que as feministas nunca deixaram de denunciar. Não obstante, tal não quer dizer necessariamente, como Susan Ehrlich e Ruth King (1998: 179) frisam, que a linguagem ou os falantes deixem de ser sexistas. Estas investigadoras sugerem mesmo que o desaparecimento de determinados termos sexistas será substituído por outros mais subtis. Nesta linha de ideias está, como vimos, Sara Mills (2008), que argumenta que estas mudanças na linguagem fizeram com que o sexismo aberto desaparecesse, mas surgisse um muito mais subtil, mas também discriminatório:

It could be argued that these changes have meant that overt sexism has been ‘driven underground’ and that other more subtle forms of expression which are equally pernicious and discriminatory have been used instead (Mills 2008: 21).

Portanto, pode-se reiterar uma evolução do sexismo. Originalmente o termo sexismo implicava uma relação antagonística entre os sexos, resultado de uma sociedade patriarcal, cujo sistema favorecia o homem em detrimento da mulher. Embora continuem a persistir desigualdades estruturais entre homens e mulheres, realçando a existência de sexismo, a noção de patriarquia fica aqui muito simplificada. Patriarquia é uma noção muito mais complexa porque envolve um sistema de ideologias. Nesse sentido, Sara Mills (2008) arremata:

Thus, we need a much more complex notion of male power and the way it is buttressed by other forces. Sexism is better understood as a set of discoursive practices and stereotypical knowledge which changes over time and which can be challenged, rather than as the reflection of a fixed and unchanging patriarchy (Mills 2008: 21).

Efetivamente, temos de ter presente que o sexismo é fruto do homem, mas nem todos os homens são sexistas. Portanto, é necessário continuar a reforma da linguagem que já começou e que tem como condição sine qua non a ascensão da mulher na sociedade e no mercado de trabalho, demonstrando o seu valor e poder. Assim, a mulher poderá falar com mais assertividade, pois, como já Robin Lakoff (1975) havia postulado, a forma de a mulher falar refletia a sua insegurança e estatuto inferior na sociedade. Por conseguinte, ao conquistar um lugar na sociedade, a mulher poderá falar com mais segurança e assertividade. Neste contexto, tal como refere Deborah Cameron (1995), já surgem livros a aconselhar as mulheres para a assertividade. Estes conselhos vão ao encontro do conceito de “verbal hygiene”, que, para Cameron (1996), chega às mulheres por dois meios: aconselhamento ao nível profissional, com o objetivo de melhorar a competência e assertividade linguísticas da mulher no mundo do trabalho, postulando que as mulheres terão mais sucesso se adotarem estratégias linguísticas mais associadas aos homens; e, por outro lado, aconselhamento para as relações interpessoais, principalmente nas relações com os sexo oposto (como faz, por exemplo, Deborah Tannen (1990), em You Just Don’t Understand: Women and Men in

Conversation):

Verbal hygiene for women comes in two varieties which are strikingly contradictiory: career advice, which aims to improve the linguistic effectiveness of profesional women, and relationship advice, which deals with communication difficulties in male-female interaction, particularly in the context of heterossexual relationships (Cameron 1996: 37).

Falar com assertividade é também equiparado a saber falar como o homem. Robin Lakoff (1975) já havia afirmado que as mulheres que falassem como os homens eram levadas mais a sério. De facto, contrariamente aos homens, que se falarem com um estilo semelhante ao das mulheres são considerados “afemininados”, as mulheres podem adotar livremente o estilo masculino, sendo mesmo valorizadas por isso (Thorne e Henley 1975b: 19). Neste

contexto, Shigeko Okamoto (1995: 317) verificou que as mulheres japonesas têm vindo a mudar o seu discurso feminino para um discurso mais masculino.

Porém, Mary Ritchie Key (1996) não segue essa linha, em que a mulher deve procurar falar como o homem, a investigadora defende uma linguagem andrógina, na qual “[...] women should not try to copy the language of the male” (Key 1996: 144). Assim, “[...] an androgynous language will be complementary rather divisive” (Key 1996: 144), uma vez que se podem mudar estilos e formas linguísticas que criam desconforto, elevando a consideração e o respeito pela mulher sem denegrir a imagem do homem (Key 1996: 136).

Todavia, como a mulher ainda encontra entraves, desde as ideias esteotipadas e tradicionais que ainda prevalecem, até à sua condição física, regra geral, mais fraca que a do homem, ainda continua motivo de exclusão. Calero Fernández (1999) defende que a verdadeira reforma, para desaparecimento do sexismo, deve passar por duas instituições fundamentais: a escola e a família, pois estes constituem-se como modeladores da

personalidade e de comportamentos, bem como veiculadores de conhecimentos imprescindíveis para se participar na vida pública e privada (Calero Fernández 1999: 31). Contudo, Deborah Tannen (1990) alerta “because people are different, not only in gender but in cultural background, differences in atitudes toward verbal opposition will persist among friends, lovers, and strangers (Tannen 1990: 187).