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Muito embora a Ciência da Informação, logo após o seu nascimento, já se tenha voltado para resolver problemas da produção científica, as preocupações com outros tipos de documentos sempre estiveram presentes em seu discurso, tal como pode ser observado no posicionamento de autores influentes das ultimas três décadas.

Argumenta Foskett (1980) que, desde os anos setenta do século XX, discute-se sobre as bases teóricas no campo da Ciência da Informação e sua relação com a informática. Embora reconheça a importância das técnicas mecanizadas para dar conta da vasta quantidade de publicações científicas, declara suas convicções a respeito dos perigos que representavam os rumos da maioria das pesquisas em Ciência da Informação. Os perigos apontados se referiam ao viés de se enfatizar a tecnologia de processamento da informação, sem levar em consideração seus significados ou fins. Aponta, ainda, uma preocupação com o significado dos textos, isto é, sobre o que dizem os textos e o que representa seu uso para as pessoas em busca de informação (FOSKETT, 1980, p. 15). Esse autor lembra que se atribui ao bibliotecário, desde a Antigüidade, o papel de um curador dos registros do conhecimento, abrangendo desde os dados astronômicos e meteorológicos do antigo Egito até os livros sagrados das mais diversas civilizações . Com uma função análoga à memória humana e na tentativa de imitar a estrutura do intelecto, os sistemas de organização e recuperação visavam, desde sua origem, não só a classificação, descrição e o ordenamento dos documentos, mas a criação de estruturas de conteúdos, de tal maneira que fizessem sentido para os usuários da coleção (FOSKETT, 1980b, p. 61).

Tem sido uma constante preocupação a busca por compreender como as pessoas usam a informação, como a assimilam em seus esquemas conceituais e, principalmente, como esses esquemas se modificam em função de aspectos socioculturais, portanto contextuais. Há muito ainda a ser feito em termos de pesquisa e aplicação, no sentido de que [...] é preciso olhar para além das manifestações externas na forma de literatura publicada. É preciso descrever e analisar o significado que o documento carrega em si. (FOSKETT em 1980b, p. 68). A informação adquire significado para o usuário a partir de dois aspectos: o primeiro refere-se à capacidade de estabelecer relações com o paradigma do qual é parte, isto é, sua

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conotação subjetiva e o segundo faz referência à relação com o próprio contexto de pensamento do usuário . Esse autor justifica, assim, um olhar mais acurado para as questões de fundo, que envolvem os aspectos da produção, comunicação e uso da informação.

Nessa mesma direção, torna-se importante o entendimento da natureza social do fenômeno lingüístico no que tange aos aspectos da comunicação. Nessa perspectiva, em Vygotsky (2000) encontra-se toda uma argumentação no sentido de compreender as habilidades humanas para conversão do mundo da experiência pessoal num conjunto de símbolos comunicáveis, que representem o mundo real para o outro. Isso demanda uma transição de um conjunto de percepções, de impressões sensoriais derivadas da experiência com o meio ambiente e das relações estabelecidas na mente e sua correspondência com os objetos e fatos percebidos. Essa transição torna-se possível pelo uso da linguagem, por meio da unidade do pensamento verbal, ou significado de palavra , que denota os objetos e as classes de objetos. A linguagem permite, desse modo, a construção de sistemas de conceitos inter-relacionados e a conversão desses conceitos espontâneos em conceitos científicos e vice-versa. Para Vygotsky (2000), esse sistema conversor opera a favor de transformar uma apreensão em compreensão . Os estudos comparados do desenvolvimento de conceitos de Vigotsky (2000) concluem que os conceitos empíricos se formam a partir de dados empíricos conhecidos durante uma experiência imediata. Os conceitos científicos surgem e se constituem no processo de aprendizagem formal. Para o autor, as motivações internas que conduzem sua formação são diferentes daquelas que levam à formação dos conceitos espontâneos. Nesse grupo, os conceitos científicos são fortes naquilo em que os conceitos espontâneos são fracos, e vice-versa.

González de Gómez (2000) aborda, como uma das problemáticas da área da Ciência da Informação, o fato de sua visibilidade se dar mais pelo conjunto de saberes agregados por questões, e menos por suas teorias. Dessa maneira, atribui-se a causa de sua emergência somente à mudança de escala da produção científica e à necessidade de melhor aproveitamento dos grandes estoques de conhecimento registrado, tornando-a uma ciência potencialmente operativa, intervencionista e, portanto, pragmática. Apesar da existência dessas marcas de um saber, preponderantemente operacional, de gestão de processos, o objeto da Ciência da Informação se situa no conjunto das práticas de informação para a melhoria da sociedade.

Dessa forma, a atividade investigativa na Ciência da Informação, como em qualquer ciência, requer, primeiramente, que haja uma identificação e um reconhecimento do

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seu objeto. Rayward (1996) utiliza-se de concepções foucaultianas e se refere aos termos "gestão" e "informação", como sendo constructos recentes e como tal obrigam a compreender:

[...] que houve um rompimento com o passado e que algo novo foi tornado possível, que uma concatenação de novas circunstâncias e processos, tanto disciplinares quanto mais amplamente sociais, criaram as condições para a emergência de novos modos de conceptualização de aspectos da realidade e de pensar e falar sobre eles (RAYWARD, 1996, p. 11).

Salienta, ainda, que implicitamente se reconhece quando algo de novo acontece. Por exemplo, quando expressões como; "revolução da informação", "sociedade da informação" e "revolução gerencial" começam a fazer parte da linguagem corrente. Nesse movimento, a positividade da Ciência da Informação indicada pela formação discursiva, conforme recupera Rayward (1996, p. 11), se deu pelo seu atrelamento à ciência e a seus conhecimentos, advindos das ciências igualmente positivas, em detrimento de outros conhecimentos, por exemplo, aqueles originários das artes e humanidades.

Nesse sentido, algumas análises históricas, como as realizadas por González de Gómez (2000) e Mostafa et al. (1992), criticam a naturalização com que, normalmente, o percurso sócio-histórico da Ciência da Informação é percebido pelos profissionais da área. Essas autoras chamam a atenção para as dificuldades de rompimento com os paradigmas funcionalista e behaviorista. Isto é, romper com o positivismo dominante na Ciência da Informação. Aqui, cabe ressalvar que a crítica se faz não em relação ao paradigma positivista, uma vez que ele é muito útil para algumas áreas das ciências exatas. Porém, o estranhamento está no fato de que, pertencendo ao quadro científico de Ciência Socialmente Aplicada, a Ciência da Informação, naturalmente, tenderia a escapar desse paradigma que, cada vez mais, se demonstra pouco adequado para esse tipo de ciência. Porém, como menciona Santos (2000), não é assim tão fácil separar ou estabelecer limites paradigmáticos, pois:

A primeira observação, que não é tão trivial quanto parece, é que a identificação dos limites, das insuficiências estruturais do paradigma científico moderno, é o resultado do grande avanço que ele proporcionou. O aprofundamento do conhecimento permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se funda (SANTOS, 2000, p. 68).

Outro aspecto que merece comentários é o enfoque da área ater-se mais às questões instrumentais. A maximização técnica de organização e gerenciamento, a eficiência de fluxos informativos, o uso de tecnologias apropriadas e, até mesmo, o desenvolvimento de ferramentas de busca, em geral se constituem nos principais focos de atenção. Dessa forma,

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desviam-se de questões igualmente importantes, tais como as relações de poder mediadas pela informação e os mecanismos de evidências ou ocultamentos de informações, em função das hegemonias estabelecidas e expressas nos conceitos sobre raça, classe social, sexo, gênero e meio ambiente (FROHMANN, 1995).

A partir dos anos 90, do século XX, as discussões da área começam a expor, mais enfaticamente, a necessidade de aprofundar e clarificar o objeto a ser perseguido pela Ciência da Informação. Destacam-se, fundamentados em Buckland (1995), dois significados distintos para a informação: a informação como conhecimento e a informação como coisa.

A informação como coisa abarca maior variedade de fontes de informação, incluindo-se dados, textos, documentos, objetos e eventos, além da comunicação. Essa visão reúne, via objeto com capacidade informativa, todos os aspectos teóricos e práticos relativos à informação.

Muitos são os autores que podem contribuir para aprofundar o entendimento sobre os conceitos e definições de Informação e Conhecimento. Contudo, consideram-se importantes as ponderações feitas por Tálamo (1995) e Cintra (1994). Essas autoras propõem uma distinção entre os conceitos de informação e de conhecimento ressaltando que o conhecimento é um estoque ou conjunto de saberes acumulados, enquanto informação é um fluxo contínuo de mensagens . Ainda argumentam que, enquanto o objeto do primeiro conceito é atomizado e efêmero, o do segundo é estruturado e coerente. Embora do ponto de vista conceitual essa distinção faça sentido, na prática a linha entre um e outro é muito tênue. Em face dessas considerações, é possível visualizar como promissor o estudo de unidades enunciativas, em que o tema inserido num contexto de acontecimentos leva a outros temas, criando uma intertextualidade de tal forma que as informações, no seu conjunto, geram contextos de conhecimento.

Diante das barreiras e desigualdades sociais, culturais e tecnológicas que se configuram na sociedade contemporânea, cabe refletir sobre o desafiador papel da Ciência da Informação como facilitadora do acesso, não só aos diferentes tipos de documentos como também aos diversos tipos de informação neles contidos. Os caminhos reflexivos são apresentados em contraponto às concepções hegemônicas da área, principalmente, no que se refere à visão positivista e naturalizada do que é informação (BUCKLAND; LIU 1995).

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