Podemos considerar J. L. Martyn um que mais contribuiu na pesquisa joanina com suas observações sobre a correlação entre a história literária do QE e a história da comunidade.25 Diz Martyn que o QE narra a história de um evento real na vida da
comunidade de tal modo que pode ser visto como uma reconstrução de um episódio
no ministério de Jesus. Inicia com o capítulo 9 (a cura do cego mendicante), que plausivelmente constrói um drama. Todos os principais protagonistas, compreendido Jesus, tem as próprias analogias na experiência da comunidade: o cego mendicante é um convertido cristão, O Sinédrio o conselho local judaico; Jesus é um profeta do último dia que fala em seu nome. Os pais do cego são membros da comunidade joanina.
Tantos outros autores se debruçaram para descobrir as raízes históricas e literárias da comunidade onde nasceu o QE. Cada um deu sua contribuição científica e válida. Sénen Vidal é outro autor, mais recente, que conseguiu sintetizar vários estudos (como as de Bultmann, Wengst, Brown, Culmann, Boismard) e harmonizá-los
25 Cf. TUÑI, José-Oriol. Escritos Joaninos e Cartas Católicas, p. 123-125; ASHTON, John.
na sua teoria. Segundo Vidal,26 as tradições básicas (TB) consistiriam em textos de origem diversas, relativos a ações/ditos de Jesus; são os textos mais primitivos e, portanto, mais próximos do Jesus Histórico, e que estão na base dos demais Evangelhos. Nesta base estão os relatos sobre Jesus e sobre João Batista (1,19-33; 1,37-49; 3,23-30), tendo uma clara intenção apologética; assim também o relato independente da conversão dos samaritanos em Sicar (4,5-41). A estes foi acrescentada certa coleção de milagres, que transparece em Marcos, bem como os relatos da Paixão, fonte comum também aos Sinóticos.
Para Vidal o primeiro escrito do QE seria o texto surgido do trabalho redacional inicial, no qual foram unidas as tradições básicas (relatos sobre João Batista, de milagres, da paixão), na forma de uma história da paixão de Jesus, mas com a intenção de ser uma etiologia da comunidade joanina (E1). A trajetória do Jesus joanino é lida como reflexo da trajetória histórica da comunidade joanina. E seu contexto sócio- histórico seria, portanto o do conflito com as autoridades farisaicas e a expulsão da sinagoga nos anos 80. Assim teria nascido o segundo Evangelho com a releitura dos primeiros escritos sob nova ótica (E2). Isto teria acontecido provavelmente na década de 90 – 100, marcada por grandes perseguições aos cristãos em geral. Em seguida nova edição teria sido feita pela comunidade joanina (E3) com novas glosas ao longo do texto e o cap. 21. A comunidade atravessava um processo de institucionalização apostólica. Há um grande esforço com relação à ética do amor fraterno e a expectativa pelos acontecimentos escatológicos futuros. Vidal conclui dizendo que o QE foi escrito por várias pessoas num largo espaço de tempo entre uma redação e outra, possivelmente unidos em torno de uma mesma tradição ligada ao discípulo amado.
26 Teoria presente nas páginas de 13 a 40 do livro de VIDAL, Senén. Los escritos originales de la
A investigação sobre as fases da redação do QE conseguiu aprofundar e conhecer melhor seus processos. A crítica literária (análises estilísticas) ofereceu a possibilidade de delimitar os diversos documentos dentro de uma mesma obra ou dentro de uma determinada tradição. Distinguiram-se no QE diversos níveis literários, como vimos antes nas numerosas passagens que não parecem suficientemente peὄtinenteὅ a ὅeu ἵontexto atualέ Iὅὅo tuἶo levou a ἵonἵluiὄ ὃue váὄiaὅ “apoὄiaὅ” ὅão presentes no texto e indicam fases históricas literárias na sua composição. Uma escola joanina, isto é, um grupo-autor foi elaborando o texto na base de releituras constantes e que são constatáveis, inclusive, na forma literária do próprio texto, como provaremos mais adiante, na nossa perícope 8,31-49. A obra literária foi elaborada lentamente numa tradição oral a partir de necessidades catequéticas, apologéticas, missionárias, de busca de identidade.27
Descobriu-se também que o QE tem uma peculiaridade, a qual não pode vir do cristianismo primitivo ou somente de uma tradição oral; deve ter surgido de outro meio cultural. Tal meio é que proporciona um documento base que vai ser o núcleo da apresentação da pessoa de Jesus. Trata-se de um conjunto de discursos de um revelador gnóstico, que seria utilizado como base e, depois, constituiria o centro da cristologia do QE. Para os textos narrativos, Bultmann propõe como vimos anteriormente, uma Semeia Quelle (fonte literária dos sinais); para o relato da Paixão, outra fonte. Contudo, para Bultmann, o ponto central do desenvolvimento do QE constitui-se pelo conjunto dos discursos de revelação. Passou-se então, após Bultmann, a novas pesquisas e avanços: do autor à história da literatura joanina e aos diversos momentos dessa história como contexto social da comunidade (Sitz im
Leben), aonde vão surgindo os diversos níveis que compõem o Evangelho.
Começaram a aparecer novas hipóteses sobre as etapas que marcam a progressiva redação do QE. Quanto ao lugar que ocupa no cristianismo primitivo temos o estudo de E. Käsemann, discípulo de Bultmann. A questão gnóstica continua crescendo como objeto de aprofundamento e novas descobertas. Como também exegetas que escrevem sobre um sincretismo geral existente na época da comunidade joanina. Conclui-se que o QE surgiu num contexto judaico, numa comunidade judeu-cristã, marcada por uma forte polêmica com uma ou várias determinadas formas de interpretar o judaísmo e a pessoa de Jesus Cristo.
Podemos dizer ainda que após a descoberta dos manuscritos de Qumran e os estudos comparativos com a literatura do QE, nota-se sempre mais uma aproximação e até, certa influência. O aprofundamento desse estudo vai conquistando novos espaços e pesquisadores e se afirmando como literatura paralela e contemporânea à comunidade joanina, como também à forma de pensar e de estruturar a mensagem. Aprofunda-se também a relação do QE com as chamadas cartas joaninas.28 Veremos no ponto seguinte justamente o contexto no qual surgiu a composição do QE.