No QE encontra-ὅe numeὄoὅaὅ veὐeὅ um ἵeὄto “Diὅἵípulo ρmaἶo” Φ1ἁ,ἀἁλ 18,15; 19,26; 20,2.8; 21,7.20.24 e talvez refira-se a ele também em 1,35-40; 19,35). A tradição posterior o identificou com o apóstolo João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago (Mc 1,19) e lhe atribuiu a autoria do QE. Ao redor desta figura “Diὅἵípulo
ρmaἶo” ὅe tὄanὅmitiu e ὅe eὅἵὄeveu o texto, ao longo ἶe maiὅ ou menoὅ ἅί anoὅ, testemunhando a fé dos primeiros discípulos e seguidores de Jesus (19,35; 21,24).91
Esta etapa é a chamada pré-evangélica (de 30 a 70 aprox.) que se estende desde a criação da comunidade ao redor do testemunho do Discípulo Amado até o ingresso dos judeus antitemplo,92 dos samaritanos, dos batistas e dos gentios. Nesta etapa acontecem as primeiras hostilidades e controvérsias com os judeus da sinagoga e a expulsão dela (9,22; 16,2) por reconhecerem Jesus como o Cristo.93
1.5.5.2 Segunda etapa: O conflito com os judeus (autoridades farisaicas) provoca uma releitura das palavras de Jesus
Esta é a época aonde aconteceu o conflito direto com a sinagoga (de 70 a 80 aprox.).94 Com a destruição do Templo de Jerusalém (ano 70), desapareceram os partidos religiosos judaicos que tinha participado ou não da rebelião contra Roma. Os grupos que permaneceram foram os mais organizados e resistentes: fariseus e cristãos. Os fariseus tomaram a iniciativa de reorganizarem a religião judaica a partir do culto nas sinagogas. Isto foi criando dificuldades com as comunidades cristãs que já eram mais abertas, tolerantes e acolhiam diversidades como galileus, samaritanos, judeus de
91 Quanto à autoria do QE há um grande número de autores que pesquisaram e deram suas hipóteses.
Aqui seguimos a tradicional apresentada no texto acima, mesmo sabendo que muitos foram os autores, membros de uma escola joanina que comungavam do mesmo método, da mesma teologia e da mesma espiritualidade. Para uma mais detalhada tratação do autor do QE pode se consultar: Martin HENGEL (La Questione Giovannea, 1998), Raymond BROWN (El Evangelio segun Juan, p. 99-120;
A Comunidade do Discípulo Amado, p. 31-35), Rudolf SCHNACKENBURG (Il Vangelo di Giovanni,
p. 104-133). Há um autor que em 1993 defendeu ainda a tese da redação de um único autor: Thomas L. BRODIE, The Quest for the Origin of John‟s Gospel: a Souce-Oriented Approach.
92 Os Atos dos Apóstolos registram uma freqüência natural dos apóstolos ao Templo (At 2,46; 3,1)
enquanto que todos os evangelhos apresentam uma clara oposição a esta instituição. No Quarto Evangelho o conflito com o Templo é mais acentuado, tanto que logo no capítulo segundo inicia-se com a intervenção de Jesus contra ele. Nota-se uma rejeição pelo antigo modelo de templo. Este conflito mostra o quanto haviam diferenças entre os cristãos da comunidade joanina e os judeus ainda apegados à antiga aliança, simbolizada no Templo.
93 Cf. BROWN, Raymond, A Comunidade do Discípulo Amado, p. 20. Também Senén VIDAL, Los
escritos originales de la comunidad , p. 42-43.
origem helenista e até pagãos. Todos reunidos em nome de Jesus ressuscitado. A comunidade do Discípulo Amado não podia nem queria assumir as propostas restritivas adotadas pelos fariseus; assim se crescia e se acentuava a rivalidade entre eles, chegando ao conflito direto que gerou a exclusão-expulsão da sinagoga e da comunhão com este tipo de judaísmo farisaico.95
Este conflito influenciou na transmissão das palavras de Jesus e na formação do QE. Nesta fase se faz uma releitura de Jesus à luz da situação enfrentada no momento conflitivo. Buscam-se respostas e soluções para os problemas; tenta-se definir a identidade desta nova comunidade. Neste processo os conflitos são propulsores de configuração, são eixos onde se fundamenta a visão do autor sobre a verdadeira identidade da comunidade joanina. “ἤaἶiἵaliὐa-se na afirmação da divindade de Jesus e se proclama que a entrada no reino não se baseava na descendência humana (nascimento da carne), mas em ter sido gerado por Deus (3,3.5). Julga, contra seus opositores, os judeus, que os que aceitaram Jesus são os verdadeiros filhos de Deus Φ1,1ἀ)”έ96 Nos versículos da nossa perícope (8, 31-59) notamos essa polêmica muito
presente. Os judeu-cristãos que reconheceram Jesus como Messias sentiam-se ἶiviἶiἶoὅ entὄe ὅua “filiação juἶaiἵa” e sua pertença cristã. Há um conflito declarado com os interlocutores, “juἶeuὅ” da sinagoga (fariseus). Certamente os cristãos estavam sentindo a pressão dos amigos e parentes devido à exclusão (9,22; 12,42) e das conseqüências nas relações religioso-culturais e socioeconômicas garantidas pela
95 A expulsão deve ter tido um significado muito diferente para os grupos que constituíam a comunidade
joanina, representando o ponto em torno do qual se formou uma identidade social particular e ameaçadora para os judeus (Cf. Jo 11,48). Senén VIDρδ ὄefoὄça ἶiὐenἶo ὃue eὅta ὅepaὄação ἶo “ὅeio” ἶo juἶaíὅmo foi um tὄauma ὃue ὅe toὄnou oἵaὅião ἶe um “naὅἵimento” a uma nova exiὅtênἵiaέ ἑfέ Los
escritos originales de la comunidad, p. 23, 44. Entendemos que logo após a expulsão iniciaram-se
perseguições. Todos os que confessavam Jesus como Cristo eram ameaçados e perseguidos. Contudo, também ao interno da comunidade joanina havia divergências, medrosos e resistentes diante de tudo o que acontecia com eles. Crer e seguir Jesus Cristo tornava-se perigoso.
ὅinagogaέ ἥão tentaἶoὅ a ἶeὅiὅtiὄ ἶa opção ἶe fé em Jeὅuὅ, em nome ἶa “filiação aἴὄaâmiἵa” ἵomo encontramos explicitamente em 8,33.39ss.
Como os cristãos se sentiam acusados de não serem filhos do pai Abraão e não herἶeiὄoὅ ἶa pὄomeὅὅaο Eὄa eὅὅa uma eὅἵὄaviἶãoο ἢoὄὃue o autoὄ eὅἵὄeveκ “ἥe, poiὅ, o Filho vos libertar, sereis realmente livres” Φθ,ἁἄ)ο ἡ ὃue entenἶe o autoὄ poὄ liἴeὄἶaἶe neὅta ὅituaçãoο ἡ ὃue ὅe pὄeἵiὅava eὅἵὄeveὄ paὄa ἵonὅἵientiὐaὄ oὅ ἵὄiὅtãoὅ “em ἵὄiὅe de fé” ἶe ὃue ὅeὄ ἵὄiὅtão eὄa ὅeὄ “veὄἶaἶeiὄamente livὄe”ο97 Perguntas que o autor se fez e
respondeu com o texto evangélico. Do conflito à releitura das palavras de Jesus para iluminar e fortalecer seus leitores de então. Essa etapa é de fundamental importância para a nossa tese, por isso a ênfase dada. Aqui está o cerne do conflito que gera identidade. Aprofundaremos essa afirmação nos próximos capítulos.
1.5.5.3 Terceira etapa: Os primeiros escritos começam a circular nas