Francisco Bicudo (2011) destaca o fascínio de Salles, durante o processo de apuração para a escrita de Artur tem um problema, ao perceber que a matemática lidava com objetos que não envelhecem e estaria, de certo modo, muito próxima do universo artístico. Referimos- nos a tal questão não por defendê-la diretamente ou a fim de incluir a discussão sobre a matemática enquanto artefato estético de alguma forma como objeto deste trabalho.
O enfoque dado justifica-se por acreditarmos que a compreensão dessa concepção de Salles auxilie no entendimento do próprio texto jornalístico selecionado e no pensamento do documentarista sobre a sua produção. Outra questão é o fato de tal temática ser trabalhada de maneira exaustiva no perfil a partir das reflexões do documentarista-repórter, sendo retomada por ele, inclusive, em texto escrito a partir de uma participação sua em simpósio da Academia Brasileira de Ciências, ocasião na qual discute a “hipervalorização das artes e humanidades em detrimento das ciências ‘duras”:
[...] a matemática, para além dos seus usos, é guiada por um componente estético, por um conceito de beleza e de elegância que a maioria das pessoas desconhece. O que move os grandes matemáticos e os grandes artistas, desconfio, é um sentimento muito semelhante de síntese e ordem. (SALLES, 2010b). 27
27 SALLES, João Moreira. Um documentarista se dirige a cientistas: arte, ciência e desenvolvimento. São Paulo:
Essa aproximação vista por Salles é ainda reforçada por outra característica que também teria lhe chamado a atenção: a “inutilidade matemática”, algo destacado em Artur:
Para a maioria das pessoas, a utilidade da matemática parece óbvia: pontes, projeções econômicas, algoritmos de computador. Boa parte dos matemáticos acha essas aplicações desinteressantes. “O que serve para a vida é banal e chato”, disse Hardy, num livrinho clássico de 1940 intitulado Em
defesa de um matemático. “A matemática que pode ser usada para tarefas comuns pelo homem comum é desprezível, e aquela que serve aos economistas e sociólogos não serviria nem como critério para conceder uma bolsa de estudos a um estudante de matemática”, escreveu. “A verdadeira matemática dos verdadeiros matemáticos, a matemática de Fermat, Euler, Gauss, Abel e Riemann, é quase toda ela inútil”. (SALLES, 2010a, p. 39).
O narrador pondera que as afirmações são exageradas, pois grandes matemáticos também se dedicam ao que Hardy chamaria de matemática útil. No entanto, o trecho permite pensar tal ciência em aproximação com a criação artística. A colocação nos remete a questões expostas em nosso capítulo inicial sobre a defesa de Salles a respeito da “inutilidade da arte”.
Recordamos sua referência ao que seria a configuração ideal para a elaboração de textos a serem publicados na piauí. Refere-se àqueles que não tivessem um fim prático, uma temática meramente informativa, e fossem, inclusive, a respeito de conteúdos aparentemente desinteressantes, mas capazes de chamar a atenção do leitor e ganharem seu apreço por serem histórias bem contadas, mantendo o cuidado com a forma e a qualidade da prosa.
Lembramos ainda sua posição em prol da realização de um “cinema inútil”, no sentido da produção de obras com um fim em si mesmas, que ajudem a pensar o próprio cinema e o gênero documental, sem o objetivo de denunciar algo ou mesmo transformar a realidade a partir do filme; que este não se justifique enquanto produção por um elemento externo.
Dentre os objetos de nossa pesquisa, Artur apresenta uma organização mais convencional do perfil, apesar de ir além, assim como Santiago, das concepções do gênero. A caracterização do personagem perfilado, em certa medida, lembra-nos Nelson Freire. Dentre vários traços de aproximação, destacamos o mais evidente: tanto o músico quanto o matemático Artur Avila são expoentes em suas áreas de atuação, com trabalho reconhecido internacionalmente, mas em campos de pouca expressão no país no sentido de não haver ainda um interesse de massa seja pela ciência matemática ou pela música clássica, o que os torna pouco conhecidos da maior parte da população. A proximidade entre a matemática e a <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il0606201005.htm>. Acesso em: 12 abr. 2013.
música está presente, inclusive, na argumentação do perfil, quando o narrador aborda a relação de tal área com o campo estético:
“Passamos a vida pensando em objetos lindos”, diz Yoccoz, com um sorriso de felicidade. “O prazer estético é comparável ao da música”. Grandes matemáticos são estetas, e a beleza será, para todos eles, uma das mais poderosas ferramentas da descoberta. Pelo entusiasmo com que falam do que lhes passa pela cabeça, é como se existisse música e nós, os não-
matemáticos, fôssemos todos surdos. (SALLES, 2010a, p. 37, grifo nosso).
O trecho citado também demonstra que nas reflexões a respeito da matemática a voz autoral de Salles está presente a partir de intervenções e até mesmo do uso da primeira pessoa. Em algumas passagens, o narrador reporta-se diretamente ao leitor e nivela-se a este. Em mais de uma oportunidade, usa o termo “não-matemáticos” enquanto característica compartilhada com o público-leitor e, apesar de afirmar ser “comum os matemáticos não compreenderem o que um colega faz” (SALLES, 2010a, p. 34), parte de exposições de caráter didático para fazer-se entender.
Na prática, a diferença entre a matemática da escola e a dos centros de pesquisa se mede não em graus de complexidade, mas em saltos de qualidade, como se a matéria dos bancos escolares fosse a lagarta e a alta matemática, a borboleta. Imagine-se alguém que jamais tivesse visto a segunda. Para essa pessoa, seria impossível, da lagarta, intuir a borboleta.
Essa pessoa somos todos nós, os não-matemáticos. O trabalho de Artur é
pensar borboletas. (SALLES, 2010a, p. 36, grifo nosso).
A partir do fragmento, notamos que as reflexões sobre a matemática constituem trechos mais dissertativos do que narrativos, uma característica do ensaio, o que promove a hibridização à qual já nos referimos. Também é possível observar, nos dois trechos citados, uma ideia de leitor implícito; alguém que não possui conhecimento aprofundado a respeito da matemática, ciência descrita pelo narrador como um universo próprio, um “lugar” à parte.
Carlos Gustavo Tamm Moreira, conhecido como Gugu, colega e colaborador de Artur, um sujeito bonachão de 36 anos que distribui sua paixão entre a matemática, o Flamengo e o Partido Comunista, conta uma anedota de quando se candidatou a vereador pelo PCB. O programa eleitoral lhe dava 18 segundos para se apresentar ao público. Acelerando a toada, ele metralhava: “Olá, eu sou o Gugu, candidato a vereador pelo Partidão com o número 21602. O meu trabalho vocês já conhecem: eu provei que as interseções estáveis de conjuntos de Cantor regulares são densas na região onde a soma das dimensões de Hausdorff é maior do que 1”. É uma brincadeira, mas
traduz a natureza rarefeita do mundo habitado por matemáticos. (SALLES, 2010a, p. 34-36, grifo nosso).
É exatamente com a intenção de traduzir essa natureza tão particular, de uma ciência presente na vida de todos, mas ao mesmo tempo muito distante da maioria de nós à medida que se torna mais complexa, que Salles aprofunda-se nos estudos e na apuração e privilegia no texto a discussão sobre a própria matemática. Assim, possibilita que o leitor compreenda, ao menos em certo grau, o que há de tão fascinante no universo dos matemáticos, que falam “não só em beleza, mas também em bom gosto” (SALLES, 2010a, p. 39, grifo do autor) e, especialmente, do mundo singular do personagem perfilado, descrito como alguém que ama profundamente o que estuda (p. 40).