• No results found

Num documento conservado no Tombo A da Catedral de Santiago (Lucas Alvarez 1998, 152-4, doc. 64), Alfonso V agrega a Diocese de Tui à de Iria-Compostela, devido ao estado de degradação da primeira por motivo das incursões nórdicas. Desconhece-se a data exacta dos acontecimentos, mas é possível estabelecer o terminus ante quem em 1024, ano de que data o documento. A tradição académica tem colocado o ataque algures entre os anos de 1008 e 1015 e atribuído a sua autoria a Óláfr Haraldsson. A passagem pela costa ibérica daquele que viria a ser rei e santo padroeiro da Noruega é referida no capítulo 18 da Historia Norwegie (Ekrem & Boje Mortensen 2003, 100-3), no capítulo 27 do Fagrskinna (Finlay 2004, 135-6) e na Óláfs saga Helga, capítulo 17, no Heimskringla de Snorri Sturluson (Hollander 1964, 257-8). Esta última fonte contém citações do poema skáldico Víkingarvísur, composto pelo islandês Sigvatr Þórðarson no século XI.

O documento de 1024 é fiel à visão providencialista da História, atribuindo os ataques vikingues aos pecados dos homens (Post non longum vero tempus, crescentibus hominum peccatis, gens Leodemanorum pars maritima est dissipata), mas a descrição do sucedido em Tui é parca em detalhes ou não estivessemos a falar de uma narrativa introdutória ao verdadeiro objectivo do documento. O texto conta que os nórdicos atacaram Tui (quoniam Tudensis sedis ultima pre omnibus sedibus et infima erat) e capturaram o bispo da cidade juntamente com todos os seus (eius episcopus qui ibi morabatur cum omnibus suis ab ipsis inimicis captiuus ductus est), supondo-se por isso os restantes clérigos e eventuais servos. Outros foram mortos ou vendidos (et alios occiderunt, alios vendiderunt necnon) e a cidade foi devastada,

178

ficando em ruínas ou reduzida em dimensão por muitos anos (et ipsam civitatem ad nichilum reduxerunt, que plurimis annis vidua atque lugubris permansit). Segue-se, na narrativa, a notícia da expulsão dos nórdicos, descrita como o partir de pescoços dos inimigos (ipsorum inimicorum cervices fregimus), mas com o auxílio da Graça Divina que, aos olhos da época, permitiu a derrota dos vikingues. O estado de degradação da cidade, que é referida como suja, contaminada e alheia à ordem religiosa, ditou a impossibilidade de a restabelecer. Consequentemente, o rei agregou a Diocese de Tui à de Iria-Compostela, no pressuposto, ao que parece, de que a primeira fazia parte da província presidida pela última (necessarium duximus et bene previdimus ut assaet coniuncta apostolice aule, cuius erat provincia). Incluída com a diocese estavam, naturalmente, as suas propriedades, entre elas a igreja de São Bartolomeu, que é destacada no documento (civitatem Tudensem cum ecclesia ibi fundata in nomine Sancti Bartolomei apostoli).

É este o conteúdo essencial do texto no que diz respeito aos vikingues. A informação não é menor, pelo menos quando comparada com o grau de detalhe de outras fontes medievais, mas está longe de ser ideal, deixando-nos com um conjunto de questões sem resposta. Não nos permite, por exemplo, perceber se a destruição de Tui se ficou a dever a um único e violento ataque ou a uma sucessão deles, culminando na captura do bispo e derradeiro saque da povoação. A narrativa tanto pode estar a referir-se a acontecimentos das primeiras décadas do século XI como a compactar em poucas palavras pelo menos cem anos de actividade pirata, desde os dias de Nausto até à destruição de Tui. Da mesma forma, também não sabemos a data exacta do episódio. Manuel Cecilio Díaz e Daría Vilariño Pintos falam de um bispo Alfonso como o que foi raptado pelos vikingues, embora não indiquem fontes que o sustentem (2002, 545). Flórez, no entanto, concordaria com eles (1798, 61) e, conforme já indicado pelo mesmo augustiniano setecentista, o documento que refere a fuga de Nausto (Flórez 1798, 250-3, apêndice II), já analisado por nós no capítulo anterior, refere que a Diocese de Tui permaneceu sem bispo após a morte de Alfonso (Mortuo autem Adefonso Episcopo seditiones & præla multa in terra certa evenerunt, & Sedis Tudensis longo tempore sine Pastore permansit). Lopez Alsina nota ainda a existência de um documento de 19 de Setembro de 1022, onde Suero, o Bispo de Lugo, surge também como o de Mondonhedo, Ourense e Tui (2004, 63). Isto quer dizer que a agregação a

179 Compostela limitou-se a reorganizar uma solução de recurso num ocidente ibérico que, além de padecer dos efeitos das campanhas de Almançor, sofria ainda com as incursões nórdicas. E quer também dizer que a cidade já estaria em ruína e sem bispo dois anos antes de passar para a esfera de Santiago. Mas isto permite apenas reduzir um pouco o terminus ante quem e não datar ao certo o ataque. A identificação de Alfonso como o bispo que foi feito prisioneiro pelos vikingues só permite colocar a destruição de Tui algures nos primeiros vinte e dois anos do século XI, dado supor-se a existência de um prelado tudense de nome Pelágio no final da centúria anterior (Cecilio Díaz & Vilariño Pintos 2002, 545), do qual Flórez nada diz, mas limita-se a listá- lo (1798, 58).

Outro elemento com a sua dose de incertezas é o alcance do saque levado a cabo pelos vikingues. A questão nasce da referência explícita do documento à igreja de São Bartolomeu, a única a ser indicada por nome numa menção genérica às posses (e dívidas) da Igreja Tudense (sociorum eius cum omnibus debitis atque diocesis seuis ecclesiis, villis atque prestationibus cunctis). López Alsina acredita que a passagem mostra que, ao contrário da igreja catedral de Tui, a do Mosteiro de São Bartolomeu encontrava-se em bom estado ou, pelo menos, o suficiente para vir a ser habitada pelo bispo da cidade, uma vez restabelecida a diocese em 1067 (2004, 65-6). E, de facto, há dois documentos de 1071 que parecem indicar a presença do prelado em São Bartolomeu (Vila-Botanes 2009, 21-2) e até de um concílio na mesma igreja em 1118 (Cendón Fernández 1994, 200). O dito mosteiro foi, por isso, a sede da Diocese de Tui após a destruição da cidade pelos vikingues e até à transferência para uma nova catedral, mas é difícil imaginar que tenha escapado ao ataque dos nórdicos. O motivo para a nossa dúvida é a sua localização geográfica, a cerca de um quilómetro do centro histórico de Tui e próxima do rio Minho. Dado que a pilhagem da povoação e captura ou morte de clérigos e habitantes implica que os nórdicos dominaram de alguma forma o terreno, por oposição a um ataque breve de sucesso limitado, não é fácil acreditar que um mosteiro literalmente ao lado da cidade pudesse ter escapado.

Talvez tenhamos que admitir outra hipótese, nomeadamente a de que a igreja de São Bartolomeu foi também ela vítima do saque nórdico. Não é possível dizer quais os danos sofridos pelo edifício, mas não é impossível que tenha sido pelo menos parcialmente abandonado. A notícia da presença de um bispo no local surge décadas

180

depois do documento de agregação da diocese, o que quer dizer que isso, por si só, não é suficiente para demonstrar que São Bartolomeu sobreviveu à investida vikingue. Quando muito, pode afirmar-se que a estrutura terá resistido melhor, dado que o bispo residiu no mosteiro e não na antiga igreja catedral. Ou então a primeira era simplesmente mais fácil de reconstruir do que a segunda. Porquê, então, a referência explícita a São Bartolomeu no documento de 1024? O facto talvez esteja relacionado com o significado ou, nas palavras de López Alsina, o vínculo especial que aquela igreja tinha com a Diocese de Tui (2004, 66). A ideia foi concretizada por Suso Vila-Botanes, que indica a possibilidade de, no século VI, São Bartolomeu ter sido residência episcopal, quando havia dois bispos tudenses, um ariano e outro católico (2009, 22). Por outras palavras, um mosteiro especial no meio das propriedades da Igreja de Tui e, dessa forma, passível de ser destacado no documento de agregação.

Pouco mais há a retirar do texto de 1024. Não é certo qual o destino do prelado capturado pelos vikingues, embora Manuel Cecilio Díaz e Daría Vilariño Pintos suponham a sua libertação (2002, 545), não se sabe em que condições. A tradição académica, no entanto, parece ter poucas dúvidas quanto à autoria do ataque, que é frequentemente atribuído a Óláfr Haraldsson23, e quanto à data da investida, geralmente colocada entre os anos de 1012 e 1015, embora haja quem também tenha sugerido 1008. É extensa a lista de autores e estudiosos que, de uma forma ou outra, têm apoiado a teoria, mas refira-se os seguintes exemplos: Saavedra Machado, que não hesitou em relacionar o documento de 1024 com o ataque ao Castelo de Vermoim (1931, 13-4); Fernando Fulgosio (1867, 39) e Dozy (1987, 51-3), que indicam o ano de 1012; Isidro Gonzalo Bango Torviso (1979, 15) e Hipólito Sá Bravo (1983, 290-2), que atribuem ao episódio o ano de 1014; Francisco Singul Lourenzo (1999, 52) e Eduardo Morales Romes (2004, 201-4), que sugerem 1014 ou 1015; Vicente Almazán (1986, 112-3; 2002, 110-1; 2004, 48-51), que atribui ao ataque datas que vão de 1008 a 1015; Alexandro Requejo Buenaga (1933, 108) e Manuel Vilar Álvarez (2008, 304), que não oferecem ano para a destruição de Tui; López Alsina (2004, 61-3), que sugere o período entre 1008 e 1013 ou, em alternativa, 1013 e 1016, e é em parte seguido por Suso Vila-Botanes (2001, 7; 2009, 20), que data a expedição de Óláfr Haraldsson de 1015. A popularidade da teoria e a facilidade com que é mencionada por alguns

181 estudiosos, como se de um facto se tratasse, dão a entender que a passagem por Tui daquele que viria a ser Rei da Noruega é quase uma certeza confirmada por mais de cem anos de tradição académica. Mas a realidade é bem diferente e não é fácil encaixar a narrativa contida nas fontes nórdicas com os dados que se tem para o ocidente da Península Ibérica.

O relato mais completo encontra-se no Heimskringla, cujo capítulo 12 da Óláfs saga Helga faz coincidir a chegada a Inglaterra da personagem principal com a morte de Sveinn tjúguskegg, que faleceu em 1014 (Hollander 1964, 251). Ao regressar para retomar o seu trono, Æthelred recruta Óláf Haraldsson, que ataca locais como Londres e Canterbury e assume o papel de defensor de Inglaterra contra os exércitos dinamarqueses (Hollander 1964, 252-6). Só parece deixar o território inglês após a morte de Æthelred, navegando para sul, diz o capítulo 16 (Hollander 1964, 256). O que se segue é uma breve narrativa dos seus feitos militares a sul do Canal da Mancha com abundantes citações de poesia skáldica: atacou a fortificação de Hól, depois um local chamado Gríslupollr, seguindo-se Viljámsbœr e ainda batalhas em Fetlafjörðr, Seljupollr e Gunnvalsborg, onde fez prisioneiro Geifiðr, que seria o conde local e pelo qual foi pago um resgate (Hollander 1964, 256-8). O capítulo 18 diz que quis ir até ao Estreito de Gibraltar e de lá para Jerusalém, mas um sonho leva Óláfr a dar meia volta com a promessa de que seria Rei da Noruega. Durante a viagem, tem ainda tempo de pilhar território francês e, segundo o capítulo 20, de passar o Inverno na Normandia (Hollander 1964, 259). Neste ponto, a narrativa volta atrás no tempo, até à queda de Óláfr Tryggvason, para dar contexto ao regresso de Óláfr Haraldsson à Noruega, que surge apenas no capítulo 29. Já o relato do Fagrskinna é mais breve, mas idêntico, no essencial, ao do Heimskringla. No capítulo 27, surge a batalha em Londres, o apoio a Æthelred e a vitória em Canterbury, com citações poéticas à mistura, até chegar a uma lista de ataques semelhante à apresentada por Snorri Sturluson, mas sem citar o poema de Sigvatr Þórðarson: Hœli, Gríslupollr, Fetlafjörðr, Seljupollr e Gunnvaldsborg, incluindo o conde Geifiðr, seguindo-se Karlsáróss e o desejo de atravessar o Estreito de Gibraltar (Finlay 2004, 134-6). Depois dá-se uma revelação divina, meia-volta rumo ao norte, pilhagem em França, a estadia na Normandia antes de um regresso a Inglaterra e, de lá, à Noruega. Uma versão bastante resumida e diferente surge na Historia Norwegie, onde, no capítulo 18, Óláfr Haraldsson é apresentado como companheiro

182

de Sveinn e Knútr nas campanhas em Inglaterra, de onde ele a dada altura parte para a Bretanha e de lá para a Península Ibérica, antes de rumar à Dinamarca e regressar a Inglaterra na companhia de Knútr (Ekrem & Boje Mortensen 2003, 100-3).

As diferenças entre as fontes nórdicas são uma dificuldade mais aparente do que real, mas o problema ganha contornos mais vincados quando se traduz em datas a narrativa do Heimskringla. De Óláfr Haraldsson é dito que ele só deixou Inglaterra após a morte de Æthelred, que a Crónica Anglo-Saxónica data de 1016 (Garmonsway 1972, 148) e, mais à frente, no capítulo referente à estadia na Normandia, é indicado que, por aquela altura, tinham passado treze anos sobre a queda de Óláfr Tryggvason. Ora, este último monarca norueguês morreu por volta do ano 1000 e Óláfr Haraldsson foi Rei da Noruega a partir de 1015 (Krag 2008, 647), o que quer dizer narrativa do Heimskringla tem um problema cronológico: se, por um lado, oferece 1016 como marco (o falecimento do rei inglês), por outro diz que a personagem principal da saga estava na Normandia naquilo que teria que ser o ano de 1013 (treze anos depois da morte de Óláfr Tryggvason). Já o Fagrskinna encontra-se livre desta contradição, na medida em que não faz coincidir a partida de Inglaterra com a morte de Æthelred e diz que, aquando da estadia na Normandia, tinham passado catorze anos sobre a morte de Óláfr Tryggvason (Finlay 2004, 136), o que coincide com a cronologia geralmente aceite. Este último compêndio permite, por isso, sugerir o ano de 1014 como a data provável para uma eventual viagem até ao Estreito de Gibraltar antes de uma chegada a Rouen. E a Historia Norwegie vai no mesmo sentido, já que coloca uma expedição à Península Ibérica entre a morte de Sveinn, que ocorreu em 1014, e o regresso de Knútr a Inglaterra em 1015.

Podemos, é claro, pôr em causa a credibilidade destas fontes nórdicas ou, pelo menos, do episódio ibérico de Óláfr Haraldsson. É uma hipótese real à qual daremos atenção mais à frente, mas, por agora, vamos dar crédito aos textos e analisar as possibilidades que eles nos oferecem. E começamos por pôr de parte a teoria que chegou a ser indicada por López Alsina, de que Tui corresponde à Gunnvaldsborg do poema de Sigvatr Þórðarson (2004, 61-2). A hipótese assenta numa relação entre o topónimo (fortificação ou cidade de Gunnvald) e o conde Mendo Gonçalves, levando o estudioso em causa a sugerir que a povoação é referida pelo poeta islandês de acordo com o patronímico do nobre que estava responsável pela sua defesa

183 (Gunnvald/Gonçalves). A teoria é interessante, mas sofre de dois problemas. O primeiro é a discordância entre o relato nórdico e o do documento de 1024, na medida em que o primeiro fala da captura de um conde Geifiðr e segundo da do bispo da cidade, provavelmente Alfonso. López Alsina apercebe-se da falha e sugere que, a admitir-se a concordância entre as duas fontes, teríamos que acrescentar o cativeiro de um nobre ao do bispo. A solução é criativa, mas pouco convincente, quanto mais não seja porque não resolve o segundo problema: o da discordância entre a data provável da expedição de Óláfr Haraldsson e a da morte de Mendo Gonçalves – 1014 e 1008, respectivamente. Pelo mesmo motivo, podemos também excluir a possibilidade de o mesmo líder nórdico ter conduzido o ataque de nove meses entre o Douro e Ave, uma vez que este durou até à Primavera de 1016, altura em que Óláfr Haraldsson estaria já na Escandinávia.

O passo seguinte é tentar fazer corresponder os topónimos no poema de Sigvatr Þórðarson com locais na costa galego-portuguesa, mas a tarefa não é fácil. São eles, recordemos: Hól, Gríslupollr, Viljámsbœr, Fetlafjörðr, Seljupollr e Gunnvaldsborg, a que pode acrescentar-se Karlsáróss/Karlsá, de acordo com a prosa do Fagrskinna e do Heimskringla. Estão todos entre a partida de Óláfr de Inglaterra e a sua aproximação ao Estreito de Gibraltar, o que dá a entender que pelo menos alguns deles estavam localizados no oeste ibérico. De Hól já se sugeriu tratar-se de Dól, na Bretanha, o que parece ir ao encontro do relato de Guilherme de Jumiègues, que refere um Óláfr ao serviço de Ricardo II da Normandia contra o Conde de Chartres (Finlay 2004, 135, n. 379). E depois entramos no campo das tradições académicas, sucessivamente repetidas, mas pouco questionadas: desde o século XIX que se propõe a identificação de Gríslupollr com Castropol, nas Astúrias, Viljámsbœr com Villamea, já na Galiza, Fetlafjörðr com Betanzos ou a Corunha e Seljupollr com A Guarda (Anexo 9), na foz do rio Minho (Kristoffer Fabricius 1892, 6). Ao que parece, por nenhum motivo em especial para além da semelhança fonética e do conhecimento geral de que há registo de incursões nórdicas em território galego durante as primeiras décadas do século XI. A base frágil da teoria, no entanto, não impediu a sua perpetuação em trabalhos posteriores, por vezes sem grandes considerações críticas. Sánchez Pardo é disso exemplo (2010, 72-3), tal como Morales Romero (1997, 136; 2004, 204), que sugere para Gunnvaldsborg uma ligação com qualquer conde galego chamado

184

Gonçalo, mas sem especificar. Ferreiro Alemparte, por sua parte, vê em Seljupollr o rio Minho e em Gunnvaldsborg uma referência a Tui (1999, 50-6). Mas poucos parecem ter ido tão longe quanto Almazán que, ao traduzir parte do capítulo 17 da Óláfs saga Helga, não teve problema em substituir os topónimos originais pela equivalência proposta no século XIX (1986, 113). E isto apesar de afirmar que a identificação não é tarefa fácil nem certa e referir a tese de Unger, editor norueguês do Heimskringla que, em 1868, sugeriu para todos os topónimos em questão uma localização francesa (1986, 114). Ainda assim, o exemplo da tradução de Almazán parece ter frutificado e acabou por ser seguido por Araceli Otero Fernández (2002, 84-6). E isto dá uma ideia do quanto aquilo que é apenas uma hipótese, ainda por cima de base dúbia, pode ser aceite como certa quando é acriticamente repetida, em deterimento do conhecimento e investigação da História. Quanto a Karlsáróss/Karlsá, Morales Romero sugere o Gualdalquivir, já na Andaluzia (2004, 204), embora Lee Hollander, editor do Heimskringla, tenha indicado essa possibilidade para Seljupollr (1964, 257, n. 2). O Fagrskinna dá a entender que se trata de um curso de água ao referir que, em Karlsáróss, Óláfr Haraldsson levou a cabo pilhagens nos dois lados do rio (Finlay 2004, 135).

O caso de Karlsáróss/Karlsá não é o único exemplo de existência de teorias alternativas. Já referimos o caso de Unger, em 1868, e também já foi recuperada a proposta de localização de Viljámsbœr na costa sul de França por referência a Guilherme V da Aquitânia, que terá combatido vikingues durante o período. A questão imediatamente gerada é a da localização de Gríslupollr, que teria assim que ser em território francês, mas não parece haver resposta para o problema (Jesch 2001, 84). Ainda assim, este caso demonstra que nem todos os estudiosos concordam com a identificação dos topónimos na Península Ibérica e é indicativo da fragilidade da teoria tradicional ou de qualquer outra que lhe suceda. A informação contida no poema e nos compêndios é demasiado vaga e a etimologia dos topónimos também não é necessariamente reveladora. Será Gríslupollr a Lagoa do Porco (de gríss e pollr)? Fetlafjörðr o Fjord ou Enseada das Cintas (de espadas ou escudos; de fetill e fjörð)? Seljupollr a Lagoa do Salgueiro (de selja e pollr)? E, a serem correctas estas interpretações, até que ponto elas são úteis na identificação dos locais? Estamos a lidar com traduções de topónimos galego-portugueses ou com nomes gerados por