As entrevistas, gravadas em aparelhos digitais, foram separadas em pastas arquivadas no computador e identificadas com o nome completo dos informantes, faixa etária e sexo correspondentes.
As entrevistas foram transcritas grafematicamente na íntegra a fim de que pudéssemos registrar os fatos linguísticos manifestados na fala dos informantes que constituem, especialmente, marcas semântico-lexicais específicas de suas falas. A fala do inquiridor foi sempre transcrita de acordo com a ortografia oficial, pois não foi considerada para a análise dos dados.
Optamos pela transcrição grafemática, pois, além de possibilitar uma boa visualização do texto, fornece a reprodução mais fiel possível das características linguísticas da fala dos informantes, atende às necessidades da análise conceptual desta pesquisa, bem como possibilita diferentes abordagens para trabalhos futuros.
Para tanto, seguimos, com algumas mudanças e adaptações, os critérios de transcrição27 adotados pelo Projeto Atlas Linguístico do Brasil e, consequentemente, pelo
Projeto Atlas Linguístico do Maranhão – ALiMA. Em suma, estabelecemos as seguintes orientações: formulação do cabeçalho da entrevista com os seguintes itens: número do informante, nome, sexo, idade, local de nascimento, escolaridade, religião, cor, profissão; os intervenientes no inquérito foram indicados pelas iniciais INQ: (inquiridor), INF:
(informante), CIRC: (interveniente circunstancial) — identificamos, quando necessário, se houve mais de um.
Outras sinalizações: qualquer pausa ...; hipótese do que se ouviu ( ); incompreensão de palavras ou segmentos (inint); comentários do transcritor (( )); nos casos de discurso direto, utilizamos aspas e pontuamos antes de fechar as aspas; hesitações e repetições ...; correções e quebras no encadeamento do enunciado ...; distinguimos o né de valor estritamente fático, posto entre vírgulas, do né com entonação de pergunta, seguido por ponto de interrogação. Também sinalizamos a realização velar ou faríngea de certas consoantes constritivas. Os fatos fônicos (elevação das vogais médias em distribuição pré- acentuada ou em posição átona final, ditongação da terminação nasal –em ou ditongação antes de consoante constritiva implosiva, vocalização da consoante lateral pós-vocálica)
generalizados no Português Brasileiro não foram registrados grafematicamente, para facilitar a visualização do texto.
O critério adotado para a seleção das unidades lexicais constitutivas deste estudo
foi a “chavicidade28” da relevância dessas unidades etnoterminológicas dentro do universo
étnico, histórico e sociocultural de Jamary dos Pretos, conforme sinalizaram estudos anteriormente realizados nessa comunidade e, principalmente, como ratificaram e revelaram as entrevistas que realizamos.
Dessa maneira, quanto à seleção das unidades lexicais analisadas neste estudo, importa-nos ressaltar que consideramos como principal critério de escolha, não a frequência, mas, a vitalidade das especificidades denominativas e conceptuais advindas das práticas desse grupo que singularizaram o léxico de Jamary em relação ao da língua geral, principalmente a
especificidade semântica atribuída a essas unidades lexicais pelos quilombolas de Jamary. Faz-se necessário enfatizarmos, ainda, que optamos por analisar apenas qualitativamente as unidades lexicais resultantes do repertório fundamental e cotidiano do universo quilombola investigado — considerando as diferenças semânticas oriundas da cultura popular herdada, traduzidas em conotações de etnicidade e reveladoras da forma particular desse grupo perceber e conceber a realidade — uma vez que a nossa intenção não foi fazer um glossário exaustivo, mas sim, identificar e analisar minuciosamente especificidades denominativas e conceptuais que revelassem a visão de mundo desse grupo e que, consequentemente, atestassem que o fator étnico-cultural, no caso de grupos marcadamente étnicos como o dos quilombolas de Jamary, ocasiona especificidades no léxico que o inserem em um discurso especializado mesmo que de baixa densidade terminológica.
É indiscutível, assim, a percepção de que desconsideramos a necessidade do tratamento quantitativo de dados nesta pesquisa, logo, não utilizamos como critério de tratamento e/ou de análise a frequência das ocorrências e co-ocorrências das unidades lexicais constitutivas deste trabalho e dos respectivos parassinônimos emergentes do corpus coletado, embora a pertinência dessas unidades na história e no cotidiano de Jamary dos Pretos garanta, certamente, uma presença estatisticamente acentuada dessas unidades no discurso oral dessa comunidade.
Ainda quanto ao não tratamento estatístico das unidades lexicais analisadas, é
28 Na literatura da Linguística de Corpus, a chavicidade de uma palavra é indicada estatisticamente quando da comparação do corpus de referência estabelecido com o corpus de análise selecionado. Assim, “As palavras- chave são classificadas com seu nível de chavicidade, ou seja, o grau de destaque das palavras no sentido de
serem anormalmente frequentes no corpus de estudo em relação ao corpus de referência” (AGUIAR, 2010, p.
fundamental ressaltarmos que uma restrita ocorrência de uma delas no corpus, para nós, é também significativamente importante, uma vez que pode sinalizar que essa unidade lexical é especificamente característica do grupo investigado em função de sua etnicidade.
Recorremos ao critério da frequência — sem para tudo usarmos um programa computacional específico, apenas ferramentas de localização e quantidade de ocorrência disponíveis no próprio word 2010 — tão somente para distinguirmos o vocábulo-termo ou
unidade lexical foco, em geral, dos seus respectivos parassinônimos.
Essas unidades lexicais foram agrupadas em campos semânticos —
territorialidade, tipo humano, ritual/espiritualidade, alimentação, trabalho/entretenimento,
doença, lazer, vestuário, modo — definidos após a coleta dos dados, quando foi possível
identificar, com maior segurança e plenitude, os temas e as unidades lexicais que se mostraram mais representativas do universo etnoterminológico de Jamary dos Pretos no
corpus que coletamos.
É pertinente destacarmos, ainda, que deliberamos observar as unidades lexicais constitutivas deste estudo nos vários contextos de uso explicitados pelos quilombolas de Jamary a fim de definir tais unidades pela totalidade dos seus empregos e das interligações resultantes de seus usos, uma vez que a análise dessa variedade de contextos permite identificar os traços próprios do universo étnico dos quilombolas de Jamary dos Pretos.
Assim sendo, é fundamental frisarmos que os contextos de uso das unidades lexicais analisadas foram colhidos ao longo de toda a entrevista e não somente no momento que denominamos etnoterminológico, pois durante toda a entrevista procuramos trazer à tona os aspectos étnicos, históricos, sociais, culturais, antropológicos que subjazem o léxico de Jamary dos Pretos e que, consequentemente, geram sobretudo as particularidades semânticas próprias desse universo quilombola.