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Ao longo dos séculos, as ilhas desempenharam, de formas e intensidades diferentes, um papel estratégico no desenvolvimento do comércio e das redes de transporte (marítimo) à escala global. Apesar desta importância, são poucos os modelos explicativos, suficientemente desenvolvidos, que nos ajudam a perceber de que forma se processou a integração das ilhas e a identificar o papel que elas desempenharam na complexa teia de relações à escala global.

A importância das ilhas remonta à época das expansões marítimas, incluindo a sua própria descoberta ou colonização, e estende-se durante toda a fase da economia oceânica do século XIX. Mesmo depois da “continentalização da economia”, que se verificou no século XX, um pequeno número de ilhas continuou a desempenhar um papel importante nas redes de transporte à escala global, de acordo com a sua

localização face aos principais fluxos (económicos e de transporte), as facilidades portuárias disponíveis e o seu próprio nível de desenvolvimento económico.

• Colonização e estabelecimentos dos primeiros povoamentos

Durante a época das descobertas e das expansões marítimas europeias, muitas ilhas assumiram-se como importantes sítios portuários, tendo sido os primeiros espaços a ser incorporados pelos impérios coloniais e funcionando como espaços para a aprendizagem da arte de navegação e bases avançadas de apoio para futuras explorações.

• Bases estratégicas para a segurança, defesa e controlo das rotas

Ainda durante o período anterior, muitas ilhas constituíram-se como pontos estratégicos para garantir a segurança das rotas ou dos impérios que as controlavam, tendo-se tornado importantes bases militares que se mantiveram e expandiram com o desenvolvimento do comércio atlântico.

• Bases de comércio marítimo de mercadorias e produtos tropicais

O desenvolvimento do comércio e da navegação atlântica foi um factor de grande importância para o desenvolvimento das ilhas. Durante a fase da economia atlântica do século XIX, a localização estratégica das ilhas conferiu- lhes uma grande vantagem para o estabelecimento de importantes entrepostos comerciais.

Ao longo dos séculos, as ilhas foram utilizadas como bases para o desenvolvimento do comércio, permitindo as escalas necessárias para o descanso da tripulação e para o abastecimento dos navios. Simultaneamente, desenvolviam-se uma série de trocas comerciais, pelo que o transporte marítimo e o comércio oceânico constituíam uma importante fonte de riqueza e de receita.

• Abastecimento aos navios e às tripulações de água, viveres, carvão e posteriormente óleos

Paralelamente às funções comerciais, políticas ou militares, muitas ilhas desempenharam um papel fundamental de escala nas rotas marítimas, como é o caso das ilhas atlânticas. “As ilhas eram fontes de comida e água fresca na

época em que as técnicas de conservação eram ineficientes e a arte de navegação não permitia longas viagens” (CAU: 1999, p.354).

As condições que resultam do facto das ilhas atlânticas se situarem no meio do oceano, a meia distância entre a Europa e a América, e nos percursos da navegação atlântica permitiam-lhes prestar grandes serviços à navegação transatlântica – fornecendo abastecimentos e combustíveis, permitindo a reparação de avarias, a rectificação de rotas, o acertar dos relógios, ou prestando informações e transmitindo ordens às embarcações que passavam. O papel desempenhado pelas ilhas dependia, nesta época, não só das suas características internas – por exemplo, as facilidades portuárias ou a existência de produtos agrícolas e de água fresca, para as trocas comerciais ou o abastecimento às tripulações a às embarcações –, mas também de condições externas como a sua localização e a situação face aos ventos e correntes marítimas ou a distância face aos portos de origem ou de destino.

Como veremos mais adiante, foram as características externas que determinaram os diferentes papéis desempenhados pelos arquipélagos da Madeira e dos Açores nas rotas do comércio atlântico.

• Bases de escala de navios de passageiros e de cruzeiros

O grande desenvolvimento das tecnologias marítimas, que se verificou no segundo quartel do século XX, contribuiu para o desenvolvimento do transporte marítimo de passageiros e de mercadorias.

Apesar do desaparecimento de suporte de passagem de cargas longas distâncias, nas últimas décadas têm se registado um forte incremento da actividade de cruzeiros turísticos. As novas e modernas embarcações de cruzeiro, já não transportam passageiros que pretendam efectuar uma deslocação de um porto para outro, mas turistas que viajam pelo prazer de vida a bordo e de conhecer novos locais.

De acordo com DELGADO (2000, p.126) “os cruzeiros nesta zona marítima

atlântica dos confins europeus têm uma história mais ou menos dilatada, pois constatámos uma actividade quase ininterrupta desde meados do século XIX,

com efeitos e impactos territoriais, sociais e económicos díspares. As razões das viagens são, certamente, distintas, visto corresponder a momentos históricos e a formações sociais diferentes (...)”. Neste contexto, muitas ilhas

foram integrados nos circuitos de cruzeiro, assumindo-se como importantes bases de origem, destino ou de escala.

• Pontos de comércio e transbordo de mercadorias

Como referimos, durante a fase da economia marítima as ilhas assumiram-se como importantes sítios portuários, permitindo o surgimento de bases para o desenvolvimento do comércio marítimo.

O processo de concentração portuária e de selecção do número de portos a escalar, resultado da reorganização do transporte marítimo desenvolvido pelos armadores desde o início da segunda metade do século XX, resultou na marginalização da maioria das ilhas, nomeadamente das de média e pequena dimensão, em relação às redes de transporte marítimo. Contudo, fruto da sua localização geoestratégica e do desenvolvimento dos fluxos de tráfego, algumas ilhas voltaram a ser integradas na organização do transporte marítimo à escala global ao serem seleccionadas para a instalação de plataformas de redistribuição de tráfegos. O interesse demonstrado por alguns grandes operadores à escala internacional, levou à construção directa, por parte das companhias, ou indirecta, por parte das autoridades portuárias, de grandes terminais de transhipement de contentores, aptos a receber os grandes

matherships.

O desenvolvimento dos serviços de transporte marítimo, fruto do incremento das linhas e do número de navios que demandam o porto, tem um efeito de indução nos tráfegos locais potenciando o desenvolvimento da actividade portuária. Do ponto de vista económico, a concentração dos fluxos e o crescimento dos tráfegos contribuiu para o desenvolvimento de uma série de actividades económicas com reflexos no desenvolvimento do porto e da região.

2.1 – E

NQUADRAMENTO

Actualmente, o transporte marítimo de passageiros, por via oceânica tem um carácter residual, contrariamente ao que acontecia no início do século XIX, uma vez que já não existem emigrantes sobre os mares, nem homens de negócios ou políticos, nem turistas deslocando-se apenas para seu prazer, a bordo de um qualquer Great Eastern numa travessia transoceânica, como a descrita por Jules Vernes em “Une Ville

Flottante”.

Esta forma de transporte perdeu, para o transporte aéreo, o mercado de passageiros que apenas pretendem deslocar-se em médias ou longas distâncias. Segundo ESCOROU (1982), o transporte marítimo de passageiros tornou-se numa resta de uma emanação do turismo, resumindo-se a um número reduzido de passageiros transportados por car-ferries e alguns cargueiros. Assim, toda a estrutura comercial e operacional das empresas de navegação que exploram o mercado de passageiros, por via marítima, sofreu profundas alterações e o navio deixou de ser encarado apenas como um meio de transporte, mas adquiriu a denominação de “hotel flutuante”. Após uma primeira fase de desenvolvimento, em meados do século passado, os cruzeiros turísticos registaram uma evolução positiva, tendo aparecido como uma forma de rentabilizar os navios das linhas regulares que ficaram sem ocupação, com o crescimento e a banalização do transporte aéreo e, posteriormente, como consequência de “(…) novos comportamentos sociais em relação às férias e ao lazer,

privilegiando o mar e o sol (…)”. “O optimismo económico dos anos 60 consolidou esta tendência, mas é sobretudo depois da crise do petróleo, a partir do fim dos anos 70, que se dá o período mais significativo de crescimento e a massificação do mercado

dos cruzeiros” (CABRAL: 2000, p.135).

Desde então, a actividade turística, de uma forma geral, e o sector dos cruzeiros, em particular, registaram um acentuado crescimento, motivado pelo aumento da esperança média de vida, pelo aumento do rendimento das famílias nos países desenvolvidos e do crédito ao consumo, pelo alargamento do tempo dedicado às férias e ao lazer - o que, consequentemente, levou ao incremento da procura de produtos/serviços associados às actividades de tempos livres - e, por fim, num

contexto mais abrangente, pela globalização económica e tecnológica. Refira-se que este último aspecto contribuiu de forma notória para um aumento da mobilidade da população à escala mundial, quer por motivos de índole profissional, quer por motivos de lazer.

Durante a década de 80, e sobretudo na década seguinte, a actividade dos cruzeiros registou um fulgurante crescimento, inicialmente circunscrito aos E.U.A. e, depois, alargado à Europa, ainda que se tenham verificado algumas quebras, motivadas por acontecimentos com repercussões ao nível internacional. Neste contexto, destacam- se a crise mundial de 1992-93, os conflitos bélicos no Médio Oriente (Guerra do Golfo) e no Adriático (conflito do Kosovo), bem como o atentado terrorista que abalou os E.U.A em 2001. Estes acontecimentos motivaram sobretudo o reposicionamento dos navios de cruzeiros, tendo-se verificado algumas alterações ao circuito pré- estabelecido23, o cancelamento de alguns cruzeiros, bem como, em situações mais

extremas, o desaparecimento de alguns operadores turísticos24.

A evolução mais recente do sector dos cruzeiros caracteriza-se pela industrialização da actividade, pelo aumento da capacidade das frotas, pela expansão das áreas geográficas, pela diversificação/especialização da oferta, pela redução da duração dos circuitos e por uma democratização dos cruzeiros.

2.2I

NDUSTRIALIZAÇÃO DA ACTIVIDADE DOS CRUZEIROS

De acordo com a Cruise Line International Association (CLIA), ao longo da última década, o sector dos cruzeiros foi uma das actividades turísticas que registou maior dinamismo ao nível mundial25.

Os cruzeiros turísticos, à semelhança do transporte aéreo, têm custos muito elevados, relacionados não só com a construção e manutenção do próprio navio, mas também com as elevadas exigências ao nível das infraestruturas portuárias e dos serviços de

23 Note-se que o atentado de 11 de Setembro (nos E.U.A.) teve como consequências directas um aumento do nível de segurança nos navios, assim como o desvio de tráfego do porto de Nova Iorque para o de Boston, Filadélfia e Baltimore.

24 Como por exemplo, Lauro Lines e Orient Express que operavam no Mediterrâneo.

25 Segundo a CLIA, no período 1980-1994 o sector do turismo registou um crescimento mundial de 4,5% e o sector dos cruzeiros um crescimento de 8,6%.

apoio à própria actividade. Este facto, levou à (re)organização das empresas, de modo a serem mais competitivas e rentáveis, tendo originado uma elevada concentração da oferta nas grandes companhias que, através de processos de aquisição e fusão, foram alargando a sua influência em termos territoriais ou se especializaram em determinados mercados.

Assim, os quatro armadores apelidados de “Big 4” - Carnival, Royal Caribbean e Celibrity, P&O Princess Cruise e Star Cruise - assumiram o comando do mercado, pois no início desta década representavam perto de 90% da capacidade total da oferta (em número de camas) (ISEMAR b:2000).

Simultaneamente, tem-se vindo a assistir ao aparecimento e afirmação de novas empresas, de menores dimensões, que operam em nichos de mercados regionais, locais ou temáticos. Releva-se ainda o surgimento dos Tours Operators que se posicionam no mercado com uma oferta de cruzeiros a baixo preço, à semelhança do que se verifica no transporte aéreo com os voos charters, desenvolvendo a sua actividade através do frete de navios antigos e reduzindo os custos e as margens de lucro26.

Outro aspecto que tem marcado a organização desta actividade é o aumento das parcerias entre companhias de aviação e armadores, as quais levaram ao aparecimento dos fly cruises – cruzeiros que associam a viagem aérea ao próprio circuito. Como refere ESCOUROU (1982), os cruzeiros tornaram-se num produto estandardizado, susceptível de ser vendido ao mínimo custo à maior clientela possível, dominado pela lógica comercial dos grandes operadores.