A produção do grupo pode ser separada em dois momentos: o primeiro vai de 1988 a 1994, período em que os trabalhos do Racionais foram lançados pelo Selo Zimbabwe e obedeciam a uma lógica comercial de gravar CDs com intervalos não muito superiores a um ano, conforme constatamos na cronologia de Holocausto urbano (1990), Escolha seu caminho (1992), Raio X do Brasil (1993) e Racionais MC’s (1994). Talvez pelo curto espaço de tempo entre eles, ou pela pressão das gravadoras, cada CD possui um número reduzido de canções, como em Holocausto urbano, com seis gravações, e em Escolha seu caminho, com quatro. Como característica desse período, destacamos as imagens da violência que estampam as capas dos CDs, além de temas relacionados ao caos penitenciário, à miséria e ao estilo gangsta do RAP. Conforme mencionamos, o gangsta-RAP se caracteriza por privilegiar
abordagens coléricas contra a repressão policial, pela depreciação das mulheres, pelos conflitos violentos entre os próprios rappers e entre gangues, pela apologia ao consumo e ao tráfico de drogas, pela ostentação de poder econômico e exaltação da luxúria. A maior incidência desse tipo de abordagem do Racionais é registrada nessa primeira fase, restringindo-se a poucas situações em suas composições atuais.
O segundo momento do Racionais pode ser identificado a partir de 1995, período em que o grupo rompeu com o Selo Zimbabwe e não mais lançou CDs anuais. Os trabalhos seguintes foram gravados pelo Selo Cosa Nostra, de propriedade dos integrantes do Racionais, dando início a um ritmo de trabalho para atender às necessidades do grupo, e não do mercado, ampliando o intervalo temporal entre os lançamentos de CDs. As mudanças de atuação e de apresentação do grupo também são marcantes, a começar pelas letras mais extensas, mais densas, e com um número maior de canções em cada trabalho, chegando a gravar um álbum duplo. Outra mudança significativa se refere às novas ilustrações expostas nas capas dos CDs, as quais, de forma geral, abrandaram as antigas abordagens mais agressivas e passaram a adotar símbolos religiosos e textos bíblicos, sinalizando a incorporação de elementos espirituais no fortalecimento do trabalho do grupo. Nessa nova fase, o Racionais lançou os CDs Sobrevivendo no inferno (1998), Ao vivo (2001), Nada como um dia após o outro dia (2002), 1000 trutas, 1000 tretas (2006), CD e DVD, e Tá na chuva (2009). Portanto, no período de 1990 a 2009, o grupo produziu nove CDs e um DVD.
O CD de estréia do Racionais MC’s chama-se Holocausto urbano (1990). Pelo título do álbum, o grupo mostra sua perspectiva em relação aos conflitos étnico-sociais ambientados nas grandes cidades. “Holocausto” denota “massacre”, cujas imagens remetem aos cenários de opressão e de calamidade decorrentes das guerras que o mundo moderno sofreu, principalmente a partir do início do século XX. Holocausto urbano, por sua vez, metaforiza e faz um diagnóstico do caos que a vida e as relações urbanas se tornaram no mundo contemporâneo, principalmente pela falta de tolerância e de respeito às diferenças, ao mesmo tempo em que anuncia, na forma de manchete jornalística no título do CD, o tipo, o tom e a cor da produção que está sendo publicada.
A capa mostra os quatro integrantes do grupo diante das grades de uma sela. Das seis canções que compõem o CD, a mais extensa possui cinco minutos e quarenta e sete segundos, tempo ainda tímido se comparado aos manifestos que viriam em outras gravações. Nesse trabalho, destacamos as canções “Mulheres vulgares”, “Racistas Otários” e “Tempos difíceis”, nas quais o Racionais experimenta estilos como o gangsta-RAP e o RAP de
protesto/denúncia, criando uma tensão entre eles. O discurso colérico e verborrágico soa como um desabafo, também motivado pelos anos de ditadura política e de silêncio vividos até 1994, bem como pela pouca eficiência da democracia brasileira implantada a partir do movimento das “diretas já” e a conseqüente eleição de Tancredo Neves89, primeiro Presidente
do Brasil escolhido pelo voto livre.
Essa e outras recorrências a eventos e fatos da política brasileira fazem sentido ao contexto por considerarmos tratar-se de um tipo de violência social produzida pela economia neoliberal e capitalista de sucessivos governos. A exclusão gerada pela omissão do poder público ao longo de décadas fomentou e ainda sustenta grande parte da violência urbana. Com um modelo de capitalismo perverso e excludente, foram aprofundadas as fronteiras que separam os extremos das classes sociais, suplantando uma classe média de transição entre pobres e ricos, na mesma proporção em que aumentaram os índices de violência e de criminalidade do país. A decadência da economia e da moeda brasileiras até o início do século XXI é um exemplo dessa segregação. Enquanto o governo brasileiro da época desvalorizava a produção interna gerando altos índices de pobreza da população e falência das Instituições, as elites mundiais obtinham sua contrapartida neoliberal na forma de valorização das respectivas moedas (como o dólar e o euro), acumulando superavit nas exportações às custas da subserviência e do trabalho escravo ao redor do Planeta, como no Brasil.
No segundo CD lançado pelo Racionais MC’s, Escolha seu caminho (1992)90,
foram gravadas apenas duas canções, distribuídas em quatro faixas: “Voz ativa” (nas modalidades original, baile mix e capela mix) e “Negro limitado”. Com o álbum Raio-X do
Brasil (1993)91, o grupo começa a se projetar nacionalmente e inaugura a escritura de extensos
89 O Presidente Tancredo Neves não chegou a tomar posse, pois foi internado às vésperas de receber a faixa
presidencial, tendo sido declarado morto em 21.04.1985. Assumiu em seu lugar o Vice-presidente, José Sarney, para um governo de cinco anos (1985-1989). Nesse período, além de sucessivas mudanças no nome da moeda brasileira e de ajustes fiscais, o Brasil teve os mais altos índices de inflação, chegando a 88% ao mês. Na esfera municipal, a cidade de São Paulo, berço do Racionais, começou a ser administrada por Luiza Erundina (1989- 1992), uma mulher e de esquerda (PT), constituindo-se em um ineditismo duplo, além de Assistente Social e simpatizante das causas denunciadas pelo RAP que estava surgindo.
90 Nesse período, o Brasil viveu dois anos sob o governo do Presidente Fernando Collor, acentuando a inserção
do País no mundo neoliberal. Depois de um confisco da liquidez econômica do País e de sucessivos escândalos de corrupção, Collor sofreu um processo de impeachment pelo Congresso Nacional e deixou a presidência em 1992. Para completar o mandato de cinco anos, iniciado em 1990, assumiu em seu lugar o Vice-presidente, Itamar Franco, até 1994.
91 Sob o governo do Presidente Itamar Franco, o Brasil continuava estagnado política e economicamente,
também submetido a escândalos sexuais e de corrupção. A economia brasileira começou a dar sinais de recuperação com a implantação da Unidade Real de Valor – URV pelo então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, depois eleito Presidente. Embora mantida artificialmente às custas de reservas cambais em dólar nos cofres do Banco Central do Brasil, uma URV chegou a valer mais que um dólar em 1994,
manifestos, como “Fim de semana no parque”, com aproximadamente sete minutos de duração, e “Um homem na estrada”, com oito minutos e quarenta segundos.
O quarto CD lançado pelo grupo se chama Racionais MC’s (1994) e marca o início do rompimento com o selo Zimbabwe. Trata-se de uma coletânea em que são retomados os principais sucessos já mencionados neste trabalho, como “Mulheres vulgares”, “Racistas otários” e “Tempos difíceis” (1990); “Voz ativa” e “Negro limitado” (1992); “Fim de semana no parque” e “Homem na estrada” (1993), razão pela qual este álbum deixará de ser analisado. Registramos, no entanto, nosso entendimento de que o lançamento do CD Racionais MC’s teve por objetivo atender à estratégia mercadológica de gravar um álbum a cada ano. O quinto CD será gravado três anos depois, já com o selo Cosa Nostra.
O álbum Sobrevivendo no inferno (1998)92 marca o início da nova fase do
Racionais. Trata-se da quinta publicação da carreira e a primeira pelo novo selo Cosa Nostra, na qual são incorporados elementos ligados à religiosidade, à solidariedade, tanto na capa do CD como nas letras das canções. O centro da capa é estampado com uma cruz e, à direita, a transcrição de excerto do Salmo 23 “Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da justiça” (Capítulo 3), que segue na contra-capa: “e mesmo que eu ande no Vale da sombra e da morte não temerei mal algum porque tu estás comigo” (Capítulo 4). A abordagem sobre a violência continua sendo feita em tom virulento que marcou a primeira fase do grupo, cabendo ao narrador das canções expor as situações de violência às quais as comunidades periféricas são submetidas e, por meio de um discurso doutrinário, busca apoiar os seus seguidores na luta contra esse cenário de opressão.
Com a convivência simultânea entre símbolos bíblicos e violência, causando estranhamento e instigando uma tensão interna, o grupo Racionais MC’s coloca em cena novos elementos para representar sua contradição constitutiva de ser “violentamente pacífico”93, conforme demonstramos. Para Dabène (2006, p.127), esse posicionamento de ser
“violentamente pacífico” reflete o pensamento do Mano Brown, que condensa nessa fórmula a própria contradição constitutiva do RAP. Para ilustrar essa problemática, selecionamos as estrangulando ainda mais a economia brasileira, pois não havia lastro em moeda nacional para que o capital pudesse girar, e acelerando o processo de miserabilização do País.
92 O sociólogo Fernando Henrique Cardoso tomou posse como Presidente do Brasil em janeiro/1995. Em 1998,
preparava-se para a campanha eleitoral que o levaria ao segundo mandato, alicerçado por uma estabilidade artificial da economia brasileira, da inflação e do câmbio (o dólar era mantido a R$ 1,1879 em 30.09.1998), nominada por analistas de mercado como “estelionato eleitoral”. Após a reeleição, já em 29 de janeiro/1999 a moeda brasileira não suportou mais as pressões internacionais e o dólar disparou para R$ 1,9989, encerrando a era FHC a R$ 3,5333 (fonte: www.bacen.gov.br).
seguintes canções para análise: “Capítulo 4, Versículo 3”, “Rapaz Comum”, “Diário de um detento”, “Periferia é periferia em qualquer lugar” e “Fórmula mágica da paz”.
Em 200194, o Racionais lançou o trabalho denominado Ao vivo (Cosa Nostra),
no qual gravou antigos sucessos e algumas canções inéditas. Em 2002, surge o primeiro álbum duplo do Racionais, Nada como um dia após o outro dia (Cosa Nostra), cujos subtítulos são Chora agora (disco 1) e Ri depois (disco 2), os quais melhoram em qualidade, trazem títulos mais sutis e continuam com a solidariedade às comunidades. Algumas imagens da capa do CD remetem ao gangsta-RAP, como bebida alcoólica e carros de luxo. Selecionamos duas canções para análise, “Vida loka” e “Negro drama”.
O CD e DVD 1000 trutas, 1000 tretas (Cosa Nostra, 2006)95 retoma vários
sucessos, como “Fórmula mágica da paz”, “Negro drama”, “Diário de um detento”, “Vida loka” e incorpora canções inéditas. O mais recente trabalho do Racionais, Tá na chuva, foi lançado em 2009 e traz várias gravações inéditas, dentre as quais destacamos o hit “Mulher elétrica”, que repete uma postura machista e depreciativa em relação à mulher, presente em “Mulheres vulgares” (1990), conforme veremos no próximo tópico.