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Partindo do exposto no tópico anterior, pode-se dizer que os personagens machadianos, em Memórias póstumas de Brás Cubas, não são submetidos a uma análise interior apropriada que lhe desvende os conflitos íntimos e o caráter. Este último é aferido por um narrador que nos transmite seu ponto de vista como verdade, uma vez que o seu discurso é o único a que temos acesso de maneira mais concreta.

Desse modo, a impressão que se tem é que, em meio ao retrato da realidade brasileira do século XIX, Brás Cubas nos revela tipos sociais, pois a maneira como esses personagens são expostos, por vezes sucintamente, aparecendo apenas em um único capítulo do romance, e sem espaço para que se manifestem por si mesmos, não permite que comportem, assim, uma complexidade digna dos personagens esféricos. Ademais, se os personagens esféricos são compreendidos como aqueles que não portariam uma integridade interior, opondo-se aos planos que são assim caracterizados, isto é, portadores dessa unidade íntima, a perspectiva do narrador machadiano que expõe grande parte das demais figuras como norteadas sempre pela conveniência e pelo interesse, como características marcantes, passam, assim, a serem de fato tipos, ou planos – já que essas duas ideias parecem estar relacionadas –, uma vez que, no decorrer da narrativa, sempre se orientam conforme a conveniência e o interesse.

Nesse sentido, não procede o esquema que Alfredo Bosi desenvolve em Machado

de Assis: o enigma do olhar, com o crítico apresentando três maneiras de configuração dos

personagens machadianos, a saber: tipo, indivíduo e pessoa.

Conforme a classificação de Bosi, o tipo corresponde “àquela galeria de tipos locais”, em que “cada tipo guardaria em si a ideologia correspondente à sua particularidade social”; o indivíduo seria guiado tão-somente por seus próprios caprichos, os quais são “barrados” pelas convenções sociais; já a pessoa seria uma espécie de superioridade atingida,

a ponto de o homem alcançar aí uma autoconsciência de si263.

263 Cf. BOSI, Alfredo. Machado de Assis: o enigma do olhar. 4ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007, p.

Seguindo outra perspectiva, entendemos que os personagens machadianos na obra analisada se configuram apenas como tipos/indivíduos; ou seja, sem dissociar tais configurações, uma vez que o tipo é marcado por uma particularidade social que se reflete no modo de ser do personagem (o que percebemos na narrativa de Brás Cubas, em que há senhoras honestas que equilibram a decência com a conveniência, além do avarento, do vaidoso etc.); podemos observar também nesses mesmos tipos as características que o definem como indivíduo, isto é, os impulsos de suas volições barradas pelas normas da convenção social, de maneira que todos agem, segundo informa o narrador, de acordo com seus interesses e intenções, sendo, por vezes, impedidos pela sociedade, mas sem ao mesmo tempo deixar de ser um tipo, pois como aponta Merquior

Sente-se que o romancista se detém, curioso e sagaz, ante uma verdadeira galeria de caracteres: Cubas pai, Vilaça, Marcela, o capitão do navio, Cotrim ou Lobo Neves são emblemas vivos da vaidade genealógica, do exibicionismo oratório, da avareza feminina, do furor literário, da cupidez, da ambição política, etc.... Todos encarnam diversas “ligas” ou compostos morais que apresentam uma qualidade (isto é, um defeito) predominante [...].264

Assim, com esse posicionamento, pode-se dizer que a forma da narrativa adotada por Machado em Memórias póstumas, ao destacar determinadas situações contadas por um narrador-personagem, apresenta de maneira superficial as figuras da obra, pois o narrador não se detém especificamente em nenhuma delas a fim de desvendar seu íntimo: apresenta apenas uma postura mais marcante que as defina.

Claramente influenciado por autores ingleses, ainda que o mais destacado seja Laurence Sterne, é possível notar também a presença de Henry Fielding no romance machadiano – este analisado quanto aos personagens tipos. Ian Watt apresenta uma observação acerca do Tom Jones que podemos aproximar do escritor carioca:

[...] Fielding tem um objetivo analítico: não está interessado na configuração exata dos motivos na mente de qualquer pessoa particular num momento particular, mas apenas naquelas características do indivíduo necessárias para incluí-lo em sua espécie moral e social. Assim, estuda cada personagem à luz de seu conhecimento geral do comportamento humano, dos “costumes”, e qualquer coisa puramente individual não tem valor taxonômico.265

O narrador onisciente em terceira pessoa do Tom Jones, por mais que tivesse liberdade para aprofundar o íntimo das personagens, não se detém em nenhuma deles. O

264 MERQUIOR. Op. cit., p. 174.

narrador apresenta, por exemplo, o fidalgo Allworthy, a sua irmã Bridget, a empregada Debora Wilkins, a aproveitadora Molly e a perfeita Sofia Western e mesmo o personagem que dá nome à obra sem realizar intensos mergulhos na interioridade destes, revelando complexidades de caráter. Os personagens de Fielding, que “têm uma evolução psicológica

limitada”266, entram em cena como tipos/indivíduos, cada qual cumprindo o seu papel e

agindo conforme o que convém, obedecendo a intenção do narrador de oferecer um panorama da sociedade inglesa de meados do século XVIII.

É nesse aspecto que Machado se assemelha a Fielding. Não que o autor de Helena tenha nos apresentado um panorama da sociedade carioca tão extenso e com um enredo intricado: isso ele não fez; mas realizou, através das Memórias do protagonista, a exposição de tipos sociais que ultrapassam o localismo, abarcando também o universalismo, uma vez que observamos no romance “criaturas humanas [...] de essência igual a todas as criaturas humanas de todas as épocas e de todos os quadrantes da terra, mas ao mesmo tempo criaturas

brasileiras que viveram durante um determinado período da história brasileira”267.

266 Ibidem, p. 293.

267 PEREIRA, Astrojildo. Machado de Assis: ensaios e apontamentos avulsos. Rio de Janeiro: Livraria São José,