4. INVESTIGATING AN EDUCATION FOR DELIBERATIVE DEMOCRACY – ‘PHASE 2 –
4.5 ETHICAL CONSIDERATIONS
Durante os anos da adolescência e na actualidade, a sua activi- dade centra-se essencialmente em actividades virtuais, acadé- micas, e desportivas, tornando-se muito bom aluno na área do seu interesse. Porém E. não estabelece relações vinculativas de qualquer tipo, não faz amizades nem namoros.
Durante longos anos frequentou uma formação técnico-artís- tica por vontade dos pais e contra sua vontade. Emanuel diz que não gostava da actividade, “mas tinha que andar lá porque eles queriam”; queria ter desistido, mas não se sentia capaz de exprimir a sua vontade junto dos pais, e, para evitar tensões e conflitos, submeteu-se passivamente.
Sobre os tempos de infância, lembra desejar um lanche di- ferente daquele que era habitual (o lanche que levava para a escola era sempre igual). Gostaria de incluir um leite achoco- latado na sua sacola, mas era impossível convencer a mãe a satisfazer-lhe tal capricho. Recorda que uma vez não resistiu a tirar um que viu na pasta de um colega.
A escolaridade técnico-profissional que seguiu levou-o, em determinada fase do percurso escolar, a abandonar a turma e a escola que frequentava, facto que o paciente representa como uma vivência de ruptura e perda no seu processo de cresci- mento e desenvolvimento afectivo.
Nos anos seguintes, a socialização com os novos colegas foi longe de ser fácil. As discrepâncias socioculturais e educati- vas entre ele e a grande maioria do grupo tornaram difíceis as relações construtivas com os pares e os processos de identifi- cação nesta fase. Além disso, o facto de ser muito bom aluno foi vivido por E. com ambivalência na relação com os colegas, pois o paciente parece sentir que estavam com ele “por inte- resse” e não por companheirismo, assinalando aí um factor da sua fraca auto-estima. Nos trabalhos de grupo sempre foi fazendo tudo sozinho, sem saber organizar a comunicação e a distribuição de tarefas, pelo que o seu registo muito fechado e submisso acabou por se associar à desresponsabilização dos outros, levando o paciente a sentir que se aproveitavam dele – mas “eu nunca disse nada, não me importo…”, diz encolhen- do os ombros. É provável, por aquilo que a observação clíni- ca do paciente nos leva a crer, que as grandes dificuldades de comunicação do paciente estão a condicionar esta percepção distorcida, mais que o peso que a realidade em si poderia ter. Vemos neste pequeno exemplo um sinal das dificuldades de relacionamento e comunicação, de como implicam uma com- plexa e deformada realidade; como o sentimento de pequenas injustiças pode ser concomitante a problemas de desenvolvi- mento da personalidade e da identidade e conduzir ao desa- justamento ético-moral na relação com o Outro.
A este propósito, do desenvolvimento ético-moral, pode- ríamos lembrar referências diversas como o modelo do de- senvolvimento moral de Kohlberg, a teoria de Freud sobre a estruturação do Super-ego e sobre a dinâmica das identifica- ções, a teoria de Winnicott sobre o desenvolvimento afecti- vo e a formação da capacidade de reparação (culpabilidade, compaixão e empatia), etc. É uma temática que não vamos desenvolver aqui no plano teórico, mas não podemos deixar de lembrar que as complicações nesta área ético-moral são nu- cleares na organização da personalidade estado-limite (bor- der-line, no termo original da língua inglesa).
Entendemos como é rebuscada e distorcida a teia de po- sicionamentos e percepções na história do paciente, e que a passividade e o fechamento (esquizoidia) são dos traços mais marcantes da sua personalidade, e que têm sido dos mais difí- ceis de mobilizar terapeuticamente.
É sobre essa fase da sua adolescência que recorda um episó- dio de desentendimento num jogo desportivo com um colega e que veio a tornar-se um ponto de fixação das fantasias agressi- vas do paciente. Ao longo do processo terapêutico, o paciente descreve desejos de vingança em relação a esse colega espe- cificamente, que parece assim aglutinar todo um conjunto de sentimentos de revolta até então nunca expressos. A figura do colega constituiu durante um tempo uma função conjuratória, uma espécie de “bode expiatório” que serve para exteriorizar ressentimentos, e que opera provavelmente uma série de des- locamentos, nomeadamente a partir da relação com os pais e das vivências distorcidas acumuladas ao longo do seu cresci- mento, o seu regime de fechamento e da deficiente comuni- cação com eles. O paciente diz que se sentiu fraco por não ter conseguido reagir quando o colega o insultou e que considera que devia ter agredido o colega para se sentir aliviado; o in- sulto era um palavrão evocativo da sua filiação. “Ao ouvi-lo
dizer aquilo, era como se eu estivesse a dizer aquilo sobre a minha mãe.” Esta formulação é significativa pela indiferencia- ção/confusão de identidades: ouvir o colega a insultar a mãe, é como se fosse ele mesmo a fazê-lo.
Esta amálgama de sentimentos e identidades, eu-colega- mãe, sugere que o paciente apercebe no colega o seu próprio Eu, mas que essa identificação (projectiva) se torna insupor- tável de analisar directamente. Essa dificuldade não pode ser senão amplificada no momento em que o paciente evoca na sessão clínica a memória deste incidente, ou seja, já após ter agredido a mãe de facto: neste processo histórico entende-se que o factor de culpabilidade tenha o seu efeito inibitório. Contudo, parece tratar-se de uma culpabilidade que é primi- tiva e pré-simbólica, mais baseada em emoções hostis mas- sivas (do que em sentimentos de remorso que conduziriam à evolução da culpabilidade e à formação ético-moral do su- perego). Nesta conjuntura, um outro factor associado a essa enorme dificuldade em falar dos sentimentos e ideias acerca da mãe pode residir na angústia associada à imagem da mãe (imago), fragmentada, clivada: ela não se configurar como uma imagem relativamente unificada, ligada nas suas várias partes e contradições, mas em partes desligadas – por um lado uma imagem de afecto e apego, e, por outro lado, uma outra imagem de medo e hostilidade (clivagem do objecto).
Assim, podemos compreender que a passagem ao acto agres- sor emana da projecção da imagem “má” (objecto mau), carre- gada de sentimentos hostis e de angústia, e que o paciente não consegue elaborar e abordar pelo pensamento (linguagem) devido à ameaça de destruição que ela contém em relação à parte “boa” da mãe (objecto bom). Por conseguinte, tal parte hostil é desligada da libido e descarregada na acção (processo de dessimbolização e desintricação pulsional) e é concomitan-
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CONSTRUIR A PAZ: VISõES INTERDISCIPLINARES EINTERNACIONAIS SOBRE CONHECImENTOS E PRáTICAS
te à desorganização do Eu e do pensamento (desrealização, despersonalização).
Numa configuração deste tipo, dependente e pouco diferen- ciada da identidade do sujeito em relação à figura materna (re- lação de objecto anaclítica), a parte negativa desta figura pode gerar um efeito em espelho (identificação projectiva), e/ou re- tornar-se contra si mesmo. A hostilidade primária desdobra- se quer para o exterior e o outro, quer para dentro do próprio psiquismo (esbatidos os limites psíquicos entre o papel mani- festo da “vítima” e o do “agressor”). Compreende-se até certo ponto falar acerca da imagem materna está intimamente liga- do à afecção da auto-estima e à auto-destrutividade. Veremos mais adiante como esta questão pode também ser abordada em termos da indiferenciação Self-Objecto.
À medida que estas fantasias de raiva e vingança em relação ao colega são exteriorizadas, não podemos pois deixar de as pensar em ressonância com o acto agressor cometido em rela- ção à mãe. Elas são faladas como via indirecta (e inconsciente) de exteriorização face ao problema da contradição inenarrável de sentimentos e representações relativamente à mãe (partes desligadas).
Entretanto, progressivamente, as fantasias sádicas sobre o colega extinguem-se, para (re)aparecerem deslocadas e pro- jectadas sobre o chefe da empresa. O paciente descreve situa- ções quotidianas em que se sente injustiçado e revoltado com o chefe, pelas suas maneiras de lidar em relação a si, orien- tações e ordens que lhe dá, formas de falar. Ao descrever tais situações, a tónica vai sendo de quanto isso o oprime e se sente vulnerável, não sabe como reagir, o que dizer e de que manei- ra, e afloram então ideias de agressão... Os seus limites frágeis tornam-se muito expostos e susceptíveis de despoletar reac- ções imprevisíveis e sem controlo. Algumas dessas vezes em que o chefe lhe falava, Emanuel levanta-se do seu lugar e vai embora, por não conseguir conter a tensão sentida. Durante um período de maior impasse, E. deixou de aparecer no traba- lho, até que o chefe o convenceu a regressar contactando-o em casa ou através dos pais.
Estes parecem não compreender nem apoiar o E. a estruturar atitudes, inculcando-lhe a ideia de dever obedecer ao chefe, como que incondicionalmente (p.e. trabalhando para além do horário e sem remuneração, sem contrato, ou com vencimen- tos em atraso – 5 meses nunca pagos).
A verbalização das emoções vai configurando acções de destruição do local de trabalho, etc., e nessa fase a terapeu- ta sente os limites do paciente vacilarem e avalia algum risco de descontrolo. Por outro lado, é notório que as sessões são efectivamente utilizadas pelo paciente; é manifesto o traba- lho psíquico operado através dessa narrativa do quotidiano laboral, levando-nos a não temer verdadeiramente esse risco. Nas sessões, essa verbalização vai cumprindo o seu efeito de descarga e catarse; dizer vem em lugar de fazer; E., ao falar das situações destrutivas que imagina, é como que realizá-las – dizê-las é como se as realizasse, toda a transformação do seu comportamento reside neste novo lugar da palavra e sua abertura ao “como” (ainda que em esboço), da imagem mental em vez da acção… Ou por outras palavras, aqui está presente todo o poder terapêutico da fala, constituinte da representa- ção, através da transferência. O imaginário avança, através da fala, sobre a cena psíquica e toma assim o lugar da acção, ou mais propriamente, da passagem ao acto. Este processo é in- discutivelmente, do ponto de vista clínico, o mais representa- tivo do processo terapêutico com Emanuel, da maneira como a palavra, nestas condições de atenção e aceitação proporcionou uma relação de transferência, e passou a exercer o seu papel manifestamente preventivo (de comportamentos agressivos).
A problemática da passividade em Emanuel estabelece então uma paradoxal relação com o desenvolvimento da agressivida- de. O registo da passividade, tão dominante no seu funciona- mento, forjou-se num sistema de acumulação de sentimentos de injustiça e de ressentimentos, numa lógica que lembra a ex- pressão popular do “engolir tudo”, “o meter p’ra dentro”… até rebentar, diríamos. O paciente cresce num ambiente idealiza- do por parte dos pais, que, com a melhor das intenções, que- riam ver nele um filho virtuoso e bem sucedido; o registo das suas reacções, sobretudo da mãe, teve um impacto opressor no Emanuel, que desenvolveu uma conduta de submissão e fe- chamento (repressão interna ou mesmo exclusão dos afectos), conjuntura que despoletou a inibição do seu desenvolvimento afectivo. As suas representações e memórias assinalam a in- capacidade de comunicar os seus desejos, segundo relata, por causa do medo de se confrontar com reacções ansiosas e de oposição por parte da mãe, sentidas como hostis pelo pacien- te. Esse receio relativamente à figura materna parece remeter para um complexo traumático, uma efracção dos seus limites e capacidades psíquicas de assimilação e contenção, e ter le- vado ao evitamento defensivo como mecanismo sistemático, assim como a uma posição passiva e a uma espécie de “anes- tesia afectiva”, um “aplainamento” dos afectos do seu mundo interior (“uma desafectação” da vida psíquica – “dis-affected
patient ”, Cf. McDougall, 1982, 1984). Encontramos assim nesta hipótese a maneira como a adopção de uma posição de passividade e os processos de desvitalização afectiva concor- reram para a apatia e a anedonia (dificuldade de experienciar emoções de prazer e satisfação) e terão comprometido o sen- timento da auto-estima primordial (alicerces da identidade). Tais falhas do narcisismo primário repercutiram-se a par do bloqueio ou inibição do desenvolvimento afectivo.
Dada a importância dos traços clínicos associados à “aneste- sia afectiva” no estudo do nosso caso (inibição, apatia, anedo- nia, alexitimia, esquizoidia), vale a pena ilustrar um excerto de Joyce McDougall que descreve tais mecanismos nalguns pacientes, nomeadamente nos alexitímicos:
A capacidade do sujeito atacar os pólos somático e psíquico da dor mental acompanha-se duma luta tão violenta como contra a experiência dos afectos de prazer. Assim, há um esforço contínuo para cortar os laços entre o sujeito e os seus próprios afectos, quer estes sejam ligados às forças pulsionais, quer às ideias carregadas de sentimentos ou às relações sociais. Esta capacidade de atacar e ejectar rapi- damente, seja o afecto, seja a representação, fornece-nos uma explicação para o facto dos pacientes alexitímicos e psicossomáticos revelarem uma pobreza da fantasia e da vida onírica. (ibid., p.143).
Em Emanuel, com efeito, a acumulação das vivências de opressão/ repressão esteve manifestamente na origem do seu isolamento e solidão interna, assim como de sentimentos depressivos e de aniquilamento do sentimento de si mesmo (desajustamento da identidade e afecção da auto-estima). Tal situação de isolamento interno e de erosão emocional está la- tente no desencadeamento da situação crítica que culminou na agressão à mãe e que corresponde a uma descompensação aguda da personalidade, num fenómeno psíquico e compor- tamental de reviravolta e “explosão”. Identifica-se neste uma forma arcaica de defesa contra a angústia: a acção expelindo para fora o impulso (“passagem ao acto”, acting) (Cahn, 2004; Richard, 1998). Também se assinala neste processo a falência das defesas habituais do seu funcionamento (a que aludimos
VOL 2. TRABALHO, SAÚDE
E MEDIAÇÃO AMBIENTAL
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acima a propósito da desvitalização ou “anestesia emocional”) e a entrada numa mudança abrupta do pólo passivo para o pólo activo: este volte-face compreende um anseio de afirma- ção de si mesmo, sinal positivo em si mesmo, não fora o pro- cesso desintegrado e destruturante, devido à “má” escolha da violência e ao grau de destrutividade. Este aspecto da ruptura psíquica de manifestações diversas encontra certa afinidade com a descrição do “breakdown” relativamente prevalente na adolescência (Laufer, ct. Richard, 1998). Na primeira entrevis- ta clínica, a descrição do paciente e juízo sobre o seu compor- tamento levam a supor um estado de desrealização psicótico, que, felizmente, foi transitório e circunstancial. A sua evolução ao longo do processo terapêutico, e estando o paciente medi- cado, permitem-nos dar conta da reestruturação da consciên- cia de modo consolidado e afastar o diagnóstico de psicose. (Ou, se quisermos, de modo mais explícito: sem dúvida, um núcleo psicótico existe em profundidade nesta organização limite, ou seja latente; mas nas condições favoráveis de evo- lução da sua experiência de vida, tal núcleo permanece como que adormecido, graças aos factores de equilíbrio compensa- tório e adaptativo.)
Agora, muito sucintamente, salientamos as características gerais da acção agressiva do paciente assim como de outros episódios agressivos anteriores, no sentido de contextualizar o seu comportamento e personalidade, do ponto de vista clínico:
– A agressão constituiu uma tentativa de matricídio com um utensílio doméstico durante o sono da mãe, e cujo desfecho revela a fragilidade do sujeito a nível psíquico e estrutural: logo imediatamente o E. se deixa cair no chão a chorar. – Embora existindo um motivo consciente para passar à acção e a “justificar” (racionalização), a descrição da acção em entrevista indica perturbações do juízo crítico e da cons- ciência, assim como da estruturação da personalidade e da identidade.
– E. dizia-se muito deprimido por frequentar um curso que não se revelava do seu agrado e que frequentava por vonta- de dos pais. A dificuldade em comunicar e exprimir a sua vontade de modo adequado, levou E. a um estado de pro- gressivo fechamento e alienação; a frequência das aulas era vivida com frustração e alheamento (desrealização), “não
percebia nada da matéria, do que os professores diziam nas aulas” (sic.); porém não falava com ninguém sobre o problema. Ao fim de algum tempo, deixou de comparecer, mas saía todas as manhãs à hora habitual, como se fosse às aulas, evitando desse modo confrontar-se com os pais pe- rante a sua situação.
– A incomunicabilidade e isolamento levou E. a sentir-se desesperado e começou a imaginar maneira de se suicidar. – Após algumas buscas na Internet, pensou que não teria meios, pelo que a solução era pôr um fim à mãe. Passou uns dias a cismar na ideia, antes de a pôr em prática enquanto ela dormia.
– Alguns precedentes na história de Emanuel põem em perspectiva a sua personalidade, quanto à gestão dinâmica da agressividade. Esta é sem dúvida peculiar, mas mais pela forma como aparecem dispostas as representações e senti- mentos (ou a sua falta), do que pelos comportamentos em si. Por exemplo, na experiência dos tempos de escola e da relação com os pares, pautados por pequenos episódios re- lativamente banais – como enunciámos acima a propósito do jogo de baseball e do ódio expresso em torno do insul- to do colega. Porém, já em relação à mãe, uma reacção de agressividade é lembrada por E. quando uma vez, frente ao computador, um desentendimento levou a mãe a dar-lhe uma bofetada, ao que E. retorquiu na mesma moeda, dando
uma bofetada à mãe, o que teve como desfecho um pran- to de lágrimas. Emanuel é frugal em palavras a propósito deste episódio, demonstrando a forte inibição em abordar a figura materna, assim como a dificuldade de elaborar uma análise crítica relativamente ao seu comportamento. Aqui o seu discurso contrasta com a ênfase dada aos conteúdos agressivos vivenciados nos conflitos com colegas, sugerindo existir entre esses dois tipos de relação – colegas vs. mãe – uma quantidade de deslocamentos inconscientes e efeitos deformadores.
Interrogando o sentido psicopatológico da agressão à mãe, são de salientar os seguintes pontos:
– Os elementos do relato clínico de E., o modo do pensa- mento e da acção e respectivas circunstâncias, assim como o conjunto dos elementos clínicos que fomos conhecendo ao longo do acompanhamento, sugerem um estado de disso- ciação psíquica, com despersonalização e desrealização, ou seja um estado de perda do contacto com a realidade (esta- do psicótico), quer no momento da agressão, quer nos dias anteriores.
– Em termos dinâmicos, a acção agressiva parece constituir uma forma de libertação paranóide do objecto persecutó- rio, ou se quisermos, o acto é uma forma externalizada do indivíduo pôr um termo ao seu estado de angústia interior quando ela assume um impacto persecutório (paranóide) (a “descarga” comportamental sinaliza a inoperância das de- fesas psíquicas e é reveladora da fragilidade dos limites Eu- -outro). Tal acção agressiva sugere o grau de confusão entre fantasia e realidade, e mais especificamente entre o self e o objecto: a mãe real afigura-se como uma extensão do mundo de sentimentos e emoções do Eu do sujeito. Desse modo, a mãe real aparece nesse momento como suporte de projec- ção da angústia vivenciada, numa colisão ou curto-circuito entre Eu-outro (Eu-mãe); e, em simultâneo nesse processo, a angústia ameaça o sentimento de si mesmo (interrupção da noção de continuidade), e desorganiza as fronteiras do Eu (logo, da acção sobre o exterior), como um mastro a gi- rar sem leme... – entendemos assim a equação: ameaça self <--> objecto. É o que nos sugere também a rápida e aleatória transição das ideias de suicídio para as ideias de matricídio. – A acção agressora parece decorrer de um mecanismo primitivo de descarga da agressividade, que pensamos as- sociar-se mais a um modo de insensibilidade afectiva (in- diferença, do sadismo primário), do que a um sentimento de gozo ou prazer de infligir o sofrimento (sadismo secun- dário) (Cf. Freud, 1915 ; 1924). No plano clínico e subjectivo do paciente, não se trata de desejar fazer sofrer a mãe, mas livrar-se dela como objecto representante do seu sofrimen- to, numa colisão entre a mãe (real) e a sua imagem interna clivada (objecto clivado hostil), como vimos acima.
CONCLUSÃO
REFLEXõES SOBRE AS CONDIÇõES DA
RECONSTRUÇÃO DA PAz PSÍQUICA E FAmILIAR
Centraremos agora os pontos essenciais da evolução clínica do nosso caso, e esboçamos uma reflexão crítica sobre ele à luz da temática da Paz.
Emanuel conseguiu mudar para o curso da sua opção e, mani- festamente, evoluir para um estado de apaziguamento, mas… como instaurar a paz na família? Como despertar a consciên-
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CONSTRUIR A PAZ: VISõES INTERDISCIPLINARES EINTERNACIONAIS SOBRE CONHECImENTOS E PRáTICAS
cia auto-crítica neste jovem e estruturar um comportamento fiável e maduro?
Ao longo da terapia deixamos que Emanuel exprima livre- mente as fantasias agressivas (ora em relação a um antigo co-