• No results found

Ao falar na formação de professores, pretende-se destacar a importância da concepção psicanalítica para que os sujeitos da prática educativa compreendam os próprios processos subjetivos que se estruturam desde os primórdios da sua existência e ficam registrados na memória do inconsciente, marcando de forma particular a sua atuação em sala de aula.

Assim, o entendimento da formação da identidade profissional docente passa antes pela compreensão de como o sujeito se constitui, já que, possivelmente, o fazer pedagógico do professor é marcado pela sua pessoalidade e singularidade.

Essa pesquisa, no entanto, não pretende tratar de todos os constructos teóricos referentes à subjetividade, pois se torna inviável abranger um campo tão amplo, que tem se mostrado fecundo em algumas áreas do conhecimento igualmente importantes, mas que se distanciam do propósito desse estudo.

A pesquisadora, ao tratar da constituição subjetiva, fundamenta-se no referencial psicanalítico, pois entende que o mesmo possibilita outra maneira de compreender o processo de formação subjetiva do humano, por conseguinte, do professor.

Propõe-se uma trajetória de investigação marcada pela compreensão da estrutura do inconsciente que organiza o sujeito, tecendo a sua subjetividade através de processos que começam até mesmo antes do nascimento (os desejos e histórias de seus pais) que permeiam sua existência, os seus relacionamentos sociais bem como as suas escolhas.

A Psicanálise considera o sujeito do inconsciente como fundador da subjetividade do ser, constituída a partir da história particular de cada pessoa, por isso não estão inscritos nos paradigmas da ciência tradicional, já que, conforme aponta Nunes (2006):

(...) na educação o sujeito contemplado é o do conhecimento, cognitivo, passível de mensuração, o sujeito do qual ocupa-se a psicanálise é o sujeito do inconsciente enquanto manifestação única, singular, não mensurável e que, por isso, não pode fazer parte do concretamente observável” (p. 2).

Roudinesco (1998) faz distinção entre o sujeito proposto pela Filosofia e aquele que se inscreve no campo psicanalítico. Segundo essa autora, a concepção filosófica ocidental desde Descartes (1596-1650) e Kant (1724-1804) até Husserl (1859-1938) esclarece o sujeito do conhecimento, do direito ou da consciência “[...] empírica, transcendental ou fenomênica” (p. 742). Nesse contexto, o sujeito é concebido como indivíduo dotado de consciência imantada pela racionalidade que se manifesta na verdade inquestionável, tornando-o senhor de si mesmo, dos seus atos, rompendo, assim, com a visão de mundo e de auto-imagem centrados nos dogmas.

O advento do sujeito cartesiano, inegavelmente, representou um progresso na relação do homem com o conhecimento sobre o mundo e sobre si mesmo, inaugurando a modernidade na qual o homem, não mais subjugado pelas leis divinas, passou a ocupar o centro das discussões filosóficas e científicas. Não obstante, o avanço notável na forma de pensar o sujeito, o seu surgimento no campo científico, conforme destaca Elia (2007), não o levou em consideração, não operou sobre ele e muito menos com ele, ao contrário, excluiu- o de seu campo de operação, melhor dizendo, inaugurou-se uma ciência que contemplou e trouxe à luz o homem e seu mundo, todavia esse empreendimento estava distante da humanidade que o atravessa, sustentada pela contradição, pela verdade relativa, desvelada por Freud ao compartilhar as mesmas impressões de Georg Groddeck que “nós somos “vividos” por forças desconhecidas e indomáveis” (FREUD, 1923, p. 37), na casa onde o eu não se faz dono, ratificando, assim, a descoberta do inconsciente como nova possibilidade de conhecer o sujeito que está sempre às voltas com o seu desejo.

Sujeito, como lembra Roudinesco (1998), não só da consciência, mas do inconsciente, da ciência e do desejo, enunciado por Lacan ao relacioná-lo ao campo do significante, apoiando-se na teoria saussuriana do Signo Linguístico.

O sujeito do inconsciente sobre o qual a Psicanálise opera, no dizer de Elia (2007), é o mesmo que já existia no campo da ciência, mas não se operava sobre ele, visto que a ênfase estava posta no indivíduo, concebido resultado do desenvolvimento e, logo, um ser inato. Por sua vez, a Psicanálise, desde a reelaboração de Lacan, pensa um sujeito do inconsciente que se constitui a partir do campo da linguagem. Para se constituir, o ser precisa de um outro que o introduza em uma dimensão social por meio do núcleo familiar ou de substitutos.

Garcia-Roza (2008) ao abordar as concepções de subjetividade em Descartes e Freud, aponta a distinção entre o cogito cartesiano que apresenta o Eu como lugar da verdade e o cogito freudiano como lugar de ocultamento, cujo novo objeto, o inconsciente passa a inscrever o sujeito do desejo.

Para esse autor, Freud e Lacan vão dizer que o sujeito não é mais absoluto, visto que impõe uma fala estranha, lacunar, e sem sentido ao sujeito consciente, empreendida pelo

“Outro” da ordem do inconsciente, simbólico, portanto, distinto do “outro” (o semelhante, o outro sujeito), que comparece por meio de uma cadeia de significante. Assim, esse “Outro” da ordem simbólica compõe a identidade do sujeito “(...) constituída pela linguagem e composta de elementos significantes formadores do inconsciente” (GARCIA-ROZA, 2008, p. 211).

Coelho Junior (2002) afirma que a subjetividade se constitui porque há um processo sucessivo de identificação em sua base que acontece desde o início da vida preparando o caminho para o que Freud considerava a pedra angular da formação da subjetividade: o Complexo de Édipo. O processo de constituição da subjetividade é vivenciado através das relações sucessivas e mútuas entre o sujeito e os objetos de identificação, no qual ambos se criam. Por essa ótica, deve-se entender que o objeto na teoria psicanalítica é inconsciente e remete à história de vida infantil e, ainda, estabelece uma via de mão dupla com o sujeito, ao reconhecer a suposição freudiana de que o sujeito pulsional constitui objetos ao mesmo tempo em que objetos de identificação constituem o sujeito, continua o autor.

Compreende-se, então, que a constituição desse sujeito está inscrita na ordem de um vínculo permanente que estabelecerá com os outros ou com os objetos, concebendo assim inúmeras identificações em consonância com as que ficaram impressas no inconsciente que por sua vez são objetos significativos com os quais manteve os seus primeiros contatos.

Prazeres (2007) esclarece, fundamentada na teoria psicanalítica, que o termo subjetividade refere-se ao “(...) assujeitamento do sujeito ao campo simbólico – registro psíquico – ao qual todo ser tem que ser submetido para tornar-se humano” (p. 41). Assim, o sujeito torna-se humano porque há um outro que o inscreve no contexto sócio-cultural através da linguagem, destituindo-o da sua condição puramente biológica, apresentando-o à lei como estatuto simbólico que vai humanizá-lo através do processo de subjetivação.

Para a Psicanálise, a constituição subjetiva se dá pela via do inconsciente no qual está imerso o “sujeito do inconsciente”, da enunciação, do desejo que difere do sujeito consciente, do enunciado. Nessa ótica, o sujeito não é inteiro, completo, consciente de si, dos seus atos, mas dividido entre o universo consciente e inconsciente, ao mesmo tempo em que é marcado pela falta, visto que “(...) a divisão do sujeito, constituído pela falta-a-ser é definidora da sua condição humana de sujeito „faltoso‟” (PRAZERES, 2007, p. 45).

Assim, esse sujeito faltoso vai se constituindo a partir dos processos de identificação estabelecidos nos contextos familiar e escolar, como veremos a seguir.

3.2. Do estádio do espelho aos processos de identificação: trajetórias de