Establishing the design magazine Bonytt
5.3 The emergence of Bonytt
Fica patente no presente capítulo que os resultados na saúde envolvem a participação de diversos sectores da sociedade, na medida em que os factores que contribuem para o bem-‐ estar dos indivíduos são multivariados e com uma grande interacção entre si. Recorde-‐se que já em capítulos anteriores se referiu que os determinantes das doenças cardiovasculares estão muito associados aos estilos de vida dos indivíduos das sociedades modernas e que envolvem aspectos como o sedentarismo, a dieta alimentar, mas também o ambiente social, como por exemplo as condições da habitação. Quanto a este último aspecto, foi caracterizada a situação actual de Portugal Continental e realçada, de modo generalizado, a falta de equipamentos de aquecimento do ar nas habitações. Este pode ser um sinal de grande vulnerabilidade à exposição ao frio e que deverá ser alvo de uma investigação mais detalhada, em especial de modo a determinar aqueles agregados familiares que se encontram em situação de grande esforço financeiro para aquecer as suas habitações no Inverno, logo, potencialmente mais vulneráveis. A este propósito foi analisado o conceito de pobreza energética e apresentadas as medidas de redução deste problema no Reino Unido. As medidas sociais de consumo energético existentes em Portugal não são desenhadas para
a vulnerabilidade ao frio e não procuram identificar se os beneficiários são, de facto, os mais vulneráveis e que mais necessitam de apoio para minimizar a exposição ao frio.
Embora alguma literatura científica indique que o EMI não afecta necessariamente a população com maior vulnerabilidade socioeconómica no Reino Unido, essa verificação pode não ser aplicável à realidade portuguesa, na medida em que, por exemplo, as habitações sociais não são pensadas para evitar a exposição ao frio; pois nem sempre os materiais de construção são os adequados, o isolamento o necessário e o equipamento para aquecimento implementado de início.
Deste modo, considera-‐se que o presente capítulo reforça a ideia, caracterizada nos capítulos anteriores, de que existe em Portugal uma vulnerabilidade ao frio, potenciada no parque habitacional e que esta deverá ser alvo de políticas específicas. Mesmo algumas medidas já existentes, como sejam o esforço de certificação energética e a tarifa social energética, podem ser insuficientes para a dimensão do problema em Portugal.
Assim, considera-‐se que a exposição ao frio deveria ser assumida como um problema de saúde pública, interdisciplinar, e que as medidas de combate deveriam passar pela caracterização da população vulnerável através de conceitos semelhantes ao de pobreza energética, onde o esforço económico para o aquecimento da habitação fosse o critério principal para a atribuição de apoios. De modo complementar deveria ser feito um levantamento do parque habitacional e avaliadas as necessidades de aquecimento de cada edifício. Esta poderia ser a base para a aplicação de medidas de apoio em casos extremos de frio.
Por outro lado, a avaliação do impacte na saúde deste factor, tal como são o ruído, a qualidade do ar e os resíduos, poderia ser uma medida legislativa com consequências muito positivas, a médio prazo, na saúde da população.
6 . CONSIDERAÇÕES FINAIS
As doenças cardiovasculares (DCV) assumem um papel de destaque nas sociedades modernas, apresentando-‐se na grande maioria dos países desenvolvidos como a principal causa de morte em Portugal. O seu combate eficiente requer uma abordagem integrada contemplando tanto medidas de tratamento como medidas preventivas eficazes.
Alguns dos principais determinantes das DCV estão associados aos estilos de vida, o que tem justificado que se considere que uma parte importante da causa destas doenças seja modificável, isto é, passível de ser minimizada por via de acções de adopção de comportamentos mais saudáveis.
No entanto, para além dos determinantes já estabelecidos, existem outros determinantes ambientais que raramente são considerados na epidemiologia cardiovascular, como é o caso da exposição ao frio.
Para tentar colmatar alguns aspectos desta lacuna, a presente investigação procurou analisar os internamentos por enfarte agudo do miocárdio (EAM) e compreender a sua relação com a exposição ao frio, no sentido de evidenciar a importância deste factor de risco em Portugal. Além disso, procurou caracterizar as condições de exposição ao frio dos doentes internados com síndroma coronária aguda, com vista a um melhor conhecimento dos factores que contribuem para esta doença. No presente trabalho as duas abordagens utilizadas permitiram evidenciar o papel do frio e, ainda, compreender de que forma os indivíduos estão expostos ao frio.
Na primeira abordagem, foi identificada uma acentuada sazonalidade da morbilidade cardiovascular, com o risco de excesso de internamento durante o Inverno mais intenso nas regiões interiores do país, em especial no Alentejo, o que sugere que a incidência da doença em Portugal é fortemente determinada pela exposição de factores sazonais, como seja o frio.
A aplicação de técnicas de análise temporal revelou-‐se fundamental para compreender o papel do frio no agravamento dos internamentos por enfarte agudo do miocárdio, porque permitiu integrar outros efeitos modificadores e de confundimento que interferem na relação e que são muitas vezes descurados neste tipo de análise. Uma das dificuldades em compreender o efeito do frio na saúde humana está relacionada com a complexidade dos elementos de confundimento, que podem contribuir para a explicação dos internamentos no Inverno. Um dos principais é a incidência de gripe. No presente trabalho, a inclusão desta informação foi de especial importância e apresentou-‐se sempre como muito significativa nos modelos testados. Os modelos revelaram, também, que o frio durante o Inverno pode
acarretar consequências nefastas para a saúde da população. Recorde-‐se que foi estimado um aumento de 2,2% de internamentos diários por cada grau descida do índice de conforto (PET) durante o Inverno, para Lisboa e de 1,6% para o Porto. Este resultado é o primeiro valor que se conhece de quantificação do efeito individual do frio no aumento do enfarte agudo do miocárdio em Portugal Continental, permitindo colocar em evidência o facto de que em regiões com um clima temperado, onde as preocupações com os efeitos do calor são dominantes, pode sentir-‐se desconforto causado pela sensação de frio e, devido a isso, a população estar exposta a um factor de risco da doença coronária. A importância desta informação para a prevenção cardiovascular pode ser de grande utilidade, na medida em que se identifica o contributo individual de um factor de risco ambiental, que é facilmente modificável.
A segunda abordagem permitiu uma melhor compreensão dos factores que condicionam a exposição ao frio, através da análise dos resultados dos inquéritos, que revelaram alguns elementos de vulnerabilidade ao frio, tanto nos casos em que os indivíduos se encontravam no exterior, quer em ambiente interior.
A partir destas conclusões é possível caracterizar a capacidade de protecção ao frio da população, sendo os resultados entendidos como reveladores da conjugação de diferentes aspectos da exposição ao frio. Por um lado, o parque habitacional não se encontra preparado para a protecção ao frio dos seus residentes; grande parte dos inquiridos apresentava falta de aquecimento do ar e de isolamento térmico eficaz nas habitações. Por outro lado, as condições socioeconómicas dos indivíduos restringem o uso de aquecimento do ar, mesmo quando as suas habitações possuem este tipo de equipamento. Foi ainda possível identificar diferenças estatisticamente significativas entre os grupos de rendimento dos indivíduos e as habitações mais vulneráveis ao frio, o que confirma a ideia de que a privação material desempenha um papel importante na exposição ao frio, em Portugal. Assim, entende-‐se que a redução da exposição ao frio não se promove apenas através do melhoramento do parque habitacional, mas também através do melhoramento das condições económicas que sejam geradoras de consumo energético usado para o aquecimento do ar nas habitações.
Neste sentido, a melhoria das condições de habitação e os incentivos à protecção ao frio revelaram-‐se influenciadores na melhoria dos resultados de saúde cardiovascular. Devendo, nesse sentido, ser prioritário o melhoramento no isolamento térmico das edificações, assim como o equipamento do parque habitacional com sistemas de aquecimento do ar. Em simultâneo devem ser reforçados os mecanismos de apoio à população mais vulnerável,