Uma das figuras mais admiráveis do seu tempo, Ramon Llull (Palma de Maiorca, cerca de 1232 – 1315) é considerado o criador do catalão literário e um dos pioneiros no uso da língua neolatina para transmitir conhecimentos filosóficos e científicos.
91 Entendido por alguns como um visionário, o pensamento e métodos implementados por Llull foram sobretudo reconhecidos no período moderno.
O sucesso deste teólogo e filósofo deve-se essencialmente ao facto de haver direcionado o seu sistema de lógica para o público em geral (e não exclusivamente para os académicos), utilizando-o como instrumento de persuasão, com a finalidade de converter os muçulmanos ao cristianismo. Neste sentido, Llull recorreu a mecanismos visuais enquanto método de captação da atenção, como é o caso dos discos rotativos que usava a exibir letras do alfabeto ou símbolos referentes a listas de atributos. O chamado «Círculo de Llull» permitia estabelecer diferentes combinações de atributos religiosos ou filosóficos, selecionados a partir das referidas listas, antecipando a atenção que os métodos de classificação e de catalogação viriam a receber. A ideia de que estas combinações ofereceriam todas as possibilidades de verdade acerca do assunto em questão no círculo assenta no facto de Llull defender a existência de um número restrito de verdades-base, incontestáveis, comuns a todas as áreas de conhecimento, e que seria possível aceder ao conhecimento por meio do estudo das combinações destas verdades elementares. Apesar de não haver obtido resultados lógicos, este método mereceu interesse e desenvolvimentos posteriores, em particular, através de Gottfried Leibniz, que lhe atribuiu o nome de «ars combinatoria». Também os engenhos mecânicos a que Llull recorreu para apresentar pontos lógicos serviram de inspiração aos seus seguidores. Estes métodos, desenvolvidos na obra Ars Generalis Ultima ou Ars Magna (1305), motivaram igualmente o reconhecimento de Llull como fundador das ciências da informação.
Entre os feitos inovadores de Llull, conta-se ainda a sua teoria da definição que se desenrola a partir da original definição de «homem»: «animal que homifica» («animal homificans») ou «animal cuja característica própria é homificar» («animal cui proprie competit homificare»), apresentada na sua obra Ars Brevis de 1308.
Fortemente influenciado pela tradição islâmica da lógica aristotélica, a teoria da definição de Llull desenvolve-se ao longo de três obras fundamentais.
Iniciando-se em Compendium Logicae Algazelis, escrito entre 1271 e 1272, o título remete-nos de imediato para o trabalho do árabe al-Ghazali61. Neste estudo, Llull apresenta diferentes combinações de definições: essencial, causal e descritiva. Decorrente da interpretação da obra aristotélica, o último tipo de definição – descritiva ou descrição, teve grande notoriedade no mundo árabe medieval, razão pela qual Llull a privilegia, enquanto as primeiras remetem diretamente para a teoria da definição de Aristóteles: a definição essencial encontra equivalência na definição real e a definição causal (ou genética) remete para a teoria da causalidade. A definição por causa é discutida logo no princípio da obra, ao passo que, no capítulo «De cognitione quod quid est», se revela uma divisão das definições em essencial e descritiva, do seguinte modo:
«There are three ways by which one knows what a thing is. (1) According to the first way, it is known by its genus. As is the case when one asks: What is man?, to which the adequate answer is: Man is a rational animal. (2) According to the second way, [it is known] by its species. As is the case when replying: Man is rational and mortal. (3) According to the third way, it is known by a sign (signum), which is called a description (descriptio). As is the case when one asks: What is man?, to which one may reply: Man is tall in stature and, by nature, has
flat nails.»62 (in Fidora 2007: 76-77)
Como podemos observar, para Llull, a definição é um meio de alcançar a essência da coisa, e tal pode ser conseguido de três modos: por género, por espécie e por descrição. No contexto da obra de Llull, o Compendium constitui-se ainda como um esboço da teoria da definição do autor, no qual expõe uma série de aspetos e elementos relativos ao conceito de definição, entre os quais a importância da descrição associada ao ato de definir.
Cerca de trinta anos mais tarde, em Logica Nova (1303), trabalho de maturidade, Llull recupera inesperadamente as reflexões teóricas iniciais acerca da definição apresentadas no Compendium. Assim, encontramos novamente referência à
61 Tus, cerca de 1055 – Tus, 1111. 62
93 causa associada ao ato de definir: «Definitions can be given in various ways, namely four, as is shown by rule C. Now, definition proceeds by means of the four causes, i.e. efficient, formal, material and final» (in Fidora 2007: 78), ao modo da teoria aristotélica. Em seguida, Llull apresenta exemplos de definições por propriedades, que, na verdade, correspondem a definições descritivas, complexificando-as e distinguindo- as de uma simples definição descritiva, de acordo com as seguintes orientações:
«Definition also proceeds by means of the proper and necessary act (actus proprius et necessarius) of the faculty (potentia) or the subject (subiectus), which is coessential (coessentialis) to it [i.e. to the faculty or subject]. As is the case when one asks: What is divine intellect (intellectus)? To which one has to reply, that it is a being to which it belongs to understand (intelligere). And so with heat (caliditas), which is a being to which it belongs to heat (calefacere). And man is a being to which it belongs to laugh (ridere). And essence (essentia) is a being to which it belongs to be (esse). And so on for similar cases» (in Fidora 2007: 78).
Os exemplos de definições descritivas, maioritariamente apresentados por Llull, não seguem as regras tradicionais, dado que são construídos, como observa Fidora (2007: 78), não apenas com base em propriedades, «but rather in those of proper actions (actus proprii) and powers or faculties (potentiae), which are said to be coessential (coessentiales)». Assim, podemos observar na teoria de Llull a ocorrência de definições descritivas por propriedades, de um tipo mais particular, a que nos referiremos como definição coessencial, assente em atos próprios e necessários pertencentes ao definiendum.
A originalidade da reinterpretação das definições descritivas arábicas, por parte de Llull, condu-lo à definição singular de «homem», referida no início. O «homem» é definido, como um todo, em função do que lhe é coessencial, ou seja, das suas ações e capacidades comuns – «homificar», que vai além de uma mera propriedade, ultrapassando, na passagem citada, a capacidade particular de «rir». De facto, já anteriormente, em Logica Nova, havia afirmado que:
«Man is a manifying animal. And this definition is more specific and converts better with the thing defined, than does the following: Man is a rational and mortal animal; for angels belongs to the genus of rationality also, and lions and horses to that of mortality, and so on. This [definition] can also be said of God, and of other beings as well. § For just as God is Godizing, his eternity eternizing, his infinity infinitizing, so too fire is firing, lions lionizing, plants plantifying, and homo faber fabricating. And therefore this definition is more proper, since it refers to something more proper, and indicates its subjects in a more direct way.» (in Fidora 2007: 78-79)
Llull pretendia com estas definições aproximar a essência do definido, através da sua direta associação a ações próprias, em vez de propriedades estáticas, facilitando a formulação de definições, quer de realidades concretas, quer abstratas, a partir deste método. Aqui reside, como declara Fidora (2007: 79), a grande inovação da sua teoria das definições:
«(or rather, dynamic and coessential descriptions) to reality in its entirety, including not only the created realm as well as abstract concepts such as eternity, but also God who, for the medieval Aristotelian tradition, was otherwise indefinable, since he is subordinate to no genus at all».
Por outras palavras, as definições descritivas tinham o poder de definir todos os conceitos, concretos ou abstratos, estivessem submetidos a um género ou não. Fidora coloca ainda a ênfase na dinâmica da definição descritiva em Llull, no sentido em que a mesma define o que o homem faz e não o que o homem é, ao contrário do que expressa a definição que recai sobre a essência da coisa. Também o cientista e filósofo islâmico al-Farabi63 partilha semelhante ponto de vista:
«since the supreme genera have no genera above them, it follows that they have no definitions. However, in the case of things that lack genera or essential differentiae [but not both] it is not impossible for them to have accidents, and
95 consequently it is not impossible for them to have descriptions.» (in Abed 1991: 52)
Por conseguinte, segundo esta abordagem, nem todas as coisas podem ter definições essenciais, mas todas têm descrições ou, em sentido restrito, definições descritivas. Para definir um objeto ou explicar o seu significado não basta conhecer o seu género, espécie e diferenças específicas, mas antes os seus efeitos e modos de ação ou, como afirma Llull, os seus actus proprii.
Se atentarmos ainda numa obra anterior, Art Amativa (1290), encontramos novos esclarecimentos sobre esta teoria. Retomando as definições descritivas por propriedades, Llull divide-as em dois tipos: definições por propriedades essenciais e por propriedades acidentais. A explicação é a seguinte:
«An essencial definition of fire is given when it is defined by its proper ignitivity and ignibility, for ignifying belongs to nothing else than fire. An accidental definition is given, instead, when fire is only defined by its proper quality, insofar as [the quality of] proper heat does not belong to any other element, but to fire only.» (in Fidora 2007: 79-80)
Tal distinção entre propriedades essenciais e acidentais justifica, segundo Fidora, a ocorrência de descrições (co)essenciais, inexistentes quer em Aristóteles, quer entre os árabes, para quem, as descrições, ao contrário das definições reais, são sempre acidentais, defendendo que só é possível compreender tal ponto de vista no contexto da teoria dos correlativos. De acordo com esta doutrina, «every entity consists of a threefold structure, i.e. an agent, a pacient and an act, as, for instance, “ignitivity”, “ignibility” and “to ignify”», a partir dos quais se reúnem as condições para criar propriedades (co)essenciais, como esclarece Fidora (2007: 80). Esta perspetiva ajuda, enfim, a clarificar a definição de «homem» apontada por Llull, que assim descreve o homem do ponto de vista essencial e acidental:
«Man is defined by means of essential property through animality and manifying; for no animal begets a man, but only man, and no animal possesses reason, but only men. On the other hand, man is defined by means of accidental
property, as for instance, through his capacity of laughing, or through buying, writing and others.» (in Fidora 2007: 80)
Fidora argumenta que Llull se apercebe do potencial das definições descritivas ou rasm (em árabe, segundo as fontes arábicas), enquanto dinâmicas e (co)essenciais, mas que apenas no âmbito da doutrina dos correlativos é que conseguiu desenvolver as suas potencialidades, além da visão tradicional da descrição por acidente. Neste sentido, Llull propõe um segundo tipo de descrição – essencial: «a dynamic and (co-
)essential form of definition which arrives – via the correlatives, understood as essential
properties – at the very essence of the definiendum», sustenta Fidora (2007: 81).
Por outro lado, na definição de definição de Llull, em Ars Mystica Theologiae et Philosophiae (1309), «definition is a sign for to the defined, by which sign the latter is known», Fidora interpreta o termo «sign», do latim signum, como equivalente a rasm ou descrição, remetendo-o para o tipo de definição descritiva particular de Llull ou, como Fidora lhe chama, descrição dinâmica e (co)essencial. Não esquecendo as raízes tradicionais, Llull compatibiliza a sua teoria com as definições essenciais/reais e causais clássicas, que utiliza como ponto de partida para a sua argumentação em favor das definições descritivas, que defende com garra, não obstante a polémica que o seu posicionamento gerou na época:
«Question: Whether a definition such as, Man is a manifying animal, or, Man is that being whose function is to manify, is more ostensive than the following one: Man is a rational, mortal animal. And one must reply that it is. The reason for this is that manification is something only proper to man, whereas rationality and mortality are proper to many things.» (in Fidora 2007: 82) Esta passagem corrobora o ponto de vista defendido por Fidora, no que concerne ao carácter dinâmico e (co)essencial das definições descritivas de Llull, permitindo converter definiens e definiendum sem os constrangimentos lógicos que as definoções clássicas poderiam oferecer, em particular o facto de que «specific differences constitute the species through their conjunction alone» (2007: 82).
97 Séculos mais tarde, o pensamento de Llull continua vivo nas teorias defendidas por vários filósofos. No texto impulsionador do pragmatismo64, «How to make our ideas clear» (1878), Charles Peirce65 fundamenta a sua teoria em termos de ações e efeitos à semelhança dos actus proprii de Llull. No seu desenvolvimento da teoria das descrições de Bertrand Russell66, em particular no artigo «On what there is» (1948), Willard Quine67 apresenta uma definição de «Pégaso», de carácter descritivo, equivalente à célebre definição de «homem» de Llull, declarando que Pégaso é «the thing that is-Pegasus» ou «the thing that pegasizes» (1948: 27), uma proposta original que, do ponto de vista de Fidora, soluciona o problema da associação entre conceitos e realidade.