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Mais do que definir o conceito de movimentos sociais à luz dos contributos da sociologia, aquilo que se preconiza é uma concepção lata, dinâmica e heterogénea de movimentos sociais. Genericamente designa-se com este termo as acções da socieda- de civil, as mobilizações populares ou as acções colectivas de cariz mais ou menos polí- tico ou cívico. Tal pode englobar manifestações, protestos, assembleias populares, ex- periências de democracia directa ou de base, greves, ocupações de fábricas ou de ca- sas, distribuição de panfletos, construção ou reparação de estradas, organização de escolas, vendas solidárias ou farmácias populares. Bem como, acções cujo carácter po- lítico ou de confrontação ou influência sobre a esfera de poder são mais palpáveis, cu- 49 Alfred Stepan, Juan Linz, The Breakdown of Democratic Regimes, Baltimore, John Hopkins University

Press, 1978

50 Phillipe C. Schmitter, Portugal: do Autoritarismo à Democracia, Lisboa, Instituto de Ciências Sociais,

1999

51

Guillermo O´Donnell, Phillipe C. Schmitter, Lawrence Whitehead, Transitions from Authoritarian Rule. Southern Europe, Baltimore – London, John Hopkins University Press, 1986

52 Richard Gunther, P. N. Diamandouros e Hans-Jurgen Puhl, The politics of democratic consolidation:

southern Europe in comparative perspective, Baltimore, 1995

53 António Costa Pinto, “Authoritarian Legacies, Transitional Justice and State Crisis in Portugal’s Demo-

cratization, in Democratization, vol.13, Nº2, April, 2006, pp.173-204; O Fim do Império Português: a cena internacional, a guerra colonial e a descolonização 1961-1975, Lisboa, Livros Horizonte, 2001

54 Luís Nuno Rodrigues, Marechal Costa Gomes. No Centro da Tempestade, Póvoa de Santo Adrião, Esfe-

ra dos Livros, 2008

55

Bernardino Rodrigues, Tiago Moreira de Sá, Carlucci vs Kissinger. Os EUA e a Revolução Portuguesa, Lisboa, Dom Quixote, 2008

56 Maria Inácia Rezola, Melo Antunes. Uma Biografia Política, Lisboa, Âncora Editora, 2012 57

Nuno Simas, Portugal Classificado. Documentos Secretos Norte-Americanos. 1974-1975, Lisboa, Alet- heia, 2008

jos exemplos podem ser o comportamento popular a 25 de Abril relativamente à polí- cia política ou à Censura ou as sucessivas manifestações de apoio ao MFA e aos gover- nos provisórios.

Nesta dissertação a perspectiva é pois global, incluindo as mais variadas formas de acções colectivas. No entanto, privilegiaram-se duas das suas expressões, por se considerarem mais sintomáticas ou paradigmáticas e determinantes não só no proces- so político, mas num processo global de perspectiva de mudança da sociedade e de um novo modelo político e económico. Concomitantemente por porem em causa alguns dos aspectos fulcrais do capitalismo e consubstanciarem a conquista de direitos e li- berdades e um avanço revolucionário e democrático. Falamos do movimento operário e do movimento de moradores. Numa primeira camada é este o campo de que fala- mos. No entanto, a riqueza, profundidade, heterogeneidade e importância dos movi- mentos sociais obriga a uma outra perspectiva ou leitura.

De facto, não obstante privilegiar-se a análise destas duas expressões dos mo- vimentos sociais, o que nos interessa é o que o quadro aberto pelo golpe de 25 de Abril significa em termos de um país em movimento e de uma sociedade a fazer políti- ca. Nos cinco meses de que se ocupa esta dissertação assiste-se a um processo que tem muito de profundo e estruturante, como de psicológico, comportamental ou cul- tural, mas que é profundamente político. Um breve momento de enorme sobressalto ideológico, de experiência colectiva, cívica e democrática, de participação das massas na política e de intensa mobilização social. Traduzido numa ampla mobilização da soci- edade civil no sentido de um avanço do processo revolucionário e da democratização do país ou, simplesmente, de aproveitar a conjuntura aberta para assegurar melhorias de vida e a conquista de direitos e aspirações várias.

Como se esmiuçará no capítulo III e ainda no capítulo IV, a presença popular no processo português de democratização é um dado desde as primeiras horas do golpe, confunde-se com os momentos decisivos da operação militar, determina fortemente o seu sucesso. Como que se esboçava um elo entre a população e os militares que der- rubavam o regime. E era naqueles que estes encontravam o seu referencial, o seu elemento legitimador. A acção colectiva e a vitalização da sociedade civil tornam-se constantes e omnipresentes ao longo da Primavera e Verão de 1974.

Se numa primeira linha de análise é este movimento popular que através de ac- ções diárias empurra o MFA para um lugar cimeiro do bloco de poder, que acelera a sua politização e radicalização, que hipoteca o projecto spinolista, que pressiona para a rápida descolonização e democratização, que através da luta conquista o direito à gre- ve, um salário mínimo, sindicalização livre, a libertação dos presos políticos ou o fim da polícia política, numa perspectiva mais lata, o seu papel tem um alcance deveras mai- or.

É então uma sociedade a fazer política, em rápido, ainda que muitas vezes su- perficial, processo de politização, um momento inédito que muitos garantiam estranho à natureza dos portugueses, de acção política, experiencia cívica, democrática e colec- tiva. De organização, reflexão, empenho e conquista de direitos que nesta fase foi des- de os exemplos referidos a pequenas coisas como alcatroar uma estrada, construir uma escola ou um grupo cultural, ou prolongar a carreira de transportes públicos ur- banos.

Mais do que dissecar a sua organização interna, a sua estrutura, aquilo que se pretende é ler os primeiros cinco meses do processo revolucionário português à luz deste fenómeno tão inédito quanto irrepetido. E neste sentido, descodificar o impacto das acções dos movimentos sociais na definição do processo político, militar e de des- colonização. A perspectiva é antes de mais problematizadora e qualitativa do que quantitativa e esquemática. Até por que os estudos citados de Durán Muñoz, José Car- los Valente ou Maria de Lurdes Lima Santos constituem-se como excelentes contribu- tos a esse nível, fornecendo uma moldura quantitativa valiosíssima para o tipo de aná- lise que aqui se pretende fazer.