PART IV METHODOLOGY AND METHODS
5. Methods
5.5 Conceptual apparatus
À semelhança do que aconteceu com a análise sociolinguística de outras línguas, também a análise sociolinguística da língua portuguesa se apercebeu da importância do género enquanto variável a ter em consideração.
Embora de forma breve, João Nuno Paixão Corrêa Cardoso (1998), Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, também abordou a questão do género na língua portuguesa. Este linguista levou a cabo “[...] uma interessante investigação sociolinguística urbana” (Cardoso 1998: 72), durante a qual se debruçou sobre o estudo das estruturas de subordinação, mais especificamente o uso da locução conjuncional integrante
de que e o que, enquanto simplificador da locução, pois, segundo ele, “os falantes nativos do
português começam a optar, cada vez mais, pelo simples emprego do complementador que” (Cardoso 1998: 72).
Na sua investigação, João Nuno P. C. Cardoso (1998) verificou que existe uma oscilação no uso das duas estruturas, verificando-se uma grande difusão do complementador que sem o nexo prepositivo de na variedade culta de Coimbra. Na análise do dados, em que os informantes estão divididos por género, em três estratos sociais (Médio, Médio-alto e Alto) e em três grupos etários (25-39 anos, 40-59 anos, 60-79 anos), verificou que:
- utilizam apenas o complementador que ambos os géneros da geração mais nova (25-39 anos) dos três estratos sociais e ainda as outras duas camadas etárias (40-59 anos e 60-79 anos) do estrato social Médio;
- a oscilação na preferência por uma das realizações sintácticas acontece nos estratos sociais mais elevados (Médio-alto e Alto), entre os informantes mais velhos, existindo uma clara diferença entre os géneros.
Assim, tendo em conta este último dado, o professor afirma:
-no estrato sociocultural Médio-alto, ao contrário dos seus pares, os elementos femininos, com as idades compreendidas entre os 40 e os 59 anos, optam muito mais frequentemente pela locução conjuntiva, aproximando-se das práticas discursivas dos homens do estrato alto; - os informadores masculinos mais velhos da amostra e pertencentes aos dois grupos sociais mais altos usam geralmente a construção DE+Q nos seus enunciados, o que não acontece com as informadoras dos mesmos grupos, tendencialmente simplificadoras (Cardoso 1998: 73).
A partir destes resultados, João Nuno Paixão Corrêa Cardoso conclui que o comportamento verbal feminino, apontado no primeiro ponto, sublinha “[...] o reconhecimento do prestígio atribuído à figura masculina no círculo dos falantes cultos
urbanos, e o desejo de afirmação, através do jogo linguístico, da mulher em apertados contornos conservadores” (Cardoso 1998: 73). Já Robin Lakoff (1975) tinha postulado o esforço da mulher para falar correctamente como forma de afirmação social. Da mesma forma, Jennifer Coates sublinhou que as mulheres tendem a seguir a norma-padrão e evitam falar as variantes com menos prestígio (Coates 1986: 65). O mesmo reiterou Penepole Eckert ao afirmar que “[...] the use of standard language is a mechanism for maintaining face in interactions in which women is powerless” (Eckert 1997: 215). Por seu turno, Peter Trudgill defendeu que as mulheres eram mais conscientes do seu estatuto social do que homem e por isso, “[...] are therefore more aware of the social significance of linguistic variables” (Trudgill 1997: 182). O linguista apresentou duas razões para argumentar a sua teoria de que as mulheres são mais conscientes do seu estatuto social: 1) a posição social das mulheres na sociedade, ou seja, subordinadas ao homem e, por isso, sentem-se mais inseguras e necessitam de afirmar a sua posição social linguisticamente; 2) o homem é que tem o poder na nossa sociedade, sendo, por isso, ele que domina e aparece (Trudgill 1997: 183).
No fundo, o trabalho de João Nuno Paixão Corrêa Cardoso sobre a relação entre a escolha de uma estrutura sintáctica e o género vem frisar que, na sociedade protuguesa, o homem ainda tem um poder mais destacado relativamente à mulher. Por isso, consciente ou inconscientemente, esta adopta estratégias linguísticas para se afirmar socialmente, como seja procurar falar de acordo com os estratos socioculturais mais elevados.
Por outro lado, os estudos de comunicação e género surgiram por ação dos estudos feministas sobre os media. Segundo Silveirinha (1997), os estudos feministas começaram por analisar os media como transmissores de uma sociedade que exclui a mulher:
[...] poder-se-à dizer que uma parte da acção feminista consiste, por um lado, em avaliar criticamente os discursos construtores de uma teia de significado, de uma visão do mundo socialmente construída, que historicamente têm excluído ou secundarizado a experiência das mulheres (Silveirinha 1997: 3).
Dessa forma, para Silveirinha (1997), as feministas debruçam-se sobre duas linhas de investigação: “[...] os estudos feministas dos media, e outra de investigação em torno da esfera pública” (Silveirinha 1997: 3). Os estudos feministas dos media consideram que estes são centrais para os estudos de género, uma vez que moldam a realidade cultural e social. Nesse sentido, “[...] os estudos feministas dos media interessam-se pelas audiências, pelo exame das práticas sociais da mulher em relação aos textos mediáticos: consumo cultural, leitura feminina, contextos quotidianos da recepçãp, etc.” (Silveirinha 1997: 4). Por seu turno, os estudos feministas sobre a esfera pública lutam pelo reconhecimento público das mulheres, criticando a exclusão das mulheres da esfera pública (Silveirinha 1997: 6).
Foi sobre influência feminista que o género adquiriu relevo nos estudos de comunicação, nomeadamente através da análise dos meios de comunicação social, dos seus discursos e representações:
A forte influência que a teoria feminista exerceu no campo das ciências sociais a partir dos anos 60 reflectiu-se, especialmente a partir dos anos noventa, nos estudos da comunicação. A utilização do ‘género’ como categoria de análise favoreceu a consolidação de um campo de estudo sobre comunicação e género centrado na análise crítica dos meios de comunicação,
dos seus discursos e representações dos actores sociais, bem como das relações entre estes (Álvares e Silveirinha 2005: 919).
A partir daqui, os estudos focaram-se na presença ou ausência do género e seus estereótipos nos meios de comunicação (Álvares 2005: 949), pois os media funcionam como espelho da sociedade ainda patriarcal. Neste mesmo âmbito, a nossa investigação procura verificar como os media refletem as diferenças comunicativas entre homens e mulheres.