Os desafios aos grupos de teatro são conhecidos há muito pelos artistas e pelas equipas auxiliares. Tendo em conta os cinco critérios em torno dos quais está ancorada a nossa pesquisa, pretendemos fazer um levantamento dos principais problemas das estruturas e do tipo de reac- ções a esses problemas (quadro 9.3).
Tendo como pano de fundo estes cinco critérios, parece-nos impor- tante destacar as nossas perspectivas de evolução em relação às diversas dimensões que ali elencamos. Assim, relativamente ao tipo de relações de trabalho no interior dos grupos predominam as equipas de pequeníssimas dimensões, contratadas por curtos períodos de tempo. Quanto às formas de criação, estas passam por espectáculos com elencos reduzidos que visam estudar, aprofundar, experimentar temas e lugares (como acontece, por exemplo, com o Mundo Perfeito, o Teatro do Vestido, entre outros). Mas também consideramos importante a forte intervenção social dos gru- pos de teatro analisados com os locais, recrutando público local e fazendo formação junto dos mais jovens e dos mais velhos que chegam a integrar os espectáculos (por exemplo, Teatro da Garagem, entre outros).
Por seu turno, as modalidades de colaboração entre os grupos visam o acolhimento das estruturas com pouca visibilidade por parte das estru- turas consagradas (relações de proximidade estética ou geracional pro- porcionam este tipo de colaborações); e as co-produções lideradas pelas estruturas mais fortes, como o Teatro Maria Matos, ou o Teatro Nacional D. Maria II. Quanto aos modelos organizacionais ainda mais flexíveis e
menos onerosos, destacam-se os grupos de teatro para a infância que vivem como um segmento do teatro com relativa autonomia, onde os actores, além da representação, se ocupam das actividades de formação e ateliês para as escolas e famílias.
As estratégias de comunicação têm merecido a atenção dos grupos de teatro que visam atrair o público e chamar a atenção dos media (por exem- plo, Ar de Filmes e abertura de novo espaço no Bairro Alto; TEC convida actriz da antiga geração reconhecida e acarinhada pelo público generalista e pelos seus pares), o que em certos casos representa uma forma de «ga- nhar» espaço simbólico e permanecer no mercado teatral. Atrair o mer- cado estrangeiro, internacionalizar, tem sido uma das apostas do Minis-
Quadro 9.3 – Desafios à sustentabilidade das estruturas e à actuação pública
Critérios de análise Desafios à sustentabilidade das estruturas e à actuação pública (primeira aproximação)
1.Estrutura • Estrutura (permanência) vs. projecto (flexibilidade) organizacional • «Core» (criação/produção/programação) vs. abrangência/
multifuncionalidade • Personalização vs. colectivo • Permanência vs. rotatividade
2. Trabalho • Cristalização/estabilização vs. capacidade de reinvenção
artístico permanente
• Diversidade/multiplicidade vs. afunilamento em nicho (estético ou temático)
• Coerência-identidade vs. contacto-integração-contaminação 3. Inserção no • Isolamento/fechamento vs. colaboração/cooperação meio artístico • Transdisciplinaridade/transversalidade vs. extrema
especialização no campo teatral
• Diversidade/variedade de âmbitos de actuação vs. concentração/ polarização na criação
• Investimento na divulgação/comunicação vs. estratégias de autocentramento
• Reconhecimento/legitimação pelos pares vs. outras lógicas de reputação
4. Estrutura • Auto-suficiência vs. dependência externa
económica • (Quase) monofinanciamento vs. diversidade de fontes de financiamento
• Estratégia de longo prazo (reforço da estrutura) vs. visão de curto prazo (flexibilidade)
• Actuação estratégica vs. gestão das contingências 5. Amplitude • Cosmopolitismo vs. paroquialismo
tério, e os grupos de teatro já procuram actores estrangeiros e trabalhos com pouco texto em português ou textos em inglês.
Se até aqui houve um efeito multiplicador das estruturas de pequenas dimensões (em geral com três membros fixos), daqui para a frente prevê- -se que os actores sejam cada vez mais chamados para trabalhar «à peça» nos grupos de teatro; o recurso a contratações sucessivas do mesmo actor/colaborador; a multiplicação da fórmula «pequenos espectáculos»; a associação dos grupos às estruturas economicamente mais fortes como o CCB, Teatro Maria Matos, etc. Acentua-se a importância do encena- dor-comissário que promove o convite a actores independentes (é o en- cenador-empresário) e a especialistas em diferentes áreas do espectáculo (música, movimento, vídeo, etc.) procurando assumir-se um certo «pro- fissionalismo» estético (Borges 2008).
Os grupos de teatro mantêm-se entidades empregadoras frágeis que organizam o seu trabalho e as suas equipas projecto a projecto, mas con- tinuam a ser um meio privilegiado de socialização das jovens gerações (assinala-se que uma das reacções de actores e encenadores aos problemas sentidos tem passado pela procura da sua colaboração artística com es- truturas mais estáveis – não se trata aqui de acolhimentos – mas de hipó- teses reais de trabalho, de confronto de aprendizagens, de aprendizagem mútua, como aconteceu já no teatro da Cornucópia com a actriz e en- cenadora Beatriz Batarda, entre outros exemplos possíveis.
Em termos de criação teatral, caminha-se mais para a resposta às en- comendas de espectáculos e menos para a produção independente; os grupos constituídos por artistas mais jovens procuram, como sempre, a novidade: pelo tipo de colaboração com grupos estrangeiros, pelas resi- dências, pelo tipo de espectáculos, teatro mais outra forma artística, a co- laboração de escritores, uma gestão mais flexível das suas equipas, entre outras. Não conseguimos ainda avaliar o papel dos novíssimos, contudo, num cenário onde a longevidade profissional de alguns directores das es- truturas mais apoiadas é alvo de questionamento pelos próprios (referência ao espectáculo de Luís Miguel Cintra, Fim de Citação), não é difícil prever que os novos preparam uma mudança na actual organização do teatro.
Em termos de políticas públicas é necessário pensar medidas que visem socializar o risco eminente de colapso de um número considerável de estruturas nas artes e o seu impacto no tecido teatral – conferências como aquela organizada pelo Teatro Nacional D. Maria II1são úteis no
1Conferência intitulada «Economia e Teatro: Desafios em tempo de crise» que de-