Na Europa Ocidental, no final do século XIX, o campo da documentação se desenvolveu, em âmbito internacional e passou a caracterizar-se pela produção bibliográfica.
Cabe ressaltar que Paul Otlet figura entre as mais importantes personalidades da área, não só pela institucionalização da Documentação mas, principalmente, pela produção e edição, em 1934, do livro Traité de Documentation, no qual a noção de documentação é ampliada para além do livro. Esse fato, de certa forma, antecipa o reconhecimento dos novos suportes de informação como sendo portadores de memória do conhecimento (RAYWARD; ARNON, 1995 e CACALY et al, 1997). Segundo Otlet (1934):
Documento é o livro, a revista, o jornal; e a peça de arquivo, a estampa, a fotografia, a medalha, a musica; é, também, atualmente, o filme o disco e toda a documental que precede ou sucede a emissão radiofônica. (OTLET, 1934, p. 1).
A insistência em se demarcar esse alargamento da tipologia documental como sendo de interesse da Ciência da Informação pode ser observada nos anais do congresso referido abaixo, citado por Herner(1984, p. 154):
Os anais do Congrès Mondial de la Documentation Universelle (1937) apontam uma maior variedade de informações tratadas pelo órgão: imprensa, educação, cultura geral e lazer, trabalho intelectual, pesquisa científica, administração (pública e privada), finanças, indústria, comércio, agricultura, trabalho manual.
Observa-se então que, a partir da década de 1930, as atividades técnicas relativas à informação, juntamente com o seu objeto, agora mais amplamente definido, ganham nomenclaturas próprias como processamento técnico , documento bibliográfico e documentação , ampliando-se, assim tais atividades para além dos livros. Isso indica que a Ciência da Informação, em princípio, demonstra ter almejado dar conta da organização de outros tipos de documento , além daqueles eminentemente acadêmicos.
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Retomando o discurso da primeira fase da Ciência da Informação, percebe-se uma pretensão dessa ciência em relação ao tratamento de toda a diversidade documental e de informações das mais diversas naturezas. Isso revela sua preocupação não somente com relação ao documento bibliográfico, embora, na prática, se tenha dado maior ênfase a esse tipo de produção. Isso decorre, essencialmente, do fato de que as atividades da documentação se intensificam e se viabilizam, efetivamente, nos Estados Unidos, no período que antecede a Segunda Guerra Mundial. Nessas circunstâncias, num primeiro momento, essas atividades vão ocorrer quase que exclusivamente no âmbito dos centros privados de pesquisa com uma participação pouco expressiva do Estado. Tais atividades se concretizam na adequação do tratamento da informação registrada de acordo com as tecnologias emergentes de reprodução e armazenamento da informação, desenvolvidas pelos membros do American Documentation Institute (ADI), atual American Society for Information Science (ASIS). Este Instituto formou-se, inicialmente, apenas por pesquisadores e técnicos ligados às empresas de tecnologia da informação (SHERA; CLEVELAND, 1977).
As repercussões desse modelo tornaram-se visíveis nas décadas seguintes; inclusive, redirecionaram o ensino e a pesquisa. No Brasil, os estudos de Castro (2000) apontaram as características de algumas fases no ensino de biblioteconomia que correspondem, nitidamente, a esse movimento internacional. Numa primeira fase, se desenvolveu dentro de uma visão humanística, por influência da escola francesa. Numa segunda fase, evidenciou-se a adoção do modelo pragmático americano, que viria a expandir- se e consolidar na terceira fase, que permanece até os dias de hoje.
Nessa passagem do modelo francês para o modelo americano, observa-se um aspecto importante no interior desse movimento que também se mescla com a passagem entre Biblioteconomia e Documentação para a Ciência da Informação , que é a ocorrência de restrição do campo de interesse da Ciência da Informação. Isso se deu, principalmente, em relação ao universo de conhecimentos gerados pela sociedade. Gomes e Zaher (1972), ao abordarem as atividades de documentação nos Estados Unidos, comentam a esse respeito:
A competição, característica dos países de economia capitalista, era fator direto na política de funcionamento dos serviços de informação que atendiam [...] somente aos membros das organizações. [...] Não visavam difundir informação para o desenvolvimento científico e tecnológico em geral, mas atender necessidades específicas de determinado laboratório ou indústria (GOMES; ZAHER 1972, p. 6).
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Essa linha de raciocínio se confirma com Buckland (1996) quando afirma que, nos Estados Unidos, os setores como: seguridade, engenharia e indústria, principalmente a indústria bélica, foram os segmentos alvos para o desenvolvimento da documentação, no período que antecedeu a Segunda Guerra. Cabe considerar, ainda, que as atividades acadêmicas e científicas não estão dissociadas dos contextos políticos e econômicos aos quais estavam inseridas. Dessa maneira, as instituições, os pesquisadores e os seus produtos eram convocados a participar e a contribuir com os processos tecnológicos para a acumulação do capital e para a soberania do Estado.
Nesse contexto, a então recém-nascida Ciência da Informação passa a ser vista como uma ciência que se ocuparia muito mais dos interesses ancorados no sistema econômico, tecnológico e político vigente. Atribui-se, assim, a razão do seu surgimento e crescimento mais a esse sistema e menos aos interesses decorrentes de fatores históricos, sociais e culturais de fundo. Essa dicotomia de interesses se evidencia na problemática que vai se constituir pela ênfase atribuída à informação vinda: do mundo científico; dos governos; do desenvolvimento tecnológico e do conseqüente crescimento e estímulo de uso de informação científica e tecnológica, em detrimento de outros tipos de informação. Conforme alertam Shera e Cleveland (1977), a importância ganha pela Ciência da Informação se atribui, simplesmente, ao crescimento de equipes científicas, ao aumento no número de cientistas e pesquisadores, à aceleração de pesquisas e de geração de novos conhecimentos, e ao desenvolvimento tecnológico. Esses autores observam ainda que, nas construções discursivas da literatura da área, as atividades relativas à informação foram reconhecidas em torno da década de 1930, como já mencionado, porém exclusivamente nos campos econômico- produtivo das grandes empresas e estratégico-militar do Estado. E somente no final dos anos de 1940, com o início do ensino de disciplinas de Documentação nas escolas de biblioteconomia norte-americanas, é que ocorre uma abertura da área (SHERA; CLEVELAND, 1977).