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Anbefaling 18. Et kompetent utviklings- og analysemiljø bør gis ansvar for
Por ser relevante para o objeto desta dissertação analisar os fatores que possam ter potenciado o despoletar do comércio direto das especiarias por parte dos neerlandeses, volto brevemente ao assunto do abastecimento dos bens de luxo asiáticos à Europa. Entre estes a pimenta ainda detinha um papel de destaque. Sabemos que o provimento dos mercados setentrionais na década de 1590 por via de Lisboa tinha sido perturbado por vários condicionalismos. No entanto, à data existiam vias alternativas de abastecimento à Europa, uma vez que não se tinha conseguido manter o projetado monopólio português de abastecimento das especiarias e da distribuição via Lisboa.
Várias razões concorreram para isso. Um fator relevante prendeu-se com as relações de força em mutação existentes no mundo muçulmano, com as quais Portugal se viu confrontado, e que ultrapassaram o seu poder de intervenção.235 Em primeiro lugar, os portugueses tiveram que manter boas relações com a Pérsia durante a maior parte do século XVI, cuja amizade era necessária para contrabalançar a ameaça turca.236 Por esse motivo, se bem que os portugueses dominassem o comércio marítimo no golfo Pérsico, graças às fortalezas de Ormuz e de Mascate, não puderam fechar completamente aos comerciantes muçulmanos a rota terrestre que aí tinha o seu início. O tráfico em Ormuz manteve-se, continuando os mercadores muçulmanos a aí operar,
233 De Vries, Van der Woude 1997: 168-172 e 507. 234 De Vries, Van der Woude 1997: 167.
235 Sobre este assunto, veja-se Godinho 2009: 275-279. 236 Boxer 1980: 79; Pearson 2007: 98; Costa 2013: 173.
levando as especiarias e drogas da Índia pela antiga rota terrestre de Ormuz a Bassorá e daí via Bagdade e Damasco para Alepo e Trípoli.237 Por outro lado, com o avanço turco em direção ao litoral do mar Vermelho e ao Golfo Pérsico,238 os governantes otomanos reconstituíram as antigas ligações para o Cairo e Alexandria facilitando de novo a abertura da rota das especiarias por esta via. Para isso contaram com a participação de um reino muçulmano em ascensão no extremo oposto do Indico, o poderoso estado de Achém, na ilha de Samatra,239 que alimentou a rota do mar Vermelho através da pimenta proveniente da própria Samatra ou de Java,240 fazendo escala nas Maldivas.241 O comércio de especiarias feito através do mar Vermelho, tendo como destino o pólo distribuidor suportado pela Senhoria veneziana, que nunca tinha sido inteiramente fechado pelos portugueses, voltou assim a ter um notável incremento.242 Em suma, revitalizadas as rotas terrestres, e se bem que a Carreira da Índia conservasse a sua importância,243 a partir pelo menos de 1550244 duas rotas de tráfico de especiarias e bens asiáticos concorriam com a rota do Cabo.245
Como sabemos, após 1590, os holandeses emergiram como principais fornecedores de especiarias no norte da Europa, usando o entreposto de Lisboa. No Mediterrâneo, pela mesma altura, eram os genoveses, que compravam em Lisboa, e os venezianos, que compravam em Alepo ou Alexandria, que dominavam.246 A questão que se põe é, se havia na Europa uma outra possibilidade de abastecimento de bens de luxo asiáticos, que não a portuguesa, e mesmo admitindo que o fluxo não fosse totalmente satisfatório e mais oneroso, por que razão a frota mercante neerlandesa não procedeu à exploração da rota para o Mediterrâneo? Seria de esperar que os mercadores vindos de Antuérpia e agora instalados em Midelburgo e Amesterdão mantivessem relações comerciais com a senhoria de Veneza e as cidades portuárias italianas. E se depois de 1590 o entreposto de Lisboa se afigurava cada vez mais deficitário e de difícil acesso, o Mediterrâneo poderia constituir uma alternativa plausível para o provimento
237 Godinho 1982 vol.3: 132-133; Subrahmanyam 1995: 107-108.
238 Os Turcos Otomanos conquistaram a Síria e o Egito entre 1514 e 1517, ocuparam a maior parte do
Iraque em 1534-1535, conquistaram Adem em 1338 e Bassorá em 1546. Sobre este assunto, veja-se Godinho 1982 vol.3: 111-114 e 128.
239 Sobre este assunto, veja-se Lobato 1999: 60-61 e 173-174. 240 Pinto 1997: 97-98; Disney 2011: 249.
241 Costa 2002: 19. 242 Witteveen 2002: 15.
243 Disney 2011: 249-250. Sobre este assunto cf. supra o capítulo 1, ponto 3. 244 Disney 2011: 249.
245 Godinho 2009: 338. 246 Israel 1989: 56.
de especiarias aos mercados setentrionais. Certamente menos demorado e dispendioso do que a volta pela rota do Cabo.
Na realidade, a procura das especiarias na Europa durante o século XVI tinha duplicado.247 Na Europa do Norte e do Leste, o seu consumo continuou sempre a aumentar. Na Holanda, em 1697, ainda se considerava que as melhores mercadorias para «os países frios» eram as especiarias, consumidas em quantidades prodigiosas na Rússia e na Polónia.248 As cidades italianas não conseguiram suprir este deficit, nem após o breve ressurgimento das rotas terrestres, e os preços não paravam de subir.249 Apesar da produção de especiarias na Ásia também tivesse duplicado, o aumento dos preços, por seu lado, chegou a triplicar.250 Admitindo que esta seria uma questão de oferta e procura, e que o comércio direto neerlandês com o Mediterrâneo poderia potenciar um maior fluxo de especiarias por esta via e, por consequência, a uma redução do seu preço à chegada, outro fator perfilou-se na década de 1590 que levou os neerlandeses a privilegiar a procura por meios próprios dos locais de produção das especiarias na Ásia, tal como os portugueses o haviam feito.
Por 1595, existia já um longo acumular de experiências de pilotos e tripulações neerlandesas ao serviço dos portugueses e espanhóis. Mas estariam os seus pilotos dotados do necessário material cartográfico? Por esta altura, as informações estavam ao alcance de muitos. Já nos finais do reinado de D. João III, as praças europeias eram perfeitamente conhecedoras das condições em que funcionava o tráfego português com o Índico251 e as informações técnicas circulavam entre os especialistas europeus.252 Quando finalmente os holandeses e zelandeses começaram a navegar para fora das suas rotas habituais na Europa, fizeram uso dessa experiência e de material de navegação e cartografia de origem portuguesa, de que dispunham.253 Este saber fazer técnico foi determinante e deu aos neerlandeses a confiança necessária para empreender o projeto.
Convém, no entanto, referir, que o poder dos portugueses no Índico na década de 1590 não tinha, de todo, desaparecido. Da leitura dos autores utilizados para a análise efetuada sobre o comércio intra-asiático, concluiu-se que este constituía para os
247 Boxer 1980: 80; Godinho 1982 vol.3: 173. 248 Braudel 1992: 189-190.
249 Israel 1989: 56; sobre o assunto do valor da pimenta na Casa da Índia, veja-se Costa, Lains, Miranda
2011: 112, quadro nº 10.
250 Boxer 1980: 80; sobre este assunto, veja-se Godinho 1982 vol.3: 183-190. 251 Rau 1984a: 217.
252 Sobre este assunto cf. infra o capítulo 3, ponto 2.1. 253 Emmer, Gaastra 1996: Introdução xviii.
portugueses uma mais-valia apreciável e aí se encontravam muito bem implantados. Pelo que o processo de consciencialização da oportunidade de negócio e da viabilidade técnica até à concretização da primeira viagem foi gradual e cauteloso.