As conversações informais e cotidianas entre pessoas que compartilham certas experiências desempenham um papel fundamental nas lutas deliberativas por reconhecimento. Nessas interações, as pessoas conferem “um sentido próprio às condições que determinam suas vidas” (MELUCCI, 1994, p. 186). Conectadas à vivência ordinária, tais conversas são fundamentais para que determinadas experiências sejam percebidas como problemáticas e para que soluções a elas sejam vislumbradas. Em bate-papos com amigos, conversas em um ponto de ônibus ou discussões em uma mesa de bar, as pessoas podem discorrer sobre suas vidas ordinárias, suas dificuldades, alegrias, tristezas, ansiedades e desejos.
O papel atribuído às conversações informais permanece ponto de extensa controvérsia na teoria democrática. Isso porque alguns autores insistem em traçar uma rígida linha divisória entre as discussões politicamente relevantes e as conversações sociáveis (SCHUDSON, 1997; MOY; GASTIL, 2006). Duas críticas principais são frequentemente dirigidas às conversações cotidianas: 1) a de que seriam majoritariamente travadas entre pessoas próximas, sem abrir espaço
para o conflito; e 2) a de que não são predominantemente argumentativas nem publicamente visíveis. Tais conversas seriam inócuas ou mesmo maléficas à democracia.
Um crescente número de estudos no interior da tradição deliberacionista tem apontado, contudo, para a relevância desse tipo de conversação na constituição de processos deliberativos.12 Eles evidenciam que, mesmo sem atender todas as exigências da deliberação, tais conversações são essenciais para que se possa pensar a consolidação de uma democracia deliberativa (MANSBRIDGE, 1999; CONOVER; SEARING, 2005). Até porque essas conversações estão no coração da maior parte das discussões travadas pelos cidadãos (CONOVER et al., 2002; BENNETT et al., 2000; MUTZ, 2006). Trata-se de conversações em que as “pessoas não elaboram silogismos completos. (Ninguém as ouve, se fazem). Em vez disso, as pessoas falam [...] de maneira mais ou menos ‘solta’. Elas fazem alusões mais ou menos criptografadas a argumentos completos” (GOODIN, 2000, p. 93).13
Concordamos, assim, com Marques (2007), para quem a separação entre
conversações cotidianas e discussões políticas não se sustenta nem empírica nem teoricamente.
Se essas conversações são travadas, primordialmente, entre pessoas que pensam de maneira semelhante, é preciso reconhecer que isso pode unir as pessoas em torno de causas políticas comuns, permitindo-lhes desenvolver ideias e argumentos (MUTZ, 2006, p. 128; YOUNG, 2000, p. 172; FRASER, 1999). Tais conversas oferecem oportunidades concretas para que os sujeitos se coloquem, exteriorizem seus pontos de vista e os trabalhem em interação.
É claro que tais conversas não são essencialmente argumentativas. Vários deliberacionistas têm apontado que “as pessoas tendem a se preocupar mais com a harmonia social do que com o mundo político mais amplo em suas relações face-a-face imediatas e pessoais” (MUTZ, 2006, p. 106).14 Nessas situações, elas se esforçam para manter uma atmosfera pacífica e sem controvérsias. Cass Sunstein (2002) discute essa questão, quando propõe a lei da polarização, afirmando que grupos tendem a sufocar discordâncias fazendo convergir perspectivas a princípio diferentes. Conover et al. (2002) e Conover e Searing (2005) também sugerem que, nessas situações, as pessoas evitam o confronto. Isso fica ainda mais evidente se se atenta para a finalidade das interações aí estabelecidas. Pode-se apontar, claramente, que um dos principais objetivos dessas conversações é a manutenção do laço com o
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Cf.: Habermas (2006), Mansbridge (1999), Gastil (2008), Talisse (2005), Conover et al. (2002), Conover e Searing (2005), McCoy e Scully (2002), Burkhalter et al. (2002), Gamson (1992a), Maia (2008c), Marques (2007), Marques et al. (2007).
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Do original: “people do not tediously elaborate complete syllogisms. (Nobody listens, if they do.) Instead, people […] talk more or less "loosely." They make more or less cryptic allusions to more full-blown arguments.”
14 Do original: “People tend to care more about social harmony in their immediate face-to-face personal
outro (GASTIL, 2008). Em geral, esses bate-papos não são particularmente informativos e nem visam a um claro desdobramento performático.
Seria equivocado supor, todavia, que tais conversações são inteiramente despidas de choques de perspectivas e tensões (CONOVER et al., 2002, p. 39). Argumentos e justificativas atravessam tais conversações obliquamente, emaranhados na complexa composição dessas falas. Vale destacar, ainda, que essas conversas podem instigar o desenvolvimento de habilidades deliberativas básicas, difundir o valor da discussão (MOY; GASTIL, 2006; BURKHALTER, et. al, 2002) e promover um espaço mais equânime para a troca de discursos. Não que se trate da eliminação completa de assimetrias, já que a qualidade da oratória, a posição ocupada pelos sujeitos, a idade do participante e mesmo sua experiência estabelecem diferenças (YOUNG, 2000). O que se defende, aqui, é que a estrutura da própria situação comunicativa cria uma certa liberdade de discussão, abre oportunidade de falas e instaura condições para a avaliação equânime dos proferimentos de diferentes atores.
No que se refere ao fato de não possuírem a visibilidade necessária para serem consideradas públicas, é preciso ver que tal atributo tampouco é puramente negativo (CHAMBERS, 2004). As conversações oferecem uma proteção que facilita a expressão e contestação de pontos de vista que, de outro modo, não seriam proferidos. Elas fornecem um ambiente encorajador e seguro para a expressão e teste de argumentos, sendo possibilitadoras de discussões públicas (CONOVER et al., 2002, p. 37).
Na conversação e ação cotidiana, os não ativistas testam novas e velhas ideias contra as realidades diárias, fazem pequenos movimentos – micronegociações – que tentam colocar alguma versão de uma ideia em efeito, e conversam sobre essas ideias com amigos (MANSBRIDGE, 1999, p. 214).15
Destacamos, ainda, que o imbricamento de tais conversações na vida cotidiana contém um grande potencial inovador. Nesse aspecto, concordamos com Aldé (2004) e com Mutz (2006), para quem “o aspecto mais interessante da comunicação face-a-face sobre política é o modo como ela é integrada ao tecido das vidas e relações cotidianas” (MUTZ, 2006, p. 137).16 Trata-se de falas, muitas vezes, espontâneas que fazem referências diretas à concretude da experiência. O tom geral dessas conversas é o de uma autenticidade do vivido.17 Tais falas
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Do original: “In everyday talk and action the nonactivists test new and old ideas against their daily realities, make small moves – micronegotiations – that try to put some version of an idea into effect, and talk the ideas over with friends”.
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Do original: “the more interesting aspect of face-to-face communication about politics is the way it is safely integrated into the fabric of everyday lives and relationships”.
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Cabe destacar que não atribuímos à experiência um caráter de fonte fundamental e inquestionável de conhecimento, como se as falas que lhe fazem referência explícita fossem mais “verdadeiras”. Com Joan Scott, entendemos que a “experiência é, ao mesmo tempo, já uma interpretação e algo que precisa de interpretação. O que conta como experiência não é nem auto-evidente, nem definido; é sempre contestável, portanto, sempre
são, frequentemente, dirigidas por exemplos e narrativas que buscam transformar um cotidiano polissemicamente experienciado em algo partilhável. Nessa partilha, a própria multidimensionalidade do dia-a-dia emerge pululante, evidenciando as várias facetas do vivido.
Observa-se, em síntese, que as conversações cotidianas são parte fundamental do processo deliberativo, até porque as oportunidades para que ocorram são mais equanimente distribuídas pela sociedade. Tais conversações fomentam uma liberdade comunicativa, captam as complexidades do cotidiano e podem encetar a formação de contrapúblicos, facilitando a inserção de sujeitos marginalizados na esfera pública. Elas podem educar cidadãos e desempenhar função narrativa importante na construção de identidades (CONOVER; SEARING, 2005). Conversações informais são parte central dos processos em que a sociedade transforma seus padrões culturais e suas normas de reconhecimento.