Os solos são classificados de duas formas diferentes (NASCIMENTO, 2005). Uma forma natural diferencia horizontes diagnósticos do perfil através de características observáveis relacionadas a processos de formação (pedogenéticos) (BOCKHEIM et al., 2005), sem considerar o uso do solo (FAO, ISRIC, e ISSS, 1998; EMBRAPA SOLOS, 2000; ROSSITER, 2001). Outra forma manifesta-se nas recomendações técnicas de uso dos solos, diferenciados por culturas de interesse, capacidade de suporte e fertilidade, da gestão hidrológica, e sustentabilidade. Como a idéia de sustentabilidade, ou de fertilidade, muda
historicamente com o avanço técnicos, os sistemas de classificação podem perder sua validade, sendo as recomendações tecnicocientíficas de uso do solo, continuamente ajustadas a novos contextos sociais. No Brasil o planejamento do uso da terra tem utilizado as seguintes classificações a partir de técnicas interpretativas: a) Capacidade de Uso das Terras relacionada a práticas de conservação do solo, a nível de propriedade; b) Aptidão Agrícola de diferentes tipos de utilização agrícola regionalizada; c) Zoneamento Ecológico para reordenamento e implantação de culturas e da cobertura vegetal (GARCIA & ESPÍNDULA, 2000).
A classificação das terras é feita geralmente para orientar o melhor uso dos solos, e como utiliza dados descritivos, é considerada uma interpretação do levantamento de solos. A principal experiência Brasileira é o Sistema de Avaliação da Aptidão Agrícola das Terras (RAMALHO FILHO et al., 1978; RAMALHO FILHO & BEEK, 1995). As alternativas analisadas são lavouras (anuais e perenes), pastagem plantada, silvicultura e/ou pastagem natural e preservação da flora e fauna e contrastadas em três níveis de manejo: primitivo, pouco desenvolvido e desenvolvido, indicados pelas letras A, B, e C respectivamente, e definidos em função do investimento de capital na produção agrícola. Para a utilização das terras com lavouras são consideradas, no Sistema de Avaliação da Aptidão Agrícola das Terras, os três níveis de manejo. Já para silvicultura, apenas o nível de manejo B foi considerado por muito tempo.
Embora as terras aptas para florestas abranjam classes para as quais lavouras ou pastagem plantada não sejam recomendadas, a silvicultura pode fazer um uso eficiente dos melhores solos a partir da aplicação de tecnologias de nível desenvolvido (nível C) (EMBRAPA SOLOS, 1999). O conceito de terras inaptas (classe 6) para as “terras sem aptidão para uso agrícola, nas quais não há outra alternativa senão a preservação da natureza” (RAMALHO FILHO & BEEK, 1995, pg. 10) entrou em conflito com as recomendações de plantio de florestas comerciais, que preconizam a utilização de terras marginais (PUNDEK, 1994). O que corrobora a idéia que os solos utilizados por reflorestamentos no Brasil são reconhecidamente de baixa fertilidade e estão expostos a diversos limitantes de ordem ambiental e social (GONÇALVES et al., 1990). Este conflito ganhou proporções maiores com as mudanças legais que ampliaram as áreas de preservação permanente em zonas higrófilas (principalmente ripárias), declivosas e topos de morros.
Estudo encomendado pelo BID (2002) estimou que o planeta possui 5 a 10% da área das propriedades rurais estejam degradadas, abandonadas e/ou impróprias para cultivos agrícolas anuais. Em alguns casos essas percentagens podem ser até maiores. Utilizando-se
essas percentagens e considerando-se que área das propriedades rurais no Brasil é de cerca de 354 milhões de hectares, pode se estimar que uma área entre 17,7 e 35,4 milhões de hectares poderiam ser considerados como terras de vocação florestal. Neste caso, o termo “vocação florestal” refere-se à possibilidade de uso silvicultural sem conflito com outras formas de uso da terra.
Na região do Planalto Serrano (SANTA CATARINA, 1986), 26,8% das terras são ocupadas por Neossolos Litólicos rasos e frequentemente pedregosos. A profundidade efetiva do solo é uma das principais propriedades edáficas que influenciam o desenvolvimento do sistema radicular e afeta determinantemente o crescimento das árvores, no entanto, muitas destas áreas de solos rasos ocupadas por reflorestamentos de pinus. Ocorre o desconhecimento dos solos pelos reflorestadores ou a lógica do reflorestamento não se preocupa com os eventuais prejuízos de plantios mal localizados.
Tais como os aspectos negativos atribuídos às árvores, atribuído ao desconhecimento técnico, é relacionado à diminuição da oferta de água em fontes naturais. Esta alegação independe de ocuparem áreas definidas legalmente como preservação permanente, ou seja, mesmo quando não conflitam com a vocação florestal local de acordo com acordos científicos e marcos legais estabelecidos (FLORIANI et al, 2006).
A classificação do Sistema de Avaliação da Aptidão Agrícola das Terras refletia a relação entre a ciência do solo e a silvicultura da década de 70, quando o sistema foi criado, e descompassa do uso das terras utilizadas atualmente por florestas, que ocupam solos de melhor fertilidade e aplicam níveis de manejo desenvolvidos (PINHEIRO et al., 2000). O uso de variedades e clones que proporcionam altos incrementos volumétricos exigem proporcionalmente maior nível de tecnologia em insumos e em qualidade do sítio utilizado no cultivo. Por isto, os reflorestamentos atualmente ocupam os três níveis de manejo (LAMBPRECHT, 1990) exigindo atualizações no Sistema de Avaliação da Aptidão Agrícola das Terras (PINHEIRO et al., 2000).
A agricultura, por exigir solos mais férteis, é recomendada nos solos provavelmente ocupados no passado por florestas, principalmente Nitossolos (Terra Bruna Estruturada) e Latossolos, que ocupam na região do planalto sul catarinense 85.630 ha. Mas, frequentemente as recomendações técnicas são de reflorestamentos ocuparem áreas marginais para a agricultura. De acordo com a Figura 30, não há esta diferenciação em função da pequena área ocupada por estes solos proporcionalmente a toda a extensão da região. No entanto, esta leitura superficial não é adequada se avaliada a relevância de outros usos do solo, que em
condições apropriadas de manejo da fertilidade, possibilidade de mecanização, e micro-climas específicos, propiciam uma vocação para a fruticultura e floricultura de clima temperado, sobre-valorizando estas terras.
Figura 30: Área apta ao Pinus taeda em Santa Catarina em dois níveis de manejo. Fonte: Embrapa Solos (1999).
Por outro lado, levantamentos realizados mais recentemente em Santa Catarina reconhecem o potencial produtivo do pinus em mais de 80 mil km² no Estado. De acordo com as características do solo e do clima local, diferentes níveis de manejo alteram esta recomendação. Analisando os níveis de manejo indicados pelas letras B e C, que representam respectivamente, manejo medianamente desenvolvido e desenvolvido (RAMALHO FILHO & BEEK, 1995)169, observa-se na Figura 2 mais de 40.000 km² que toleram um sistema de manejo medianamente desenvolvido, ou seja, em um nível tecnológico intermediário de cultivo do pinus deve ser visto com reservas, no entanto, se o cultivo de pinus contar com investimento em tecnologias mais aprimoradas quase 38.000 km² tornam-se preferenciais ao seu cultivo.
169 Nível de manejo B baseia-se em práticas agrícolas medianamente tecnificadas, com modesta aplicação de
capital e tecnologias resultados de pesquisas para manejo, melhoramento e conservação das condições das terras e cultivos. Incluem adubação, calagem, controle de pragas e doenças e mecanização em algumas etapas de cultivo. Nível de manejo C baseia-se em práticas agrícolas altamente tecnificadas, aplicação intensa de capital e de resultados de pesquisas para manejo, melhoramento e conservação das condições das terras e cultivos, com mecanização de diversas fases do cultivo (Embrapa Solos, 1999).
Na Figura 31 apresentam-se em cor verde os solos tolerados pelo pinus em cultivo de média tecnologia. Nota-se que grande parte do município de Lages encontra-se nesta condição, alinhado à percepção dos grupos que contestam a silvicultura de que a região não é propícia ao reflorestamento, e por outro lado, corrobora a percepção de técnicos e empresas, de que parte do impacto do pinus resulta da difusão parcial de tecnologias florestais. Esta crítica das grandes empresas, que alegam deter tecnologias modernas, não pode ser extendida apenas aos pequenos plantios. As grandes fazendas podem ser arredias na realização de investimentos em altas tecnologias agropecuárias (PEREIRA, 2004), mas não significa que ocorra o mesmo ao adotar o reflorestamento. Observa-se que na região da Coxilha Rica, grande parte da superfície é considerada tolerável (EMBRAPA SOLOS, 1999), apoiando as criticas que o pinus poderia ser proibido na área, pois independentemente do impacto ambiental, o plantio não se desenvolveria bem.
Na figura 32, em cor azul claro, são apresentadas as regiões no qual o pinus pode preferencialmente ser cultivado com alta tecnologia, ficando clara a necessidade de aplicação de técnicas apropriadas para garantir ao pinus bom desempenho nos solos da região. No entanto, o trabalho da EMBRAPA SOLOS (1999), não descreve sobre o que caracteriza um bom desenvolvimento do pinus, seja em incremento volumétrico, sanidade ou qualidade da madeira.
Figura 32 - Mapa de aptidão dos solos para P. taeda com Alta tecnologia. Fonte: Embrapa Solos (1999)
Desta forma, os mapas de vocação da silvicultura faz uma interlocução - uma representação do interesse do pinus através da qual a espécie poderia expressar seu potencial biológico. Contudo, este potencial refere-se a um conjunto de práticas de manejo adotadas (níveis de manejo) a partir dos quais é possível afirmar que a maior parte do Estado é apta para a ampliação dos plantios. A representação do solo se revela mais do que a razão do potencial de uso florestal da região, mas do resultado da representação deste potencial dado como fato, discutido apenas o seu conteúdo.
No âmbito da tecnologia aplicada à silvicultura, as práticas mais recomendadas são o cultivo mínimo, o abandono da queima dos resíduos, plantio em nível, manutenção de cobertura morta com capina química e roçadas e adubação química ou correção de pH
(GONÇALVES e BENEDETTI, 2000). No entanto, a exclusão técnica de novos reflorestadores, principalmente pequenos produtores, é apontada como a nova fonte de degradação ambiental, visto que não adotam técnicas apropriadas para cada sítio florestal, mesmo que muitas empresas continuem adotando práticas consideradas impactantes.
A superação de alguns limites edáficos poderia ser contornada com a aplicação de insumos de correção da fertilidade do solo, ampliando as áreas preferenciais de cultivo viáveis. Esta diferença quanto às necessidades edáficas das espécies pode ser uma explicação do porque o pinus expandiu-se mais, enquanto os plantios de araucária fracaçavam, uma vez que o pinus tolera níveis de manejo menos intensos que a araucária170. No entanto, apenas a criação de um estado de fertilidade, sem uma correspondente melhoria das condições biológicas do povoamento não são garantias de sucesso no cultivo da araucária, espécie com características sucessionais secundárias, necessidades esclarecidas somente na década de 80, muito depois de se realizaram testes comparativos entre as espécies na década de 50.