2 Metodologiske tilnærminger
8.3 Endringer i reglene over tid
Nesta seção, apresentamos o estudo de Baldè (2011), que trata da aquisição do português L2 por falantes russos e concentra-se nos sintagmas nominais com interpretação de definitude e especificidade. Segundo o autor, na perspectiva de Lyons (1999), Ionin (2003), Ionin, Ko & Wexler (2004), definitude e especificidade são conceitos definidos em termos discursivos ou pragmáticos. Nos termos de Ionin, Ko & Wexler (apud BALDÈ 2011, p. 12):18
(...) os traços [+definido] e [+específico] são ambos relacionados ao discurso: o traço [+definido] reflete o estado de conhecimento tanto do falante quanto do ouvinte, enquanto o traço [+específico] reflete o estado de conhecimento somente do falante. [tradução nossa]
17 Tradução de R. M. Quadros.
18No original: “the features [+definite] and [+specific] are both discourse related: The feature [+definite] reflects the state of
Os artigos do português, artigo definido o(s) / a(s) e artigo indefinido um (uns) / uma(s), codificam definitude, mas não especificidade. Observemos os exemplos do português, extraído de Baldè (2011, p.17):
(1) Contexto Definido a) [+específico]
Conversa entre dois polícias
Agente Silva: Há que tempo não o vejo. Deve estar muito ocupado.
Agente Teixeira: Pois, estou. Ouviu falar sobre a Senhora Sara Andrews, uma famosa advogada que foi assassinada há algumas semanas? Nós estamos a tentar encontrar o assassino da senhora. Chama-se Roger Williams e é um criminoso muito conhecido.
b) [-específico]
Conversa entre um polícia e um repórter
Repórter: Há uns dias, o Senhor José Pereira, um famoso político, foi assassinado! Estão a investigar o assassínio dele?
Polícia: Sim. Nós estamos a tentar encontrar oassassino do Senhor Pereira, mas ainda não sabemos quem é.
(2) Contexto Indefinido a) [+específico]
Num aeroporto, na sala de chegada de passageiros. Homem: Peço desculpa, o senhor trabalha aqui?
Segurança: Sim.
Homem: Então, provavelmente poderá ajudar-me. Estou a tentar encontrar uma menina ruiva. Acho que ela chegou no voo nº 239.
b) [- específico]
Numa livraria para crianças
Criança: Gostava de levar alguma coisa para ler, mas não sei o quê.
Vendedor: Bem, o que gostas mais? Temos livros de mais variadas temáticas.
Criança: Gosto das coisas que se movem: carros, comboios … Já sei! Queria levar um livro sobre aviões. Adoro ler sobre pilotagem!
Em (1) observa-se o contexto definido, marcado pelo artigo definido, em que locutor e alocutário pressupõem a existência de um mesmo referente. Em (1a), está ilustrado o traço [+ESPECÍFICO], o locutor tem a intenção de projetar o referente ao elocutor, tornando- o conhecido. Em (1b), apesar da intenção de projetar o referente ao elocutor, o locutário não
possui conhecimento exato sobre o referente mencionado. Em (2), observa-se o contexto indefinido, marcado pelo artigo indefinido, em que o locutor pressupõe um referente, mas o alocutário não. Em (2a) o locutor tem o referente em mente, caracterizando-o com o uso de um adjetivo, mas em (2b) o locutor apesar de ter um referente em mente, o desconhece completamente.
A respeito da codificação dos traços de definitude e especificidade nas línguas, o autor observa que algumas possuem o traço de definitude morfologicamente expresso, como o português e o inglês, porém não existem marcas morfológicas para determinar a especificidade.Inversamente outras línguas, como o samoano, possuem dois artigos, le/l e se/s nos DPs, que marcam morfologicamente os traços [+ESPECÍFICO] e [-específico], respectivamente, não havendo marca morfológica explícita para definitude (Ionin, Ko & Wexler, 2004 apud Baldè, 2011). Isso significa dizer que em línguas como o inglês e o português, os DPs são interpretados do ponto de vista de ambos os interlocutores e nas línguas como o samoano e sissala, são interpretados apenas pelo ponto de vista do locutor. Esse contraste está ilustrado nos quadros a seguir, extraídos de Baldè (2011, p. 23):
(Baldè, 2011, p.23)
Conforme o autor, segundo as pesquisas de Ionin, Ko & Wexler (2004), os falantes de L2 cuja L1 não possui artigo, conhecem os artigos existentes na língua alvo, mas não atribuem nenhum valor discursivo a eles. Nesse caso, destaca-se a possibilidade de transfer (interferência) por se tratar da L1 de línguas sem artigo.19 A hipótese em relação ao estudo apresentado é que os adquirentes da L2 realizaram acesso direto à GU por terem conseguido a ascender ao valor paramétrico da língua alvo. Para os autores, à medida que os falantes de L2 passam a utilizar o artigo, tem-se evidência de que os valores dos dois parâmetros, da
19 Tendo em conta que já existe uma língua adquirida, levanta-se a questão do transfer, que consiste na evidência
de transferência das propriedades de L1 para L2. Esse conceito remete ao confronto entre os modelos de Schwartz e Sprouse (1994,1996), que postula o transfer parcial, e de Epstein, Flynn &Martohardjono (1996), que postula full acess sem transfer, rejeitando a hipótese de L1 constituir o estágio inicial, estando a GU disponível em qualquer estágio de aquisição de L2. No presente estudo, o termo transfer substituído por ‘interferência’.
Agrupamento por definitude Exemplo: inglês
[+ definido] [- definido]
[+ específico] The a
[- específico]
Agrupamento por especificidade Exemplo: samoano
[+ definido] [- definido]
[+ específico] Le
[- específico] Se
marcação da definitude e da especificidade são fixados. Esse resultado é argumento a favor da hipótese de que o acesso à GU está disponível aos adquirentes da L2. Os adquirentes de L2 variam entre diferentes configurações do parâmetro até que os dados do input os levam a definir o parâmetro com o valor apropriado.
Os autores ainda testam falantes de L1 russo e L1 coreano, ambas as línguas não possuem artigo, e atestam que nesses casos a possibilidade de transfer é excluída. Para essas línguas os aprendizes de L2, ao ter acesso a todos os valores paramétricos da GU, não terão problema nos contextos [+definido, +específico], nem [-definido, - específico], mas vão ter dificuldade em contextos [+definido, - específico] ou [-definido, +específico], porque vão associar a escolha ora à definitude, ora à especificidade.
Segundo Baldè (2011), Ionin, Ko & Wexler (2004) consideram ainda a questão da ‘opcionalidade’ trazida por estudiosos de L2 como Eubank (1993/1994), Prévost e White (2000), Sorace (2000), que dispõem sobre a aderência opcional às configurações de parâmetros, em que o comportamento linguístico do falante reflete mais de uma configuração de algum parâmetro ao mesmo tempo. Alguns desses casos são refletidos na refixação de parâmetros de L1 para L2, em que o desempenho do falante de L2 não é 100% consistente com os parâmetros da L1, nem 100% consistente com a língua alvo. Para os autores, embora a maioria das evidências desse fenômeno ocorra em domínios sintáticos, por exemplo a marcação da ordem dos constituintes na oração, o estudo em curso demonstra que o acesso a várias configurações de parâmetros também ocorre no domínio semântico da escolha do artigo.
Do estudo proposto por Baldè (2011) sobre falantes de L1 russo aprendizes de português L2, cuja L1 não possui artigo, os dados individuais dos adquirentes mostram que a maioria dos falantes de L2 evidenciam o acesso a ambos os valores, definitude e especificidade, confirmando o acesso à GU na aquisição de L2. O autor também conclui quanto ao artigo definido que, em português, esse artigo possui um uso mais alargado, o que justifica os aprendizes russos de português (L2)aprenderem com mais facilidade o artigo definido, já que sua ocorrência é mais frequente no input da língua. Baldè faz pertinente referência à importância do input na aquisição dos valores da L2 visto que é ele que fornece as pistas necessárias para a escolha dos valores dos parâmetros.
Apresentamos, neste capítulo, os pressupostos teóricos da teoria gerativa e o problema central da teoria: a aquisição da linguagem. Examinamos conceitos basilares sobre a abordagem teórica de suporte para esta pesquisa: gramática interna, competência e desempenho linguísticos, faculdade da linguagem, input linguístico, com maior detalhamento. Discorremos sobre a aquisição de primeira e segunda língua, estendendo a compreensão de que ambos os processos são equivalentes entre ouvintes e surdos, evidenciando as particularidades dos surdos no curso da aquisição, devido apenas à diferença do canal perceptual. Observamos, assim, a participação da GU na aquisição, verificando que o processo de aquisição de L1 é tão natural para os surdos quanto para os ouvintes. Em relação à aquisição de L2, apresentamos as características que a distinguem da aquisição da L1, bem como as hipóteses quanto ao acesso à GU no desenvolvimento linguístico e à interferência da L1, considerando ainda a questão do ensino da língua escrita no contexto da educação sistemática (passível de ser experienciada igualmente por ouvintes adquirentes de uma L2). Trazemos, por fim, o estudo de Baldé (2011), na perspectiva de Lyons (1999), Ionin (2003), Ionin, Ko & Wexler (2004), em relação à aquisição do artigo por falantes de russo, em que é investigado o papel dos traços de definitude e especificidade, bem como a forma como esses traços são evidenciados em diferentes línguas.
Capítulo 3
A categoria dos determinantes
A delimitação dessa pesquisa incide sobre o emprego dos artigos (e demais determinantes) por aprendizes surdos de português como segunda língua, realizados, por hipótese, na estrutura da categoria dos determinantes. Ao abordar a sintaxe dos determinantes, particularmente dos artigos, é preciso considerar as propriedades categoriais e semânticas dessa categoria, o que significa entender as noções de referencialidade e definitude, e ainda observar as relações argumentais do nome na estrutura do predicado, por um lado, e as propriedades morfossintáticas das categorias envolvidas, por outro.
Neste capítulo, apresentaremos, de forma sucinta, estudos prévios sobre as propriedades semânticas e sintáticas dos artigos, assim como os desenvolvimentos teóricos em relação à sintaxe dos determinantes, conforme propõe a teoria gerativa.