Diversos autores têm assinalado que as alterações bio-psico-sociais levadas a cabo na adolescência tornam o adolescente mais vulnerável ao desenvolvimento de problemas psicopatológicos (Bromleya, Johnsond & Cohend, 2006; Claes, 1985; Matos, 2002; Marcelli, 2002; Rutter & Rutter, 1993; Sá, 2002). Na adolescência a incidência das perturbações psiquiátricas assume um padrão diferente da infância: o abuso de substâncias torna-se mais frequente neste período, encontra-se uma maior ocorrência de psicoses esquizofrénicas e de perturbações depressivas e é geralmente também neste período de vida que despoletam as perturbações do comportamento alimentar (Rutter & Rutter, 1993). Na adolescência surgem também com maior frequência, os problemas de adaptação associados a quebras no rendimento escolar, a diminuição das competências sociais e a comportamento
Capítulo 2. Psicopatologia e Risco Psicossocial na Adolescência
anti-social e a delinquência. Todos estes comportamentos têm correlatos no ambiente familiar e mais especificamente na dinâmica da família7 (Baer, 1999).
As perturbações mais estudadas na adolescência são as perturbações do humor e mais especificamente, os sintomas depressivos, pela sua incidência nesta fase de vida (Marcelli, 2002; Matos, 2002; Rutter & Rutter, 1993). Rutter e Rutter (1993) sugeriram três hipóteses explicativas para o aumento dos sintomas depressivos e das perturbações afectivas associadas à depressão neste período de vida. Estas hipóteses explicativas são aqui referidas por, no nosso entender, poderem ser generalizáveis a outro tipo de perturbações que surgem nesta fase.
A primeira hipótese postula que os factores genéticos predisponentes às perturbações do humor são activados na adolescência. No entanto, se bem que existam alguns dados que sugerem uma relação entre um início precoce de manifestações depressivas e uma predisposição genética, os resultados são inconclusivos até agora; uma segunda hipótese associa o aumento de perturbações afectivas na adolescência com as mudanças hormonais concomitantes à puberdade. Consoante sublinham os autores, se os níveis hormonais podem ser causa de vulnerabilidade de algum tipo, estes não conduzem directamente a depressão; assim, uma terceira explicação associa o aumento das perturbações ao aumento dos acontecimentos negativos durante a adolescência ou a uma perda relativa de suporte social.
É pois considerado que as perturbações psicopatológicas surgem devido, não a uma única causa individual, mas a uma intercorrência complexa de factores de risco e de
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A este propósito, cf., Capítulo 1, para a autonomização do adolescente enquanto tarefa desenvolvimental face à família e as transições que neste período ocorrem na família.
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factores protectores, alguns genéticos e outros ambientais (Harrington, 2001; Herbert, 2001). Assim, as manifestações psicopatológicas resultam da interacção dos factores individuais com os factores de risco ambientais e variam com a fase do desenvolvimento na qual a criança ou adolescente se encontra (Rutter & Taylor, 2005). Por exemplo, a perturbação de hiperactividade com défice de atenção e o comportamento anti-social persistente, apresentam um início precoce na infância e são muito mais comuns no sexo masculino (Moffit, 1993; Tiet, Wasserman, Loeber, McReynolds & Miller, 2001)8.
Rutter e Smith (1995, citados por Rutter et al., 1998) publicaram as conclusões de um estudo conduzido com o objectivo de analisar a prevalência de perturbações psicossociais em jovens europeus (com idades compreendidas entre os 16-26) nos últimos 50 anos. A sua conclusão apontou para um marcante aumento nos problemas de comportamento nos jovens, nomeadamente com um aumento drástico nos comportamentos anti-sociais associados ao consumo de álcool e de drogas ilícitas entre os anos 50 e os anos 80 e nas taxas de delinquência até aos anos 90, após o que se verificou uma estabilização dos mesmos. A depressão e perturbações afectivas associadas apresentaram também um aumento até aos anos 90. Relativamente ao suicídio, os estudos apontaram para o seu aumento a partir dos anos 70, em adolescentes e jovens adultos (entre os 15 e os 24 anos), principalmente no sexo masculino. É ainda apontada nesta investigação, a tendência para um aumento nas perturbações do comportamento alimentar, particularmente no sexo feminino. Uma explicação parcial possível para o aumento da anorexia quanto da bulimia teria a ver com um melhor conhecimento e diagnóstico destas perturbações, o que terá levado a um aumento nos casos reportados. Estes dados reflectem mudanças drásticas nas
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As questões específicas, relativas à descrição e à caracterização do comportamento anti-social na adolescência serão abordadas no Capítulo 4.
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vidas e nas experiências normativas dos adolescentes nas últimas décadas, as quais têm na sua origem as mudanças sócio-históricas e nos padrões familiares9.
Na década de noventa foram efectuados diversos estudos longitudinais sobre a prevalência de psicopatologia em adolescentes: o estudo de Morita, Suzuki e Kamoshita (1990) realizado numa amostra de 1999 adolescentes japoneses, com idades compreendidas entre os 12 e os 15 anos; o estudo de Lewinsohn, Hops, Roberts, Seeley & Andrews em 1993, na Nova Zelândia, com 1710 adolescentes, com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos; e o estudo de Verhulst, Ende, Ferdinand e Kasius (1997), com uma amostra de 780 adolescentes holandeses, com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos, todos eles apontando para uma prevalência de psicopatologia nos jovens entre 10 e 20%.
Anteriormente a estes estudos, as investigações sobre os índices de psicopatologia realizadas em amostras da população geral eram escassas e a maior parte dos conhecimentos sobre psicopatologia da criança e do adolescente baseava-se no estudo de casos clínicos. É de salientar que quando a investigação sobre a prevalência de psicopatologia incide em amostras de populações clínicas, os dados devem ser analisados de forma cautelosa e não devem ser generalizáveis, uma vez que as crianças e adolescentes observados em contexto clínico diferem frequentemente das crianças e adolescentes não referidos para serviços de saúde mental, apresentando os primeiros, de forma sistemática, níveis mais elevados de psicopatologia.
A ênfase que os estudos epidemiológicos colocam nas amostras de populações gerais e as comparações destas com populações clínicas fez da epidemiologia um instrumento útil para as investigações sobre a psicopatologia da criança e do adolescente
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(Fombonne, 2005). Os estudos epidemiológicos são também úteis para o estudo da comorbilidade, permitindo desta forma, contribuir para uma melhoria na compreensão dos problemas psicopatológicos na criança e no adolescente e assim, para clarificar a inter- relação existente entre os diferentes tipos de sintomas (Rutter & Taylor, 2005).