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5 DISCUSSION

5.2 R ESULTS OF THE READING TASKS

Capacitação e perfil – Frase 01: É necessária a criação de espaços de atendimento psicológico para as(os) profissionais das Redes de Atendimento. (Brasil, 2006c, p. 42).

Nessa frase houve concordância de todas as psicólogas de que há essa necessidade, contudo algumas se questionam como seria operacionalizado, como Macela:

Que é necessário, que seria bom, seria. Não sei como isso se daria na prática, entendeu? [...] é importante que os profissionais, sejam eles psicólogos ou não, tivessem acompanhamento psicológico, isso é importante. Tanto os psicólogos quanto os outros colegas da rede. Agora a criação desse espaço eu não sei como seria. [...]... Eu dou um exemplo, bem assim, e acaba sendo um exemplo pessoal. Se a gente pensar que uma a cada três mulheres já sofreu uma situação de violência, então quer dizer que se na minha equipe eu tenho vinte mulheres, se eu for dividir quantas já passaram pela situação de violência? Então é uma condição de atendimento. Então, é supernecessário, [...] ela vai ouvir aquele

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relato, aquele testemunho, vai tá naquele atendimento e isso chega uma hora que isso resvala, bate. Você tem que ter o espaço, pra falar, pra tá do outro lado na condição de ser atendido, de poder se fortalecer, de poder se ouvir, de poder falar sobre a impressão que essa outra mulher te causa. Então, assim, seria muito importante. Eu não sei como seria isso. Ia cair também na mesma coisa. Ia ter, sei lá, muitos iam desejar, iam querer e poucos iriam fazer. Então, seria muito bom, mas se não a criação de um espaço de atendimento, tá promovendo espaços de cuidado pra equipe. Então é... ter alguém então de fora que pudesse fazer algum trabalho, promover um espaço de cuidado com o profissional da psicologia que eu acho que ia ser bacana, mesmo que fosse de uma outra forma. Às vezes, não dá pra criar um espaço, mas se não dá pra criar um espaço, o que poderia ser feito? Ou até a liberação daquele profissional na sua carga horária pra poder fazer uma atividade nesse sentido. Então, por exemplo, eu tenho uma carga horária de quarenta [horas]. Eu sou liberada um período pra fazer terapia, aí eu já acho uma iniciativa interessante, entendeu, da parte da coordenação, entendeu? Que você tenha um espaço garantido pra você se cuidar. Então, não sei se seria... Eu acho que é bom, mas... [...] Como operacionalizar? É o único questionamento. Eu concordo que tenha, mas eu acho que é bem difícil. (Macela).

As psicólogas destacam ainda que as profissionais da psicologia – entendendo que estas fazem parte da rede – precisam também ser cuidadas, precisam ter espaços para preservar sua saúde psíquica, assim como as demais mulheres da equipe: “tem muitos que são vitimas, vão até, às vezes, de olho roxo trabalhar lá no centro de referência. A gente vê muito isso assim” (Gardênia), e que é preciso um trabalho estruturado e planejado de apoio às equipes, como destaca Açucena:

Quem trabalha precisa se cuidar. Tem que ter alguma forma pra ter essa, essa válvula de... Essa válvula de escape, [...] Não sei se tem um espaço específico, mas os profissionais precisam procurar essa ajuda. Não se criar esse espaço, mas que ele encontre uma maneira de também ter esse atendimento pra que a gente não leve... Porque são histórias muito doloridas. [...] eu digo: é muito difícil trabalhar aqui. Nós estamos sendo guerreiras. Mas os guerreiros cansam, eles precisam também de um descanso. Não dá pra ficar guerreando pra sempre, a gente precisa ter um momento de descanso. No momento estamos com vitalidade, estamos fortes, mas daqui a algum tempo a energia vai embora. [...].

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Ah, não é o psicólogo que faz? Não é fazer um grupo, fazer uma dinâmica. Gente, não é isso! A coisa vai muito, muito, muito além. Isso é muito distante. Fazer num momento de descontração. Isso, isso é uma grande confraternização. [...] mas a essência do trabalho mesmo é... Precisa-se fazer um trabalho inicial e continuado. Não adianta só fazer uma coisa pontual. Tem que ser um trabalho continuado. (Açucena)

Machado (2004) destaca que, apesar de não haver estudos específicos com profissionais da psicologia que trabalham com violência conjugal, há vários estudos que apontam que realizar psicoterapia com populações vitimadas é “... potencialmente exigente ou desgastante.” (p. 407). A autora apresenta ainda que os profissionais que atuam nessas situações de crise desenvolvem sintomas como insônia, depressão, raiva, ansiedade e sintomas psicossomáticos, isso além de embotamento emocional, sentimento de exaustão e distanciamento, podendo desenvolver comportamentos de alienação para conseguir lidar com o excesso de responsabilidade que sente ter.

Nessa linha de discussão apresentada por Machado (2004) houve também, entre as psicólogas informantes, o destaque para a necessidade de as psicólogas terem um lugar para falar de suas próprias experiências: “tem uns fatos que você se depara que acabam mobilizando você, que é interessante você ter um lugar também pra você colocar suas questões, porque senão uma hora o profissional adoece.” (Morgana).

Assim, as psicólogas demandam um apoio, um lugar onde possam falar do seu sofrimento de lidar com esse tipo específico de sofrimento. Como já havia sido identificado no decorrer da experiência da Roda de Conversa em Psicologia descrita anteriormente21.

Capacitação e perfil – Frase 02: A capacitação profissional deve estar pautada por uma metodologia participativa, dialógica, interdisciplinar e holística e deve assegurar conteúdos programáticos que reafirmem a condição de sujeito de direitos da mulher em situação de violência. (Brasil, 2006c, p. 35-36).

Duas psicólogas informantes acharam o termo holístico inadequado e que pode promover mal-entendido. Malva destaca:

A questão dos direitos sim, mas holística eu fiquei na dúvida porque holística passaria pelo... Passaria pelo próprio conceito do profissional em relação a

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crenças, a crenças religiosas. Mas a partir do momento que o profissional vai trabalhar... Eu acho que deveria ser trabalhado na capacitação da seguinte forma: A partir do momento que o profissional vai trabalhar com violência, ele tem que se... Tentar mostrar imparcialidade total dos seus próprios conceitos. Espiritual, religioso. [...], enquanto profissional ali ele tem que se abster, tem que ter uma imparcialidade pra poder ouvir até o que o outro vai trazer. [...] de repente a capacitação holística vai acabar não sei, acho que ficou confuso. Pode ter um entendimento ambíguo aí. De repente abrir, dizer que dá pra se trabalhar o lado espiritual [...]. (Malva).

Isso além da falta de uma perspectiva de formação continuada desses profissionais, como relata Gardênia:

[...] as capacitações que eu tive acesso nos lugares que eu trabalhei, elas não... Elas ficavam sempre na superficialidade, até porque sempre tinha gente nova na equipe. Então tinha que começar do zero tudo de novo. Não tem uma coisa progressiva, são estágios, aquele grupo já fez o nível 1, agora nós temos o nível 2, [...] Quando você fica muito tempo na rede, chega uma hora que tá tudo igual os treinamentos, que ali é um espaço pra você encontrar a rede, pra você discutir e tal. Mas quem já tá há algum tempo, já fez algumas outras capacitações não acrescenta muito mais não [...] eu acho que tem que se pensar numa capacitação mais sistemática, sistematizada pras pessoas, senão quem já tá num nível melhor assim. É, não misturar todo mundo. Eu lembro que sempre mistura todo mundo. Quem entrou ontem, quem tá há dois meses, quem de todas as áreas. [...] A gente perde tempo. (Gardênia).

As dificuldades da gestão se apresentam de múltiplas formas, desde a forma de promover o serviço pretendido até as limitações de um contexto marcado por montantes reduzidos de recursos tanto institucionais – como falta de autonomia financeira, rede de atendimento precária e falta de locais de refúgio - quanto pessoais (Machado, 2004). E podem-se acrescentar: limitações na formatação das capacitações, falta efetiva de financiamento para a política pública de enfrentamento à violência contra as mulheres e falta de uma política de avaliação dos resultados das ações realizadas.

Capacitação e perfil – Frase 03: Profissionais e provedores de saúde têm de estar adequadamente capacitados para o manejo clínico e psicológico das vítimas de violência sexual. (Drezett, 2007, p. 88).

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As entrevistadas questionaram a quem cabe o “manejo psicológico”, se a todos os profissionais ou aos/às psicólogos/as, nesse contexto, Morgana afirmou:

Quanto ao manejo clínico e psicológico, penso que esta é uma atribuição do psicólogo, cabendo aos demais profissionais e provedores de saúde a habilidade para lidar com esta demanda, dentro do que compete à sua atuação, com base na experiência e na literatura sobre o assunto. Atitude acolhedora e empatia podem ser adotadas por diferentes profissionais, já o manejo clínico e psicológico pressupõe uma formação específica. (Morgana).

Macela achou confuso: “Acho estranha as expressões ‘ provedor de saúde’ e ‘ manejo clínico e psicológico’; não compreendo do que se trata exatamente. São termos vagos e imprecisos”. Assim como Serena, que disse: “Não está claro quais profissionais devem ser capacitados e quais serão responsáveis pelos atendimentos clínicos e psicológicos. E que atendimentos são esses ‘clínico e psicológico’? Isso também não ficou claro.”.

A frase é tão confusa que as psicólogas questionam se esses atendimentos, no contexto em que estão colocados, são os que elas entendem como uma atribuição específica da categoria ou como algo que pode ser realizado por outros profissionais, mesmo estando explícito que a proposta refere uma intervenção em psicologia, que, em princípio, psicólogos/as estariam mais bem capacitados para realizar (ver discussão mais adiante), isso além do ‘manejo clínico’, justamente o que não seria para psicólogos/as desenvolverem, atividades clínicas, por não serem adequadas, como já foi citado anteriormente (Hanada et al., 2008, 2010; CFP, 2008, 2010).

Capacitação e perfil – Frase 04: É necessário capacitação técnica e emocional dos profissionais. (Phebo, 2007, p. 33).

Do ponto de vista das informantes, houve um questionamento quanto ao que significa “capacitação emocional”. Quanto a essa questão, refere Jasmine: “Sobre a capacitação emocional gosto mais do termo apoio emocional. Capacitação me lembra treinamento e não vejo nosso emocional treinado, e sim apoiado incondicionalmente.”.

Morgana fala que o que está sendo chamado de “capacitação emocional”, na verdade, deve ser um processo de reflexão:

[...] considero importante contar com um espaço onde os profissionais possam discutir suas práticas e dividir angústias relacionadas à atuação profissional. No caso dos profissionais psicólogos o preparo emocional geralmente se efetiva ao

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longo do processo de análise, o que não exclui a possibilidade de contar com espaços onde possam expressar os diferentes afetos que podem emergir nos atendimentos e no trabalho em equipe, um espaço a ser compartilhado por todos os profissionais envolvidos. (Morgana).

Mais uma vez, as psicólogas referem que há algo ambíguo, indefinido ou impreciso na orientação. Que a equipe precisa estar em condições técnicas e emocionais para realizar o trabalho, isso não se discute. Contudo, essa frase traz, mais uma vez, a questão da subjetividade como algo relevante, ou seja, para a realização do trabalho há a necessidade de se estar capacitado emocionalmente.

4.2.4 Conclusões parciais: As orientações da SPM para o atendimento psicológico: