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3 Data and Methods

3.2 Empirical models

Betty Antunes de Oliveira nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 13 de Maio de 1919. Filha do pastor batista Ricardo Pitrowisky e de Eugenia Pitrowisky, era descendente do Pastor-colono norte-americano Robert Porter Thomas, aquele que batizou o ex-Padre Antonio Teixeira de Albuquerque em 1880, na cidade de Santa Bárbara, SP. Betty iniciou os seus estudos em música aos 7 anos de idade.

Aos 13 anos, estava matriculada na Escola Nacional de Música no Rio de Janeiro. Graduou-se em Piano (1935) e mais tarde em Órgão (1971) e Composição e Regência (1972). Foi reconhecida, em 1980, como excelente organista pelo articulista Rolando de Nassau 131 de O Jornal Batista, especialista em música sacra. Durante a década de 1930 estudou Ciências e Artes da Educação na Escola de Obreiras do Colégio Batista do Rio de Janeiro (hoje Centro Integrado de Educação e

131 NASSAU, Rolando. Órgãos, organeiros e organistas – III (em homenagem a Nicéa de Miranda Soren e Betty Antunes de Oliveira). O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 3 ago. 1980, p. 2.

Foto no. 2: Betty Antunes de Oliveira. Fonte: Centelha em Restolho Seco, p. 392.

Missões – CIEM). Também tem formação em Jornalismo (1962), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo feito parte da primeira turma do Curso. Em entrevista 132 concedida ao pesquisador, informou que sua turma era composta de 15 homens e apenas duas mulheres, sendo que sua colega já era bem idosa e que havia abandonado o curso antes de sua conclusão. Casou-se no Rio de Janeiro em 14 de Janeiro de 1938, com Albérico Antunes de Oliveira, pastor batista. Depois do casamento mudou-se para Manaus, AM, onde viveu cerca de 50 anos, auxiliando o ministério de seu esposo (algum tempo depois, o Pastor Albérico elegeu-se deputado federal pelo Estado do Amazonas). Para fazer os seus cursos, Betty fazia as longas viagens de Manaus ao Rio de Janeiro, levando consigo os seus filhos pequenos, concluindo-os com muito sacrifício. Para ajudar no orçamento familiar, Betty prestou concurso para fazer parte do corpo docente da Escola Profissional de Manaus, tendo sido, conforme informou, 133 a primeira mulher a ser aprovada como professora daquela instituição.

Betty de Oliveira é membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil, do Colégio Brasileiro de Genealogia, da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia e sócia correspondente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba. Publicou os seguintes livros: North American Immigration to Brazil: tombstone records of the “Campo” Cemetery – Santa Bárbara – S. Paulo State (1978), Antonio Teixeira de Albuquerque: o primeiro pastor batista brasileiro (1880): uma contribuição para a história dos batistas no Brasil (1982), Movimento de passageiros norte-americanos no porto do Rio de Janeiro (1865-1890) (1982) e Centelha em restolho seco: uma contribuição para a história dos primórdios do trabalho batista no Brasil (1985, com uma segunda edição em 2005 pela Edições Vida Nova). Todos esses livros, com exceção da segunda edição de Centelha em restolho seco, foram lançados e publicados com os recursos próprios da autora. Aliás, a segunda edição de Centelha em restolho seco ganhou o Prêmio Areté da Associação Brasileira de Escritores Cristãos de 2005.

132 OLIVEIRA, Betty Antunes de. Entrevista concedida a Alberto Kenji Yamabuchi. (por telefone). São Caetano do Sul, SP. 08 nov. 2007. 10h45m. Embora tenha, mais tarde, assinado o termo de consentimento livre e esclarecido, Betty de Oliveira não autorizou a gravação de nenhuma entrevista. Por isso, toda vez que for citada como entrevistada nesta pesquisa, o que for registrado como sua palavra é fruto da interpretação pessoal do pesquisador.

133 OLIVEIRA, Betty Antunes de. Entrevista concedida a Alberto Kenji Yamabuchi (por telefone). Caraguatatuba, SP. 24 jul. 2008. 17h00m.

Há, ainda, um texto que não foi publicado, Do arado ao cajado: biografia do Pastor Ricardo Pitrowski (1991). Trata-se de uma biografia de seu próprio pai. Tentou publicá-lo pela Casa Publicadora Batista (atual Junta de Educação Religiosa e Publicações – JUERP), editora oficial da Convenção Brasileira, mas o manuscrito ficou cerca de um ano “engavetado”. 134 Resolveu então resgatá-lo e guardou-o consigo em sua própria casa.

Escreveu vários textos sobre o trabalho na área de imigração norte-americana e pomerana (alemã) para Santa Bárbara e Rio Grande do Sul, genealogias e histórias de famílias, pesquisas biográficas e artigos para O Jornal Batista.

Betty de Oliveira iniciou sua pesquisa histórica por motivos pessoais, ou seja, queria apenas resgatar a memória de seus antepassados, aqueles que acompanharam os primeiros grupos de imigrantes norte-americanos em Santa Bárbara, SP. Afinal, era uma história com muitos significados importantes: o seu bisavô, Robert Porter Thomas, havia batizado Antonio Teixeira de Albuquerque e sua tia, Anne Hope Thomas, foi a primeira missionária da Junta de Richmond nascida no Brasil. Mas sua pesquisa a levou para além de sua meta original: ela percebeu que estava diante da histórica origem dos batistas no Brasil. Seu primeiro passo, ao constatar o que descobrira, foi o de fazer publicar um artigo sob o título No Primeiro Centenário dos Pioneiros Norte-Americanos em O Jornal Batista no ano de 1966:

Por causa do grupo de batistas, vieram os missionários Bagbys e depois outros. Que sementeira magnífica! Aquela “First Baptist Church Of

Brazil”, organizada no coração de São Paulo não mais existe. Foi a

semente que posta na terra, morreu, para dar vida a tantas outras. 135 [grifo meu].

Betty de Oliveira, talvez preocupada com as repercussões de sua declaração pública, sutilmente apresentou sua tese ao afirmar, em inglês, 136 que a Igreja de Santa Bárbara seria, para a pesquisadora, a primeira igreja batista do Brasil.

De qualquer modo, o fato é que o seu artigo se tornou emblemático para o debate e seria a senha para outros que não concordavam com a posição oficial.

134 OLIVEIRA, Betty Antunes de. Entrevista concedida a Alberto Kenji Yamabuchi. Tijuca, RJ. 18 dez. 2007. 16h30m.

135 OLIVEIRA, Betty Antunes. No primeiro centenário dos pioneiros norte-americanos. O Jornal

Batista. Rio de Janeiro, 27 nov. 1966, p. 1.

136 “First Baptist Church Of Brazil” era uma das designações dadas à Igreja de Santa Bárbara. Betty de Oliveira lista 10 nomes dados àquela igreja, mas intencionalmente ou não, escolhe, para o artigo de O

Jornal Batista, justamente aquele que daria o significado desejado. Quanto à lista, ver OLIVEIRA,

Santos também afirmou isso, quando concluiu que o artigo de Betty de Oliveira “era o início do questionamento que iria ganhar o apoio de outros articulistas ao longo dos anos”. 137

Depois da publicação do artigo de Betty de Oliveira, houve um silêncio por parte da liderança da Convenção Brasileira, principalmente do Pastor Reis Pereira, que desde o ano de 1964 era o editor de O Jornal Batista. Há algumas respostas possíveis, que posteriormente serão consideradas:

1) Reis Pereira ignorou a importância do artigo e, assim, não se preocupou com as possíveis conseqüências da declaração de Betty de Oliveira;

2) Ou, possivelmente foi um silêncio intencional, estratégico: poderia significar que Reis Pereira não queria estimular uma polêmica sobre assunto que para ele já estava definido. Quando assumiu o jornal em 1964, Reis Pereira verificou que entre os leitores havia um “desapreço generalizado pelas polêmicas” 138 e, assim, fez

parte de sua política não fomentar debates:

Não podemos admitir que em nossas páginas saiam sons incertos de trombeta para confundir os fiéis. Esta é uma das razões por que não podemos satisfazer aqueles que gostariam de ver transformado O JORNAL BATISTA em tribuna livre para os mais disparatados debates. 139

3) Ou o seu silêncio foi uma tentativa para desqualificar o saber de Betty de Oliveira sobre a história das origens dos batistas brasileiros.

Curiosamente, Betty de Oliveira já havia sofrido silêncio semelhante em outra ocasião, quando, a título de colaboração, escreveu um artigo 140 para O Jornal Batista, onde sugeriu um método não ortodoxo para o censo de batistas brasileiros no ano de 1960. Naquele artigo, ela pensou na possibilidade de se incluir no censo, “os filhos e os aderentes não batizados”. Isso simplesmente contrariava a forma como sempre os batistas lidaram com suas estatísticas. Azevedo, em 1996, ou seja, trinta e

137 SANTOS, Marcelo. Op. cit. p. 89.

138 PEREIRA, J. dos Reis. Uma palavra muito pessoal. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 5 abr. 1964, p. 3.

139 PEREIRA, J. dos Reis. Missão da imprensa evangélica. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 8 jan. 1967, p. 3.

140 OLIVEIRA, Betty Antunes de. O censo de 1960. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 4 fev. 1960, p. 2.

seis anos depois do artigo de Betty, ensina qual é a prática dos batistas para o levantamento de seus números:

São hoje no Brasil mais de um milhão de crentes batizados, cifra que exclui, como os batistas o fazem, seus filhos e familiares, bem como outros freqüentadores habituais. 141 [grifo meu].

Betty de Oliveira, apesar de sua ousada sugestão, pediu a reação dos leitores, principalmente dos “entendidos ou interessados no assunto”, mas visando claramente a liderança da Convenção Brasileira. Para não afirmar que foi um silêncio total, houve uma resposta, indireta, mas que revela o descaso sobre o assunto tratado por Betty de Oliveira: o historiador batista Antonio Neves de Mesquita, cerca de seis meses depois, escreveu em O Jornal Batista o seguinte:

O certo é que nós não sabemos de muitas coisas, mas de duas não sabemos mesmo. Primeiro: não sabemos quantos somos e nem isso interessa muito. Não temos estatísticas verdadeiras e nem nos preocupamos com isso. [...] 142

Depois de seu artigo de 1966, Betty de Oliveira não mais tratou, de forma direta, sobre o marco inicial batista no Brasil em O Jornal Batista. Enviou três artigos, que foram publicados em 1977, sendo dois sobre o ex-padre Antonio Teixeira de Albuquerque. Sua justificativa: “parou porque estava perdendo tempo”. Mas revela que seu relacionamento com Reis Pereira foi sempre cordial e que, quanto à diferença de opiniões sobre as origens do trabalho batista brasileiro, chegou ao seguinte raciocínio: “o que ganharia uma esposa de pastor brigar com um pastor?”. 143

Apesar disso, manteve sua pesquisa, realizando muitas viagens para Santa Bárbara, para o Rio de Janeiro e para os Estados Unidos, a fim de concluir o seu trabalho. Nessa jornada, encontrou forte apoio do Dr. Thurman Bryant, da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, da Junta de Richmond da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos e principalmente de seu esposo, Pastor Albérico Antunes de Oliveira.

Betty de Oliveira tem hoje 89 anos de idade, mora no Rio de Janeiro, na Tijuca, e é membro da Primeira Igreja Batista do Rio. Em entrevista concedida ao pesquisador em 18 de Dezembro de 2007, em sua residência, e depois de ouvir sua

141 AZEVEDO, Israel Belo. Op. cit. p. 15.

142 MESQUITA, Antonio Neves de. Batistas. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 18 ago. 1960, p. 2. 143 OLIVEIRA, Betty Antunes de. Entrevista concedida a Alberto Kenji Yamabuchi. (por telefone). Caraguatatuba, SP. 24 jul. 2008. 17h00m.

argumentação, Betty considerou provável que a sua tese não saiu vencedora no debate, porque ha via sido elaborada por uma mulher, uma esposa de pastor. 144