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O primeiro trabalho empírico da Lei de Thirlwall foi feito junto com o trabalho que divulgou o modelo original, Thirlwall (1979), utilizando o método comentado na seção 4.2.1. O autor acha uma correlação alta entre a taxa de crescimento real e a taxa de crescimento prevista pelo modelo original, ou seja, sem termos de troca ou capitais. Para o período 1953-1976, a correlação foi de 0,764 e para o período 1951-73 foi de 0,891. Posteriormente, os autores refizeram o mesmo teste utilizando a metodologia proposta por McCombie (1997) de comparar a elasticidade hipotética e a real. O resultado manteve-se, indicando que o modelo original desenvolvido por Thirlwall representava bem a experiência de crescimento dos países desenvolvidos. Ou seja, no longo prazo, nem termos de intercâmbio, nem capital, teriam papel significativo para manter o equilíbrio do balanço de pagamentos nos países desenvolvidos.

EUA

Vários testes empíricos foram feitos para os EUA e existem fortes evidências de que a taxa de crescimento de longo prazo desse país pode ser explicada pelo modelo de Thirlwall original. Hounthakker and Magee’s (1969) calcularam a razão entre a elasticidade renda das importações e exportações para o caso americano e acharam uma razão de ε/π = 0,59. Esse resultado foi, posteriormente, confirmado por Becker (1992) para o período 1977-90 que, a partir de estimativas de demanda de importação e exportação, chegou a uma razão de elasticidades de 0,62. Essas estimativas indicariam que a economia americana deveria crescer 60% da renda mundial.

Atesoglu (1995) constatou que, estimando a função demanda de importações para o período 1947-73 e 1973-92, há um brusco aumento da elasticidade renda das importações no segundo período, sugerindo uma quebra estrutural no ano 1973. Isso explicaria a taxa de crescimento americana cerca de 1% mais baixa no segundo período.

Hieke (1997) foi o primeiro a usar o instrumental de cointegração, utilizando a técnica Engle e Granger, para testar o modelo para os EUA, usando dados trimestrais para o período de

1950-1990, e considerarem os períodos para os quais a demanda de importação cointegrava. Ele concluiu que a função cointegrava para o período 1950-66 e 1967-90, mas não para o período como um todo, também indicando uma quebra estrutural. Assim, o autor chama a atenção para a importância de se considerarem as quebras estruturais no modelo. Da mesma forma o autor calcula a renda compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos para os diferentes subperíodos e verifica que ela não difere significativamente da taxa de crescimento real.

Atesoglu (1993) estima se existe uma relação positiva entre crescimento da renda e das exportações, utilizando-se da técnica de cointegração de Johansen. Assim, o autor estima, diretamente, a equação (33). Achar uma cointegração entre essas variáveis implicaria, segundo o autor, em aceitar a Lei de Thirlwall. Os testes indicaram uma cointegração positiva entre renda e exportações para o período 1931-94. Esse resultado não exclui a possibilidade das séries não cointegrarem por longos períodos entre esses anos, mas no longo prazo elas cointegram, o que confirmaria a Lei de Thirlwall.

McCombie (1997) fez o teste para os EUA, usando a técnica proposta por ele de comparar a elasticidade hipotética, derivada do modelo original (equação 33), e a elasticidade real, para o período 1952-93. A taxa de crescimento prevista pelo modelo foi de 2,88%, próxima à taxa real de 3,36%. O autor, também, identificou uma quebra estrutural em 1973. Para o período 1973-93, a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos foi de 2,34%, praticamente igual à taxa real de 2,29%, confirmando a validade do modelo para os EUA.

Enfim, segundo diversos autores, existem fortes evidências empíricas de que os EUA são um país restrito pelo Balanço de Pagamento, e que essa restrição se tornou mais severa após 1973.

Japão

O estudo empírico feito por McCombie (1997), utilizando a metodologia proposta por ele de comparar as elasticidades hipotética e real, confirmou a suspeita de que o Japão não é um país que tem seu crescimento restrito pelo balanço de pagamentos, o que já parecia evidente diante do acumulo de superávits dessa economia. Para o período 1952-73, a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos seria de 10,26%, enquanto a taxa real foi de 8,71%. No período de 1974-93, essa diferença ficou mais marcante, com uma taxa de

equilíbrio do balanço de pagamentos de 8,84% perante uma taxa de crescimento real de 3,52%. Dessa maneira, o autor conclui que a taxa de crescimento do Japão está abaixo da taxa possibilitada pelo equilíbrio do balanço de pagamentos, o que explicaria o acúmulo de superávits nesse período.

Reino Unido

Os resultados do teste de McCombie (1997), utilizando a metodologia proposta por ele de comparar as elasticidades hipotética e real, para o Reino Unido se mostraram um pouco contraditórios. Entre 1952-1973, o país mostrou-se restrito pelo balanço de pagamentos, com uma taxa de crescimento de 2,42%, enquanto a taxa de equilibro do Balanço de Pagamentos seria de 2,37%. Já entre 1974-93, o equilíbrio do balanço de pagamentos apontava para uma taxa de 1,46% enquanto a taxa real foi de 1,35%, o que não pode ser considerado estatisticamente igual, indicando que o país não seria restrito pelo Balanço de Pagamentos, nesse período. No entanto, quando se inclui a tendência e uma variável dummy para mudança estrutural, o resultado inverte-se, com uma taxa de crescimento compatível com o balanço de pagamentos de 0,95% para esse período.

Canadá, USA, Japão, Europa

Alonso e Garcimartín (1998/99) estimaram, a partir do método de ajustamento proposto por eles nesse mesmo trabalho e discutido na seção anterior, as equações (77) e (78). Se parte significante do ajuste do balanço de pagamentos ocorre via renda, isso seria uma importante corroboração da teoria keynesiana de restrição externa ao crescimento.

Utilizando uma amostra para 10 países (Alemanha, Canadá, Espanha, USA, França, Holanda, Itália, Japão, Reino Unido e Suíça) para o período 1965-94, eles concluíram que os únicos países em que a renda não se mostrou significante para o ajuste foram EUA e França. Por outro lado, a estimação da equação (78) revelou que os preços não são mecanismos significativos de ajuste do balanço de pagamentos para nenhum dos países.

Espanha

Alonso e Garcimartin (1998/1999) estimaram a demanda de exportação para a Espanha (1965-94) incluindo um índice de tecnologia que afetaria positivamente as exportações (G), conforme relatado na equação (80). A função demanda de importações foi estimada normalmente, como na equação (27).

Todos os coeficientes se mostraram significantes, inclusive o do índice G. Os autores, também, propõem que a medida de câmbio real seja o preço relativo das exportações, na função de exportação, e o preço relativo das importações, na função de importação. Como os termos de troca se mostraram significantes, eles devem estar presentes no equilíbrio do Balanço de Pagamentos. Assim, a renda compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos nesse modelo estendido seria:

(84) π δ ε ψ ηPxr - Pmr Y* G Pm - Px B - A + + + + = Ybp

em que: Pxr é o preço relativo das exportações e Pmr é o preço relativo das importações e todas as variáveis estão em nível, que é a formulação mais correta, segundo os autores, para se estudarem problemas de longo prazo. Através do procedimento da regressão, isto é, regredindo Ybp em Yreal, os autores confirmaram a Lei de Thirlwall. No entanto, os termos de intercâmbio têm um papel relevante, que é contrabalançado pela melhora tecnológica. Assim, segundo os autores, se os termos de intercâmbio e a tecnologia fossem ignorados, a lei de Thirlwall original se confirmaria, mas não pela não significância dos termos de troca, e sim pelo efeito compensatório da tecnologia.

Conseqüentemente, como os termos de troca são significantes, eles propõem que o teste da lei de Thirlwall se baseie nas variáveis de ajuste, tal como discutido na seção anterior.

Austrália, USA e Europa

Christopoulos (2003) usou a técnica de cointegração em painel para testar a Lei de Thirlwall original para sete países desenvolvidos (Austrália, Alemanha, Itália, França, Holanda, Reino Unido e USA) para o período 1960-99. Os resultados apontam que, com a exceção da Austrália, as taxas de crescimento real e a compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos, tal como desenvolvido no modelo original de Thirlwall (1979), não são significativamente diferentes, como pode ser demonstrado na tabela 12.

Tabela 12 - Evidência Países Desenvolvidos País Cresc Real Cresc BP

Australia 6,0% 4,6% França 3,2% 3,6% Alemanha 2,8% 2,8% Italia 3,2% 4,1% Holanda 3,2% 3,6% Reino Unido 2,3% 2,3% USA 2,9% 2,7%

Com base nos resultados sintetizados nessa seção, pode-se dizer que a Lei de Thirlwall, em sua forma original, ou seja, sem considerar termos de intercâmbio ou fluxos de capital, aplica- se bem à experiência de crescimento de longo prazo dos países industrializados. As grandes exceções, nesse grupo de países, parecem ser a Austrália e Japão. O acúmulo de superávits da economia japonesa já evidenciava que ela não era uma economia restrita pelo Balanço de Pagamentos. Já no caso da Austrália, acredita-se que o fluxo positivo de capitais possibilitou um crescimento acima do previsto pela Lei de Thirlwall.