3. Å GÅ OM BORD
4.4 D ET SAMSTEMTE / SAM - STENDIGE BLIKK
Neste estudo funcional da linguagem, analisam-se, principalmente, as relações de encaixamento por projeção entre as estruturas oracionais que formam o discurso relatado. Considera-se como “encaixamento” a integração estrutural de uma oração em outra (conforme apresentado na seção anterior) e essa é uma noção essencial para a presente investigação sobre o discurso relatado. Portanto, para explicar o encaixamento entre as orações do discurso relatado, pode-se apresentar a categoria “unidade de informação”, como postulada por Chafe (1994, 1985) e também por Decat (1993, 1999).
Em investigações sobre integração e envolvimento na escrita, Chafe (1982, p. 36-37) focaliza duas diferenças entre os processos da fala e da escrita: (i) a fala é mais rápida que a escrita e (ii) os falantes interagem com os ouvintes diretamente, enquanto os escritores não o fazem. As observações da fala têm conduzido a comprovações de que ela é produzida em jatos, denominados “unidades de informação”, com um comprimento de sentido (incluindo hesitações) de aproximadamente dois segundos ou seis palavras (CHAFE, 1980) e apresentam um pequeno conjunto de estruturas sintáticas. Trata-se de uma propriedade notável e, provavelmente, universal da linguagem. Cada unidade de informação representa um único foco de consciência ou uma única ‘ideia’ nesse sentido. Assim, pode-se dizer que há o hábito de mover-se de uma unidade de informação para a seguinte, na proporção de aproximadamente uma para cada dois segundos. Essa pode ser mesmo a “proporção de pensamentos”, pois a linguagem reflete a rapidez do pensamento que atua enquanto se usa a linguagem.
Na escrita, de acordo com Chafe (1982, p. 43-44), há tempo para moldar uma sucessão de idéias em um todo mais complexo, coerente e integrado, fazendo uso de mecanismos linguísticos. Dessa maneira, pode-se dizer que a morosidade da escrita pode estimular ou promover um tipo de linguagem em que as idéias são combinadas para formar unidades de informação e sentenças complexas. Trata-se do mecanismo denominado integração, que se refere ao ‘empacotamento’ de mais informação em uma unidade de informação que o ritmo rápido da fala normalmente permite.
A unidade informacional típica consiste de uma única oração, contendo um elemento predicativo (um verbo ou adjetivo predicativo) e os sintagmas nominais que são diretamente associados com aquele elemento, por exemplo, sujeito, objeto. Entretanto, a linguagem integrada faz uso de mecanismos para incorporar elementos adicionais em uma unidade de informação, por exemplo, a oração complemento introduzida pelo elemento conjuntivo ‘que’, pois pode haver não apenas a integração de palavras e sintagmas, mas orações completas podem também ser encaixadas. Portanto, a integração é um mecanismo que permite a integração de mais material nas unidades de informação, estimulado pela maior quantidade de tempo possível na escrita.
Os estudos de Chafe (1982) interessam às investigações sobre o discurso relatado, porque podem permitir explicar vários aspectos da estruturação do discurso relatado, isto é, o encaixamento da oração complemento que o compõe. Esses procedimentos lingüísticos podem significar uma tentativa de, em modos específicos, melhor explicitar idéias, criando sentidos para, mesmo à distância, convencer e seduzir o leitor, levando-o a aderir a elas. Pode-
se dizer que são estratégias que têm sido associadas à escrita com resultado no foco sobre o conteúdo.
As unidades de entonação ou informação são “jatos de linguagem” que, segundo Decat (1993, p. 114), foram inicialmente chamados information units por Halliday (1967 apud DECAT, 1993); posteriormente, Grimes (1975 apud DECAT, 1993) chamou-os de information blocks e o termo idea units foi primeiramente usado por Kroll (1977 apud DECAT, 1993) e adotado por Chafe (1980, 1982, 1985).
Muitas unidades de informação, seguindo Chafe (1994, p. 65-66), têm a forma gramatical de orações e muitas outras são partes de orações.
Uma unidade de informação pode declarar a idéia de um evento ou de um estado. Em geral, um evento, tipicamente, envolve uma mudança durante um perceptível intervalo de tempo e pode-se pensar de um evento como algo que acontece – ou algo que alguém faz – uma ação. Um estado envolve uma situação ou propriedade que existe por certo período sem mudança significante e, mais que acontecer, simplesmente existe por um maior ou menor período de tempo.
Como já apontado, uma típica unidade de informação pode ter a forma de uma oração, e como a oração verbaliza a idéia de um evento ou estado, pode-se concluir que cada idéia é ativa ou ocupa um foco de consciência por um breve período tempo, cada um sendo substituído, dinamicamente, por outra idéia em um segundo ou dois. Idéias de eventos e estados são altamente transitórias na consciência ativa e estão, constantemente, sendo substituídas por outras idéias de evento ou estado.
Resumindo essas observações sobre a unidade informacional, pode-se considerar que se trata, segundo Chafe (1985, p. 106), de um jato de linguagem que contém toda a informação que pode ser manipulada pelo falante num único foco de consciência. Isto quer dizer que há um limite quanto à quantidade de informação que a atenção do falante pode focalizar de uma única vez. Estas unidades ou blocos de informação possuem cerca de sete palavras e podem ser identificadas pela entonação (contorno entonacional de final de frase), pela pausa (ou hesitação), mesmo que seja breve, separando-as de outra unidade. Ainda, as unidades informacionais podem se caracterizar como constituindo uma única oração. Estes três fatores não precisam, necessariamente, estar todos presentes na identificação de uma unidade informacional, sendo a entonação (contorno entonacional) o sinal mais consistente para esta identificação e a estruturação sintática é o critério menos necessário.
É possível, segundo Chafe (1994, p. 66), que os escritores objetivem verbalizar um foco de consciência no formato de uma oração, embora sejam, muitas vezes, forçados a estender a oração através de várias unidades de entonação ou informação.
Veja-se a seguinte exemplificação de discurso relatado:
(17) Com relação ao fato de algumas classes de palavras atraírem novos membros e outras desaparecerem da língua, Bybee e Moder (1983) defendem que isso é consequência da profundidade, ou seja, da capacidade que uma classe tem para atrair novos membros ao longo dos séculos. (43, TD, UFMG, 2007 - 56)
No exemplo (17), pode-se perceber que a unidade de informação tem a forma gramatical de uma oração que é parte constituinte de outra. Assim, a oração: que isso é conseqüência da profundidade, ou seja, da capacidade que uma classe tem para atrair novos membros ao longo dos séculos é o argumento interno que se realiza como parte constituinte da oração: (...) Bybee e Moder (1983) defendem; e as duas juntas constituem uma única unidade de informação que compõe, juntamente com as duas outras orações que iniciam este enunciado − que é um complexo oracional: Com relação ao fato de algumas classes de palavras atraírem novos membros // e outras desaparecerem da língua − a oração complexa total. Assim, essas duas orações encaixadas: Bybee e Moder (1983) defendem que isso é consequência da profundidade, ou seja, da capacidade que uma classe tem para atrair novos membros ao longo dos séculos formam uma unidade de informação, relacionada com as duas primeiras orações que a antecedem.
Pode-se dizer que as considerações de Chafe (1994) sobre a forma gramatical da unidade informacional apresentam-se também em concordância com a proposta de Halliday (1985) sobre o processo de projeção no discurso relatado – isto é, por meio da dimensão da unidade de informação pode-se considerar o ambiente de constituência de encaixamento, em que as projeções podem ocorrer.