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A cultura Hip Hop no Brasil e sua vertente musical, o RAP, foram recepcionadas por jovens moradores da periferia de São Paulo. Desde sua origem, o RAP se mostrou ser uma expressão urbana, e São Paulo, a maior concentração humana da América Latina, parece ter sido estrategicamente escolhida para que o movimento pudesse vivenciar seus problemas, suas tensões e contradições sociais no cenário urbano. É nesse contexto de exclusão e de marginalização que o RAP se encaixa como meio de luta e de sobrevivência no Brasil.

A exemplo do que aconteceu em NYC, a expansão imobiliária e industrial de São Paulo, a partir da década de 1930, deu início a um crescimento populacional desordenado da cidade provocando um confinamento de pessoas em áreas limítrofes da metrópole, o que levou ao surgimento das favelas. Processo semelhante ocorreu em muitas das grandes cidades brasileiras. Com a industrialização, São Paulo cresceu enormemente, reforçando seu potencial econômico e, por conseqüência, atraindo novos moradores, principalmente oriundos da Região Nordeste, seduzidos pelo imaginário do sucesso, pela oferta de emprego e para fugir da seca que assolava a região. Na década de 1960, São Paulo já era a maior metrópole brasileira, e seus problemas sociais e estruturais se avolumaram.

Logo em sua recepção no Brasil, o RAP foi entendido como algo próprio do negro, pois as imagens e referências que chegavam dos rappers estadunidenses tinham esse perfil; ou seja, a população negra das periferias de São Paulo foi naturalmente atraída por um movimento cultural feito “por” e “para” negros desde a sua gênese africana. Como sabemos, o Hip Hop e o RAP são ao mesmo tempo formas de manifestação cultural e canais de contestação político-sociais, razões suficientes para que jovens paulistanos os tivessem recebido como se essa arte fosse capaz de dar voz a todo um segmento social acostumado com a opressão, o silêncio e a marginalidade.

Talvez tenham sido esses os fundamentos que levaram os negros brasileiros a se organizar em grupos/movimentos capazes de representá-los de alguma forma. Até o final

do século XIX, o “movimento negro”, nome genérico dado ao estado de resistência permanente entre os escravos, era quase sempre clandestino e visava tão-somente à libertação dos escravos, ao amparo e à proteção dos fugitivos nos Quilombos espalhados pelo país. Foi durante a escravidão que, segundo Moura (1989), “o negro transformou não apenas a sua religião, mas todos os padrões das suas culturas em uma cultura de resistência social. Essa cultura de resistência, que parece se amalgamar no seio da cultura dominante, no entanto, desempenhou durante a escravidão (como desempenha até hoje) um papel de resistência social que muitas vezes escapa aos seus próprios agentes, uma função de resguardo contra a cultura dos opressores”.

A partir do final do século XIX (1891), há registros de inúmeros Clubes, Centros Literários e Associações especificamente voltados para “homens de cor”. Segundo o Historiador Petrônio Domingues (2007), essas entidades tinham funções de resistência pacífica, organizadas em torno do entretenimento e da cultura, tendo São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Pelotas (RS) e Lages (SC) como as cidades de maior representatividade nessa forma de “movimento negro”. Na mesma época, as mulheres também tiveram significativa participação nesses movimentos com a criação de associações estritamente femininas em cidades como Pelotas (1888), Porto Alegre (1889) e São Paulo (1925). Domingues ainda registra que as mulheres criaram uma comissão feminina dentro da Frente Negra Brasileira – FNB chamada Rosas Negras para organizar bailes e festivais artísticos. A partir da década de 1930, esses bailes serviriam como locais de militância política dos negros e como cenário para as misturas culturais e musicais provocadas por todos os ritmos, estilos e danças que o Brasil da época tinha conhecimento ou mesmo aqueles que o país passou a conhecer e a incorporar na cultura brasileira: blues, jazz, soul, funk, samba, rock, samba-rock, suingue, break, Hip Hop, RAP, dentre outros.

Artistas do século XIX também se mobilizaram em movimentos negros, posicionando-se contrários ao sistema escravagista, como os poetas Luiz Gama (1830-1882), autor das “Primeiras trovas burlescas”, e Cruz e Sousa (1861-1898), fundador do jornal abolicionista “Colombo” (1881), em Florianópolis (cf RIGHI, 2006). Pela época da sua publicação, poderíamos associar esse jornal ao início do movimento que levaria à criação da chamada Imprensa Negra - IN, marcada pela publicação do jornal “A Pátria” (1899), em São Paulo (cf DOMINGUES, 2007).

Nessa época (final do século XIX), o Brasil ainda vivia os conflitos explícitos decorrentes da abolição da escravatura, bem como do impacto cultural iniciado pelos

processos de colonização sofridos pelos africanos e, em seguida, pelos povos das três Américas. Nesse aspecto, a IN funcionava como importante veículo de luta ideológica antirracista e de disseminação das tradições africanas. O momento de instabilidade pelo qual o Brasil passava também desencadeou outras questões relacionadas à dominação européia, como o ideal de “branqueamento”. As teorias que defendiam o branqueamento faziam clara oposição às idéias da miscigenação natural da população, além de buscar impor os hábitos e costumes do dominador, suplantando automaticamente as culturas dos países colonizados.

Segundo Rita Godet (2004, p.120), “a discussão que opõe as teorias racistas às teorias da mestiçagem examina as relações entre as culturas popular e acadêmica no seio de uma sociedade ainda amplamente iletrada”. Essa discussão já estaria ocorrendo a partir do confronto de duas grandes tendências citadas pela autora: “as idéias eugênicas que dominavam a intelectualidade brasileira no início do século [XX] e que se refletem nas obras de Sílvio Romero, Tobias Barreto, Euclides da Cunha e Nina Rodrigues; e as que valorizavam o processo de mestiçagem, sendo representativa desta tendência a obra de Manuel Querino”. Para Godet, essa segunda vertente se desenvolveu ativamente a partir dos anos 1930, representada por Artur Ramos e Gilberto Freyre, levantando a bandeira da tolerância étnica (ibid, p.121).

O que se percebe atualmente, no entanto, é que essa tolerância étnica ainda não se desenvolveu satisfatoriamente no Brasil a ponto de apaziguar as relações sociais modernas, fazendo com que a sociedade brasileira permaneça sustentada sobre um ideal utópico de democracia racial e de tolerância em relação à mestiçagem e à miscigenação. O “ideal de branqueamento”, defendido por Sílvio Romero e Nina Rodrigues, é uma outra vertente que se opõe à proposta de miscigenação e tem como alicerce a idéia de que uma etnia “superior” (caucasiana) poderia assimilar as “inferiores” (negra e mestiça). (in FIGUEIREDO, 2005)

Segundo Carrizo (2005, p.268), a mestiçagem está intimamente ligada à história do Brasil, pois “estava nos começos da nação e isso torna a pátria brasileira diferente e original ... oferecendo-lhe um valor positivo”. Da mesma forma, com a publicação de Casa Grande & Senzala (1933), Gilberto Freyre procurou estabelecer um elo entre a identidade mestiça do povo brasileiro e o discurso nacional, já que, em sua concepção, além de a “mestiçagem” ser um dos elementos constitutivos do Brasil, o país é marcado pela hibridez étnico-cultural.

A Imprensa Negra do início do século XX continuava exercendo um papel reivindicatório em favor dos negros libertos, os quais começaram a se instalar nas periferias

urbanas, além dos Quilombos espalhados pelo país. Além dos jornais criados no final do século XIX sob a égide da IN, outros jornais foram inaugurados nas primeiras décadas do século XX, como “O Menelick”, 1915; “A Rua”, 1916; “O Alfinete”, 1918; “A Liberdade”, 1919; “A Sentinela”, 1920. No entanto, todos esses veículos de comunicação deixaram de existir poucos anos depois de inaugurados, exceção feita ao jornal “A Alvorada”, de Pelotas (RS), considerado o periódico de maior longevidade (1907-1965) dessa fase denominada de Imprensa Negra (cf SANTOS, 2001/cf DOMINGUES, 2007), tendo sido fundado por um grupo de intelectuais negros da cidade. Segundo Santos (2001), o “A Alvorada”, desde seu primeiro número, pretendia ser uma tribuna de defesa dos operários e dos negros de Pelotas. Mas, de forma geral, esses jornais da IN tinham por objetivo lutar pela cidadania recém adquirida pelos ex-escravos e pelo seu reconhecimento civil na sociedade e no mercado de trabalho.

Essas lutas ideológicas provocadas até 1930 desencadearam a criação, em 1931, do mais atuante movimento afro-brasileiro de caráter nacional, a Frente Negra Brasileira - FNB, conseguindo converter o “movimento negro” em um movimento de massa, contando com aproximadamente vinte mil associados e simpatizantes. A entidade desenvolveu um considerável nível de organização, com uma atuação destacada na luta contra a discriminação racial, mantendo escola, grupo musical e teatral, time de futebol, departamento jurídico, além de oferecer serviço médico e odontológico, cursos de formação política, de artes e ofícios, assim como publicar um jornal, o “A Voz da Raça” (cf DOMINGUES, 2007). Segundo o historiador, a FNB mantinha, inclusive, uma milícia estruturada nos moldes dos “boinas verdes” do fascismo italiano, fazendo com que a resistência pacificadora até então exercida pelos “movimentos negros” incorporasse uma espécie de resistência armada e, por extensão, violenta.

Em 1936, devido à sua força política e ao seu poder de barganha junto ao governo federal da época, a FNB se constituiu como partido político (cf DOMINGUES, 2007). No entanto, no ano seguinte o Brasil passou a viver sob o regime do Estado Novo (1937-1945), decretado pelo então Presidente Getúlio Vargas, período marcado pela forte repressão política que declarou ilegais todos os partidos. Por essa razão, o “partido político” FNB e a “Organização” FNB foram dissolvidos em 1937.

O Teatro Experimental do Negro - TEN, fundado pelo líder Abdias do Nascimento, em 1944, no Rio de Janeiro, foi outro importante elemento do “movimento negro” brasileiro. Segundo Domingues (2007, p.109), a proposta original era formar um

grupo teatral constituído apenas por atores negros, mas progressivamente o TEN adquiriu um caráter mais amplo: publicou o jornal “Quilombo” e promovia cursos e congressos dos mais variados temas. O grupo foi um dos pioneiros a trazer para o Brasil as propostas do “movimento da negritude francesa” que, naquele instante, “mobilizava a atenção do movimento negro internacional e que, posteriormente, serviu de base ideológica para a luta de libertação nacional dos países africanos” (ibid, p.110). O TEN foi extinto em 1968 pela ditadura militar brasileira.

Para o seu idealizador, o Teatro Experimental do Negro era responsável por uma expressiva produção teatral que buscava dinamizar a consciência da negritude brasileira e combater a discriminação racial, conforme expressou o próprio Abdias do Nascimento:

Pretendi organizar um tipo de ação que ... tivesse significação cultural, valor artístico e função social. De início, havia a necessidade urgente do resgate da cultura negra e seus valores, violentados, negados, oprimidos e desfigurados. Depois de liquidada legalmente a escravidão, a herança cultural é que ofereceria a contraprova do racismo, negador da identidade espiritual da raça negra, de sua cultura de milênios. O próprio negro havia perdido a noção de seu passado. (in NASCIMENTO, 1982)

A partir da década de 1950, surgiram eventos e outros movimentos sociais negros no Brasil, como a Associação Cultural do Negro – ACN (São Paulo, 1954); o Primeiro Congresso Nacional do Negro (Porto Alegre, 1958); o Instituto de Pesquisa e Cultura Negra – IPCN (Rio de Janeiro, 1975); o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial – MNU (São Paulo, 1978); o Quilomhoje41 (São Paulo, 1980); o Sindicato Negro42 (São Paulo,

1989); dentre outros, sem pretensão de esgotá-los. Destacamos, ainda, alguns órgãos públicos ou privados ligados à promoção e à valorização do negro, vigentes até hoje, como a Fundação Cultural Palmares43, vinculada ao Ministério da Cultura (Brasília, 1988); o Instituto Afro-

Brasileiro de Ensino Superior – IABES (São Paulo, 2000), mantenedor da Universidade Zumbi dos Palmares – Unipalmares44 (São Paulo, 2003); e a Secretaria Especial de Políticas

de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR45 (Brasília, 2003), ligada à Presidência da

República.

Apesar de toda essa mobilização étnico-ideológica, Hanchard (2000)46 assinala

que não houve nenhum movimento social afro-brasileiro comparável ao movimento pelos       

41 Disponível: http://quilombhoje.com.br. Acessos: 02.06.2010 e 12.07.2011. 42 Primeira “Posse” surgida no Brasil.

43 Disponível: http://www.palmares.gov.br. Acessos: 02.06.2010 e 12.07.2011. 44 Disponível: http://www.unipalmares.edu.br. Acessos: 02.06.2010 e 12.07.2011. 45 Disponível: http://www.portaldaigualdade.gov.br. Acessos: 02.06.2010 e 12.07.2011.

46 Devido à data de publicação da sua obra, a avaliação do autor não contempla os trabalhos realizados pelos

direitos civis nos Estados Unidos dos anos 1960: “Embora tenha havido, durante esses anos, grandes e pequenas tentativas de agregar um conjunto diferente de pessoas num movimento de cunho racial em prol da mudança social, não houve, na sociedade civil brasileira, nenhum movimento nacional de oposição às desigualdades e à subordinação raciais”. O autor reconhece os avanços alcançados pelos movimentos negros brasileiros, mas entende que os seus significados práticos são pouco perceptíveis:

As condições de contestação da ordem dominante também sofreram mudanças significativas. O movimento negro pôde passar de uma atividade política indireta e amiúde clandestina para uma contestação e uma condenação francas dos legados de violência racial, discriminação e subjugação generalizada dos negros em todos os níveis da sociedade brasileira. Embora a filiação a partidos políticos tenha aumentado nos últimos dez anos, com a eleição de negros para cargos municipais e estatais, o número de negros no Congresso Nacional47 não se alterou

significativamente desde o fim da ditadura militar.

A percepção de Hanchard encontra eco no pensamento de Sant'Ana (1998) quanto à importância dos movimentos sociais na discussão da temática do preconceito racial, bem como em relação à sua baixa expressão e aos poucos resultados práticos obtidos em favor dos negros. Quanto aos movimentos negros brasileiros, parece-nos que houve algum desencontro de interesses nessas organizações contemporâneas que tenha dificultado o cumprimento da sua missão, levando a um descontentamento meio generalizado entre artistas negros acostumados a militar dentro dos “movimentos” em favor da coletividade. Como forma de exemplificar nosso posicionamento, transcrevemos um depoimento do rapper-DJ Thaíde48:

O movimento negro é importante. Posso estar errado no que eu estou dizendo, mas eu gostaria de ver o movimento negro mais atuante ... sinto falta da presença do movimento negro em várias coisas, em eventos, em várias paradas, até para a gente conseguir outras coisas mesmo ... Eu gostaria de ver o movimento negro mais movimento, mais negro, para a gente poder conseguir muito mais coisa, para a gente poder ouvir o termo “movimento negro” mais vezes ... Eu gostaria de ter no meu disco vários nomes, a presença de várias pessoas do movimento negro, e eu não tenho, porque existe uma certa distância. Eu sei que o movimento negro atua muito politicamente, mas existem outras coisas que eu gostaria que eles participassem também, eu gostaria de ver pessoas em shows de RAP, eu gostaria que o pessoal do RAP chamasse pessoas do movimento negro, que fizéssemos reuniões para desenvolver projetos e não é isso que acontece. Eu sei que eles estão resolvendo outros problemas, como a gente resolve problemas aqui também, mas se a gente tentasse resolver alguns problemas juntos, lógico que seria melhor. (in BARBOSA: 2008 p.72-73)

      

47 Em termos étnicos, a legislação brasileira instituiu em 2001 o sistema de cotas nas Universidades Públicas,

destinadas a estudantes “negros” ou “pardos” (lei 3.708/2001). No mercado de trabalho, no entanto, existem leis que estipulam reserva de vagas tão-somente para deficientes.

William Santiago, da Equipe Zimbabwe, comenta que “os movimentos negros só ficavam dentro da sede deles, discutindo o problema de longe. Não íam até as equipes para poder debater, pedir o espaço”. Para Santiago, o negro possui uma tendência de ir até o movimento, mas o movimento não vem até ele (in BARBOSA: 2008, p.192). Félix, por sua vez, entende que o movimento negro contemporâneo errou por achar que cultura é uma coisa e política é outra. Tanto as entidades negras mais antigas quanto os bailes atuais e o movimento Hip Hop nos mostram que essas expressões ficam melhor quando são vividas conjuntamente: “Não dá para pensar a política como simples tomada de poder. É aí que o baile entra nesse processo, ele faz parte do cotidiano das pessoas”. (ibid, p.35-36)

Os bailes blacks49, ou negros, ocorrem desde o início do século XX no Brasil.

Entretanto, a Frente Negra Brasileira – FNB, comprovando que algumas organizações de defesa da negritude podem não corresponder aos interesses dos seus representados, considerava que o baile era um incentivo à acomodação dos negros (cf FÉLIX: 2006, p.33), além de entender que “o lazer não tinha importância na luta contra a discriminação, o preconceito e o racismo” (p.36). Para os seus freqüentadores, no entanto, os bailes tinham um cunho pedagógico, pois misturavam entretenimento e atividades culturais em uma tentativa de conscientizar a população sobre o histórico dos povos negros, suas reivindicações e o contexto da época. O antropólogo ainda critica que “o movimento negro não percebeu que, ao cantar e dançar, as pessoas não estavam alienadas”. (ibid, p.39)

Segundo o discurso da FNB na década de 1970, a luta contra o racismo seria política, além de lutar contra o capitalismo e a ditadura, e pela tomada de poder, mantendo seu posicionamento de que o baile seria única e exclusivamente uma forma de lazer. Essa postura “dura” que a FNB assumiu fez com que o público-foco do movimento negro não se identificasse com a organização porque, “se eu estou dançando, não quer dizer que eu sou alienado”. Segundo o antropólogo, a “briga” do movimento negro era “contra as escolas de samba, consideradas como alienadas, não contra os bailes”. Félix lembra que, no começo da carreira, o Racionais MC’s também criticava duramente os negros freqüentadores de bailes dizendo “não sejam negros alienados!” e o grupo não teve muito sucesso nesse período. Sua popularidade retornou quando o grupo passou a falar contra a violência racial e policial, a denunciar a perseguição e a marginalização, construindo um discurso com o qual os freqüentadores do baile se identificavam.

      

49 A definição “baile black”, dada pelos próprios freqüentadores, deve-se ao fato de esses bailes juntarem ao

samba e ao samba-rock estilos de origem afro-americana, como as diversas vertentes do r&b (rhythm and blues) e do Hip Hop. (cf BARBOSA: 2008, p.12).

Ao desprestigiar os bailes, a FNB não levou em consideração o sentido de expressões como “lúdico” e “corporalidade”, dois elementos comuns à maioria das culturas africanas e negras diaspóricas. Segundo o sociólogo Márcio Macedo (2008, p.25), “esses dois elementos têm um papel importantíssimo na organização social e até mesmo econômica das pessoas negras e africanas no mundo todo”. Cita como exemplos as diferenças nas tradições religiosas de origem judaico-cristãs em relação às africanas. Enquanto as primeiras fazem referência à introspecção e ao martírio terrestre com vistas a uma possível e prometida vida eterna em paraíso pós-morte, as segundas são religiões apegadas ao mundo terrestre, à festa, sem a promessa de paraíso ou vida pós-morte e constituem um espaço social em que a corporalidade é vivenciada de forma profunda. Tanto é verdade que as pessoas que fazem parte do “povo de santo” dançam em homenagem aos seus orixás. “A atitude de dançar liga- se a cantar e festejar, não podendo ser pensada separadamente”, o que, para o sociólogo, aproxima-se muito da concepção de um baile.

Sant’Ana (1998) aponta um papel paradoxal exercido pela militância desses movimentos sociais brasileiros, os quais, segundo o autor, afastam-se dos grupos de excluídos que teoricamente representariam, independentemente da razão que tenham para isso:

Ao tornarem-se negros e militantes (com a ajuda de uma construção de memória), os membros do movimento em questão parecem ter se afastado dos “pretos”, “mulatos”, “escuros” – distanciamento, aliás, reconhecido. Este é um dilema de difícil encaminhamento. Sem dúvida era (e é) necessário contrapor-se à imagem preconceituosa e aviltante atribuída aos não-brancos. Nesse processo, porém, constituiu-se e destacou-se um setor dificilmente associável àquela imagem, mas também já muito distanciado do contingente ao qual pretendem colocar-se como representantes.

Devemos considerar que, desde o longo período escravista, o negro busca nas organizações corporativas da negritude e nos movimentos sociais um amparo coletivo às suas demandas individuais. A partir do momento em que ocorre uma ruptura em algumas dessas instituições de classe, as pessoas a ela ligadas também podem se desestruturar. Percebe-se, no entanto, que a identidade do sujeito pode ser construída exatamente nessa tensão entre o individual e o coletivo.

Mano Brown, líder do grupo Racionais MC’s, discute sobre o distanciamento e a discriminação que ocorre entre os próprios negros, provocados principalmente pela ascensão social e cultural de alguns dos seus representantes. Para o rapper, esses “novos negros” perdem a sua negritude ao tentar ser como o branco, passando a não se identificar mais com

sua etnia de origem, tampouco com os hábitos e costumes do branco. Segundo Brown50, “a

maioria dos pretos que entram nas escolas de branco e viram doutor ficam chatos pra caramba: ele não é o preto verdadeiro e também não é branco”. Com a expressão “ficam chatos pra caramba”, o rapper faz referência à perda da ideologia étnica e do sentimento de grupo por parte de alguns “novos negros” em relação à sua comunidade e ao seu grupo social