7. Kulturlandskap
7.1. Endringar i kulturlandskapet – overvakingsprogrammet 3Q
O Relatório Brundtland está dividido em três capítulos, que mostram, desde o título até o conteúdo, a intenção de apresentar um pensamento de comunhão de objetivos e
33 solidariedade. Não é por acaso que os títulos de todos os capítulos fazem referência à palavra “comum”:
Preocupações Comuns Desafios Comuns Esforços Comuns
Tratar as preocupações, desafios e esforços como comuns significa tratar essas questões como pertencentes a todos ou a muitos, reforçando o sentido de comunidade e sociedade.
A leitura do Relatório Brundtland deixa evidente o uso do discurso competente, principalmente quando abre um capítulo sobre desenvolvimento sustentável com a questão: “Como persuadir as pessoas ou fazê-las agir no interesse comum?” (RELATÓRIO
Brundtland, 1987, p.49). A resposta do relatório a essa questão está baseada em educação,
desenvolvimento das instituições e fortalecimento legal.
Ao mencionar a educação como uma das formas de persuadir as pessoas a agirem pelo bem comum, o documento dedica algumas páginas sob o subtítulo “Ampliando a Educação” (RELATÓRIO Brundtland, 1987, p. 122), onde podemos identificar a falta de uma estratégia clara em relação à formação de cidadãos conscientes. O Comitê coloca nas mãos das religiões a transformação do desenvolvimento sustentável em um valor da sociedade. Sem considerar que as religiões ao redor do mundo têm diferentes princípios e crenças, generaliza o cenário quando sugere que as religiões são responsáveis por formar valores de responsabilidade individual e coletiva. Entendemos que a religião têm um importante papel de formação e transformação nas esferas sociais, econômicas e políticas. Por reconhecer essa importância, podemos considerar que o documento menciona esse aspecto de forma superficial, sem considerar a complexidade do papel das religiões na sociedade.
Ainda sobre o papel da educação, o documento menciona a importância de garantir altos índices de alfabetização em todos os países, fator diretamente relacionado com o desenvolvimento econômico de uma nação. O documento também sugere que a educação ambiental deve integrar o currículo escolar como uma disciplina e também como tema transversal nas demais disciplinas. Para garantir que o aprendizado não fique restrito às salas de aula, o Comitê sugere que a introdução da educação ambiental na grade de ensino formal seja acompanhada de ações de engajamento dos cidadãos.
Ao expor a importância do desenvolvimento das instituições e do fortalecimento legal, o documento discorre apoiado na ideia de que, por existir a interdependência dos sistemas,
34 existe a necessidade de controles efetivos por agentes externos. O que o Comitê ressalta é que os efeitos das ações prejudiciais ao meio ambiente não ficam restritos ao agente responsável pelo ato, impactando outros indivíduos, comunidades e até nações. Coloca ainda que a percepção da interdependência é pouco presente nos países em desenvolvimento. Embora tente minimizar o texto afirmando que não há vilões e vitimas, podemos considerar a postura colonialista nas afirmações.
Nesse momento, encontramos terreno fértil para que os países tidos como desenvolvidos sejam encorajados a adotar medidas intervencionistas nas atividades econômicas dos países menos desenvolvidos.
Alguns anos mais tarde, em 1991, Gro Harlem Brundtland, responsável pelo relatório e enquanto primeira ministra norueguesa, trabalhou a favor da criação de uma agência ecológica supranacional que teria poderes de fiscalização sobre a Amazônia. Tal agência nunca foi criada, mas a intenção de se colocar em prática o discurso do poder estava nas entrelinhas.
Podemos assumir que esse discurso seria baseado no poder do imperialismo cultural, conforme definido por Herbert Schiller11, citado por Mattelard:
[...] o conjunto dos processos pelos quais uma sociedade é introduzida no sistema moderno mundial, e a maneira pela qual sua camada dirigente é levada, por fascínio, pressão, força ou corrupção, a moldar as instituições sociais para que correspondam aos valores e estruturas do centro dominante do sistema, ou ainda para lhes servir de promotor dos mesmos (SCHILLER apud MATTELARD, 1999, P. 117).
A partir dessa definição, podemos inferir que, no momento em que se estabelece a discussão da questão ambiental organizada pelos órgãos mundiais, coloca-se em prática o poder imperialista cultural no sentido de estabelecer novas crenças e formas de atuação da sociedade.
O Relatório Brundtland é finalizado com a “Súmula dos Princípios Legais propostos para a proteção ambiental e o desenvolvimento sustentável”. A súmula deixa evidentes as responsabilidades do Estado como principal agente na conservação, monitoramento, avaliação de impactos, análises preventivas e cooperação entre Estados, sempre com o objetivo de ser o provedor do direito do ser humano a um meio ambiente adequado à sua saúde e bem-estar.
11 Herbert Irving Schiller (1919-2000): sociólogo americano, autor de teorias sobre o capitalismo e imperialismo
35 Boaventura de Souza Santos estudou, por meio de seu projeto A Reinvenção da
Emancipação Social (2006), as alternativas à globalização neoliberal e ao capitalismo global
produzidas pelos movimentos sociais e pelas organizações não governamentais, nas questões relacionadas ao combate à exclusão e à discriminação em diferentes estratos sociais e países. Boaventura escolheu seis países, em diferentes continentes, baseado na sua percepção de que naqueles locais os conflitos entre a globalização neoliberal hegemônica e a globalização contra-hegemônica seriam mais intensos.
Boaventura apoia sua hipótese na ideia de que esses países, que incluem o Brasil, existe um terreno propício para movimentos relacionados aos temas que permeiam os conflitos entre os hemisférios. Entre as cinco temáticas apontadas pelo sociólogo estão:
Sistemas de produção alternativos e economia solidária; Direitos coletivos;
Alternativas aos direitos de propriedade intelectual capitalistas e proteção da biodiversidade e diversidade epistêmica do mundo.
Podemos considerar que esses três pontos têm relação com o tema desenvolvimento sustentável e são os fundamentos para o sucesso ou fracasso de uma ação em busca da sustentabilidade. Não há como obter êxito sem que todos os aspectos desse tripé sejam respeitados: solidariedade, coletividade e proteção. Sem a combinação desses princípios, não há como implementar uma ação de sustentabilidade ambiental perene e eficaz.
Retomando o pensamento de Boaventura de Souza Santos; compreendemos a dinâmica dos movimentos da sociedade quando o autor discorre sobre as ecologias dos saberes, mais especificamente sobre a ecologia das produtividades (SANTOS, 2006). O sociólogo afirma que, para a lógica produtivista, o crescimento econômico é um objetivo racional e inquestionável. Na sequência, Santos apresenta o que ele chama de “sociologia das ausências” para nos mostrar como e por que ocorrem os movimentos sociais. Aplicada ao tema produtividade, a sociologia das ausências analisa os critérios em relação aos quais o tema foi consolidado para então propor meios alternativos.
Especificamente sobre o tema produtividade, Santos ressalta que a evolução se dá a partir da
[...] recuperação e valorização dos sistemas alternativos de produção, das organizações econômicas populares, das cooperativas operárias, das empresas autogeridas, da economia solidária etc., que a ortodoxia produtivista capitalista ocultou ou descredibilizou (SANTOS, 2006, p. 113).
36 Em entrevista recente, Viveiros de Castro imagina para o Brasil um novo modelo político e econômico, que seja baseado nas soluções socioculturais que os povos brasileiros carregam através de sua história. Castro defende que o Brasil tem em seu legado “condições ecológicas, geográficas, culturais de desenvolver um novo estilo de civilização, que não seja uma cópia empobrecida do modelo americano e norte-europeu” (CASTRO, 2012).
Inúmeras ações da iniciativa privada associadas às organizações não governamentais atuam no Brasil no sentido de implementar ações de sustentabilidade ambiental. Como exemplo, podemos trazer a experiência da empresa de produtos de higiene e beleza Natura. A Natura é uma indústria de origem nacional criada em 1969. Ao longo dos anos, a empresa se apropriou de um discurso altamente focado em meios de produção alternativos com grande preocupação em minimizar os impactos de sua atividade fabril na sociedade:
Nossos produtos são a maior expressão de nossa essência. Para desenvolvê-los, mobilizamos redes sociais capazes de integrar conhecimento científico e sabedoria das comunidades tradicionais, promovendo, ao mesmo tempo, o uso sustentável da rica biodiversidade botânica brasileira. Na sua produção, não utilizamos testes em animais e fazemos observância estrita das mais rigorosas normas de segurança internacionais. O resultado são criações cosméticas de alta qualidade, que proporcionam prazer e bem-estar, com design inspirado nas formas da natureza (NATURA, 2012, informação eletrônica).
A comunicação da Natura está repleta de menções à sua preocupação com a integração do conhecimento científico e o conhecimento oriundo das comunidades; o investimento em processos de produção sustentáveis e a preocupação com a biodiversidade brasileira, grande fonte de matéria-prima de seus produtos.
A empresa vem descentralizando parte de sua linha de produção desde 2009. Essa estratégia está baseada na necessidade de maior proximidade com os fornecedores responsáveis pela extração de sua matéria-prima (óleos e manteigas de frutos e sementes). A política de relacionamento com fornecedores prevê o desenvolvimento de fornecedores locais a partir das comunidades existentes. A empresa, a fim de garantir o padrão de qualidade, oferece apoio para a organização desses fornecedores em associações e cooperativas. Em 2009, a empresa fechou o ano com crescimento de 18,6% e investiu recursos em 1.714 famílias agroextrativistas na Amazônia. Em Jacarequara (PA), a empresa mantém como fornecedora uma comunidade formada por cerca de 50 famílias de quilombolas (GLOBO RURAL, 2010, informação eletrônica).
37 Com essa estratégia de investimento em um sistema de produção alternativo e fomento da economia local, a empresa se defende de possíveis críticas em relação à ocupação e exploração da biodiversidade nacional.
A Natura divulga ainda em sua comunicação as seguintes diretrizes de sua Política de Meio Ambiente: responsabilidade com as gerações futuras, educação ambiental e gerenciamento do impacto de suas ações no meio ambiente. Sem abrir mão de seus interesses financeiros, a empresa sinaliza que investe em ações que refletem seu posicionamento como instituição e marca:
A Natura assume que uma empresa ambientalmente responsável deve gerenciar suas atividades de maneira a identificar os impactos sobre o meio ambiente, buscando minimizar aqueles que são negativos e amplificar os positivos. Deve, portanto, agir para a manutenção e melhoria das condições ambientais, minimizando ações próprias potencialmente agressivas ao meio ambiente e disseminando para outras empresas as práticas e conhecimentos adquiridos na experiência da gestão ambiental. Visa também à ecoeficiência ao longo de sua cadeia de geração de valor; e, ao buscar a ecoeficiência, favorece a valorização da biodiversidade e de sua responsabilidade social (NATURA, 2012, informação eletrônica).
Entendemos que a Natura se apresenta como uma empresa responsável e atuante, muitas vezes utilizando um discurso edulcorado do ponto de vista ambiental. Sua linha de produtos cosméticos Natura Ekos reforça esse posicionamento em todas as suas ações: proteção à fauna e flora, incentivo às comunidades de produtores locais, processo de produção seguro etc. A empresa deixa explicito seu interesse econômico, mas a força da comunicação está no conceito da sustentabilidade.
No entanto, o mesmo não acontece com a maioria das empresas que se aventuram a levantar a bandeira do ecologicamente correto. O que vemos constantemente por parte das companhias são ações isoladas de pouco ou nenhum efeito, mas que rendem peças publicitárias com grande potencial de comunicação para a construção de imagem positiva da empresa em relação à preservação do meio ambiente. Castro refere-se a esta estratégia como “histórias da carochinha do capitalismo verde” (2012, informação eletrônica). Para o antropólogo, “a Natureza foi mediatizada e mediocrizada pelo Mercado” (2012, informação eletrônica.
Frequentemente nos deparamos com a comunicação de empresas que divulgam ações básicas e até óbvias voltadas para sustentabilidade e se furtam de investir na construção de um processo sólido de proteção ao meio ambiente. Um exemplo é a empresa multinacional Kimberly Clark, indústria do segmento de produtos de higiene pessoal e líder de mercado na categoria de fraldas descartáveis.
38 A empresa mantém em seu site a divulgação de diversas ações sob o tema Sustentabilidade: proteção à criança e adolescente; doações às comunidades carentes; programa de voluntariado. Divulga inclusive que já recebeu os seguintes prêmios em 2011: Guia Exame de Sustentabilidade e Premio Socioambiental Chico Mendes, sendo esse último pelo reconhecimento ao seu trabalho de redução de gases efeito estufa.
Na esfera ambiental, qual o real impacto dessas ações da Kimberly Clark, uma vez que a empresa é líder de mercado em fraldas descartáveis, um segmento responsável por cerca de 30% do lixo mundial não biodegradável? Onde está a responsabilidade da empresa em desenvolver, por exemplo, um método de logística reversa, onde o fabricante desenvolve mecanismos para preservação do meio ambiente através de um processo de controle do fluxo dos resíduos pós consumo de seus produtos