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II. Abstract

6.2 The effectiveness of the FCTR

A partir do que foi apresentado nas seções anteriores, voltemos nossa atenção ao fato de que o OI de uma construção ditransitiva pode ter diferentes papéis semânticos. Assim, é interessante lembrar que, a fim de tentar estabelecer qual seria o estatuto desse argumento nas configurações ditransitivas, Haspelmath (2006) trabalha sob uma perspectiva tipológica, com os dados de mais de 100 línguas, e afirma que, mais importante do que as propriedades intrínsecas dos argumentos que participam das construções ditransitivas, é a relação estabelecida entre esses dois elementos.

Com o intuito de exemplificar a multifuncionalidade de termos como to do inglês – responsável pela introdução dos argumentos indiretos com alguns verbos ditransitivos, Haspelmath (op. cit) apresenta mapas semânticos, como o reproduzido abaixo:

128 O objetivo desse tipo de mapa é mostrar que, quando algumas funções gramaticais são similares, essa multifuncionalidade pode ser expressa através de esquemas que refletem aquilo que é percebido como parecido pelos falantes. As diferentes gramáticas de uma língua, além disso, podem se sobrepor umas às outras mesmo quando apenas uma língua é levada em consideração. Vejamos abaixo o diagrama que o autor apresenta para o dativo em francês44:

(Haspelmath 2006:31)

Para a interpretação mais efetiva dos argumentos indiretos que acompanham os verbos ditransitivos, o autor propõe os seguintes papéis semânticos:

Recipient: receives a theme;

Beneficiary: profits from an agent’s action;

Benecipient: profits from an agent’s action as a result receives something (‘recipient – beneficiary’).

(Haspelmath 2006:32)

Segundo o autor, as línguas podem ser divididas em quatro tipos, dependendo do tipo de marcador casual que os complementos indiretos apresentam: tripartite (como o islandês), recipient-prominent (como o finlandês), beneficiary – prominent (como o maori) e neutra. Esses padrões são representados em mapas semânticos da seguinte forma:

44

Note que junto à preposição, o autor apresenta o clítico dativo lui. Fato semelhante ao PE, uma vez que este também apresenta o clítico dativo lhe, porém, isso não ocorre em PB, como será discutido com mais detalhes nos capítulos subseqüentes.

129 (Haspelmath 2006:34)

Esse diagrama e ilustra que o islandês traz marcas diferentes para cada leitura semântica do argumento indireto. Já em finlandês, a marcação de recipiente e de recipiente + beneficiário (beneficipient) é a mesma, assim como a de recipiente + beneficiário e beneficiário são iguais em maori, como podemos verificar nos exemplos dessas três línguas abaixo:

Islandês (tripartite)

(145) a. maðurinn gaf konu/konnunni bók. man.NOM gave woman/woman.DAT book ‘The man gave the woman a book’

b. hann bakaði köku handa mér. he.NOM bake.PAST cake.ACC for me ‘He baked me a cake’

c. hann bakaði köku fyrir mig. he.NOM bake.PAST cake.ACC for me

‘He baked me a cake / He baked a cake for me (instead of me)’

Finlandês (recipient – prominent)

(146) a. kuningas auto-i poja-lle kirjan-n. king.NOM give.PAST -3SG boy-ALL book-ACC

‘The king gave a/the book to the boy’

b. hammaslääkäri leipo-I puoliso-lle-en kaku-n. dentist.NOM bake-3SG.PAST spouse-ALL-3.POSS cake-ACC

130 ‘The dentist baked his/her spouse a cake’

c. hän lö-i mies-tä minu-n vuokse-ni / 3SG.NOM hit.PAST-3SG man-PART 1SG-GEN for-1SG.POSS/ takia-ni.

for-1SG.POSS

‘S/he hit the man for me/as a favor to me/on my behalf’

Maori (beneficiary-prominent)

(147) a. kei te whakamaarama ia i ngaa koorero pakitara. T/Aexplain 3SG PREP the.PL talk fiction

ki ngaa tamariki PREP the.PL children

‘She is explaining the stories to the children’ b. kua mahi-a e pani he kapu ii maa raatou.

T/A make-PASS by PN a cup tea PREP 3PL ‘Pani has made them a cup of tea’

c. i hoatu ahau i te maaripi ki tana hoa T/A give 1SG DO the knife PREP SG.GEN.SG friend

maa hone. PREP John

‘I gave the knife to John’s friend for John’

(Haspelmath 2006:32/33)

Para deixar esses fatos ainda mais claros, o autor apresenta os seguintes paradigmas de construções ditransitivas do inglês com base na alternância dativa, explicada anteriormente:

She gave the book to me. recipient

She gave me the book. recipient

She baked a cake for me. recipient – beneficiary

She baked me a cake. recipient – beneficiary

She went to the market for me. beneficiary

131 (Haspelmath, 2006:34)

A partir desse paradigma, fica claro que a mesma construção pode expressar diferentes semânticas, como ilustrado no mapa semântico abaixo:

(Haspelmath 2006:34)

Pensando no PE, proponho que poderíamos obter o seguinte esquema de intepretação do OI nas sentenças ditransitivas relevantes:

Maria deu um livro ao João. recipiente

Maria deu-lhe um livro. recipiente

Maria bateu um bolo ao João. recipiente + beneficiário

Maria bateu-lhe um bolo. recipiente + beneficiário

Maria foi ao mercado para o João. beneficiário

Levando em consideração essas diferentes construções ditransitivas, o mapa semântico para o PE, teria o seguinte formato:

PE: recipiente beneficiário + recipiente beneficiário

a / DOC para

Como apontado na introdução, estudos liguísticos vêm mostrando que os falantes de PB apresenta uma preferência de uso da preposição para no lugar de a nos contextos de verbos de transferência material, tais como dar, porém, os dados do corpus analisado nesta tese mostraram que ainda há alternância entre as duas preposições. Com verbos de criação (bater um bolo, escrever, pintar), a substituição da preposição a por para já se instaurou por completo em PB. Assim, os OIs das sentenças propostas para o

132 inglês e para o PE, seguindo a classificação de Haspelmath (op. cit.), teriam as seguintes leituras em PB:

Maria deu um livro ao / para o João. recipiente Maria deu um livro a ele / para ele. recipiente

Maria bateu um bolo para o João. recipiente + beneficiário

Maria bateu um bolo para ele. recipiente + beneficiário

Maria foi ao mercado para o João. beneficiário

Como discutido anteriormente, os exemplos acima expressam o uso generalizado da preposição para em PB, como é possível ver no mapa semântico abaixo:

para

PB: recipiente beneficiário + recipiente beneficiário

a

Assim, os mapas semânticos propostos por Haspelmath adaptados para o português ajudam a ilustrar o fato de que, enquanto em PE, a preposição a introduz argumentos tanto com a leitura de recipiente e beneficiário + recipiente, no PB, a preposição para se expande para todos esses contextos, como ilustrado no mapa acima.

133

CAPÍTULO IV

Uma proposta para as estruturas ditransitivas do PB

Nos capítulos anteriores procurei enfatizar que dois aspectos gramaticais são relevantes para a caracterização das mudanças em progresso na expressão do OI no PB: alterações no sistema pronominal, levando à perda do clítico dativos lhe(s) de 3a pessoa, e a perda do marcador de caso, a preposição a. A hipótese que assumo é que o OI em PB é sempre introduzido por uma preposição transitiva para ou a. Tal afirmação é respaldada por resultados quantitativos expressivos, os quais documentam a gradativa queda dos marcadores casuais, tanto os que se referem ao OI pronominal, quanto ao OI não pronominal. No entanto, veremos na analise do corpus que a preposição a ainda resiste no contexto dos verbos de movimento e transferência, o que é entendido como sendo uma marca de aquisição tardia, via escolaridade, ou via prática de leitura e escrita.

Fica claro, portanto, que quando se trata do OI, é de extrema importância um entendimento mais aprofundado da preposição. Neste capítulo, portanto, minha atenção está voltada para os estudos teóricos recentes que tratam do estatuto sintático e semântico das preposições. Em particular, o objetivo central é defender uma proposta de análise da estrutura interna do sintagma preposicional (PP), que me parece mais adequada para dar conta dos fatos do PB.