5. DRØFTING
5.1 Et inkluderende kunnskapsgrunnlag?
As entrevistas-narrativas foram realizadas entre os meses de abril e setembro de 2011. Os colaboradores, inicialmente, foram orientados em relação ao objetivo do estudo. Houve a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para os participantes e o esclarecimento de suas eventuais dúvidas. Diante da concordância em relatar a sua experiência de depressão e deste relato ser gravado, o documento foi assinado. Este estudo teve seu projeto (CEP nº 2782011) avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Foram realizadas duas entrevistas com cada participante. Ao final da realização da primeira entrevista, sentimos necessidade de mais um encontro para um maior
aprofundamento da experiência de depressão. Assim, os participantes foram questionados sobre sua disponibilidade para um segundo encontro, o que foi concordado por todos. A segunda entrevista aconteceu alguns dias após a realização da primeira e o material completo gerou uma boa qualidade do relato da experiência de depressão. As entrevistas não tinham duração pré-determinado e variaram entre 45 minutos e 1 hora e 45 minutos.
Realizar mais de uma entrevista com os colaboradores, me pareceu muito positivo, na medida em que propiciou uma relação mais íntima, à vontade, e um ambiente favorável a uma maior abertura da narrativa de suas experiências íntimas e dolorosas. Além da maior proximidade conquistada, os dois encontros permitiram explorar o mundo vivido na depressão de diferentes maneiras e me aproximar mais do modo de ser-no-mundo de cada participante, ou seja, me foi possível compreender com mais clareza as relações que estabelece, os sentidos que atribui ao seu mundo, bem como o modo como é solicitado e interpelado pelo mundo (Heidegger, 2009b).
A pesquisa de campo não se restringiu às entrevistas, mas também às visitas realizadas ao Ambulatório de Saúde Mental e ao Hospital Psiquiátrico. As observações realizadas em campo foram usadas, eventualmente, na interpretação dos dados, a fim de enriquecer a discussão. O Ambulatório de Saúde Mental contatado é um serviço vinculado à Secretaria Municipal de Saúde de Natal. O hospital psiquiátrico é composto, principalmente, por pessoas de baixa renda, cerca de 80% dos pacientes possuem convênio com o Sistema Único de Saúde e também da iniciativa privada. Apesar de o objetivo da instituição ser a internação hospitalar no momento da crise, existem alguns casos, em que os pacientes permanecem por mais tempo, como no caso de nossa entrevistada.
A entrevista-piloto foi incluída nesta pesquisa e se mostrou de suma importância para nós, enquanto pesquisadores, no sentido de nos familiarizarmos com a experiência vivida de
depressão, avaliar a pertinência da pergunta disparadora, bem como para contribuir na construção de questões norteadoras.
As entrevistas-narrativas foram conduzidas por meio de uma questão norteadora e subdividida em outras questões de pesquisa. A questão inicial solicitava que o entrevistado contasse um pouco de sua história. De acordo com Szymanski (2002, p. 27) a mesma deve ser “o ponto de partida para o início da fala do participante, focalizando o ponto que se quer estudar e, ao mesmo tempo, ampla o suficiente para que ele escolha por onde quer começar”. Tal instrução tem como finalidade proporcionar a descrição do fenômeno estudado, ou seja, que os entrevistados relatem sobre as suas experiências de depressão.
A pergunta disparadora desta pesquisa foi: “a partir de sua experiência, como é,
para você, estar em depressão?”. Tal questionamento inicial possibilitou uma livre narrativa
e a emergência do fenômeno, do vivido, ou seja, tornou possível o aparecimento do novo, do ainda não teorizado. Outras questões de pesquisa também foram levantadas ao longo das narrativas e se referia a: as histórias de vida das pessoas em depressão e suas possíveis
relações com o desenvolvimento da patologia; como é a vivência da depressão diante das altas cobranças sociais pela felicidade, produtividade, consumo e adequação aos padrões de beleza; como as pessoas ao redor lidam com a depressão.
As intervenções feitas foram no sentido de retomar a experiência e o sentido singular atribuídos pelos participantes ao fato relatado, estimular a sua fala e esclarecer algum ponto.
Tais questões norteadoras foram construídas tomando como referência a literatura consultada na perspectiva da fenomenologia-existencial e a entrevista-piloto realizada. Triviños (2007) coaduna com tal idéia e afirma que as perguntas de pesquisa, em um enfoque qualitativo, não surgem a priori, na medida em que são resultados da teoria que
embasa o pesquisador, bem como de informações que este colhe, a partir de seus contatos iniciais em campo.
As questões mencionadas indagam sobre o vivido, ou seja, sobre a experiência da pessoa em relação ao fenômeno pesquisado. O papel do pesquisador é facilitar o contato do colaborador com sua própria experiência, a partir do encontro que se instaura na relação. Tal relação pressupõe uma abertura dos envolvidos à experiência, o narrador revela sua experiência para o pesquisador, que, por sua vez, é tocado por essa experiência.
Devemos enfatizar que na perspectiva metodológica adotada, a postura do pesquisador é de pura abertura à vivência do colaborador da pesquisa e não de confirmação das idéias encontradas na literatura especializada. Assim, mesmo tendo em vista tais descrições do mundo vivido do sujeito depressivo, estamos abertos para encontrar e ouvir vivências diferentes das apontadas na revisão de literatura.
Triviños (2007) adverte que um requisito essencial do investigador é sua flexibilidade para conduzir o processo de pesquisa. Ele expõe que o pesquisador deve ter conhecimento amplo e profundo acerca da temática de estudo, a fim de possibilitar a movimentação intelectual adequada diante das circunstâncias que se apresentam.
Triviños (2007) defende que a pesquisa qualitativa de cunho fenomenológico não segue uma seqüência rígida de etapas. Não há, por exemplo, uma separação rígida entre as etapas de coleta e de análise dos dados: “as informações que se recolhem, geralmente, são interpretadas e isto pode originar a exigência de novas buscas de dados” (p. 131). Com isso, a pesquisa qualitativa se reformula constantemente, as informações são reunidas, analisadas e interpretadas, e tais interpretações podem exigir o levantamento de novos dados. Por vezes, o pesquisador é solicitado a investigar outros aspectos do fenômeno investigado,
realizar novas entrevistas, ou seja, encontrar outros caminhos mais favoráveis à consecução da pesquisa.
De fato, nesta pesquisa, as etapas de entrevista e de análise foram realizadas simultaneamente, ou seja, à medida que as entrevistas eram realizadas, também eram transcritas e interpretadas de forma preliminar.
Na perspectiva da pesquisa fenomenológica, o pesquisador não age como um observador neutro que “colhe” os dados do entrevistado e que os analisa e os interpreta de forma lógica. Pelo contrário, segundo Dutra (2002), o pesquisador participa em todas as suas dimensões existenciais, como profissional e como pessoa. Ele existe, no momento da entrevista, como ser-com. A experiência narrada toca a experiência do pesquisador. Sua disposição afetiva está atuante naquele momento, não sendo possível o pesquisador se colocar como alguém indiferente ao que está ocorrendo. Ele vive ali, existe na experiência do outro, que se articula com a sua própria experiência.
Por mais que tenhamos estudado bastante sobre a temática da depressão, não conhecemos a experiência de depressão dos colaboradores. Nesta perspectiva, invertem-se as relações pesquisador-pesquisado, pois, aqui, não é o pesquisador que possue o saber e a verdade sobre o assunto, mas o colaborador da pesquisa. E, na medida em que buscamos ir além dos sintomas imediatamente observáveis em direção aos sentidos da experiência, devemos indagar aos colaboradores sobre sua experiência, sobre seu vivido, que, por sua vez, não pode ser recortado e isolado, pois se refere a uma totalidade, a uma trama de sentidos.
Na pesquisa fenomenológica, consideramos a relação intersubjetiva construída entre pesquisador-pesquisado de suma importância no momento da entrevista. Pensamos que cada relação construída é única e singular. Tal relação permite ao colaborador abordar um assunto
e não outro, de uma determinada maneira e não de outra, pois cada colaborador narrou sua experiência a pesquisadora, em um dado momento pessoal e de uma determinada maneira, enfatizando alguns aspectos em detrimentos de outros. Como bem pontua Dutra (2002) “naquele momento a experiência ganha um novo formato e se revela de acordo com o total da estrutura existencial das pessoas envolvidas” (p. 377).