Citando a primeira provisão, que acabamos de apresentar, Maquiavel afirma na segunda, sobre "as milícias a cavalo, de 30 de Março de 1512254 sob o texto latino: Pro
discrebendis equis in militia florentina, que para enriquecer e ampliar a segurança de Florença, desencorajando inimigos, aumentando a confiança dos súditos e garantindo uma maior segurança e firmeza do Estado, os mesmos argumentos iniciais da primeira provisão em relação às leis e as armas.
Neste determinado momento faz-se necessário – no modelo burocrático já esmiuçado – diz Maquiavel – alistar homens para uma milícia a cavalo. Novamente reforçando as funções próprias do Conselho dos Nove, Maquiavel relata que, sob o mesmo esquema das bandeiras, dos desfiles, da obediência e civilidade, do sistema de pagamento e taxas, mas, sobretudo na prontidão para a guerra – devem ser selecionados quinhentos cavaleiros, e estes devem ser reembolsados conforme tabela própria e agregados aos conscritos tendo entre os
253 “Provisão para a Instituição do cargo dos cinco provedores dos muros da cidade de Florença”. pp. 116-117. In: MAQUIAVEL, N. Política e Gestão Florentina. Tradução e notas, Renato Ambrosio. Prefácio Kurt Mettenheim. Série Ciências Sociais na Administração, Departamento de Sociais e Jurídicos da Administração, FGV-EAESP: FSJ. Circulação Restrita. São Paulo: Multhiplic Serviços de Impressão, 2010. A disciplina militar se soma às duas qualidades referidas, por modelar corpo e alma e construir tanto o desapego às paixões perecíveis quanto o amor à pátria e valorização do bem comum: “em qualquer lugar”, afirma Maquiavel em A
arte da Guerra, “com exercícios, fazem-se bons soldados; pois onde falha, a natureza é suprida pela indústria, que nesse caso vale mais que a natureza”. Cf. também MAQUIAVEL, N. A arte da Guerra, I, pp. 22.
254 “Provisões da República de Florença para instituir o Magistrado dos Nove Oficiais da Ordenança e Milícia Florentina”, pp. 66. In: MAQUIAVEL, N. Política e Gestão Florentina. Tradução e notas, Renato Ambrosio. Prefácio Kurt Mettenheim. Série Ciências Sociais na Administração, Departamento de Sociais e Jurídicos da Administração, FGV-EAESP: FSJ. Circulação Restrita. São Paulo: Multhiplic Serviços de Impressão, 2010.
seus alistados dez por cento portando lanças. Cabe aos Nove enviar um representante para averiguar os efetivados da cavalaria255.
Este comandante é chamado de condottiere que pode ao menos comandar uma bandeira e cinqüenta cavaleiros, levando em conta o tempo previsto para o comando e a transmigração própria do sistema de mudança e rotatividade, como se prevê nos cargos anteriormente citados. Na avaliação da cavalaria haverá em um mesmo dia – uma revista aos cavaleiros feita sob a tutela dos Nove onde todos os homens da cavalaria deverão ser identificados e receber o que lhes for devido. As faltas devem ser justificadas – ou com a autorização dos Nove ou por motivos de doença que deve ser atestada em papel pelo padre da paróquia e o cavaleiro doente deve enviar alguém em seu lugar no seu cavalo para atestar e justificar sua ausência. Não se poderá apresentar-se com outro cavalo senão com aquele em que se está inscrito. O cavaleiro tem liberdade e responsabilidade sobre o seu cavalo, portanto pode vendê-lo quando bem quiser, mas terá 10 dias para apresentar o novo cavalo ao seu responsável e pagar a devida taxa respeitante àquele ato. Ao interno deve ser tudo registrado como caixa de entrada e saída de arrecadações e sempre que necessário ser prestado contas por parte dos responsáveis pela cavalaria. Para tanto – se ocorrer de algum cavaleiro estar em débito com Florença – no tempo de guerra a dívida será perdoada. Ao voltarem da guerra inicia-se o processo de divida até uma possível nova guerra. O que ainda pode ser dito neste assunto é que os Nove não podem dispensar nenhum conscrito sem que este restitua antes aos ditos oficiais tudo aquilo que é devedor, a não ser que numa reunião em um número suficiente dos Nove, os Senhores e o Colegiado possam cancelar, total ou parcialmente, os débitos de algum conscrito. A dívida pode ser esquecida se o conscrito morrer em batalha de guerra, ou for banido ou preso por qualquer circunstância, mas se morrer em outro local – que não em batalha – seus herdeiros ou sucessores devem assumir a dívida e restituir ao debitante a partir dos bens que o devedor deixar. O mesmo pode ser assinalado à posse do cavalo. Se o animal vier a morrer em campo de batalha, o conscrito deverá receber dois terços do valor do animal da parte dos Nove. Se o animal morrer fora da esfera da guerra – os alistados sob a bandeira devem doar parte de seu soldo até o limite de dez florins de ouro afim de que as companhias
255 "Registrarão seus cavalos pela cor do pelo e marcas, anotando ainda o valor de cada cavalo”. Muito se pode dizer a respeito do sentido militar da cavalaria. Jacques Le Goff & Jean-Claude Schmitt no – Dicionário
Temático do Ocidente Medieval, Vol. 1, no texto de Jean Flori, traduzido por Lênia Márcia Mongelli. Flori nos
afirma que essencialmente trata-se de um grupo profissional, os dos guerreiros da elite, atacando impetuosamente, de lança ou espada em punho, em todos os campos de batalha. [...] Este aspecto militar atrela- se a um segundo – fazer cavalaria – militiam facere – que significa tanto atacar quanto realizar grandes feitos de armas, proezas ... cavaleirescas. Flori é incisivo – na cavalaria não entra quem quer, pois [...] deve-se controlar o acesso, filtrar a admissão. Cf. FLORI, J., Cavalaria (verbete), pp. 185s, Tradução de Lênia M. Mongelli. In:
Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Vol. 1, coordenador de tradução Hilário Franco Jr., Bauru, SP,
mantenham sempre seus cavalos sem custos para a comuna de Florença (MAQUIAVEL, 2010, pp. 66-69).
Entro nas antigas cortes dos antigos homens, onde, amavelmente recebido por eles, nutro-me daquele alimento único para mim e para o qual nasci, onde não me envergonho de falar com eles e lhes pergunto a razão de suas ações, e eles, com sua urbanidade, me respondem; e por quatro horas não sinto nenhum aborrecimento, esqueço todas as preocupações, não temo a pobreza, e a morte não me perturba: transporto-me totalmente para eles (Maquiavel, Lettere)256
Esta provisão tem no auge de sua redação, num primeiro momento, a intenção de constituir os “Cinco procuradores das Muralhas da Cidade” sob a invocação do patronato de São João Batista e sob a proteção de Deus e da Gloriosa Virgem Maria. Num parágrafo extenso, Maquiavel, por mais de cinco vezes, na tradução que temos, fala em prudência do príncipe, do líder político. E ao falar da prudência – o faz em referência a quem não a teve historicamente, e como conseqüência efetiva foram arruinados e saqueados. Na busca e na evidenciação da Verità effetualle, a prudência é redefinida nos escritos de Maquiavel. A ênfase nas tópicas da honestidade, da utilidade, da segurança e da necessidade. Trata-se da arte do estado e da verdade efetiva, bem como na retórica da pratica. Os componentes da prudência são: a experiência e a leitura das histórias (discrezione e ragione).
Ser prudente257, em síntese, é garantir a segurança da cidade de Florença fortificando cada vez mais o modelo já descrito na égide dos homens armados e dos cavaleiros. A respeito da prudência – outrora afirmou Cícero:
256 Cf. NETO, M. de A. O Tempo nos Discorsi de Maquiavel. Dissertação de Mestrado em Filosofia. Área de concentração: Filosofia Social e Política. Colaboração de Newton Bignotto, Belo Horizonte; Departamento de Filosofia da UFMG, 1999, pp. 87.
257 Maquiavel altera o significado de prudência, da razão prática dos humanistas, alicerçada por considerações morais, para a faculdade de julgamento calculativa, potencialmente amoral, apropriada ao homem de virtù. Cf. KAHN, Victoria. Machiavellian Rhetoric, pp. 21. “At the same time, he alters the meaning of prudence from the humanists‟ practical reason, informed by moral considerations to the calculating, potentially amoral faculty of judgment appropriate to the man of virtù”. Trata-se de uma concepção calcada na premissa de uma subjetividade forte que atua como desenraizadora consciente da tradição humanista. A redefinição da prudência em Maquiavel [...] obedeça a movimentos mais sutis, isto porque, para ele, a prudência não deixa em absoluto de ser concebida como recta ratio agibilium; é precisamente a noção de “razão reta” que se transforma, distanciando-se da idéia de que modelos universais possam ser intuídos e realizados em ações particulares, e aproximando-se de um entendimento mais pragmático calcado na valorização dos efeitos das ações dos agentes envolvidos e na antevisão das possibilidades em jogo no tabuleiro da política. A ênfase analítica é em grande medida direcionada aos meios e fins primeiros, os quais não deixam de remeter, ainda que muitas vezes de forma opaca, a fins últimos tomados como honestos. De modo que não se pode afirmar que a idéia aristotélica de desejo correto seja questionada por Maquiavel; porém, o caráter normativo deste desejo correto se dissolve de tal forma que o princípio de correção passa a ser, ele próprio, contingente e passível de deliberação. In: A prudência
em Maquiavel e Guicciardini. S/N – Texto vinculado a PUC-RJ. Tradicionalmente, como se disse na introdução, há vários leitores e várias óticas em relação aos escritos de Maquiavel. Não se pode rejeitar a ética de suas penas históricas. Cf. NUNES, E. A Política à meia luz: ética, retórica e ação no pensamento de Maquiavel. São Paulo: EDUC, 2008, pp. 103-137.
Prudência é a destreza que pode, com certo método, discernir o bem e o mal. Também se denomina prudência o conhecimento de alguma arte, e ainda a memória de muitas coisas e o trato de um grande número de negócios258.
Maquiavel fala da organização destes cinco provedores dos muros da cidade de Florença no sentido de que devem eles ter mais de trinta e cinco anos, não portarem dívidas para com a Comuna e prestarem o juramento já referido outrora. Serão oficiais com poder de decisão e primordialmente no que concerne a fortificações da cidade. O posto devido é posterior aos Conservadores da Lei. Que eles possuam um secretário e possam eleger um chanceler, e outros ministros no modo e com o salário que lhes aprouver. Que tenham eles – a autoridade devida e o respeito do povo de Florença259.