A gênese da unidade lexical, ou seja, o processo de criação de uma nova denominação ou forma linguística, bem como de atribuição de uma acepção inusitada a uma
forma linguística já existente, está intimamente relacionada com a concepção de mundo e com as necessidades e interesses específicos de um grupo linguístico-cultural.
Nesse sentido, faz-se necessário elucidarmos que a denominação é o processo de representação da percepção de um fato através de uma forma linguística, ou seja, a um fato conceptual atribui-se uma forma sígnica. Dessa forma, o ponto de partida de uma denominação é a conceptualização que, por sua vez, constitui o processo de formação de núcleos semânticos a partir da atribuição e da supressão de valores e de funções definidos pelos dados da experiência, da ideologia, da visão do mundo, enfim, da axiologia de um grupo étnico-cultural. (BARBOSA, 2009, p. 01).
A gênese da unidade lexical tem a ver, assim, tanto com a possibilidade de criação de novas denominações quanto, e mais comumente, de instauração de novas significações ocasionadas pelas mudanças e especificidades dos contextos socioculturais, às já existentes. Considerando o exposto,
A utilização das potencialidades do sistema depende, portanto, das necessidades sociais e culturais relacionadas não apenas à produção de conhecimentos, mas às informações sobre indivíduos, sociedades e agrupamentos humanos que se projetam sobre a língua comum recriando-a, enriquecendo-a e promovendo novas conceptualizações sobre outros membros de outras comunidades linguísticas. Isto faz com que o sistema linguístico renove-se constantemente, novas linguagens e signos sejam criados ou sofram alterações em seu conteúdo semântico, outros signos se tornem antigos, arcaicos, denunciando muitas vezes o tempo decorrido. Este processo de mudança e conservação sustenta a continuidade de uma língua. (LATORRE, 2011, p. 84-85).
O fenômeno da gênese da unidade lexical implica a consideração tanto de
processos de natureza intralinguística, isto é, relativos aos aspectos estruturais ou internos, quanto de natureza extralinguística, referentes aos aspectos sociais, culturais, e contextuais discursivos e enunciativos. Associados a esses processos, o contexto intralinguístico
determina o valor do novo signo no sistema e o contexto extralinguístico determina seu grau de aceitabilidade no grupo, permitindo o reconhecimento da atenção dispensada ao novo signo, de sua eficácia no ato de fala, das circunstâncias históricas e do meio geográfico em que essa nova unidade lexical foi gerada. (BARBOSA, 1996, p. 105).
Dessa forma, as tensões dialéticas entre o consensual e o específico, isto é, entre o sistema e as particularidades dos contextos enunciativos e dos universos de discurso, fazem com que geralmente um significante conhecido passe a abrigar novos significados, afinal, “o significado de um signo linguístico é o mais predisposto a mudanças, pois admite que se enfeixem novos semas sem que [em geral] tal fato resulte na perda do núcleo semântico
original.” (LATORRE, 2011, p. 82).
Nesse sentido, um novo fato antropocultural gerado por inovações no contexto sociocultural de um grupo cujo universo de discurso apresenta singularidades que o identificam e individualizam em relação a outros grupos, originará um novo signo, em geral, pelo acréscimo de novos traços semânticos que revelarão as transformações das experiências de mundo vivenciadas por esse grupo e, certamente, transformarão a experiência linguística de quem a esse universo discursivo se lança. Nesse sentido, por exemplo, ao “linguista é
reservada, sobretudo, a surpresa das representações que observa.” (LATORRE, 2011, p. 62).
Ampliando a compreensão sobre as particularidades do processo de criação lexical, o estudo da gênese da unidade lexical implica considerarmos três aspectos sociolinguísticos, segundo Barbosa (1996, p. 117), correspondentes aos atributos semântico- conceptuais e culturais — que concebem o signo linguístico em si mesmo, como gerador e reflexo da organização social —, aos atributos de natureza ideológica — que salientam o lugar social e o momento histórico da criação lexical e a seleção que o grupo faz a partir da realidade fenomênica — e, aos de natureza modalizadora manipulatória — que constituem o processo de desneologização.
Esses novos atributos semânticos de uma unidade lexical geram novas grandezas- sígnicas, pois têm origem nos elementos disponibilizados pela visão de mundo, percepção da realidade e elaboração dos sociofatos estabelecidas pelo universo antropocultural das comunidades.
O novo signo-símbolo — ao transmitir um novo conceito resultado de uma criação individual que atingiu um grupo ou da criação de um grupo que afetou toda uma coletividade — evoca sua função social, trazendo à tona uma cultura, uma ideologia ou filosofia dominantes. Consequentemente, sua significação só pode ser delimitada dentro do contexto de significação em que foi gerado, pois embora possa ser comum a vários grupos linguísticos, em diferentes etapas de suas histórias, cada grupo apreende a realidade de modo específico e exclusivo. (BARBOSA, 1996, p. 120). Nesse sentido,
É na situação de discurso que a substância semântica pode ser enriquecida ao realizar-se um novo recorte dos dados da experiência. O elemento até então virtual, estabelece uma nova função semiótica. Os novos semas podem coexistir ou neutralizar os semas existentes no interior do signo, cuja consequência tende à maior frequência e produtividade, uma vez que a polissemia é a regra linguística, e a monossemia apenas uma possibilidade. (LATORRE , 2011, p. 82).
Como o léxico de um grupo humano é estabelecido no universo antropocultural para revelar a conceptualização peculiar do universo desse grupo, importa-nos enfatizar que o
fenômeno da variação linguística está na base do processo da gênese da unidade lexical. A criação lexical, inevitavelmente, decorre das mudanças ocorridas no tempo, no espaço geográfico, nos diferentes estratos sociais e nos diferentes lugares semânticos que demarcam traços, atividades, objetivos, métodos e valores dos grupos socioculturais, bem como suas fontes históricas e míticas. (BARBOSA, 1996, p. 119).