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Kapittel 7 Evaluering av estimert levetid for knutepunktet

7.4 Estimert levetid for hjørneavrunding i vinklene

É pela ótica sócio-politica que podemos identificar quem é negro ao constatarmos que os espaços de poder são racializados, ou seja, são ocupados, pertencem a uma mesma raça/cor. Há cargos funções, empregos, profissões, conhecimentos, padrões de vida e status, no Brasil, que historicamente, têm sido próprios ou apropriados pela cor/raça branca. Conforme Fernandes (1972)

“a idéia de que existiria uma democracia racial no Brasil vem sendo fomentada há muito tempo. No fundo, ela constitui uma distorção criada no mundo colonial, como contraparte da inclusão de mestiços no núcleo legal das “grandes famílias” _ ou seja, como reação a mecanismos efetivos de ascensão social do “mulato”. O fundamento pecuniário da escravidão e certos efeitos severamente proscritos mas incontornáveis da miscigenação contribuíram para que se operasse uma espécie de mobilidade social vertical por infiltração, graças à qual a composição dos estratos raciais dominantes teve de adquirir certa elasticidade”. (p. 26)

Quem é negro, no Brasil, é identificado como gente do lado de lá, os não iguais, os outros e são discriminados racialmente (Oliveira, Lima & Santos 2000, pp. 37-59). Exemplificando: após 116 anos de abolição da escravidão, temos o registro da existência de um ministro negro, 13 parlamentares negros para um total de 594 congressistas; nas universidades públicas raramente se vê professores negros.

Desde a época da escravidão o mundo dos brancos é considerado superior e ideal, devendo ser buscado por todos, o que causa uma busca, constante e sofrida, de um lugar de igualdade, o que não ocorre pois esse lugar é racializado, ou seja, o negro continua sendo “o outro”, o estrangeiro, o invisível aos olhos da ideologia, pois ele é diferente da norma

ideológica - branca- que foi instituída a partir da escravidão. Fernandes (1972, p. 27) registrou que “o escravo não era uma entidade social” e que a miscigenação proposta pela ideologia da época com seus mecanismos que se diziam eficazes para absorver o mestiço, na verdade mostrou uma outra eficácia: das técnicas de dominação social que asseguraram a continuidade da ordem social discriminatória. Atualmente com o retorno das discussões de algumas ações publicas especificas para a população negra – ações afirmativas- aparece, de um lado, uma tentativa de reparação, de amenização das repercussões negativas ocorridas ao longo da história brasileira; por outro lado, alguns cientistas e intelectuais têm questionado quem é o negro, o que ele é enfocando (de novo) os aspectos biológicos, fenotípicos e psicológicos, tão propalados nos tempos da institucionalização da escravidão dos africanos e, depois, dos crioulos (Sansone, 2003, p. 95), nascidos no Brasil.

Outro ângulo pelo qual podemos pensar a causa da invisibilidade do negro refere-se ao mito da democracia racial que leva algumas pessoas a acreditarem que “no Brasil não há racismo”. Mito que é coberto pelo manto da mestiçagem, desde Gilberto Freyre, que divulgou que a partir das relações horizontais da casa grande com a senzala haveria uma mistura racial que daria a indistinção de cor/raça e o Brasil se tornaria “um país moreno”. Essa morenidade passou, inclusive, a ser vista como uma categoria presente em alguns censos no Brasil (Freyre, 2003; Telles, 2003,pp.106 e110).

De acordo com Hasenbalg (1997, p. 37) confunde-se “ as misturas raciais no plano biológico com as interações raciais no sentido sócio-econômico”, o que pode ocasionar uma grande ilusão, que às vezes é aceita e valorizada, de que estas interações biológicas são, supostamente, vistas como democráticas pelo alto grau de miscigenação, fortalecendo a ideologia do branqueamento, constituída historicamente, que parece perdurar no

poderia haver uma democracia racial, mas que o negro não estaria preparado para atingi-lo. Caso e isto seja verdade, porque será que ele não está preparado? Fernandes (1972) apresentou uma discussão importante acerca desta questão. Segundo o autor, as técnicas de socialização do negro, mestiço ou mulato eram pautadas nas formas de vida dos brancos, ou seja, haveria uma exigência de que essa população se identificasse com o branco, com os valores e interesses da “raça dominante”. Neste processo surgiu a criação e divulgação da imagem do “negro de alma branca” como “protótipo de negro leal, devotado ao seu senhor, à sua família e à própria ordem social existente” (pp. 27 e 28). O racismo no Brasil, expresso pela denominada democracia racial, é legitimador da dificuldade de mobilidade vertical (trabalho, melhores ganhos: ascensão econômica) e da mobilidade horizontal (apesar de ter ocorrido uma miscigenação), na medida em que homogeneizou ou tentou homogeneizar racial, étnica e culturalmente, as classes sociais, gerou preconceito contra o negro e, mesmo assim, o mito floresceu legitimado pela ideologia racista do branqueamento e gerou um caráter etnocêntrico pautado na valorização da cor da pele e da aparência.

A democracia racial enquanto política e ideologia racistas acentua a diversidade de interesses entre os vários segmentos dominados. O privilégio econômico, político, ideológico e sócio-cultural do branco está imbricado com a divisão social e funcional que dá acesso ao trabalho, a educação, a saúde, ao lazer, o que torna mudanças ou transformações, no plano estrutural da sociedade e no plano de distribuição de renda e de recursos, processos que possivelmente darão, em sua maior parte, conquistas ao segmento branco.

Embora a abolição tenha ocorrido, o negro continuou numa situação de dependência da ideologia racista, pois de um lado, a economia da época preferia os imigrantes europeus e,

de outro, as representações sociais que regulavam as relações entre as pessoas estavam pautadas na histórica construção da identidade do negro escravo. A sociedade colonial foi montada por brancos, para os brancos. Para Bastide (1955, p. 108) “entre os brancos, a antiga representação da personalidade/status do negro continua a ter plena vigência; entre os indivíduos de cor, a antiga auto-concepção de status e papéis não se modificou”. Havendo a continuidade de experiências de sofrimentos de agressão numa regularidade histórica e ideológica, podemos pensar que o negro além de ser excluído e marginalizado, foi desacreditado pelas suas origens raciais e culturais.

Representações e estereótipos permaneceram para referenciar o que era (é) ser negro: a inferioridade mental, moral ou social do negro em relação ao branco, reforçando as idéias evolucionistas de vários autores, principalmente nos materiais de Rodrigues, 1904/2004 (conforme citado e discutido no corpo deste trabalho) e seus discípulos.

A ideologia do branqueamento ou mito da democracia racial fez com que uma parcela da população negra aceitasse a padronização, a uniformização, pois para essas pessoas tais atitudes poderiam levá-los a serem considerados pertencentes aos grupos sociais.

Essa padronização muitas vezes, acarretou a perda de um referencial de raça e do ser portador de uma cultura, pois os valores, as atitudes e estilos de vida dos brancos eram totalmente diferentes dos negros. Neste sentido poderíamos pensar que, em alguns casos, ocorreu um processo de alienação porque concordamos com Mcgary (2002, pp. 589 e 590)16 em sua afirmação de que as experiências de alienação dos negros ocorre quando o

16According to the new account of alienation that is draw from the experiences of people of colour,

alination exists when the self is deeply divided because the hostility of the dominant groups in the society forces the self to see itself as loathsome, defective, or indignificant, and lacking the possiibility of ever seeing

self é profundamente dividido por causa da hostilidade sofrida. Tal hostilidade leva o negro a sentir-se como abominável, defeituoso ou indigno, e desprovido de possibilidades de ver a si mesmo em termos mais positivos. Esse tipo de alienação não é só uma estranheza entre um plano de vida e a realidade, mas uma estranheza proveniente do sempre vir-a-ser um self não definido nos termos hostis, antagônicos do grupo dominante.

Digno de nota é o que Fernandes (1972) discutiu acerca do paradoxo que a “democracia racial” configurou. Na opinião do autor

“ a mobilidade eliminou algumas barreiras e restringiu outras apenas para aquela parte da “população de cor” que aceitava o código moral e os interesses inerentes à dominação senhorial. Os êxitos desses círculos humanos não beneficiaram o negro como tal, pois eram tidos como obra da capacidade de imitação e da “boa cepa” ou do “bom exemplo” do próprio branco. Os insucessos, por sua vez, eram atribuídos diretamente à incapacidade residual do “negro” de igualar-se ao “branco”. (pp. 27 e 28)

De acordo com Fernandes (1972), os negros/mulatos que aderiram a essas dominações foram representativos para a demonstração de que o branco possuía o domínio do negro, o que de acordo com a ideologia, era necessário e feito para o proveito do próprio negro/mulato. Podemos pensar que os fatores psicossociais ou sócio-culturais baseados na construção histórica de categorias como raça/cor, da forma como foram feitas, ao contrário do que a ideologia (ainda que paradoxalmente) pregava fortaleceu a lentidão da incorporação dos negros no sistema de classes e esse processo pode ter ocasionado o endosso das desigualdades por parte dos próprios negros fazendo com que eles construíssem representações negativas a respeito de si mesmos: é “porque somos negros” ou “ por que somos descendentes de africanos/escravos”.

plan of life, but an estrangement from ever becoming a self that is not defined in the hostile terms of the dominant group” . Mcgary (2002, pp. 589 e 590) – traduçao livre para a tese

Souza (1983) nos auxilia a compreender como tem se dado o processo de mobilidade social do negro e, como tal acontecimento pode estar gerando ambivalências, ambigüidades que poderão repercutir negativamente na subjetivação do afro-brasileiro.

“ a história da ascensão social do negro brasileiro é, assim, a historia de sua assimilação aos padrões brancos de relações sociais. É a historia da submissão ideológica de um estoque racial em presença de outro que se lhe faz hegemônico. É a historia de uma identidade renunciada em atenção às circusntancias que estipulam o preço do reconhecimento ao negro com base na intensidade da negação”. (p. 23)

Para muitos negros (africanos e afro-brasileiros), ter que se submeter foi, talvez, a pior

das torturas/rupturas pelas quais passou: a repressão física e psíquica que interditava o acesso ao seu mundo original, a sua cultura (Carvalho e cols, 1996). A isto pode-se chamar