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6 FALLERSTATNING SOM MÅ LEGGES TIL GRUNN VED EN EVENTUELL EKSPROPRIASJONSTILLATELSE TIL TKP

6.2 Erstatning til Fjellkraft AS og Småkraft AS

Porém, no decorrer do desenvolvimento do modelo civilizatório ocidental, encontramos uma segunda forma de manifestação do niilismo. O niilismo reativo apresenta- se a partir da constatação feita pelo próprio homem, da fragilidade, da insustentabilidade das verdades e das essências propostas pela metafísica da racionalidade, ou seja, que todo esforço de conhecimento realizado pelo homem não passa de um exercício antropomórfico, válido somente para ele num determinado contexto. O conhecimento do mundo assume sua imagem e semelhança, e portanto válido somente para o homem, sendo possível unicamente através de um exercício geocêntrico, logocêntrico e egocêntrico. Frágil, precário, parcial, contingente,

sujeito aos interesses mais variados, o conhecimento humano deixa de ser possibilidade de explicação e afirmação de certezas e de convicções em relação à existência.

À presunção geocêntrica do intelecto, que age “como se os gonzos do mundo girassem dentro dele” corresponde sua presunção logocêntrica, sua autonomeação como soberano legítimo, autárquico de todas as operações lógicas, o qual tem de abstrair continuamente dos processos não soberanos, ilógicos, que o mantêm nesta posição – mesmo quando reflete sobre ela. (TÜRCKE. 1993, p. 52).

Esta perspectiva niilista reativa se aprofunda com a percepção pelo homem moderno da Morte de Deus, ou seja, no momento em que se instala a dúvida, a descrença nos valores superiores impostos pela moral judaico-cristã que davam sustentação à fantasmagoria de uma outra vida, de harmonia, paz, felicidade e eternidade em detrimento da vida enquanto manifestação efêmera, transitória e fisiológica, como manifestação da vontade de vida, dos instintos. A constatação da Morte de Deus é um acontecimento que abala as estruturas do universo: desabam o mundo supra-sensível construído pelo homem, os valores transcendentes, a idéia de bem e mal, as perspectivas teleológicas e escatológicas que remetem o homem ao passado e ao futuro disfarçando a manifestação da vida no presente.

O insensato – Nunca ouviram falar de um louco que em pleno dia acendeu sua lanterna e pôs-se a correr na praça pública gritando sem cessar: - Procuro Deus! Procuro Deus! Como lá se encontravam muitos que não acreditam em Deus, seu grito provocou uma grande hilariedade. – Ter-se-á perdido? Perguntou um. – Ter-se-á perdido como criança ? – perguntou outro. Ou estará escondido? Terá medo de nós? Terá partido ? – assim gritavam e riam todos ao mesmo tempo. O louco saltou em meio a eles e trespassou-os com seu olhar. – Para onde Deus foi? – bradou. – Vou lhes dizer! Nós o matamos, vós e eu! Nós todos, nós somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estaremos caindo incessantemente? Para a frente, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não erramos como através de um nada infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio? Não fará mais frio? Não surgem noites cada vez mais noites? Não será preciso acender as lanternas pela manhã? Não escutamos ainda o ruído dos coveiros que enterram Deus? Não sentimos nada da decomposição divina? Os deuses também se decompõem! Deus morreu! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolaremos, nós, os assassinos dos assassinos? O que o mundo possui de mais sagrado e possante perdeu seu sangue sob nossa faca. O que nos limpará deste sangue? Com qual água nos purificaremos? Que expiações, que jogos sagrados teremos que inventar? A grandeza deste ato não é muito grande para nós? Não seremos forçados a tornarmo-nos deuses para parecermos, pelo menos dignos de deuses? Jamais houve ação tão grandiosa e aqueles que poderão nascer depois de nós, pertencerão por esta ação a uma história mais alta do que o foi até aqui qualquer história – O insensato calou após pronunciar estas palavras e voltou a olhar para seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Atirou, finalmente, a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se. – Chego muito cedo – disse então, - meu tempo não é chegado. Este evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo quando foram efetuadas, serem vistas e entendidas. Esta ação está ainda mais longe deles que o astro mais distante e todavia foram eles que o cometeram! Conta-se ainda que esse louco penetrou nesse mesmo dia em diferentes igrejas e entoou seu Requiem aeternam Deo. Expulso e interrogado não cessou de

responder a mesma coisa: “De que servem estas igrejas se são tumbas e monumentos de Deus? (NIETZSCHE, 1976, p. 133).

Diante da morte de Deus desaba sobre o homem o mundo construído a partir de verdades reveladas, a partir de conhecimentos conceituais das essências. É a liqüidação dos valores supremos transcendentes, da metafísica alicerçada no conhecimento conceitual. Instala-se uma traumática crise existencial, verificada de forma mais contundente na modernidade, manifestando-se pelo niilismo reativo como expressão de cansaço em relação à existência, ou seja, a percepção de que a existência não tem sentido, de que não há uma finalidade. A percepção de que a existência não passaria de um mero acidente, de que o universo não está a nosso serviço, mas de que somos apenas uma partícula de poeira cósmica perdida na imensidão do espaço a participar, num instante qualquer, da dança da vida, da vontade de vida, de que o mundo não está submetido a leis eternas e imutáveis de causa e efeito. Portanto, nesta perspectiva, tornar-se-ia impossível uma única interpretação do mundo, pois, todas as interpretações não passam de interpretações antropomórficas válidas apenas para quem interpela e tenta interpretar o mundo em função de sua sobrevivência.

A conseqüência niilista ( a crença na ausência de valor) como decorrência da estimativa moral de valor: perdemos o gosto pelo egoístico [...] – perdemos o gosto pelo necessário [...]. vemos que não alcançamos a esfera em que pusemos nossos valores. [...], estamos cansados, porque perdemos o estímulo principal. “Foi em vão até agora!.(NIETZSCHE, 1978, p. 380).

Nesta perspectiva, o niilismo reativo se manifesta num grande cansaço em relação à vida, numa desilusão na impossibilidade finalista do vir-a-ser, remetendo o homem a uma atitude de resignação em relação à vida, assumindo uma postura passiva diante da exuberância de forças vitais em jogo e combate na trama da vida. Prefere negar seus instintos, seu vir-a-ser, enfim, a vida em sua multiplicidade de forças, mas também em sua precariedade e fragilidade, esvaindo-se num consumismo existencial que lhe assegura a certeza do instante do consumo. Impossibilitado e receoso de assumir-se a si próprio como causa e conseqüência, de conduzir sua existência a partir da fragilidade, da precariedade e das contingências para além das verdades e certezas, estabelece a ausência de sentido como o sentido de sua existência.

Pregador de uma nova doutrina, o adivinho vem substituir o sentido, que a interpretação cristã do mundo havia dado à existência humana, pela total ausência de sentido. Difusor de uma nova crença, ele vem substituir o ideal ascético pelo “niilismo suicida”. Com a falência do cristianismo, é enquanto doutrina e crença que o niilismo se propaga. Paralisante, seu veneno atinge todos os domínios, até o do conhecimento. Niilistas são os contemplativos, que separam teoria e prática, que renunciam a criar valores, que abdicam de legislar. Em decorrência da morte de Deus e da conseqüente supressão do solo a partir do qual os valores instituídos foram engendrados, o adivinho, esta figura do niilismo, instaura o vazio. (MARTON, 2000, 2000, p. 58).

Para Nietzsche esta manifestação de niilismo reativo decorrente da morte de Deus, do desmoronar de uma cosmovisão onto-teológica e metafísica, impede o homem de ir além de sua condição humana limitada e predefinida pela cultura, pela humanidade e por suas instituições, inviabilizando a possibilidade de “transvaloração dos valores”. Torna-se nesta perspectiva uma vontade de nada, ou seja, um esvaziamento da vontade de vida como criadora de valores cosmológicos em sintonia com a terra, com o universo, e fisiológicos como a manifestação das forças instintivas impulsionadoras da vida e sua manifestação. Neste sentido o niilismo reativo é a anulação do homem naquilo que lhe é elemento fundante: a vontade de vida transformada em nada da vontade.

Exaustão superlativa, ele é o índice da absoluta incapacidade de criar: “uma espécie humana improdutiva, sofredora, cansada de viver [...] não possuindo mais força de interpretar, de criar ficções, produz o niilista. Um niilista é um homem que julga que o mundo tal como é não deveria existir, e que o mundo tal como deveria ser não existe. Portanto, viver (agir, sofrer, querer, sentir) não tem sentido: o que há de patético no niilismo é saber que “tudo é vão” – e este próprio patético é ainda uma inconseqüência no niilista.(KOSSOVITCH, 1979, p. 80).

A vontade de vida transformada em vontade de nada, conduz a outras possibilidades de manifestação do niilismo reativo enquanto cansaço e negação da existência. Há entre elas, a vontade de autodestruição como renúncia à vida em suas manifestações contingentes, incertas, em sua precariedade. A insuportabilidade de perceber-se sem sentido existencial conduz o homem ao pessimismo, a buscar a morte em vida. Trata-se de ressentimento em relação à vida, de difamá-la e acusá-la de ser fonte de dor e sofrimento, de nada proporcionar ao homem, a não ser ilusões. É um lamentar carregado de acusações à vida. Com isto busca justificativas quanto à necessidade de abreviação da mesma. Na perspectiva dos estóicos19 o ideal de vida para estes niilistas seria a ataraxia, ou seja, a ausência de dor, de sofrimentos e perturbações, negando o caráter trágico da vida que se manifesta no combate entre diferentes, entre dor e alegria, felicidade e sofrimento, vida e morte.

Há pregadores da morte; e a terra está repleta de gente á qual deve pregar-se que abandone a vida.

Repleta está a terra de gente supérflua, estragada está a vida pelos muitos-demais. Possa a “vida eterna” atraí-los para fora desta vida !

“Amarelos”: assim são chamados os pregadores da morte; ou, então, “negros”. Mas eu quero mostrá-los noutras cores.

19

[...]. O antigo estoicismo tem origem com Zenâo de Citium (335-264 a.C), cipriota que veio a Atenas, onde, após ter sido aluno de um filósofo cínico, ensina sob um pórtico, daí o nome de estoicismo ou filosofia do

Pórtico. (...). Vivendo em harmonia com a razão, ou seja, com a natureza, o sábio estóico irá encontrar a paz da

alma (ataraxia) afastando dele tudo o que poderia pertubá-lo, essencialmente as paixões consideradas como movimentos antinaturais, doenças da alma. A virtude que repousa precisamente na ausência de paixão, ou apatia – implica um domínio comum da vontade de julgamento para aceitar o destino mostrando-se desapegado em relação às coisas e aos homens, como afirmam com destreza os estóicos romanos. (DUROZOI, Gérard, ROUSSEL André. Dicionário de Filosofia. Op. Cit., p. 168.)

Aí estão os seres terríveis, que trazem a fera dentro de si e para os quais não há escolha senão entre os prazeres e a maceração. E também seus prazeres ainda são maceração.

Ainda nem sequer se tornaram homens, esses seres terríveis; oxalá preguem o abandono da vida e eles mesmos se assumam!

Aí estão os tísicos da alma: mal nasceram, já começaram a morrer e suspiram por doutrinas do cansaço e da renúncia.

Gostariam de estar mortos; e nós deveríamos, realmente, aprovar-lhes a vontade! Guardemo- nos de despertar esses mortos e bater nesses ataúdes! (NIETZSCHE, 1998/A, p. 61).

Partindo desta perspectiva abissal da morte de Deus, Nietzsche constata em seu contexto existencial outros desdobramentos niilistas de exaustão em relação à existência na estrutura do modelo civilizatório ocidental em sua fase moderna, ou seja, propostas de enquadramento e de idealização da vida através de ideais, de utopias revolucionárias, de construção de modelos sociais que resolveriam as contradições da vida humana em sociedade, tais como, socialismo, liberalismo, anarquismo etc. Estas formas de organização política e social não representam, segundo Nietzsche, nenhuma possibilidade existencial de o homem transcender os valores metafísicos e da moral judaíco-cristã. Ao contrário, tendem a um reforço niilista de negação da vida, na medida em que se revelaram propostas autoritárias, com pretensões de organização do rebanho social, impondo sobre o homem normas éticas e morais. Todo o discurso de organização social na busca da igualdade, da fraternidade e da democracia, revelou-se insustentável, aniquilamento das possibilidades de o homem assumir- se a si próprio, em sua força vital instintiva. O fracasso, a desilusão desses modelos em relação aos desafios existenciais é o saldo dessas experiências, o que reforça o cansaço, a exaustão, o sem sentido moderno em relação à vida.

O instinto de rebanho, em segundo lugar, - uma potência que agora se tornou soberana – é algo fundamentalmente diferente do instinto de uma sociedade aristocrática: e tudo depende do valor das unidades que a soma tem para significar...

Nossa inteira sociologia não conhece nenhum outro instinto senão o de rebanho, isto é, dos zeros somados, - onde cada zero tem “direitos iguais”, onde é virtuoso ser zero...(NIETZSCHE, 1978, p. 382).

A morte de Deus também possibilita a afirmação do niilismo reativo através da ciência moderna, na medida em que todo o esforço científico revela-se uma crença na possibilidade de objetividade do mundo e da natureza. Capaz de conhecer e determinar o mundo numa perspectiva utilitarista e funcionalista. Neste sentido a ciência assume na modernidade o status de um saber absoluto e inatacável. Porém, o que a civilização moderna constata, a um alto preço, não é a confirmação destes pressupostos científicos mas sim sua contingência e parcialidade. O conhecimento científico não passa de um antropomorfismo do mundo, válido somente para o homem em determinadas circunstâncias. Cai por terra novamente a possibilidade da substituição de Deus pela ciência. Vemos frustradas nossas necessidades de afirmação de verdades, certezas, amparo à nossa frágil existência.

[...] descrença em um mundo metafísico, em que se proíbe a crença em um mundo verdadeiro. [...]. O sentimento de ausência de valor foi alvejado, quando se compreendeu que nem com o conceito “fim”, nem com o conceito “unidade”, nem com o conceito “verdade” se pode interpretar o caráter global da existência. [...] as categorias “fim”, “unidade”, “ser”, com as quais tínhamos imposto ao mundo um valor, foram outra vez retiradas por nós – e agora o mundo parece sem valor...(NIETZCHE, 1978, p. 381).

O combate que Nietzsche trava ao longo de sua atribulada existência, é um combate incondicional na perspectiva da afirmação da vida em seu vir-a-ser fisiológico (em contato direto com a terra, com a natureza), cosmológico, (a vida como fenômeno resultante e participante da energia e da matéria, e de forças presentes no universo). “[...]. Nietzsche acreditava [...] que os valores morais, se não são dados pela religião, devem ser vistos como fundamentados no estético.” (TUGENDHAT, 2002, p. 75). Enfim, a existência como manifestação da vontade de potência presente no universo, da vida em sua multiplicidade de manifestações e formas fisiológicas e cosmológicas .

[...]. Nietzsche estava convencido de que o homem necessita para viver de um sentido da vida e, por isso, viu a sua tarefa numa reavaliação dos valores, segundo a qual os homens deveriam ver o sentido da vida na própria vida. Ao invés de obedecer aos valores dados (valores supra-sensíveis), o homem criaria seu valores. Isto significa que a transcendência para o sentido da vida voltar-se-ia para o interior do próprio ser humano. Poder-se-ia, então, falar de uma transcendência imanente , quer dizer, de um ir além que precisamente não seria um ir a algo além do natural, mas um ir além do ser do homem. (TUGENDHAT, 2002, p. 75).

Ao denunciar as diversas faces de manifestação do niilismo no modelo civilizatório ocidental, como forma de domesticação, repressão dos instintos, de tornar o homem um animal dócil, obediente, culturalmente construído e construtor de outros mundos do além, como forma de negar e fugir da vida em seu caráter trágico, Nietzsche não está julgando. Não é sua intenção estabelecer critérios valorativos sobre as manifestações niilistas no modelo ocidental moderno, mas, constatar e afirmar que talvez seja o niilismo nossa única saída, nossa única possibilidade de transcender o homem, a civilização, a cultura e todas as inconsistências metafísicas criadas para conformar o animal de rebanho em sustentáculo que avalize o além-mundo, justificativa para sua negação e ressentimento em relação a vida.