2.2 K ARAKTERANALYSE
2.2.6 Den undertrykkende mannen
Para investigar falas mais informais e ligadas ao cotidiano das pessoas atingidas pela hanseníase, realizamos 12 grupos de conversação (com duração média de 80 minutos cada) em três estados brasileiros: Acre, Ceará e Minas Gerais. Tais grupos foram realizados nas colônias Souza-Araújo (Rio Branco, AC), Antônio Diogo (Redenção, CE), Antônio Justa (Maracanaú, CE), Santa Izabel (Betim, MG) e Santa Fé (Três Corações, MG), bem como nas comunidades de entorno dessas instituições. Em Betim e em Maracanaú, os hospitais são praticamente inseparáveis do bairro em que se situam, principalmente em virtude das invasões de terras. Em Três Corações, Redenção e Rio Branco, os hospitais mostram-se razoavelmente bem delimitados em relação aos bairros vizinhos. A presença de religiosos nas duas últimas instituições é bastante forte, e as invasões de terra são mais controladas. Em Rio Branco, grande parte dos egressos vive nas comunidades de Belo Jardim, Santa Cecília, Dom Moacir e Albert Sampaio.
Nossa escolha por esses três estados deve-se não apenas às diferenças regionais. Vale registrar, aqui, que obtivemos informações sobre as 33 antigas colônias por meio do I
Seminário Nacional de Antigos Hospitais e do encontro de pesquisadores do Projeto Acervo,
realizados no Rio de Janeiro, respectivamente, em 2004 e 2007.48 Betim foi nosso primeiro contato com o universo das colônias, sendo que a instituição tem destaque nacional na organização de lutas e reivindicações. Três Corações chamou nossa atenção pela diferença em relação a Betim, embora ambas estivessem no mesmo estado. A escolha do Ceará se deu pelo mesmo motivo: a existência de duas colônias geograficamente próximas, mas em situação muito distinta. Interessou-nos o fato de um dos hospitais ter mantido parte de suas “fronteiras” com o mundo externo, enquanto o outro viu tais fronteiras erodirem-se. O estado também chamou nossa atenção pela presença de ativistas de destaque dentro do Morhan. No caso do Acre, o interesse nasceu em virtude de duas personalidades políticas. A primeira é Bacurau, um dos fundadores do Morhan e que coordenou a entidade por mais de uma década. Ele viveu em Rio Branco, e sua antiga casa funciona, hoje, como uma Sala Memória. A segunda é o senador Tião Viana (PT/AC), que propôs o projeto de lei para a indenização dos segregados. A existência dessa movimentação política chamou nossa atenção para o estado.
48 Destacamos que as pessoas que conhecemos nessas duas ocasiões foram essenciais para a realização da coleta de
Grupos de Conversação
O componente principal de nossa coleta nesse âmbito foram os 12 mencionados
grupos de conversação. Esses grupos se assemelham ao que diversos autores tratam como
grupos focais ou grupos de discussão, na medida em que se caracterizam como “entrevistas em grupo realizadas para descobrir como as pessoas sentem em relação a algum produto, serviço ou assunto” (BERGER, 1998, p. 89).
De um modo geral, grupos focais são desenhados por um pesquisador, conduzidos por um moderador e envolvem um número específico de participantes (geralmente entre seis e dez). Em tais grupos, controlam-se as variáveis demográficas na composição dos grupos, sendo que a maioria dos pesquisadores sugere certa homogeneidade no que concerne à idade, sexo e classe social (MIGUÉLEZ, 2004; MARQUES; ROCHA, 2006). Método com longa história, o grupo focal é aplicado desde a década de 1920 em estudos que vão da psicologia social a estudos de marketing e de recepção dos media (MORGAN, 1997; MIGUÉLEZ, 2004; MARQUES; ROCHA, 2006). Também nas investigações empíricas guiadas pelo quadro teórico da teoria crítica, esse método mostrou-se bastante rico, como reconhece Honneth em uma entrevista concedida a Petersen e Willig (2002). Honneth lembra que tais grupos são focados pelo pesquisador em torno de certas temáticas a partir da qual a discussão se desenvolve.
O objetivo dos grupos focais é produzir sentido a partir da perspectiva não de atores isolados, mas de sujeitos em interação constante.49 Um aspecto positivo dos grupos focais é que o moderador não é o único a levantar questões e a interpelar os entrevistados, o que pode gerar surpresas. Outro aspecto positivo é a possibilidade de observar várias interações em um período limitado de tempo. Cabe mencionar, ainda, que as situações grupais favorecem à superação da inibição. Os principais perigos desses grupos estão na monopolização da fala por alguns participantes ou no fato de alguns se sentirem compelidos a concordar com a maioria.
A diferença do que chamamos de grupos de conversação está na organização mais informal destes. Em nosso trabalho de campo, percebemos que poderíamos obter respostas mais ricas se trabalhássemos em uma situação de maior informalidade com uma moderação mais livre. Não poderíamos estabelecer um foco central que norteasse as conversas, porque esperávamos observar, exatamente, as questões que seriam levantadas pelos grupos. Adotamos, assim, a estratégia que denominamos de grupos de conversação. Continuamos apostando no potencial da interação, mas não planejamos a estrutura dos grupos, inserindo- nos em rodas de conversa que já estivessem em andamento.
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De forma quase etnográfica, caminhamos por antigos hospitais-colônia e comunidades de egressos, encontrando grupos de pessoas que estivessem conversando. Encontrado o grupo, apresentávamo-nos, pedíamos autorização para gravar a conversa e fazíamos algumas indagações gerais: “como anda a vida?”, “como estão as coisas na colônia?”, “quais os maiores problemas das pessoas atingidas pela hanseníase?”, “o que poderia ser feito para melhorar esses problemas?”. Mantínhamo-nos, a princípio, mais calados. Em algumas ocasiões, todavia, buscamos atuar como instância de ligação entre grupos. Repetíamos frases polêmicas que ouvíramos em outras discussões, transformando-as em incentivo para debate. Seguimos, assim, os passos de Hendriks (2004, p. 56), que relata que o feedback de alguns de seus entrevistados suscitava novas indagações para os próximos.
Interessante observar que, em nossos grupos, o número de participantes apresenta grande variação: entre três e oito. Variáveis demográficas não foram controladas, até porque, muitas pessoas entravam e saíam dos grupos ao longo de seu desenvolvimento. Apontamos, ainda, que algumas pessoas participaram de mais de um grupo. Isso porque, fomos acompanhados, em diversas visitas, por pessoas que se disponibilizaram a facilitar nosso acesso a certas áreas. Essas pessoas foram convidadas a participar das discussões sempre que presentes, mesmo porque poderiam promover elos entre diferentes grupos de conversação.
Importante salientar, ainda, que, em alguns casos, os grupos de conversação não foram naturalmente encontrados, sendo formados pelos próprios moradores das colônias. Na medida em que visitávamos as colônias e conhecíamos pessoas, muitas delas se ofereciam para “serem entrevistadas” ou para ajudar a reunir pessoas para o “bate-papo”. Não nos opusemos a essas práticas e mantivemo-nos abertos a esses grupos autoconvocados.
Não julgamos que isso represente uma mudança significativa em nossos grupos de
conversação. Isso porque não buscamos, nesses grupos, as conversas cotidianas tais como elas
ocorrem. Não nos investimos desse tipo de naturalismo, até porque acreditamos que uma dicotomia entre dados-produzidos-pelo pesquisador e dados-que-existem-naturalmente não faz sentido (PERÄKYLÄ, 2005). Temos plena consciência de que as pessoas que participaram desses grupos conversavam não apenas entre si, mas com um pesquisador. Não pretendemos apagar nossa presença. Fomos interpelados de maneira direta por dezenas de vezes. É exatamente por isso que preferimos falar de conversações informais em vez de conversações cotidianas. O que buscávamos era esse espaço da interlocução face-a-face entre pessoas que se conhecem em um ambiente ordinário. O objetivo era aproveitar-se da informalidade existente (WARR, 2005).
Discutida a ideia dos grupos de conversação, cabe aqui apresentar uma breve descrição de cada um dos grupos realizados.
Grupo 1: O primeiro grupo de conversação ocorreu na sala do memorial da Colônia de Santa Izabel (Betim, MG), durou 91 minutos e contou com a participação de oito pessoas: três mulheres (63, 57 e 57 anos de idade) e cinco homens (70, 65, 64, 48 e 39 anos). Realizado no início da coleta de dados, esse grupo foi, sob alguns aspectos, mais formal que os demais. Nesse momento da pesquisa, ainda não havíamos desistido da ideia de trabalhar com grupos focais. O pesquisador já havia conhecido muitas pessoas em outras conversações corriqueiras e os convidou, por telefone, para essa conversa. No entanto, grande parte das pessoas confirmadas não compareceu no dia, sendo que os próprios presentes se ofereceram para convidar outras pessoas. Importante destacar, ainda, que alguns dos participantes se retiraram antes do término e um deles se inseriu quando a conversa já estava em andamento.
Grupo 2: O segundo grupo de conversação ocorreu no quintal da casa de uma moradora da Colônia de Santa Izabel (Betim, MG), durou 62 minutos e contou com a participação de três pessoas, todas elas mulheres (69, 61 e 36 anos de idade). A aproximação se deu depois da observação de que as três mulheres conversavam em uma varanda. Apresentamo-nos e pedimos para participar da conversa, lançando questões gerais. Cabe mencionar que a participante de 36 anos era filha da de 61 anos.
Grupo 3: O terceiro grupo ocorreu em frente ao hospital da Colônia de Santa Izabel (Betim, MG), teve duração de 52 minutos e envolveu cinco pessoas, todos homens (78, 71, 63, 54 e 48 anos de idade). Três participantes encontravam-se sentados em uma mureta conversando animadamente, quando o pesquisador se apresentou. Ao longo da conversa, percebeu-se que vinham de outra cidade para se tratar e esperavam uma carona. Os outros participantes se inseriram posteriormente no grupo, atraídos pela curiosidade.
Grupo 4: O quarto grupo de conversação ocorreu na Colônia de Santa Fé, (Três Corações, MG), envolvendo cinco homens (61, 57, 51, 40 e 40 anos de idade). A referida instituição foi visitada pelo pesquisador por ocasião do I Seminário dos Antigos Hospitais-Colônia de Minas Gerais. Com duração de 49 minutos, o grupo foi encontrado conversando em uma rua da colônia durante um dos intervalos do evento. A aproximação foi facilitada em virtude do conhecimento prévio de dois membros do grupo. Nele, havia também moradores da Colônia Padre Damião (Ubá, MG). Aos poucos, alguns participantes foram deixando a conversa em virtude da partida de um ônibus que os levaria de volta a Ubá.
Grupo 5: O quinto grupo de conversação foi realizado no quintal de uma casa, situada na área da Colônia de Antônio Justa (Maracanaú, CE). Com duração de 113 minutos, o grupo contou com a participação de seis pessoas: três mulheres (74, 73 e 33 anos de idade) e três homens (79, 69 e 35 anos). Esse grupo teve início em uma caminhada pelas ruas da colônia, quando o pesquisador encontrou um casal conversando no quintal da própria casa. Cabe ressaltar que três dos participantes desse grupo eram contatos que facilitaram nosso acesso à colônia: dois estudantes de história e uma enfermeira com ampla atuação junto ao Morhan. Os dois estudantes fizeram poucos comentários na discussão. A enfermeira, por sua vez, inseriu-se no grupo ativamente. Outro dos participantes, uma liderança do Morhan local, entrou na conversa em meados de seu andamento.
Grupo 6: O sexto grupo de conversação ocorreu na sala do Morhan de Maracanaú, situada nas proximidades da Colônia de Antônio Justa (Maracanaú, CE), e durou 118 minutos. Dele participaram seis pessoas: três mulheres (73, 33 e 24 anos de idade) e três homens (69, 54 e 45 anos). Avisados sobre a chegada de um pesquisador de Minas Gerais que vinha fazer uma pesquisa na colônia sobre as lutas das pessoas atingidas pela hanseníase, quatro integrantes do núcleo do Morhan de Maracanaú se organizaram para uma entrevista coletiva. As duas outras participantes eram contatos que facilitaram nosso acesso à colônia: a estudante de história e a enfermeira que também participaram do grupo anterior.
Grupo 7: O sétimo grupo foi realizado na sala de convivência do pavilhão da enfermaria masculina da Colônia de Antônio Diogo (Redenção, CE). Ele durou 91 minutos e envolveu oito moradores, todos homens (77, 69, 67, 65, 65, 56 e 46 anos de idade, sendo que um participante não soube precisar a
idade). Esse grupo foi encontrado durante a visita do pesquisador ao pavilhão. Um dos participantes, todavia, entrou posteriormente no grupo, tendo se retirado do mesmo por duas vezes em seu decorrer.
Grupo 8: Realizado na varanda da casa de uma moradora da Colônia de Antônio Diogo (Redenção, CE), o oitavo grupo teve duração de 57 minutos e contou com a participação de oito pessoas: quatro mulheres (76, 73, 44 e 20 anos de idade) e quatro homens (69, 65, 48 e 43 anos). O pesquisador, acompanhado da mesma liderança do Morhan já mencionada no quinto grupo, encontrou as mulheres conversando e pediu autorização para participar. Antes do início da gravação, dois outros participantes se aproximaram e, curiosos, inseriram-se no grupo. Depois de alguns minutos, a enfermeira que participou dos grupos 5 e 6 também se inseriu e, no final, um dos participantes do grupo 7 se aproximou e teve breve participação.
Grupo 9: O nono grupo de conversação ocorreu na Colônia Souza-Araújo (Rio Branco, AC), durou 79 minutos e envolveu seis pessoas, todos eles homens (65, 65, 64, 63 e 55 anos de idade, sendo que um homem com aparência de 40 anos não revelou sua idade). Uma parte desse grupo foi encontrada em um dos pátios do hospital. Nossa aproximação chamou a atenção de mais um participante que se aproximou. Uma liderança do Morhan local que nos acompanhava também participou da conversação.
Grupo 10: Realizado na varanda de uma casa situada na vila de Santa Cecília (Rio Branco, AC), o décimo grupo teve duração de 72 minutos e contou com a participação de seis pessoas, três homens (51 e 49 anos de idade, sendo que um rapaz com cerca de 20 anos não informou sua idade) e três mulheres (53, 33 e 25 anos). Esse grupo teve uma formação anterior à sua realização. Como a vila de Santa Cecília foi parcialmente construída por egressos do Souza-Araújo, interessamo-nos por visitá-la, sendo que dois integrantes do Morhan local nos acompanharam. Quando aguardávamos o ônibus, estes integrantes do Morhan encontraram duas conhecidas e começaram a conversar. A conversa prosseguiu no interior do coletivo, sendo que uma dessas senhoras nos convidou para que continuássemos o bate- papo na casa dela. O convite foi aceito, e a conversa passou a ser gravada tão logo nos sentamos na varanda. Um dos participantes, o filho da dona da casa, se inseriu em meados da conversa.
Grupo 11: O décimo primeiro grupo foi realizado na varanda de uma casa na vila do Belo Jardim, caracterizada pela presença de muitos egressos do hospital. Nosso grupo de conversação teve duração de 81 minutos e participação de oito pessoas, sete homens (63, 55, 53, 51, 51, 49 e 23 anos de idade) e uma mulher (67 anos). Dois dos participantes desse grupo participaram do grupo 10 e um deles do 9.
Grupo 12: Nosso último grupo de conversação foi realizado no núcleo do Morhan de Rio Branco (AC) e durou 98 minutos. Dele participaram quatro pessoas: três mulheres (62, 59, 58 anos de idade) e um homem (66 anos). É interessante assinalar, aqui, que o Morhan de Rio Branco funcionava, na época, como uma espécie de centro de convivência, em que integrantes do movimento se encontravam diariamente, tomavam café da manhã, conversavam, faziam almoço, trocavam experiências. O Morhan serve quase que como um espaço de encontro para essas pessoas. Nosso grupo de conversação surgiu de um desses encontros. Durante o tempo que passamos em Rio Branco para coleta de dados, conversamos com diversas pessoas que passavam por esse espaço. Essa conversa específica foi gravada e teve a participação de ativistas do Morhan (que não participaram dos outros grupos).
Além dos grupos de conversação gravados, nossa coleta das conversações informais é atravessada pelas observações que realizamos ao longo de várias visitas a cada uma das colônias citadas e à colônia de Curupaiti (Rio de Janeiro, RJ). Fomos, também, a reuniões do Morhan, audiências públicas, festas comunitárias, eventos políticos, seminários acadêmicos e encontros locais, regionais e nacionais de moradores de colônias. Participamos de refeições e viagens; conhecemos diretores, funcionários, pacientes e antigos pacientes. Durante essas
visitas observacionais, travamos várias conversações que foram fundamentais para que compreendêssemos as lutas por reconhecimento das pessoas atingidas pela hanseníase. Ouvimos muitos casos, desabafos e reivindicações. Como entrevistas não estruturadas, essas conversas dispersas e espontâneas foram imprescindíveis para que entendêssemos as questões aqui em foco (FONTANA; FREY, 1998; GASKELL, 2003, p. 64).