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Eksempelstudie med en diskursanalytisk tilnærming

1.3 Material og metode

1.3.4 Eksempelstudie med en diskursanalytisk tilnærming

Para o seguidor de Jesus, a verdadeira jornada começa quando ele abandona o conforto da aldeia religiosa e põe o pé na floresta escura, conturbada e indiferenciada do mundo83 (BRABO, 2009b, p. 42).

A Bacia das Almas: confissões de um ex-dependente de igreja, foi publicado em 2009,

pela editora Mundo Cristão. O livro é uma coletânea de textos que o publicitário curitibano, de apelido Paulo Brabo publicou em seu site Bacia das Almas, entre março de 2004 e março de 2009.

Como o autor afirma, o site Bacia das Almas “é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna”. Mesmo sendo publicado por uma editora evangélica, este texto é de um sem igreja, ou melhor, como diz o subtítulo “um ex-dependente de igreja”.

A escrita de Paulo Brabo é ao mesmo tempo irônica, ácida e fluida. Altamente concentrada nos evangelhos, interpretando Jesus, como um subversivo, que não apenas tentou desconstruir o judaísmo de seu tempo, através de uma reinterpretação do Antigo Testamento, como reinventar o modo como às pessoas devem se relacionar. Mas, na opinião dele “os que se afirmam e se creem cristãos nos nossos dias levam a marca quase universal de vaquinhas de presépio: formatados, inofensivos, dóceis e obtusos. [...] um bando açucarado de beatos e carolas: uma assembleia de bocós” (BRABO, 2009b, p. 22).

A seguir alguns apontamentos das suas convicções presentes no texto: Confissões de

um ex-dependente de igreja.

Brabo foi “durante trinta anos [...] consumidor” e “dependente de igreja” (BRABO, 2009a, p. 37). Para ele, o tempo em que esteve na igreja, pode ser considerado como

82 Nos E.U.A. há outros livros com este olhar, a saber: How to Quit Church without Quitting God (Como deixar

a igreja sem deixar Deus) de Martin Zener, 2002; Divine Nobodies: sheldding religion to find God (Joões- ninguém divino: deixando a religião para encontrar a Deus) de Jim Palmer, 2006; Life After Church (Vida após a igreja) de Brian Sanders, 2007 e Quitting Church: why the faithful are fleeing and what to do about it (Deixando a igreja: por que os fieis estão saindo e o que fazer a respeito disto) de Julian Duin, 2008.

83 E outro trecho ele afirma: “Sempre que cedemos à tentação de trocar a confusão transpirante do mundo pelo

conforto harmonioso e acolhedor de uma comunidade cristã; sempre que aceitamos o abraço exclusivo de uma subcultura de qualquer estirpe em detrimento da cultura no seu sentido mais amplo; sempre que dividimos nossa experiência entre uma esfera religiosa e uma profana que não chegam a se tocar; sempre que nos recusamos a consentir qualquer associação com música “do mundo”, filmes “do mundo” e pessoas “do mundo”; sempre que negamos nossa presença, nossa companhia e nossa lealdade a gente que em seu estado atual não julgamos merecê-las; sempre que reservamos nossas noites, nossos feriados e nossos fins de semana para o convívio com pessoas cuja postura religiosa as torna inerentemente distinta da massa dos mortais – estamos (como diz a música “do mundo”) escolhendo errado nosso super-herói” (BRABO, 2009b, p. 42).

74 dependência, por que em sua conceituação a igreja “representa um sistema de consumo como qualquer outro. As pessoas consomem igreja não apenas como um dependente consome cocaína, mas como adolescentes consomem telefones celulares e celebridades consomem atenção – isto é, com candura, com avidez, mas muitas vezes para o próprio prejuízo” (BRABO, 2009a, p. 37).

As igrejas institucionais funcionam como um sistema de segurança, pois as pessoas estão consumindo algo que nem todas estão (BRABO, 2009a, p. 37).

Para o autor, a igreja é “um refugio construído por mãos humanas para nos proteger das terríveis liberdades e responsabilidades dadas por Deus a cada mortal, as quais Jesus desempenhou de modo tão espetacular” (BRABO, 2009a, p. 38).

Brabo, diferente de muitos sem igreja, não se sente abusado ou prejudicado pela igreja. O problema para ele é que

... frequentar uma igreja é dar a entender:

1) Que aquela facção da igreja é de algum modo mais notável, e, portanto, mais legítima, que todas as outras.

2) Que o modo genuíno de exercer o cristianismo é estar presente nas reuniões regulares e demais atividades de determinada agremiação, ou seja, que a devoção é uma espécie de prêmio de assiduidade.

3) Que o conteúdo da crença é mais importante que o desafio da fé.

4) Que o caminho do afastamento do mundo, segundo o exemplo de João Batista, é mais digno de imitação que o caminho do envolvimento com o mundo, segundo a vida de Jesus.

5) Que o modo de vida baseado na busca circular pela legitimação é mais respeitável que o das pessoas que conseguem viver sem recorrer a esses refrigérios.

6) Que o modo adequado de honrar a herança de Jesus é dançar em celebração ao redor do seu nome, ignorando em grande parte o que ele fez e diz (BRABO, 2009a, p. 40).

Todos os textos até aqui apresentados foram publicados por editoras evangélicas, em caráter de exceção, a seguir serão apresentados dois livros que não foram publicados por editoras evangélicas, porém auxiliam na compreensão do olhar dos sem igreja e foram amplamente lidos por evangélicos brasileiros quando da publicação dos mesmos.

Conforme a contracapa do livro, A Cabana, escrito pelo canadense Willian P. Young é um caso raro, de livro publicado por uma editora pequena, que através do marketing um a um, se transforma em um sucesso de venda.

O livro é uma ficção, e se admite assim. Foi publicado em 2007 nos E.U.A., no ano seguinte a editora Sextante lançava-o no Brasil.

75 A temática central do livro não é sobre a pertença ou não pertença à igreja. Mas, sobre como o Deus cristão todo poderoso, é um Deus bom e coisas ruins acontecem com pessoas que além de serem boas, acreditam numa divindade toda poderosa e ainda frequentam a igreja.

O personagem principal do livro, Mackenzie Allen Philips, tem sua pequena filha Missy, a caçula, assassinada por um maníaco.

A relação de Mack com a igreja84 não é nada boa. O pai dele, apesar de ser religioso, é um alcoólatra que espanca a esposa. Com apenas treze anos, Mack contou “para um líder da igreja” sobre a sua culpa por não fazer nada para defender a mãe. O resultado? O pai ficou sabendo e o espancou durante dois dias. Após esta violência Mack envenena o pai e vai embora de casa (YOUNG, 2008, p. 10).

Porém, o autor mantém seu personagem principal em contato com a religião, ele estudou teologia na Austrália, “parece ter uma relação de amor e ódio com a religião e talvez até com Deus”, mas, apesar de não se sentir “muito a vontade” na igreja, frequenta-a aos domingos. E ainda é casado, a mais de 33 anos com Nan, alguém que tem uma relação “profunda” com Deus, a ponto de chamar a divindade de papai (YOUNG, 2008, pp. 12, 13).

O livro carrega certo sarcasmo para com a igreja. Em determinado momento, uma personagem que aparece apenas uma vez, ao falar com Mack diz: “_ O que há de errado, Mack? Ainda está fumando muito bagulho, ou só faz isso nas manhãs de domingo para conseguir suportar o culto na igreja?” (YOUNG, 2008, p. 22).

Mesmo após a morte da filha, Mack e sua família continuaram frequentando a igreja. Três anos e meio depois, ao receber um bilhete anônimo, com a assinatura de Papai, convidando-o para ir à cabana, onde sua filha tinha sido assassinada, ele decide ir, se encontrar com Deus, pois segundo Young, Mack

... estava travado e [...] as orações e os hinos dos domingos não serviam mais, se é que já haviam servido. A espiritualidade do claustro não parecia mudar nada na vida das pessoas que ele conhecia, [...]. Mack estava farto de Deus e da religião, farto de todos os pequenos clubes sociais religiosos que não pareciam fazer nenhuma diferença expressiva nem provocar qualquer mudança real (YOUNG, 2008, p. 59).

84 Em nenhum momento no livro o autor define sobre qual ramo do cristianismo seus personagens estão imersos,

76 Neste trecho, fica claro que Young trabalha uma critica à igreja, a espiritualidade não depende claramente de instituições. Mack encontra a trindade, na cabana, por conta própria, sem nenhum auxilio de sua religião.

A trindade neste livro não é transcendente, mas composta de figuras humanas. Deus é uma mulher negra, o Espírito Santo é uma mulher asiática e Jesus um homem comum do oriente médio, que usa calça jeans e camisa xadrez.

Uma parte significativa do livro é utilizada com os diálogos entre Mack e os integrantes da trindade. Em alguns trechos, fica claro como o autor desconsidera a importância das instituições, das religiões e da igreja. Em uma conversa com Jesus Mack afirma: “_ Você está falando da Igreja como essa mulher por quem está apaixonado. Tenho quase certeza que não conheço essa igreja. [...] _ Não é certamente o lugar onde eu vou aos domingos” (YOUNG, 2008, p. 164).

A resposta de Jesus expõe o posicionamento do autor sobre a igreja: “_ Mack, isso é porque você só está vendo a instituição, que é um sistema feito pelo ser humano. Não foi isso que eu vim construir. O que vejo são as pessoas e suas vidas, uma comunidade que vive e respira, feita de todos que me amam, e não de prédios, regras e programas” (YOUNG, 2008, p. 164).

Mais a frente o Jesus de Young realiza criticas mais ácidas: “não crio instituições. Essa é uma ocupação dos que querem brincar de Deus. [...] não gosto muito de religiões e também não gosto de política e economia. [...]. É a trindade de terrores criada pelos seres humanos que assola a Terra e engana aqueles de quem eu gosto” (2008, p. 166).

Na sequência deste dialogo, Jesus libera Mack da pertença a qualquer instituição. As instituições, as ideologias e todos os esforços vãos e inúteis da humanidade estão em toda parte e é impossível deixar de interagir com tudo isso. Mas eu posso lhe dar liberdade para superar qualquer sistema de poder em que você se encontre, seja ele religioso, econômico, social ou político. Você terá uma liberdade cada vez maior de estar dentro ou fora de todos os tipos de sistemas e de se mover livremente entre eles (YOUNG, 2008, p. 168).

Provavelmente em virtude do sucesso de A Cabana, durante o ano de 2008, no ano seguinte, a editora sextante lançou outra ficção, Por que você não quer mais ir na igreja?:

uma história sobre o verdadeiro sentido do amor de Deus, dos autores Wayne Jacobsen e

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Por que você não quer mais ir na igreja? trabalha diretamente com o contexto das

igrejas evangélicas americanas urbanas. A história ficcional narrada pelos autores gira em torno de dois personagens. O pastor associado85 de uma grande igreja, chamada Centro da Cidade, Jake Colsen, e um homem misterioso, que recebe apenas o nome de João.

O livro é narrado em primeira pessoa por Jake, relatando a sua crise com a igreja institucionalizada e a aventura ou desventura de seguir os conselhos do desconhecido João.

É nítido ao longo do texto que os autores são religiosos evangélicos, que de maneira alguma negam as principais crenças deste grupo e que através de seu texto estão buscando expor outras maneiras de ser igreja, como, por exemplo, no trecho abaixo:

Ela [instituição/igreja] oferece uma série de atividades para que as pessoas continuem a frequentá-la e acaba inconscientemente desviando a atenção da verdadeira vida espiritual. Fornece uma ilusão de espiritualidade por meio de experiências altamente elaboradas, mas não é capaz de mostrar às pessoas como é viver em Deus os desafios do cotidiano. Essa é uma das coisas mais estranhas desse cristianismo que se fecha dentro de uma caixa institucional (JACOBSEN & COLEMAN, 2009, pp. 172, 173).

A dedicatória do livro também expõe claramente este posicionamento dos autores. “Aos bem-aventurados – aqueles que hoje e ao longo de toda a história são insultados, excluídos e perseguidos simplesmente por seguirem o Cordeiro para além das normas aceitas pela tradição e pela cultura” (JACOBSEN E COLEMAN, 2009, p. 5).

A ideia principal do livro é que os cristãos devem se relacionar, ao invés de realizarem reuniões. “_ Mas o que é a igreja, João, se o grupo não se reúne regularmente? _ Não estou dizendo que o grupo não possa se reunir, Marvin. Só estou dizendo que reuniões não irão proporcionar o que vocês estão procurando” (JACOBSEN & COLEMAN, 2009, p. 159).

Mais adiante neste mesmo dialogo, João afirma: “Jesus disse que dois ou três eram o bastante e nunca falou nada sobre ter que fazer tudo na mesma hora, no mesmo lugar, da mesma forma, semana após semana. Ele não parecia conceber a Igreja como algo que fazemos ou que frequentamos, e sim como uma realidade que vivemos diariamente” (JACOBSEN & COLEMAN, 2009, p. 160).

Num trecho anterior, o mesmo personagem João, fala para um grupo de pessoas que se reuniam na casa do pastor Jake:

85 O pastor associado nos E.U.A. exerce praticamente a mesma função que um copastor ou pastor auxiliar exerce

78 _ Enquanto continuarmos a ver a vida da Igreja como uma série de reuniões, sentiremos falta de maior profundidade. A verdade é que as Escrituras nos contam muito pouco sobre como se reuniam os primeiros cristãos. Por outro lado, elas nos falam bastante sobre como eles partilhavam suas vidas. Não viam a Igreja como uma instituição, mas sim como uma família vivendo sob o Pai (JACOBSEN & COLEMAN, 2009, p. 130).

Deste modo, há abertamente uma critica às igrejas institucionalizadas, com suas reuniões em prédios específicos para este fim, juntamente com os seus lideres, como também para aquelas que se reúnem em casas. Porém considera-se que estas últimas, possuam maiores possibilidades de ter cristãos que se relacionem (JACOBSEN & COLEMAN, 2009, pp. 119 - 140).

Apesar de o livro ser uma ficção, após o término da história, há um anexo intitulado:

Por que não vou mais a igreja! Texto este, publicado pelos autores em 2001, no site

www.lifestream.org onde eles respondem questões sobre a opção de não pertencerem a uma igreja e qual a concepção que eles possuem sobre ela.

Neste anexo, os autores demonstram que não estão preocupados em retirar os cristãos das instituições (igrejas), mas sim alterar a concepção destes sobre o que é a igreja (JACOBSEN & COLEMAN, 2009, pp. 195 - 205).