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3.3 Erik

A língua portuguesa do Brasil é denominada por Elia (1989) de língua transplantada porque seu berço é Portugal e ela veio trazida pelos colonizadores, no século XVI, aportando aqui em 21 de abril de 1500. Seu primeiro contato em terras brasílicas é através da Carta de Pero Vaz de Caminha, e durante muitos anos esta língua foi usada somente pelos exploradores.

A colonização começa de verdade no Brasil, em 1532, com a distribuição de quinze capitanias hereditárias. Mais tarde começam as entradas no interior para exploração das riquezas e a disseminação da religião pelos missionários encarregados pela expansão da fé. Esta ação constituiu meios eficazes de disseminação da língua entre os povos nativos.

Conforme Teyssier (1987), a situação da língua portuguesa neste período histórico é bastante misturada. Ela é falada pelo colono nativo com traços específicos acentuando-se no decorrer do tempo. Os índios e negros usam-na de uma “forma imperfeita” e ao lado destes usos, há a língua geral, o tupi simplificado e ainda uma

multiplicidade de línguas indígenas, sem falar nos dialetos negros que conviviam juntos formando uma verdadeira Torre de Babel.

Para o contato do catequista com o pagão autóctone foi necessário adaptar a língua, caso contrário, o trabalho não seria profíquo. Os jesuítas, encarregados pela catequese sistematizaram a língua em catecismos, dicionários e até mesmo em gramáticas. Esta adaptação do tupi, com o objetivo de manter contato e domínio, dá-se nome de língua geral. Para Teyssier esta língua geral é o tupi simplificado, gramaticalizado pelos jesuítas, tornando-se numa língua comum. Rodrigues (1994, p. 99) acrescenta que “a expressão “língua geral” foi inicialmente usada, pelos portugueses e pelos espanhóis, para qualificar línguas indígenas de grande difusão numa área”. No Brasil, segundo ele, tardou o uso desta expressão pelos portugueses.

A língua dos índios Tupinambás abrangia uma enorme faixa de terra do litoral de São Paulo ao litoral do Nordeste, foi intitulada pelo padre Anchieta, após sistematizar e publicar sua gramática em 1595 de Arte de gramática da língua mais usada na Costa do Brasil. Esta língua teve várias denominações posteriormente tais como: língua do Brasil, Língua da Terra, Língua do Mar e Língua Brasílica.

O nome Língua Geral começa a ser aplicado a esta língua falada pelos índios missionados e pelos não-índios, na segunda metade do século XVII, embora com sentido diverso, isto é, aplicando-se a denominação a qualquer língua da família tupi- guarani. Isto leva à crença em que só havia uma língua geral no Brasil. Porém a verdade é que outras línguas de outros troncos indígenas eram faladas na Colônia. Destaca Rodrigues (1994) que no Sul do Brasil constituiu-se uma Língua Geral distinta da Língua Geral do Norte ou Língua Amazônica.

A língua Geral de São Paulo pertencia ao tronco Tupí de São Vicente e do alto Tietê que diferia dos Tupinambás. Esta língua foi falada pelos bandeirantes que adentraram o interior do Brasil na busca do ouro. Foi dominante em São Paulo no século XVII.

A língua Geral do Norte ou Amazônica desenvolveu-se mais tarde do que a do Sul e teve origem no Tupinambá, povos que habitavam o litoral do Maranhão, daí esta língua ter sua origem nesta nação. Foi falada pelas tropas das missões que penetraram e

criaram núcleos de povoamento no vale amazônico, sendo falada no Maranhão e no Pará. Foi o veículo da catequese e da ação social e política portuguesa e luso-brasileira. Mattos e Silva (2004) acrescenta outra língua geral desta vez falada no Nordeste denominada de língua cariri.

Conforme se observa, várias línguas gerais conviveram no Brasil por um longo período, porém alguns autores generalizam o termo ao se referirem à Língua Geral, considerando apenas esta língua do litoral paulista ao litoral do Nordeste.

É o que Fonseca (2003) fala ao afirmar que até o século XVIII, ocorreu no Brasil uma espécie de bilingüismo. Durante o século XVII e até meados do século XVIII as famílias paulistas se comunicavam em tupi ou na Língua Geral. Esta língua reinava nos campos de São Paulo, Rio Grande do Sul, Amazonas e Pará. Percebe-se que a autora considera todas as todas as línguas gerais como se fora apenas uma. O que contesta Rodrigues (1996) quando distingui a língua geral do litoral, a de São Paulo ou do Sul e a Amazônica. Os demais autores que citamos aqui também são do mesmo ponto de vista, ou seja, denominam de Língua Geral a variedade lingüística falada na extensão litorânea.

Coutinho (1979) observa que os homens do reino ocupados com a agricultura ou o comércio não lhe sobravam lazer para ministrarem aos seus filhos o conhecimento da língua materna, ficando esta tarefa às mulheres ou companheiras. O contato doméstico destas com os nativos fez com que se absorvessem a língua falada por aqueles. Vieira apud Coutinho (1979) reforça que o contato das famílias portuguesas com os índios em São Paulo faz com que a língua que nas ditas famílias se fale seja a dos índios e a portuguesa os meninos aprendam nas escolas.

Na segunda metade do século XVIII, a Língua Geral entra em decadência e o fato principal que ocorreu para isso foi a expulsão dos jesuítas dos territórios portugueses, em 1759, através do decreto do ministro Marquês de Pombal que estabelece a língua portuguesa como oficial e obrigatória. Salienta Teyssier que cinqüenta anos após a expulsão dos jesuítas a língua geral já havia desaparecido

A expulsão dos jesuítas, em 1759, afastava da colônia os principais protetores da língua geral. Cinqüenta anos mais tarde o português

eliminaria definitivamente esta última como língua comum, restando dela apenas um certo número de palavras integradas no vocabulário português local e muitos topônimos. (TEYSSIER 1987, p. 75)

A língua portuguesa já estava bem difundida pelo interior durante aquele século através dos bandeirantes na busca do ouro que abriram caminhos para arrancar da terra as riquezas naturais, deixando em troca a disseminação da língua pelos rincões do sertão brasileiro. É deste século que se começam a registrar as primeiras alusões aos traços de português brasileiro, ressalta Teyssier.

No século XIX, precisamente em 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil, aumenta o contato da colônia com o mundo, principalmente com as civilizações européias e o desejo de liberdade em todos os sentidos é fomentado no pensamento dos colonizados. A língua passa a ser um instrumento de identidade nacional, ressaltada pelos poetas e romancistas brasileiros do estilo literário denominado Romantismo. No final deste mesmo século, já se torna público a edição da primeira gramática escrita no Brasil, a de Júlio Ribeiro, em 1881.

Após a independência em 1822, gradativamente, o Brasil vai se distinguindo da metrópole, entrando em contato com outros povos através das imigrações de várias nações, aumentam o número de escolas e abrem-se universidades. A língua adquire feição própria, muitas delas diferentes do português europeu. A literatura brasileira apresenta características nacionais através das falas dos diversos personagens, dos índios, sobretudo, no Romantismo, e os negros e os caboclos também ocupam espaço no imaginário do escritor, mais tarde no Modernismo.

Alencar buscou, sobretudo, a independência estética e lingüística do escritor brasileiro – talvez-, principalmente, a sua própria liberdade estilística, já que tomou a si a responsabilidade pela construção do nosso imaginário nacional, através de seus romances de fundação, e da representação de uma identidade lingüística para o Brasil recém- independente. (TROUCHE, 2001. p. 6).

Apesar da formação acadêmica dos escritores, o conhecimento da gramática normativa e o domínio da língua clássica, há uma valorização da língua falada pelo povo representada na obra literária. A literatura apresenta um léxico diversificado de expressões mais ou menos marginais, como salienta Martins (1988, p.17) “O léxico

básico da língua comum aparece acrescido, na língua literária, de vocábulos mais ou menos marginais–latinismos, arcaísmos, neologismos, tupinismos, estrangeirismos, regionalismos, vulgarismos”.

No inicio do século XX, o chamado Modernismo literário ressalta muito mais as marcas de uma língua brasileira com seu regionalismo e a presença marcante do migrante, do analfabeto falando e salientando, assim, os dialetos regionais. Como bem chama a atenção Teyssier.

O Modernismo alia a recusa da tradição e dos preconceitos, recusa proclamada no estilo das vanguardas européias, a um esforço tenaz para definir uma originalidade propriamente brasileira. É um tempo revolucionário e nacionalista. (...) E efetivamente todos os modernistas da primeira vaga, a que aflui de 1922 a 1930 aproximadamente, rebelam-se contra a gramática tradicional o purismo lusitano. Querem escrever uma língua que se aproxime da brasileira (TEYSSIER, 1987, p. 112)

Os autores modernos, sobretudo, da primeira fase de 1920 a 1945, conforme Pinto (1988) tiveram formação tradicional dos mais renomados gramáticos do século XIX, receberam influência do modelo literário português, porém, rebelaram-se contra tudo isso e passaram a apoiar-se em teóricos contemporâneos. Nos anos 60, segundo a autora, já se ensinava nas escolas alguns rudimentos de gramática aplicada ao texto, e nas universidades, muitas disciplinas de língua portuguesa e de lingüística ampliam o leque das discussões sobre a língua.

É cada vez mais presente a consciência lingüística do brasileiro, principalmente quando ela ganha vulto pela adesão cada vez mais crescente de pesquisadores que lidam com as perspectivas de variação e demarcam áreas geográficas brasileiras em que se sobressaem os diversos falares regionais.

Os estudos sobre variação lingüística no Brasil começam a marcar presença já no século XIX, em 1826 como mostram Ferreira e Cardoso (1994) a respeito dos diversos estudos e trabalhos publicados sobre a língua portuguesa do Brasil e as suas variações. Nos anos 50 do século XX, surgem os trabalhos mais sistematizados realizados a partir de corpus constituídos e analisados elaborando-se os primeiros Atlas Lingüísticos Brasileiros, concretizando-se, assim, os estudos dialetológicos no Brasil.

Estes estudos não só reconhecem e confirmam os limites lingüísticos do Português do Brasil em relação ao Português de Portugal, como delimitam as marcas da língua falada no Brasil, estabelecendo os diferentes falares regionais.

Podemos dizer, portanto, que no Brasil, não houve e não há uma unidade lingüística. Somos um país lusófono, porém esta lusofonia é bastante diversificada por misturas de vários dialetos quer sejam de base indígena ou negra, quer seja de base estrangeira, constituindo uma variante brasileira que se impõe e se diferencia do português europeu, com uma norma específica. Estas marcas diferenciadoras estão, sobretudo, no léxico bastante influenciado pelas línguas indígenas, africanas e outros povos estrangeiros. Para Coelho (2001) o léxico é o aspecto da linguagem que mais se recente das condições ambientais; a diversos sistemas de vida, a uma fauna, a uma flora, a um elemento humano autóctone diferentes, correspondem necessariamente palavras distintas, ou palavras idênticas com uma carga semântica diferente em outro contexto em que ela se adequa. Na fonética, em alguns aspectos da morfologia, apesar de menos vistosos, e na sintaxe, principalmente na colocação dos clíticos como bem acentua Coelho.

Os trabalhos recentes que investigam a história do português do Brasil vêm constatando as diferenças da língua falada aqui, delimitando-se, historicamente, o período em que esta língua dissocia-se da língua de Portugal e se constitui como uma variante brasileira.