8 MARCO TEÓRICO
8.1.9 El análisis estructural Barthiano
territorialidade negra em Porto Alegre/RS
territorialidade negra em Porto Alegre/RS
territorialidade negra em Porto Alegre/RS
territorialidade negra em Porto Alegre/RS
Olavo Ramalho Marques52
Introdução
Este artigo descreve e analisa aspectos da situação social da comunidade da avenida Luís Guaranha, bairro Menino Deus, região central de Porto Alegre/RS53. Uma
população de maioria pobre e afro-descendente que, resgatando sua trajetória histórica e seus mitos de origem, há alguns anos se auto-reconheceu como Comunidade Remanescente de Quilombos junto à Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura54. Esses moradores alegam que a região que habitam, anteriormente denominada
Areal da Baronesa, abrigava grande número de descendentes de escravos, tendo sido paulatinamente descaracterizada durante o século XX. Assim, reivindicam-se como reminiscência viva deste antigo território negro, onde eram abundantes os cortiços e “avenidas”55, de que restam poucos exemplos atualmente. Ao declararem o auto-
reconhecimento e receberem da Fundação Palmares a Certidão de Registro em 2003, assumiram para a antiga Associação dos Moradores o nome de Quilombo do Areal. Avenida Luís Guaranha e Quilombo do Areal, então, são denominações que, espacialmente, se referem ao mesmo local. Há uma larga diferença entre elas, entretanto, no que se refere ao tratamento simbólico que se confere ao lugar56. É justamente nesse
hiato que está presente o fator que vem atraindo a atenção de órgãos governamentais (tanto federais quanto estaduais e municipais), agentes da comunicação (jornalistas,
52 Agradeço primeiramente ao CNPq pela concessão de bolsa de pesquisa durante o último ano do curso
de mestrado. Agradeço também ao Museu Joaquim José Felizardo (MJJF), que em 2004 realizou o projeto Quilombo do Areal: Memória e Patrimônios, por meio do qual entrei em contato com os moradores da avenida Luís Guaranha e pude desenvolver essa etnografia.
53 Essa discussão resulta de minha dissertação de mestrado, produzida junto ao Programa de Pós-
Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por meio do trabalho etnográfico desenvolvido na Luís Guaranha, em 2004 e 2005
54 A Fundação Cultural Palmares é o órgão responsável pela concessão das Certidões de Registro no
Cadastro Geral dos Remanescentes das Comunidades de Quilombos, cabendo ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária as etapas de identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação da propriedade dos remanescentes (Decreto n0 4.887 da Legislação Nacional).
55 Uma antiga forma de habitação popular, que caracterizava essa região, sobre a qual tecerei maiores
considerações no decorrer do artigo.
56 Essa breve consideração já responde em alguma medida a ambigüidade propositalmente contida no título
estudantes de comunicação), estudiosos (como eu), militantes (ONG’s, Movimento Negro), simpatizantes, e assim por diante. Foi nessa conjuntura política, em torno da mobilização da identidade quilombola, que conheci esta população, pela realização do projeto Quilombo do Areal: Memória e patrimônios pela Coordenação da Memória Cultural e pelo Projeto Descentralização da Cultura, da Secretaria Municipal da Cultura57. Fui contratado para compor a equipe do projeto na função de antropólogo,
por ter experiência no campo da antropologia urbana, bem como no uso de recursos visuais e audiovisuais de pesquisa etnográfica58, já que o projeto visava, entre outros
resultados, a construção de exposições fotográficas sobre a comunidade. Fazendo parte do projeto, iniciei minha negociação em campo; a partir de seu término, pude dar continuidade à etnografia. Assim, minha relação com o grupo esteve sempre intermediada pela construção de imagens (tanto fotográficas quanto em vídeo) sobre o seu cotidiano, seu espaço de vida, seus personagens etc.
Logo em minha primeira visita ao local, interessei-me por suas características em relação à região onde está situado: as pessoas na rua, as formas de sociabilidade, os modos de ocupar o espaço público, as camadas de tempo sobrepostas nas próprias construções, na estética das habitações, e assim por diante. Cidade, tempo, espaço, memória, imagem; identidades, sociabilidades, territorialidades. Tais foram algumas noções e conceitos que saltaram aos meus olhos - já emoldurados por um olhar antropológico, fundamentalmente conceitual e interpretativo, conforme Roberto Cardoso de Oliveira (2000 p. 19) – e me desafiaram a estabelecer os moradores da Luís Guaranha como universo de pesquisa etnográfica.
Tomando-se a cidade como objeto temporal59 (ECKERT ; ROCHA, 1999) moldado
pela plasticidade dos grupos urbanos, seus deslocamentos, suas modalidades simbólicas de negociação da realidade, suas tradições, ethos e estilos de vida, tornam-se ainda mais salientes os caracteres distintivos desse grupo urbano como rede de vizinhança. Do mesmo modo, percebe-se a importância das reflexões sobre o tempo em meio a este grupo – suas origens, as lembranças e histórias dos antigos moradores, as transformações no espaço da avenida e da cidade como um todo - que emergem da situação atual de construção e reconstrução de identidades e relações de pertencimento recorrendo-se ao passado do lugar. Assim, a dimensão da memória coletiva revela-se fundamental para este estudo, no que tange às imagens e representações que se compõem na caracterização desse espaço, mobilizadas nos depoimentos e narrativas de seus moradores - tendo em vista que as formas de interpretar e mobilizar as memórias do grupo emergem de uma situação atual (BACHELARD, 1988).
57 Sob responsabilidade do Museu Joaquim José Felizardo.
58 Saliento aqui a importância da participação no projeto Banco de Imagens e Efeitos Visuais (Biev)/PPGAS/
UFRGS em minha formação no campo da antropologia – projeto coordenado pelas professoras, doutoras, Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert, cuja abordagem sobre a cidade é centrada na questão da imagem, tanto em relação à produção na pesquisa etnográfica, como forma de “estar em campo” e abordar os assuntos estudados, quanto em relação à análise de materiais que retratem aspectos e fragmentos da vida urbana em Porto Alegre. A proposta do Biev é a construção de coleções etnográficas sobre o patrimônio etnológico da cidade, compondo um museu virtual. Tanto as coleções etnográficas do Biev quanto as produções teóricas envolvidas no projeto podem ser encontradas no endereço http/ /:www.estacaoportoalegre.ufrgs.br.
59 Em minha trajetória de pesquisa no campo disciplinar da antropologia sempre produzi voltado ao estudo
do espaço - particularmente das transformações urbanas -, em grande parte motivado por minha participação no projeto Banco de Imagens e Efeitos Visuais.