As histórias de vida representam uma modalidade da história oral, concebida como história oral de vida. As diversas modalidades de história oral – história oral de vida, história oral temática e tradição oral – são realizadas por meio de entrevistas com pessoas que apresentam boas condições mentais e se dispõem a oferecer depoimentos, independentemente de pagamentos ou benefícios. (MEIHY, 1996)
Queiroz (1988) define as histórias de vida como relatos de pessoas que narram sua existência através do tempo, a fim de reconstituir acontecimentos vivenciados e transmitir experiências. Ao narrarem suas histórias, elas delineiam as relações que estabelecem com os membros de seu grupo familiar, de sua profissão, de sua camada social, de sua sociedade, as quais são desveladas pelo(a) pesquisador(a). Ao pesquisador, ou à pesquisadora, interessa captar algo que ultrapasse o âmbito individual da vida, ou seja, importa adquirir informações relacionadas às coletividades nas quais os(as) narradores(as) se inserem. Apesar disso, os relatos geralmente apresentam o que se constitui como relevante aos(às) informantes, pois fornecem o panorama de suas vidas e de si mesmos(as). (QUEIROZ, 1988)
De acordo com Ataide (2006), nas relações que entrevistados(as) e entrevistadores(as) mantém para a coleta das histórias, a confiança se faz imprescindível para que o(a) participante se sinta seguro(a) em suas exposições sobre as próprias vivências pessoais. O depoimento oferecido não só oferece a reconstrução de uma história pessoal, mas também um profundo processo de revisão e ressignificação do passado e do presente, que resulta na narrativa estruturada da história da pessoa entrevistada, a ser apresentada com objetivos públicos.
Em suas narrativas sobre a própria história os sujeitos revelam como se compreendem, como interpretam sua auto-imagem e desejam ser conhecidos pelos(as) leitores(as). Na interação que estabelecem com o(a) entrevistador(a), têm total liberdade para construírem a própria versão dos fatos, decidindo o que ocultar, divulgando e recriando sua experiência, relacionada a fatos reais da vida. Nesse processo, a narrativa, objetivada pela fala, é tecida dentro de uma dimensão temporal que dá significado aos períodos da vida (infância, adolescência, idade adulta, etc), passa pela criatividade do(a) narrador(a) e se configura, ganhando existência a partir de um amálgama de experiências vividas, às vezes de forma inconsciente. (ATAIDE, 2006)
Alarcão (2004) explica que as histórias de vida, narradas pelo(a) entrevistado(a) em primeira pessoa, ou pelo(a) pesquisador(a) em terceira pessoa, atribuem
sentido aos acontecimentos de um percurso de vida, esclarecendo os contextos envolvidos nesse percurso e recorrendo ao tempo, como eixo que lhe confere coerência. “A história de vida narra-nos a viagem ao longo da existência individual. Insere o ser biológico nos contextos físicos e sócio-culturais e reconhece a sua interatividade. Revela-nos o que aconteceu e o que, dos acontecimentos, se reteve”. (ALARCÃO, 2004, p. 9).
Por meio da narrativa de sua história, os indivíduos dão visibilidade à sua personalidade, manifestando seus anseios, realizações, frustrações, ideais e valores. Muitas vezes, os fracassos ficam ocultados, como se tivessem se apagado da memória ou impedidos de se manifestarem. No decorrer da narrativa, o(a) narrador(a) retoma o passado e o reordena, contextualizando-o no tempo e no espaço, para compor sua história e compreendê-la em seus diferentes aspectos. Do ato de narrar emerge a capacidade de interpretar fenômenos e acontecimentos inseridos nos contextos em que ocorreram. (ALARCÃO, 2004, p. 9).
De acordo com Queiroz (1988), as histórias de vida são marcadas por avanços e recuos, e não devem sofrer intervenções do(a) pesquisador(a), caso este(a) queira retomar a cronologia dos acontecimentos, pois as variações no tempo podem oferecer indícios que levem à formulação de inferências. Embora o(a) entrevistador(a) tenha o papel de dirigir o colóquio, pois escolheu o tema da pesquisa, formulou as questões que pretende esclarecer e propôs o problema, quem decidirá sobre o que será relatado é o(a) narrador(a). Este(a) determina o que considera relevante narrar e a direção de sua narrativa. Isso significa que nada é supérfluo, pois tudo o que conta compõe um todo encadeado, que explica sua existência. Em alguns casos, a falha da memória é reveladora de situações, condições, posicionamentos referentes aos sujeitos.
Esta técnica encerra um conjunto de depoimentos, que expressa tudo o que foi presenciado, experimentado, conhecido pelo(a) narrador(a), e que poderá certificar. Por isso, demanda longo tempo e possivelmente causará cansaço aos(às) entrevistados(as). O(a) pesquisador(a) deve levar em conta a necessidade de tempo para marcar vários encontros com os narradores(as) e realizar as transcrições. Por outro lado, se o(a) narrador(a) tiver sempre novos detalhes a acrescentar, o(a) pesquisador(a) sentirá dificuldades para encerrar a entrevista, pois os(as) participantes não querem perder seus papéis de sujeito. (QUEIROZ, 1988)
Queiroz (1988) explica que as histórias de vida revelam como se dá a formação de um indivíduo no transcorrer do tempo, extraindo-o de seu coletivo; admite a especificidade de suas características, que não se repetem em outras pessoas; reconhece sua unicidade,
distinguindo-o dos demais de seu grupo. No entanto, elas não seriam adequadas a uma análise sociológica se os indivíduos obedecessem somente a determinações suas. (QUEIROZ, 1988)
Nenhuma individualidade escapa às inúmeras influências exteriores que lhe atingem em todos os aspectos; a personalidade de cada indivíduo resulta da relação de seus atributos próprios com seu ambiente, seus grupos de convívio, seu meio sócio-cultural. Neste sentido, as histórias de vida apóiam-se em duas perspectivas, defendidas pela psicologia e pela sociologia: a do indivíduo, com sua herança biológica e suas peculiaridades, e a da estrutura social, a qual pertence, com sua organização e valores, respectivamente. “A história de vida é portanto técnica que capta o que sucede na encruzilhada da vida individual com o social.” (QUEIROZ, 1988, p. 36) A coleta de dados terá enfoques diferentes caso a pesquisa seja desenvolvida por psicólogos ou sociólogos. No primeiro caso, serão buscadas as particularidades que singularizam o indivíduo; no segundo caso, buscar-se-ão as marcas de seu grupo étnico, sua camada social, sua sociedade global.
Apesar das diferentes posições assumidas por cada área do conhecimento, a sociologia passou a orientar-se também pelo subjetivismo, ao considerar que ele não provém, exclusivamente, de bases biológicas e psicológicas, mas se desenvolve no cotidiano social e, portanto, o revela. Desta forma, a sociologia admite que as manifestações subjetivas respondem sempre a algum elemento exterior a elas. Ao interagir com o meio exterior, os indivíduos comprometem-se com ele, e só adquirem consciência de si mesmos ao estabelecerem mediações com a realidade, principalmente pela palavra.
Neste sentido, Ferrarotti (1988) afirma que o sistema social encontra-se integralmente em nossos atos, sonhos, delírios, obras, comportamentos; a vida individual contém a história deste sistema. De acordo com o autor, implicamos o social por meio da introjeção sintética que o desestrutura e o reestrutura, atribuindo-lhe formas psicológicas. No entanto, a relação que liga um ato a uma estrutura não é linear, ou seja, a relação entre uma vida e uma história social não é um determinismo mecânico. Os indivíduos representam um pólo ativo, colocam-se como uma práxis sintética, em relação às estruturas e à história de uma sociedade. “Mais do que refletir sobre o social, apropria-se dele, mediatiza-o, filtra-o e volta a traduzi-lo, projetando-se numa outra dimensão, que é a dimensão psicológica da sua subjetividade.” (FERRAROTTI, 1988, p. 26)
Para Ferrarotti (1988) uma antropologia social que considera as pessoas como sínteses individualizadas e ativas de uma sociedade, elimina a distinção do geral e do particular em um indivíduo. Se os indivíduos são a reapropriação singular do universal social
e histórico no qual se inserem, pode-se conhecer o social a partir da especificidade de uma práxis individual. Portanto, é possível ler uma sociedade por meio de uma biografia.
Em virtude deste dinamismo entre o individual e o social, as narrações biográficas relatam, segundo Ferrarotti (1988), uma práxis humana, a partir de um corte vertical e horizontal. Portanto, essa práxis humana individual é uma atividade sintética, que se apropria das relações de um contexto social interiorizando-as e traduzindo-as em estruturas psicológicas, numa atividade desestruturante-reestruturante. A vida humana revela-se como a síntese vertical de uma história social; e todo comportamento ou ato individual se faz pela síntese horizontal de uma estrutura social.
O autor explica que as pessoas não são objetos passivos, determinados mecanicamente. O comportamento humano envolve a presença ativa dos condicionamentos exteriores, pois sua práxis os filtra e interioriza, totalizando-os. O modelo mecanicista e determinista não compreende o papel duplamente dialético (negação e negação da negação) intrínseco à práxis humana. Cada indivíduo totaliza uma sociedade pela mediação de seu contexto imediato, por meio dos grupos restritos dos quais faz parte, como agentes ativos que totalizam o contexto. Da mesma forma, a sociedade totaliza os indivíduos específicos a partir das instituições mediadoras, as quais focalizam essa sociedade para eles.
Portanto, nesta perspectiva, as entrevistas biográficas são interações sociais completas; formam um sistema de papéis, de expectativas, de injunções, normas e valores implícitos.
Uma narrativa biográfica não é um relatório de ‘acontecimentos’, mas sim uma ação social pela qual um indivíduo retotaliza sinteticamente a sua vida (a biografia) e a interação social em curso (a entrevista), por meio de uma narrativa-interação. (FERRAROTTI, 1988, p. 27)
A valorização crescente do método biográfico surge como conseqüência da crítica feita à objetividade, que caracteriza a epistemologia sociológica. Uma nova antropologia, que emerge no contexto do capitalismo avançado, traz a necessidade do concreto, pois as grandes explicações estruturais, construídas por meio de categorias muito gerais, não satisfazem mais. Busca-se a compreensão da vida cotidiana, suas dificuldades e contradições, as tensões e problemas que ela impõe, o que exige uma ciência das mediações, para a tradução das estruturas em comportamentos sociais ou microssociais. (FERRAROTTI, 1988)
As biografias, como instrumentos sociológicos, vêm para assegurar a mediação do ato à estrutura, de uma história individual à história social. ”A biografia parece implicar a construção de um sistema de relações e a possibilidade de uma teoria não formal, histórica e concreta, de ação social.” (FERRAROTTI, 1988, p. 21)
Na atualidade, encontramos uma profusão de pesquisas que têm se utilizado de relatos orais, atribuindo-lhes diversos nomes, o que contribuiu para gerar certa confusão quanto à identificação e à prática adequada de cada forma de narrativa. Queiroz (1988) explicita as diferenças entre elas, demonstrando que as mesmas decorrem dos objetivos e aspectos de cada pesquisa.
De acordo com a autora, a história de vida apresenta similaridade em relação a outras formas de informação captadas oralmente, como as entrevistas, os depoimentos, as autobiografias e as biografias, mas mantém suas peculiaridades, quanto à coleta e à finalidade. Todas elas oferecem material para a pesquisa sociológica e diferem em suas definições e características.
No caso do depoimento, a diferença está na forma específica de agir do(a) pesquisador(a), durante a interação com os(as) informantes. A conversa é dirigida diretamente pela pessoa que investiga, com menor ou maior sutileza, a quem interessa apenas certos aspectos da vida dos(as) entrevistados(as), que correspondam ao trabalho científico. As possíveis digressões são eliminadas para imediato retorno ao assunto tratado. O(a) pesquisador(a), conhecedor(a) do problema, busca apreender o essencial do(a) narrador(a), fugindo do que é supérfluo e desnecessário, o que impõe obediência por parte do(a) entrevistado(a). Deste modo, torna-se mais fácil finalizar a conversa assim que se obtenha o dado desejado. A entrevista poderá esgotar-se num só encontro, no caso dos depoimentos serem curtos. (QUEIROZ, 1988)
A autobiografia consiste na narrativa de um indivíduo sobre sua própria existência e, a rigor, toda história de vida poderia ser enquadrada nesta categoria. No entanto, as autobiografias são construídas sem a presença de um(a) pesquisador(a); o(a) próprio(a) narrador(a) manipula os meios de registro e procede à transcrição dos relatos. Seus motivos pessoais orientam suas ações de recordar e narrar, bem como a escolha dos procedimentos a serem usados. Nesta situação, o(a) narrador(a) se dirige diretamente ao público, estabelecendo a mediação por meio do registro escrito, com ou sem a pretensão de publicar o texto. (QUEIROZ, 1988)
A biografia se aproxima das histórias de vida ao requerer a intermediação de alguém que redigirá o texto. Portanto, os registros escritos e o(a) pesquisador(a) farão a dupla
mediação nos dois casos. Entretanto, o objetivo do(a) pesquisador(a) nas biografias é desvendar a vida particular de um indivíduo em especial, cujos documentos são estudados, ainda que a sociedade, na qual vive o(a) biografado(a), seja evidenciada. O intuito desta técnica é explicar o comportamento e as fases da vida do indivíduo, por meio do complexo social. Neste caso, o objetivo concentra-se no(a) personagem, na busca por conhecê-lo(a), em apresentar suas ações e qualidades, em diferentes tempos e lugares, num todo integrado, que não poderá ser dividido, sem o risco de ser destruído. Este(a) personagem é alguém especial, diferente de todos(as), dos(as) quais se destaca. (QUEIROZ, 1988)
Para Meihy (1996), enquanto variação da história oral de vida, a narrativa biográfica distancia-se dela no sentido moral ou contemplativo. O trabalho com as histórias de vida é atento ao valor da experiência pessoal em si. Nas narrativas biográficas, há um cuidado maior em relação ao roteiro cronológico e factual das pessoas, articulado a particularidades que remetem a acontecimentos considerados importantes. Neste caso, a participação do(a) entrevistador(a) como interlocutor(a) pode se dar de maneira mais ativa.
A finalidade do(a) biógrafo(a) é, pelas razões apresentadas, oposta à do(a) pesquisador(a) que utiliza a história de vida.
O primeiro fará ressaltar em seu trabalho os aspectos marcantes e inconfundíveis do indivíduo cuja existência decidiu revelar ao público. O segundo busca, com as histórias de vida, atingir a coletividade de que seu informante faz parte, e o encara, pois, como mero representante da mesma através do qual se revelam os traços desta. Mesmo que o cientista social registre somente uma história de vida, seu objetivo é captar o grupo, a sociedade de que ela é parte; busca encontrar a coletividade a partir do indivíduo. O biógrafo, mesmo que retrate a sociedade de que seu personagem participa, o faz com o intuito de compreender melhor a existência do biografado. (QUEIROZ, 1988, p. 24)
Uma outra diferença relaciona-se a esta. Por tratar de um indivíduo, considerado em sua integralidade, a biografia não poderá ser decomposta e utilizada em fragmentos, pois correrá o risco de perder o sentido que buscava. O desenvolvimento de uma personalidade única, mesmo sofrendo evolução no decorrer do tempo, mantém uma linha constante que a distingue das demais. A história de vida, sob abordagem da psicologia, segue o objetivo da biografia, mesmo quando estabelece relações entre o indivíduo e seu grupo social. Neste caso, a utilização de uma parte do material relatado poderá ocasionar graves falhas quanto à análise e compreensão do que se deseja estudar.
Queiroz (1988) explica que esta exigência não tem razão de ser nos estudos sociológicos e antropológicos. Estas áreas do conhecimento utilizam as biografias e autobiografias para saber como se operam as relações do indivíduo com seu grupo, para
captar o que ocorre no interior das coletividades, a partir dos comportamentos dos indivíduos. “O indivíduo não é mais o ‘único’; ele agora é uma pessoa indeterminada, que nem mesmo é necessário nomear, é somente unidade dentro da coletividade.” (QUEIROZ, 1988, p. 24) Por isso, torna-se possível, e até inevitável, o recorte do material, que será utilizado em suas facetas.
As diferentes finalidades quanto à coleta de informações não eliminam a utilização das biografias e autobiografias pelos cientistas sociais, como material de análise. Ao contrário, ambas constituirão excelentes repositórios de dados, que poderão ser verificados e completados por outras fontes de informações.
Quanto aos limites deste tipo de pesquisa, historicamente questiona-se o problema que envolve a interferência da subjetividade do(a) narrador(a), vista como algo que falseia perniciosamente as entrevistas. Porém, o contra-argumento de estudiosos(as), que acreditaram no potencial das histórias de vida para a pesquisa sociológica, demonstrou que os comportamentos e valores encontrados nas memórias dos mais velhos permitem conhecer o que havia no passado, e que se perdeu com o tempo, mesmo quando as pessoas não vivem mais na organização da qual participavam.
Realmente, se a memória de determinados valores e comportamentos se desfizesse com o desaparecimento das organizações sociais, então seria impossível a utilização dos relatos orais em geral, e das histórias de vida em particular, na análise de coletividades e sociedades. (QUEIROZ, 1988, p. 26)
Alertas feitos por pesquisadores(as) sobre tal abordagem indicam a necessidade de considerar outros materiais que a complementem; esclarecem que têm longa duração e são cansativas, devendo ser empregadas com intervalos; além disso, o alongamento no tempo é acrescido pela transcrição, que também consome horas para ser concluída. Por isso, torna-se difícil conseguir um número suficiente de histórias de vida, que forneçam uma ampla base empírica para se obter algum grau de certeza, a não ser em pesquisas que se desenvolvem em vários anos. (QUEIROZ, 1988)
Embora se considere a necessidade de acrescentar outras fontes às histórias de vida, não são invalidadas as possibilidades de utilização de uma única, para que se conheçam os problemas de uma coletividade. QUEIROZ (1988) esclarece que, apesar da pesquisa sociológica ganhar maior profundidade ao utilizar-se de diferentes formas de coleta, uma única história de vida, desde que convenientemente analisada, poderá ser de enorme relevância para a definição de problemas de uma coletividade, principalmente se o(a)
pesquisador(a) não a conhece bem. No caso de já possuir uma visão sobre a mesma e um bom número de informações a seu respeito, a história de vida servirá ao refinamento das observações e inferências, bem como ao controle. Evidentemente, uma só história de vida não esgotará todos os aspectos e interpretações dos fenômenos que se pretende estudar, mas permitirá o levantamento de questões que não haviam sido cogitadas até então.
Ao serem utilizadas no início de uma pesquisa, com o intuito de formular questões que serão investigadas com o auxílio de outras técnicas, ou em sua finalização, para controle dos resultados obtidos por meio de outros procedimentos, as histórias de vida carregam os valores inerentes aos sistemas sociais dos quais os(as) informantes fazem parte, o que não pode ser fornecido pelos dados estatísticos. Ao permitir diversas formas de emprego, as histórias de vida e os depoimentos orais revelam a riqueza dos dados que captam. (QUEIROZ, 1988)
Na mesma direção, Demartini (1988), ao realizar rigoroso estudo com histórias de vida de professores(as), que atuaram durante a 1ª. República em São Paulo, também apresenta vantagens e limitações do uso desta técnica para o conhecimento de problemas educacionais, numa perspectiva histórico-sociológica. Em seus estudos, a autora aponta lacunas nas pesquisas, a serem preenchidas por meio de procedimentos empíricos. Ela alerta para o equívoco de considerarmos como verdadeiras, a priori, afirmações sobre situações, do presente ou do passado, que não estejam embasadas em pesquisas diretas sobre a realidade, quando o problema sociológico envolve os modos de pensar e agir de quaisquer setores da população.
A pesquisa de Dermatini (1988) trouxe evidências de que, muitas vezes, mudanças ou problemas considerados atuais, na realidade não o são, e podem ocorrer por motivos diferentes daqueles propagados até o momento. Os problemas suscitados por estudos anteriores, a respeito da educação e população rurais, levaram a pesquisadora e sua equipe a recorrerem a fontes vivas de informação, que vivenciaram épocas mais remotas. A memória de antigos(as) professores(as), que acompanharam a implantação e desenvolvimento do sistema educacional em São Paulo, trouxeram valiosas informações que não constavam em fontes escritas, como documentos, relatórios, livros, jornais, etc. As histórias de vida dos(as) professores(as) entrevistados(as) forneceram uma visão geral sobre questões fundamentais para a equipe de investigação e constituíam um ponto de partida para o levantamento de novas informações em outras fontes, que iriam desaparecer com o passar do tempo.
Demartini (1988) adverte que o trabalho com histórias de vida exige do(a) pesquisador(a) amplo conhecimento sobre os problemas e o período que se pretende
investigar, a fim de que se possa formular questões ou destacar pontos que não foram contemplados ou aprofundados pelos(as) entrevistados(as), abrindo novos espaços nas memórias para a obtenção de novas informações. A autora também salienta ser imprescindível que as pessoas entrevistadas estejam profundamente interessadas nos temas pesquisados, do contrário, a entrevista se torna impossível e não se poderá obter contribuições para discussão dos problemas propostos.
A experiência de Dermartini (1988) também sinaliza que a liberdade de expressão dos(as) entrevistados(as) é de fundamental importância, pois informações extremamente valiosas podem emergir de variados temas, sem relação direta com os problemas pesquisados pela equipe.
Para Demartini (1988), a complexidade deste tipo de pesquisa não reside apenas na coleta de cada história de vida, mas também na intercomplementaridade e relação que são estabelecidas entre as várias entrevistas. Embora as entrevistas partam de um