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Energy preservation on Riemannian manifolds

Chauvet (2008) reafirma que os pais possibilitam a formação mínima do sujeito ao iniciarem os filhos na tarefa educativa através das práticas filiatórias e da transmissão das demandas sociais. Enfatiza ainda que os filhos são marcados pelos desejos desse outro que fundam o inconsciente da criança, que, marcados pelos desejos do outro e da cultura, reconhecem-se nesse outro que a educa. Nesse sentido, o reconhecer-se no outro é atravessado pelos processos de identificação.

Além dos processos de identificação, percebe-se outro fenômeno psíquico muito comum que se mescla de sentimentos contraditórios que vão do amor à hostilidade: a transferência.

O conceito de transferência, em princípio concebido somente na clínica psicanalítica, surgiu a partir dos obstáculos que Freud encontrou no seu trabalho clínico com seus pacientes. A transferência consiste na reiteração das experiências vividas no passado pelo analisando que as atualiza no contexto analítico desconhecendo, desta forma, que se referem à repetição de emoções da infância e da relação com os pais e que foram acionadas na pessoa do analista.

Segundo Nasio (1999), é importante compreender a transferência não como uma repetição de relacionamentos concretos que aconteceram simplesmente, mas como a atualização contínua de fantasias; o mesmo que Freud (1912) estabeleceu como sendo “(...) um clichê estereotípico (ou diversos deles), constantemente reimpresso no decorrer da vida da pessoa, na medida em que as circunstâncias externas e a natureza dos objetos amorosos a ela acessíveis permitam (...)” (p.133).

Ao ocorrer a transferência, o sujeito busca na figura do analista ou de qualquer outra figura de autoridade a intenção de ser amado como nunca foi e inconscientemente procura suprir a carência afetiva imputada pela relação primordial e pelas exigências pulsionais não realizadas, conforme Freud (1912) chama a atenção ao dizer que “(...) a necessidade que

alguém tem de amar não é inteiramente satisfeita pela realidade, ele está fadado a aproximar-se de cada nova pessoa que encontre com idéias libidinais antecipadas (...)” (p.134).

Morgado (2002) aponta para o fato de que, em razão de demandas pulsionais que não foram realizadas, as pessoas possuem em graus diversos suas carências afetivas. Em função disso, o empreendimento na busca dessa satisfação adiada por meio de novas impressões de modelos na relação presente acontece em toda relação que envolva seres humanos. Alerta que a transferência de modelo e dos sentimentos que vêm ligados a ele, capazes de sofrer influência das circunstâncias, ocorrem no momento presente, fazendo com que a ligação com o novo protótipo aconteça de forma diferente que a primitiva, todavia o modelo original será sempre o ponto de partida para o novo relacionamento.

Para a autora, os sentimentos opostos, sentimentos de afeto, sensuais e sentimentos hostis, agressivos existem simultaneamente o que vai definir uma “estrutura libidinal ambivalente”.

O fenômeno da ambivalência – consolidado no conflito edipiano – caracteriza-se pela coexistência de um investimento hostil e de um investimento libidinal amoroso dirigidos para a mesma pessoa sentimentos de amor e ódio participam conjuntamente da constituição do sujeito e dos objetos. (MORGADO, 2002, p. 69).

Esses sentimentos antagônicos, que determinam se a transferência é positiva ou negativa, convivem no inconsciente tranquilamente, todavia à medida que se tornam conscientes, entram em colisão e provocam uma avalanche de ataques dirigidos à mesma pessoa, remetendo o sujeito ao objeto da relação primordial.

Nesse sentido, Tanis (1995) destaca que a transferência traz em si marcas do infantil, entendido não como o infantilismo comportamental, mas como processo inacabado constituinte do sujeito inserido no contexto familiar e cultural. Em Psicanálise, o termo infantil deve ser entendido como parte da vida psíquica que, pelo processo de repressão, separou- se do restante ao sofrer influência dos processos primários, tornando-se diferente do que era naquele instante e constituindo os modelos infantis; por isso o infantil não se confunde com o tempo cronológico de desenvolvimento de uma criança.

Como a transferência acontece em toda relação humana que aproxima as pessoas, em sala de aula não é diferente uma vez que o aluno projeta no professor sentimentos ambivalentes que pertencem a outra relação o que pode gerar muitos conflitos, quando ocorre a atualização dos modelos da relação primordial ou sentimento de amor e respeito que possibilitam a identificação.

O aluno pode atualizar, na relação com o professor, tanto sentimento positivo de afeição e sensualidade quanto sentimento negativo de hostilidade o que caracterizará a transferência positiva ou negativa.

Para Kupfer (2006), no ato da transferência, o analisando e o aluno depositam na figura do analista e do professor conteúdos inconscientes que são seus e em função dessa “posse” estes passam a ter uma importância especial para aqueles “(...) e é dessa importância que emana o poder que inegavelmente tem sobre o indivíduo” (p. 91).

Morgado (2002) enfatiza que, na análise, o drama da transferência remete aos conflitos que a pessoa necessitou esquecer visto que seria muito doloroso aceitar, conscientemente, que algum dia desejou e odiou os pais e que esses sentimentos ainda permanecem na atualidade, porquanto a resistência à lembrança recai na transferência para a figura do analista em que o paciente repete trechos esquecidos do passado.

Todo vínculo social presume afeto, amor, identificação e transferência. Através da Psicanálise, pode-se chegar ao entendimento da transferência nas relações sociais e elucidar como ela acontece nas relações de autoridade que remetem à convivência primordial em que a criança apresentava dependência total dos pais e sua vulnerabilidade fazia com que escolhesse o adulto como representante investido de autoridade que irá supri-lo de amor e libertá-lo do sofrimento (MORGADO, 2002).

No contexto pedagógico, o professor é revestido formalmente de autoridade para ensinar o aluno. Como há uma distância significativa entre o conhecimento que o professor tem e do aluno, espera-se que esse vença essa desigualdade e abasteça o educando de conhecimento.

Ao vislumbrar no professor aquele que poderá provê-lo de conhecimento, o aluno elege-o como autoridade; ao ensinar, o professor exerce a autoridade que o aluno lhe atribui. Estabelecem-se, assim, as condições transferenciais para que a relação pedagógica remeta à relação original. (MORGADO, 2002, p. 87).

Para a autora, na transferência de sentimentos da relação primitiva para o professor, o aluno torna presente um modo particular de se relacionar com o conhecimento, o que pode corroborar ou não para a realização dos propósitos pedagógicos.

Muitas vezes o professor estabelece uma relação de dominação através do conhecimento ao senhorear-se do saber como se o aluno não pudesse almejá-lo. Neste sentido o professor trabalha inconscientemente para que o aluno dependa dele como dependia de seus pais, visto que impede o surgimento de um sujeito do conhecimento bem resolvido consigo mesmo e com os “fantasmas” da relação parental.

Apesar da relação professor-aluno convocar a atualização de sentimentos ligados à relação primitiva, não deve ser confundida com o contexto analítico que demanda objetivo diferente e não deve ser recriado pela relação pedagógica, entretanto, pode-se lançar mão da Psicanálise para compreender o conceito e as articulações da identificação e transferência no contexto escolar (MORGADO, 2002).

O analista, por possuir uma estrutura ambivalente à semelhança de todo ser humano, não está livre de reviver seus conflitos nas relações atuais tal qual o analisando. Muitas vezes, inconscientemente, faz contratransferência na relação com o analisando, pois essas são manifestações do inconsciente do analista relacionadas com as transferências de seu paciente. (ROUDINESCO, 1998

).

O professor também, ao se relacionar com o aluno, pode fazer a contratransferência uma vez que a sua estrutura psicossexual se desenvolveu da mesma forma que a do aluno.

O professor faz as suas exigências, levanta suas expectativas em relação ao aluno segundo o desenvolvimento da sua estrutura psicossexual e da forma como constituiu o seu ego e o seu superego que foram peças importantes na formação do seu “(...) modo de ser, de querer saber, de amar, de odiar, de seduzir e se deixar seduzir” (MORGADO, 2002, p. 111).

O que torna a relação professor-aluno difícil e sofrida é o desconhecimento dos mecanismos de transferência que aprisionam o professor na figura de um aluno ideal e, em contrapartida, o aluno também é capturado por um professor que existe apenas na sua fantasia, visto que ambos não estão imunes de transformar um ao outro em modelos primordiais da relação parental.

No contexto pedagógico, o professor revive seus modelos originais ao agir à transferência do aluno e contratransferir os sentimentos que desencadearam o conflito no seu passado. Neste caso, o professor toma como pessoais a transferência de seus alunos ocorrendo a comunicação entre inconscientes (MORGADO, 2002). Esse mecanismo deve ser trabalhado pelo professor para que o aluno acesse o conhecimento e o professor se empenhe mais no ato de ensinar, segundo a autora, uma vez que a dimensão transferencial e inconsciente na relação professor-aluno acontecem para além das dimensões cognitivas.

A função da escola, nesse processo de saber lidar com a transferência, contratransferência, identificação ou qualquer outro sentimento manifesto do inconsciente que envolva os vínculos entre professor e aluno, é pedagógica e não terapêutica, entretanto, o professor deve passar por uma formação que vai além do domínio teórico e metodológico. O professor, através do conhecimento dos mecanismos psíquicos que envolvem essa relação com o aluno, deve atentar para mobilização dessas energias em função de ocupações intelectuais que envolvam o conhecimento.

Desta forma, a autoridade do professor será legitimada pela priorização do conhecimento que busca a autonomia e independência do aluno e não pelos desafetos que emanam, normalmente, da transferência entre os sujeitos docente e discente.

Kupfer (2006) enfatiza que o professor deve ser aquele que abre mão do seu poder em função da independência dos seus alunos, visto que estes “(...) ouvirão o que lhes ensinaram de acordo com seus desejos, seus recortes particulares” (p.98), ou melhor, eles serão fiéis à sua subjetividade, à sua constituição inconsciente. Para a autora, quando o professor renuncia a esse poder, a esse controle sobre o aluno, estará resguardando esse universo do desejo que habita cada ser humano de forma particular.

Ao lançar um olhar para a formação docente proporcionando conhecimentos referentes aos fenômenos psíquicos que constituem o ser humano, o professor pode cometer menos erros no contexto pedagógico, ao lidar de modo mais esclarecido com as transferências de seus alunos sejam elas positivas ou negativas, pois sabe que o mesmo reedita as pulsões libidinais e hostis reprimidas na infância e atualiza-as no ato educativo, ao transferi-las para o professor. Assim, o professor abrirá espaço para que o aluno se relacione com o conhecimento e não fique preso à figura de um professor que ocupa a sua fantasia e que o remete a reviver uma relação do passado.

Neste sentido, entende-se que a Psicanálise pode proporcionar um espaço para reflexões mais verdadeiras, humanizantes sem que o foco das atenções fique somente em métodos e técnicas pedagógicos que pretendem assegurar, ilusoriamente, o sucesso escolar.